Se alguém gritar na floresta e não tiver ninguém perto para ouvir, a pessoa fez barulho?
Essa questão passava em sua mente perturbada a cada urro emitido por sua vítima. Berros de medo e agonia incapazes de serem ouvidos naquele local circundado pela mata fechada. O esforço de seus pulmões em encontrar um salvador acabou resumido em pouco mais que nada. Mesmo a uma curta distância, o balanço e o farfalhar das árvores abafavam o som de seu desespero. Aquele bosque jamais imaginaria ser testemunha de atos tão cruéis.
Poucas horas antes tudo corria normalmente. Os residentes selvagens distraiam-se com os afazeres rotineiros, voando, cavando e buscando alimento. O primeiro passo para perturbar esse equilíbrio foi da pequena criatura que saiu de sua casa para um passeio. Uma jovem humana chamada Cátia, que já experimentava a liberdade da maioridade, mesmo que a inocência não a tivesse abandonado de todo. Animada, e alheia ao que aconteceria mais tarde, avisou sua mãe que sairia com seus amigos, ignorando a preocupação e insistência da progenitora para a filha ficar em casa.
Recentemente sua amiga de mesma idade havia sumido. Apesar das autoridades dizerem que ela provavelmente fugira com o namorado, Cátia guardava o sentimento de que algo de errado havia acontecido. Elas sabiam se defender, isso era um alento. No entanto, Bernadete não sumiria dessa forma sem se despedir.
Afastando os pensamentos trágicos, calçou seus tênis amarelos e colocou a saia xadrez com detalhes em vermelho. Guardou na mochila uma troca de roupa para caso sentisse frio. Pegou seus fones que tinham dois pequenos pompons na parte de cima e encaixou na cabeça, tomando cuidado para não bagunçar muito o cabelo ruivo encaracolado.
Estava atrasada, saindo quando o sol já se escondia no horizonte, fazendo-a tomar um atalho entre as árvores para chegar mais rápido à estrada que levaria a seu destino. As copas deixavam tudo mais escuro e mal se via o caminho, mas finalmente conseguiu. Aliviada por retomar seu rumo, seguiu o asfalto por um tempo.
Uma luz vinda de suas costas iluminou a rua em sua frente e Cátia notou que um carro diminuiu a velocidade até parar ao seu lado.
— Ei, garota! Quer uma carona? — Cátia observou o carro com três rapazes da sua idade dentro.
— Não, obrigada! Vou me encontrar com uns amigos mais a frente — respondeu simpática.
Com a insistência deles em continuar andando ao seu lado, argumentando estarem indo na mesma direção e dizendo ser perigoso andar por ali sozinha, a garota acabou cedendo, arrependendo-se poucos quilômetros a frente quando viu que eles desviaram do caminho por onde deveriam levá-la.
— Calma. Vai ser rápido — disse o que estava ao seu lado com um sorriso estranho, sendo acompanhado com risadas dos amigos, um loiro e outro de cabelos pretos que estavam na frente.
Ele tentou passar o braço sobre os ombros da moça, que rejeitou o afastando. Levou um bofetão no rosto por isso.
— É melhor se comportar, garota, senão será pior ainda para você.
O sangue quente subiu-lhe a cabeça, fazendo arder onde levou a pancada e lágrimas escorrerem pelo rosto. A raiva crescia por cair numa armadilha tão tosca. Imaginava inúmeras formas de fugir do que estava por vir, e todas elas com maus resultados.
Estavam cada vez mais isolados tomando estradas sem sinalização. As piadas sujas e toques mais sujos ainda cresciam quanto mais perto chegavam de seu destino.
Depois que pararam no quintal de uma cabana, os três arrastaram a ruiva para dentro. No caminho, antes da porta fechar em suas costas, ela só viu a escuridão entre as árvores, colocando fim em qualquer esperança de fuga ou resgate.
— Pra que isso? — perguntou o moreno vendo o loiro colocar uma panela cheia de água para ferver no fogão.
— Estou com umas ideias para daqui a pouco — limitou-se a responder com um olhar sugestivo.
Depois de trocarem algumas frases incompreensíveis, decidiram que amarrariam os braços e pernas da garota em cada pé da mesa da cozinha, com ela deitada de barriga para cima. Servida à mesa, como a presa indefesa em um jantar macabro. Eles se mostravam cada vez mais irritados quando ela tentava resistir e gritava, ao mesmo tempo que isso os satisfazia.
— QUIETA! — gritou o loiro dando mais um tapa na cara de Cátia, que sentiu de novo o sangue queimar em seu estômago e subir para a cabeça. — Pablo, me dá o celular. Vou mostrar para ela o que vai acontecer caso ela se comporte mal.
Quando a tela do celular acendeu na frente dos seus olhos, ela tremeu de pavor ao ver sua melhor amiga no vídeo. Bernadete chorava, e podia se ver alguns ferimentos no seu rosto.
— Bernadete? — resmungou ela, deixando escapar algumas lágrimas.
— Conhecia minha namorada? — falou Pablo, que agora estava aos seus pés, arrancando risos dos outros — Nem eu sabia o nome dela. — Riu mais uma vez.
— Essa parte é boa — falou o loiro lhe apontando o celular. No vídeo ele mesmo segurava um abridor de coco, introduzindo a ferramenta no ouvido da moça até o cabo. Ela soltou um guincho, revirou os olhos e parou de se mover. — Melhor final — comentou casualmente, parecendo orgulhoso.
— Deixo essa parte com vocês, seus malucos — disse Pablo.
Cátia respirava freneticamente desesperada, chorando efusivamente.
— Ah, Pablo — falou o loiro enquanto admirava a expressão de pavor da garota —, depois de ver o prazer que é tirar uma vida, você não vai querer mais apenas estuprar. Olha para mim, garota — disse segurando seu rosto molhado para que se concentrasse nele. — Sabia que o cérebro não consegue processar duas dores ao mesmo tempo? Então sua amiguinha sentiu cada coisinha que fizemos com ela.
Nesse momento, Cátia mudou totalmente. A expressão de pavor sumiu de seu rosto, como se algo a tivesse desligado da realidade. Respirava com calma, e encarou o homem no fundo dos olhos de maneira fixa, fazendo-o se afastar.
— A novinha quer brigar — zombou o loiro. — Vamos ver se vai continuar com essa cara amarrada com algumas unhas a menos. Ferramentas!
O moreno pegou uma caixa de metal, cheia de manchas que eram misturas de ferrugem e sangue. Os dois ficaram na bancada escolhendo entre alicates, chaves de fenda e martelos.
— Melhor aproveitar agora enquanto continua inteira — disse Pablo aproximando-se de Cátia pondo-lhe a mão nas coxas.
Os outros dois homens estavam de costas para a cena, dando certa “privacidade” para o amigo enquanto analisavam os artefatos da caixa. Quando ouviram um barulho um pouco mais brusco, comentaram para Pablo não se animar muito e deixar um pouco para eles. Ao se virarem se depararam com uma visão que jamais esperavam. Cátia agarrava Pablo pelas costas com a mesma expressão calma, enforcando-o com as cordas que deveriam prendê-la.
— Mas que merda é essa? — gritou o loiro.
— Os seus nós são uma piada — respondeu Cátia chutando Pablo para longe, que caiu sentado tossindo e recuperando o ar.
Ela encarou os outros dois. O moreno estava mais próximo, armado com uma chave de fenda, o loiro, dois passos distante, perto do fogão.
Num movimento rápido, imprensou o moreno no balcão. Parecia estar lhe dando um abraço. Havia um sorriso enigmático no rosto da garota. Sem ninguém notar, uma de suas mãos pegava o martelo que estava às costas dele e a outra guiava o braço do homem para cima da bancada. O que se seguiu foi o estrondo da martelada e o som dos ossos da mão do moreno se quebrando, fazendo-o soltar a ferramenta que segurava. Quando viu o que aconteceu, o loiro tentou se aproximar apenas para receber o martelo arremessado na testa, fazendo-o cair para onde estava antes.
Tomada por uma fúria incontrolável, Cátia empunhou a chave de fenda que o homem a sua frente soltou e deu-lhe duas estocadas no peito, perfurando-lhe os pulmões. Antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo, cravou-lhe a ferramenta de baixo para cima no queixo, até sumir toda a parte metálica no crânio. Sua primeira vítima estava morta antes de tocar o chão.
Cátia olhou para o loiro perto do fogão. Ainda estava meio atordoado. Quando tentou se levantar colocando uma das mãos em cima da bancada, a mulher cravou a chave de fenda prendendo-o no móvel. Para garantir que não sairia, catou o martelo e com uma única pancada no cabo fez a ferramenta entrar totalmente na madeira. O homem gritava e tentava bater nela com a mão livre. Habilmente ela desviou-se dos golpes e segurou-o pelos cabelos, usou os pés para desequilibrá-lo e enfiou seu rosto na panela de água que fervia. O loiro apoiava sua mão no fogão quente para tentar se afastar, só para sentir mais dor e não ter forças para se livrar daquela armadilha. Soltou um berro debaixo d’água que saiu como som disforme entre bolhas de fervura. Instintivamente respirou, fazendo com que a água descesse pela traqueia e, como se engolisse lava, cozinhasse tudo em seu caminho até chegar aos pulmões. Sua segunda vítima.
— Rápido demais — disse Cátia para si mesma, soltando o corpo com a pele do rosto embranquecida e meio solta, deixando-o pendurado pela mão presa ao balcão.
Pablo, atordoado e com a visão turva, levantou-se e olhou para cena tentando decifrar o que havia acontecido. Chiou forçando a respiração, chamando a atenção da mulher do outro lado da cozinha. Ela o olhou e sua feição mudou totalmente, os olhos arregalaram e um sorriso de loucura lhe tomou o rosto. O prazer de lembrar que restava uma vítima para satisfazer seus desejos monstruosos elevou até o teto sua ansiedade e expectativa do que poderia seguir dali.
O garoto, caçador tentando fugir de sua caça, cambaleou em direção à saída quase sem equilíbrio, esforçou-se em alcançar o carro, mas antes que chegasse ao veículo foi atingido na cabeça por um martelo jogado. Ele caiu e virou-se para trás. Pôde ver a silhueta da garota vindo em sua direção, iluminada pela fraca luz da cabana.
Cátia caminhava calmamente, arrastando ao seu lado uma marreta pesada de cabo longo. Seu rosto fantasmagoricamente azulado pela luz do aparelho que carregava na outra mão.
— Esqueceu seu celular, Pablo — disse sem tirar os olhos da tela, que exibia sua amiga sendo humilhada pelo dono do aparelho. Sua voz calma era mais assustadora do que se estivesse aos berros. — Durante toda minha vida, lutei contra algo dentro de mim. Pensamentos intrusivos de ferir outras pessoas, fazer o mal sem motivo aparente. Busquei ser a garotinha perfeita, doce e educadinha. E consegui, até certo ponto. Com muito esforço. — Cátia parou próximo de Pablo, que se arrastava no chão atônito. — Sabe quem era assim naturalmente? Bernadete. Minha melhor amiga. E para quê? Encontrar três merdas como vocês para fazer isso com ela. — Jogou o celular no chão, entre as pernas de Pablo.
O garoto alcançou o martelo que havia o atingido e apontou a ferramenta para a garota sem conseguir parar de tremer. Ela apoiou a marreta em seu ombro.
— Sabe Pablo, descobri recentemente que o cérebro não consegue processar duas dores ao mesmo tempo. Então é melhor não se machucar com isso dai.
— Me deixa em paz, sua vadia maluca!
O celular ainda reproduzia as torturas que Bernadete estava recebendo. Gritos de dor saiam do aparelho que estava no chão.
— NÃO AGUENTO MAIS OUVIR ISSO — berrou Cátia levantando a marreta com ódio e baixando a toda velocidade. A maça ignorou o celular, esmagando o que Pablo usou para ferir sua amiga. A braguilha e o gancho das calças agora eram apenas uma bolsa de sangue e pele espatifada.
Pablo perdeu o ar gritando com toda a força que conseguiu, respirou apenas para berrar mais uma vez.
A ruiva fechou os olhos com um sorriso sereno, apreciando o som como se fosse a melodia mais bela que já havia ouvido. Sua mente entrou em devaneios e exteriorizou para Pablo o que pensava, assim que seus urros de dor cessaram.
— Se alguém gritar na floresta e não tiver ninguém perto para ouvir, a pessoa fez barulho?
— Me deixa em paz — implorou ele tremulo. — Não fui eu quem matou ela. Eu não matei ela…
— Como é? Não matou ela? — A raiva aumentava, acompanhada pelo tom feroz na voz da garota. — Ah, matou sim! Você selou o destino dela, quando a perseguiu com essas pernas — A maça subiu mais duas vezes esmigalhando patelas ao fim do movimento —, e quando a agarrou com esses braços. — Mais dois movimentos precisos arrebentando músculos e ossos.
Pablo já não reagia. Desejava ter conseguido fugir e não ser apenas o objeto de alívio dos desejos macabros de Cátia. No entanto, sabia bem o que estava para acontecer. Passara tempo suficiente entre assassinos para entender o funcionamento de uma mente psicopata.
Cátia apoiou um dos pés no peito do garoto. O tênis amarelo vivo destoava da cena sangrenta. Arrastou a marreta pintada de vermelho pelo chão até Pablo sentir o metal frio encostar em sua orelha. E, admirando cada microexpressão de medo no rosto do garoto, expôs o motivo que encontrou para deflagrar seu último golpe.
— Você testemunhou, com esses olhos, cada coisinha que fizeram com ela.
Uma última vez naquela noite, Cátia brandiu a arma em suas mãos e, em um único movimento, alojou o aço entre as orelhas da vítima, com o agoniante som de ossos quebrando abafado pela consistência pastosa de seu conteúdo.
Não se ouvia qualquer ruído de protesto ou acusação. Os espectadores ao redor daqueles atos mantinham o silêncio, sem aplausos de aprovação ou vaias. Continuavam suas vidas puras aguardando o sol anunciar o começo de mais um dia qualquer, alheias ao turbilhão de sentimentos que passava na cabeça daquela criatura de cabelos vermelhos.
Pablo foi arrastado até perto de seus parceiros de crime, que ainda esperavam na mesma cena em que foram deixados. A ruiva se dirigiu calmamente ao banheiro após deixá-lo ali, e com toda a segurança, lavou-se no chuveiro sem nem ao menos trancar a porta. A troca de roupa na mochila calhou naquele momento. Vestiu-se, colocou todo tipo de coisa inflamável nas bocas do fogão e acendeu as chamas. Já do lado de fora da casa, sentou-se em uma cadeira de praia para assistir às labaredas que consumiam a velha cabana, aquecendo-se na noite fria como se estivesse ao lado de uma fogueira.
Acordou pela manhã, no mesmo momento que todos os pássaros cantarolavam para o sol despontando no horizonte, satisfeita de tudo que havia passado não ter sido um sonho. As cinzas da Cátia amedrontada e frágil jaziam no amontoado onde anteriormente se encontrava a velha cabana, sobrevivendo apenas o espírito de uma homicida cruel e impiedosa.
Naquela noite, três assassinos foram ceifados para nascer um. Os espíritos mais frios podem defender que essa matemática é válida. Resguardando tranquilamente o pensamento de que a fome de sangue não chegará a suas portas marcadas pela inocência.
A estrada aos arredores da casa de Cátia ainda foi palco para desaparecimentos misteriosos, ocasionados pela figura mais improvável possível. A garota de vestes colegiais, com fones de pompons coloridos e tênis amarelos.
Ela já não tinha medo de ser pega enquanto andava pela rua isolada, na verdade, aguardava pacientemente alguém com más intenções passar e ameaçá-la. Saciava a fome de suas mãos e a sede de seus olhos com as fibras da carne e sangue de homens, e por vezes casais, que infrutiferamente atentavam contra seu bem-estar.
Aqueles que bondosamente lhe ofereciam carona, sem o objetivo de lhe fazer mal, acabavam seguindo suas vidas sem imaginar que uma representante direta da morte esteve ao seu lado. Uma noite frustrante para a garota, que voltava à estrada outro dia em uma nova caçada.
Com o tempo, Cátia virou lenda urbana. A mente imaginativa das testemunhas a descreviam como o fantasma de uma noiva morta no casamento pelo marido traidor, um ser gigante comedor de carne humana residente da floresta ou até mesmo um assassino fugitivo. Inúmeras imagens dignas do terror que ela causava sem nunca chegarem próximas da verdadeira causadora. Afinal, nunca se sabe o que passa na mente de uma pessoa, por mais inocente que pareça.
Por segurança, é sempre bom seguir aquela máxima das mães preocupadas: cuidado com estranhos.
Nota do Autor
Influenciado pelos programas de True Crime que minha namorada tanto gosta, os quais assisto e ouço paralelamente, acabou nascendo em minha mente este conto bastante forte e pesado para os meus padrões. Na verdade, foi descrito como macabro demais até mesmo pela entusiasta de histórias sangrentas residente desta casa (a qual já foi descrita como Satanáiries por alguns, devido ao seu signo e personalidade forte). No entanto, não quis condenar esta história ao esquecimento, acreditando que existem fãs ávidos para sentir o sangue jorrando pelas páginas.
Agradeço a você que está lendo até aqui, por apoiar este autor independente que reserva as madrugadas, únicas horas possíveis, para colocar suas palavras no mundo, esperando que algum leitor(a) sinta curiosidade, medo, prazer e alegria com suas linhas.
Deixe sempre uma avaliação para eu melhorar meu trabalho e saber o que você está achando.
Possuo outras obras as quais pode encontrar:
Livros
Série Encruzilhada:
Corpos Flutuantes - Ficção policial
Lua em Chamas – Ficçao policial
Contos
O Amor de Joane - Romance
Antologias que participo:
O Circo da Morte - Terror (conto: Meias Verdades)