O pedido de contato direto chegou enquanto o trenó avançava por mais uma rota fora do padrão. Não foi apresentado como ordem nem como alerta técnico. Veio formulado como solicitação cordial, dessas que se tornam obrigatórias justamente por não se declararem assim. O painel exibiu a mensagem em destaque discreto, acompanhada de um selo de prioridade institucional.
Papai Noel leu sem mudar a expressão.
— Estão pedindo uma justificativa formal — disse o Mestre de Voo, após alguns segundos de silêncio. — Algo que possa ser registrado.
Papai Noel assentiu lentamente.
— Eles sempre pedem — respondeu. — A diferença é o momento.
O pedido não exigia retorno imediato, mas carregava um prazo implícito. A explicação precisava chegar antes que o atraso se tornasse pauta pública, antes que alguém formulasse a narrativa sem ele. Papai Noel conhecia bem aquele mecanismo. Quem explica depois apenas reage.
O trenó pousou mais uma vez em um ponto que jamais recebera confirmação oficial de entrega. Ao descer, Papai Noel sentiu o vento cortar o rosto com mais força. A noite avançava, e o frio parecia mais atento, como se acompanhasse o ritmo da decisão.
As pessoas se aproximaram com cautela semelhante à das outras paradas. Havia reconhecimento no olhar de alguns, surpresa em outros, mas nenhuma euforia. O gesto era recebido como presença, não como espetáculo. Papai Noel percebeu que aquela diferença mudava tudo.
Enquanto distribuía os pacotes, sentiu o painel vibrar novamente, insistente.
— O canal está aberto — disse o Mestre de Voo. — Eles aguardam.
Papai Noel terminou a última entrega antes de responder. Subiu no trenó com calma, acomodou o saco já mais leve e só então ativou o canal.
A imagem projetada era neutra. Um fundo institucional, sem rostos visíveis. A voz que surgiu era conhecida, treinada para soar razoável em qualquer cenário.
— Precisamos entender o que está acontecendo — disse a voz. — Há inconsistências relevantes na execução da rota.
Papai Noel respirou fundo antes de responder.
— Não há inconsistência — disse ele. — Há coerência tardia.
Houve uma breve pausa do outro lado, como se a resposta precisasse ser reinterpretada para caber nos termos esperados.
— O sistema foi desenhado para garantir alcance máximo — disse a voz. — Os desvios estão comprometendo a experiência global.
Papai Noel olhou para o horizonte escuro antes de responder.
— A experiência global sempre foi construída a partir de exclusões locais — disse. — Só não costumávamos chamá-las assim.
A voz voltou, agora um pouco mais firme.
— Precisamos de critérios claros. Decisões pessoais não podem substituir parâmetros técnicos.
Papai Noel tocou o pé esquerdo no chão do trenó, sentindo o remendo pressionar o calcanhar, como se aquele contato o mantivesse ancorado.
— Os parâmetros técnicos substituíram pessoas por tempo demais — disse ele. — Esta noite não é pessoal. É corretiva.
O silêncio do outro lado se prolongou além do confortável.
— Isso terá consequências — disse a voz, por fim.
Papai Noel assentiu, mesmo sabendo que não estava sendo visto.
— Eu sei — respondeu. — É por isso que estou fazendo agora.
O canal foi encerrado sem despedidas formais. O painel voltou ao estado anterior, mas Papai Noel sabia que aquela conversa não havia terminado. Ela apenas mudara de lugar.
O trenó voltou a se mover, avançando pela noite já profundamente marcada pelo atraso acumulado. Papai Noel sentia o cansaço se instalar, não no corpo, mas na consciência de que cada passo adiante tornava o retorno mais improvável.
Ele sabia que, ao amanhecer, explicações seriam exigidas, versões seriam disputadas, responsabilidades seriam atribuídas. Sabia também que nenhuma dessas coisas mudaria o que já havia acontecido naquela noite.
A explicação necessária não era para o sistema.
Era para si mesmo.
E essa, ele já tinha.