A Canção do Abismo
O oceano parecia determinado a devorar os navegadores que, em desespero, tentavam manter o barco firme.
As ondas se erguiam agressivas, colidindo contra o casco como se, naquela parte do mar, a revolta da natureza fosse reservada àqueles que ousavam desafiá-la. O convés rangia, a madeira gemia, e o cheiro de sal misturado ao medo tornava o ar quase irrespirável.
Atlas lutava para se manter de pé enquanto tentava acalmar seus companheiros.
Mas o vento uivante e a água salgada que cortava seus rostos tornavam qualquer tentativa inútil. O pânico se espalhava rápido, como uma doença — cegando, corrompendo, transformando homens em presas.
— Mantenham a calma! — gritou, mesmo sabendo que suas palavras se perderiam na tempestade.
— Pelos deuses… nós vamos morrer!
O grito veio de um dos navegadores, que caiu ajoelhado no convés encharcado. Suas mãos tremiam enquanto ele chorava convulsivamente, a cabeça baixa em rendição ao inevitável. Não lutava mais. Apenas esperava a morte.
Mas a morte não chegou com fúria.
Ela veio suave.
Um canto atravessou o caos — doce, lento, quase gentil — como se ousasse silenciar a tempestade. Não trazia paz… roubava o medo. Apagava o instinto de sobrevivência, deixando apenas a vontade de seguir o som.
As vozes eram belas demais. Perigosamente belas.
Sombras começaram a surgir sob a superfície revolta do mar. Logo ganharam forma. Mulheres de uma beleza cruel, irreal, com olhos que brilhavam como abismos famintos.
Sereias.
Lindas. Admiráveis. Mortais como uma noite tranquila antes do massacre.
O primeiro homem se lançou ao oceano sem hesitar, um sorriso vazio nos lábios.
Depois outro. E mais outro.
— Não! — Atlas gritou, a voz rasgando a garganta. — É uma ilusão! Não seguem!
Era inútil.
O barco foi atingido com violência brutal, como se uma força colossal o tivesse empurrado. O impacto lançou Atlas contra a madeira, sua cabeça colidindo antes de ser engolido pelo mar escuro.
Gritos se tornaram bolhas.
Súplicas morreram afogadas.
Relâmpagos rasgavam o céu enquanto, abaixo da superfície, mãos puxavam, unhas rasgavam, dentes perfuravam. A tempestade continuava acima, mas o verdadeiro horror acontecia nas profundezas.
Atlas afundava, o corpo pesado, os pulmões queimando. A mente já aceitava o fim quando algo diferente aconteceu.
Antes que a escuridão o tomasse por completo, viu uma silhueta se aproximar. Uma sereia. Pensou estar alucinando, efeito do impacto, da falta de ar — até sentir mãos pressionarem seu peito.
A dor veio lenta. Precisa.
Como garras atravessando carne.
Não houve misericórdia naquele toque. Apenas domínio.
E então, tudo o que restou foi o frio da água, a dor pulsante em seu peito… e a escuridão.