A Umidade Relativa do Desespero
Existe uma lei da física que Newton esqueceu de escrever, mas que todo mundo que nasce em cidade pequena conhece: a velocidade com que você sai de casa é diretamente proporcional à vergonha de ter que voltar.
Eu saí de Sereno do Sul a 120 por hora, num carona com três malas cheias e a certeza arrogante de que São Paulo estava me esperando de braços abertos.
Hoje, voltei a 60 por hora, no fundo de um ônibus da Viação Litoral que cheirava a diesel queimado e salgadinho de milho, com uma única bagagem de mão e a dignidade esfarelada no bolso da calça jeans.
O ônibus freou com um suspiro hidráulico longo, cansado, como se a própria máquina estivesse farta daquele trajeto. O sol das 15h batia no vidro, criando uma estufa particular que cozinhava meu braço direito.
Meu relógio biológico gritava que eu deveria estar no hospital agora. Deveria estar checando prontuários, discutindo a rotação de leitos da UTI ou, no mínimo, tomando o terceiro café aguado do dia na copa dos funcionários, reclamando da escala do fim de semana.
Mas eu não estava.
Eu estava parada no acostamento da BR-101, olhando para a placa de “Bem-vindos a Sereno do Sul”. O azul da tinta estava descascado, revelando o metal enferrujado por baixo. Alguém tinha pichado um coração torto sobre a letra “S”.
Oito anos.
Oito anos e a placa era a mesma. O cheiro era o mesmo — uma mistura densa de maresia, mato molhado e asfalto quente. O problema era eu. Eu não cabia mais aqui. Senti aquele aperto familiar no diafragma, o mesmo que me acordava às 4h da manhã em São Paulo. Ansiedade? Não. O nome disso era “fracasso logístico”.
O motorista desceu, limpando o suor da testa com as costas da mão. Ele abriu o bagageiro com um estrondo metálico que fez meus dentes vibrarem.
— Só essa, dona? — ele perguntou, puxando minha mala preta surrada para o asfalto.
— Só — minha voz saiu rouca. Pigarreei, tentando limpar a garganta seca. — Obrigada.
Ele bateu a porta, subiu os degraus e o ônibus partiu, levantando uma nuvem de poeira vermelha que grudou imediatamente no meu brilho labial. Fiquei ali, parada na beira da estrada, sentindo o calor úmido do litoral colar a camiseta nas minhas costas como uma segunda pele indesejada.
O Rio Grande do Sul tem essa mania de extremos, mas aqui no litoral a umidade é uma entidade viva. Ela abraça, sufoca e te lembra que você tem corpo. Em São Paulo, eu era uma cabeça flutuante cheia de preocupações e prazos. Aqui, em menos de dois minutos, eu já sentia o suor escorrendo pela coluna, o cabelo dobrando de volume e o pé inchando dentro do tênis.
Respirei fundo. O ar não tinha fuligem. Tinha cheiro de chuva que estava por vir.
— Vamos lá, Helena — murmurei para mim mesma. — É só um período sabático. Você não fugiu. Você fez um recuo estratégico.
Mentira. Eu fugi.
Fugi dos bip-bip-bip dos monitores cardíacos que não saíam da minha cabeça nem quando eu dormia. Fugi do apartamento vazio que custava metade do meu salário e da sensação de que, aos 29 anos, eu tinha conquistado tudo o que queria e, mesmo assim, me sentia oca.
Agarrei a alça da bagagem e comecei a caminhar. A rodoviária ficava a dez minutos dali, mas eu desci na entrada da cidade de propósito. Precisava reconhecer o terreno. Precisava ter certeza de que as trincheiras ainda estavam onde eu as deixei antes de cruzar com algum conhecido.
A primeira coisa que notei foi o silêncio.
Não o silêncio absoluto, mas a falta de ruído branco. Não havia sirenes, buzinas histéricas ou obras intermináveis de metrô. Havia o som de cigarras, o barulho distante de um cachorro latindo e o trec-trec-trec infernal das rodinhas no chão de paralelepípedo irregular.
Quem teve a ideia de pavimentar cidades históricas com pedras irregulares claramente nunca precisou arrastar peso e arrependimentos ladeira acima.
Passei pela praça central. O coreto precisava de uma mão de tinta. O banco de madeira onde eu dei meu primeiro beijo tinha sido trocado por um de concreto, mais frio, mais funcional. A livraria do Seu Elias ainda estava lá, a vitrine ostentando best-sellers de dois anos atrás e uma pilha de palavras cruzadas.
Tudo parecia menor. As ruas eram mais estreitas do que na minha memória. As árvores pareciam mais baixas. Era como visitar a casa de bonecas de uma criança depois de adulto: você reconhece os móveis, mas não consegue mais sentar nas cadeiras sem quebrar alguma coisa.
Meu celular vibrou no bolso. Lívia.
Era a terceira ligação dela só na última hora. Minha irmã tinha o dom de ser um radar emocional; ela sabia que eu tinha chegado antes mesmo de eu pisar no asfalto. Rejeitei a chamada. Mandei uma mensagem rápida: “Cheguei. Tô viva. Bateria acabando. Te ligo depois.”
Eu a amava, mas não tinha energia para a “Operação Boas-Vindas” da Lívia agora. Ela viria com o carro cheio de brinquedos das crianças, falando mil palavras por minuto, me abraçando e perguntando se eu tinha comido, se eu estava tomando minhas vitaminas, se eu queria ver as fotos do último aniversário do Dudu. Eu precisava de silêncio. Precisava entrar na casa da vovó, deitar no chão frio da sala e olhar para o teto até meu batimento cardíaco baixar de 120.
Mas para entrar na casa, eu precisava da chave.
E a chave estava no Café da Nina.
Parei na esquina. O letreiro de madeira balançava com o vento que vinha do mar: Café Aurora.
A fachada tinha sido pintada de um verde sálvia bonito. Havia mesas na calçada, vazias por causa do sol impiedoso.
Nina Rocha. Minha amiga de infância. A única pessoa, além da minha família, que sabia o motivo real da minha partida oito anos atrás. Ou pelo menos, a versão editada dele.
Minha mão suava na alça da mala. Eu não estava pronta para interações sociais. Eu estava suja, exausta e, francamente, emocionalmente instável. Mas eu precisava daquele pedaço de metal.
Empurrei a porta de vidro.
O sino tocou. Aquele barulhinho agudo, irritante, de sino de vaca que anunciava para o universo: Olhem, uma forasteira chegou para perturbar a paz.
O choque térmico foi instantâneo. O ar-condicionado estava no talo, congelando o suor na minha nuca. O cheiro de café moído na hora e bolo de fubá me atingiu como um soco de nostalgia. Fechei os olhos por um segundo, permitindo que o aroma me transportasse para tardes depois da escola, quando a maior preocupação da minha vida era passar em química.
— Helena?
A voz veio de trás do balcão. Abri os olhos.
Nina estava parada com uma jarra de suco de laranja na mão, congelada no meio do movimento. O cabelo cacheado estava preso num coque alto, segurado por uma caneta BIC azul — um clássico que nunca sai de moda. Ela usava um avental jeans e tinha aquela expressão de quem acabou de ver um fantasma, ou um cobrador de impostos.
— Oi, Nina — tentei sorrir, mas senti meus lábios tremerem. — O pão de queijo ainda é o melhor do estado ou a concorrência já te derrubou?
Ela soltou a jarra no balcão com um baque surdo.
— Puta merda, garota. — Ela contornou o balcão praticamente correndo. — Você disse que vinha semana que vem!
— Eu menti — murmurei contra o ombro dela quando o abraço veio.
Nina não abraçava; ela te envolvia. Ela cheirava a baunilha e detergente de limão. O toque dela era sólido, real. Por um segundo, me permiti soltar o peso do corpo. Só por um segundo.
— Eu precisava vir antes. Precisava... não avisar.
Ela se afastou, me segurando pelos ombros, me escaneando com aquele jeito clínico de quem conhece todas as minhas manchas.
— Você tá magra. E com olheiras de quem brigou com o travesseiro.
— Plantões de 36 horas fazem maravilhas pela dieta — desconversei, ajeitando a mochila. — A chave tá com você? A Lívia disse que deixou aqui.
Nina abriu a boca para responder, mas a atenção dela desviou por um milésimo de segundo. O foco dela passou por cima do meu ombro, indo direto para a mesa no canto, perto da janela que dava para o mar.
A expressão dela mudou. De acolhedora para... apreensiva.
Meu estômago deu um nó cego.
Eu conhecia aquela tensão na mandíbula dela. Era o aviso universal de: Isso vai dar merda.
Girei o corpo devagar. A bagagem pesada ao meu lado parecia uma âncora me prendendo ao chão.
O café estava vazio, exceto por uma mesa no fundo.
Havia um notebook aberto. Uma xícara de café pela metade.
E ele.
Caio Lemos.
O tempo é uma coisa engraçada. Dizem que ele cura tudo, mas na verdade, ele só acentua o que já estava lá.
Caio não tinha mudado. E ao mesmo tempo, tinha mudado completamente.
Ele estava sentado de costas para a parede, como se gostasse de ter o controle visual do ambiente. Usava uma camisa de linho azul-clara, dobrada nos cotovelos, revelando antebraços que pareciam mais fortes, mais definidos do que na minha memória. Havia uma barba rala, desenhada no maxilar, que lhe dava um ar mais sério, menos menino.
Ele tirou os óculos de leitura — desde quando ele usava óculos? — e os colocou sobre a mesa com uma calma irritante. O movimento foi preciso. Controlado. Sem susto.
Os castanhos dele encontraram os meus. Profundos. Indecifráveis.
Eu esperava raiva. Esperava surpresa. Esperava que ele levantasse e fosse embora.
Mas ele continuou sentado. Imóvel. Me dissecando como se eu fosse um problema de cálculo estrutural que ele estava tentando resolver há anos.
— Oi, Helena — ele disse.
A voz.
Meu Deus, a voz. Mais grave. Mais rouca. Vibrou no ar-condicionado frio e desceu direto pela minha espinha, ignorando qualquer barreira lógica que eu tivesse construído. Não era um “oi” de amigo. Não era um “oi” de ex. Era um reconhecimento de território.
Minha garganta fechou. Tentei engolir a saliva que não tinha.
— Oi, Caio.
Ele recostou na cadeira, cruzando os braços sobre o peito. Aquele gesto. O mesmo maldito gesto defensivo de quando discutíamos sobre o futuro que nunca aconteceu.
— A roda da sua mala quebrou. — Ele apontou com o queixo.
Olhei para baixo, atordoada. A rodinha esquerda tinha ficado em algum lugar entre o acostamento da BR e a praça, deixando um rastro de plástico preto no chão limpo do café.
— É — consegui dizer. Minha voz soou patética aos meus próprios ouvidos. — O calçamento da cidade não perdoa.
— O terreno aqui é difícil mesmo — ele disse, e havia um duplo sentido naquela frase que pairou no ar, pesado como chumbo. — Tem que saber onde pisa pra não torcer o pé. Ou perder o rumo.
Senti meu rosto esquentar. A indireta foi sutil, mas cortante.
Eu tinha voltado.
E, aparentemente, o fantasma que eu mais temia não estava assombrando uma casa velha. Ele estava tomando café expresso, usando linho e me encarando sem piscar.
Nina pigarreou atrás do balcão, quebrando a tensão estática.
— A chave tá no cofre, Lena. Mas tem um detalhe... o registro geral da casa da sua avó emperrou semana passada. Tentei chamar o Zé Encanador, mas você sabe como é. Ele só aparece quando a maré tá boa.
Suspirei, passando a mão no rosto. Ótimo. Sem água.
— Tudo bem. Eu dou um jeito. Tenho ferramentas na bolsa. — Menti. Eu não tinha ferramenta nenhuma. Eu tinha livros de anatomia e remédios para enxaqueca.
— Eu te levo — a voz do Caio cortou o ambiente novamente.
Virei para ele. Ele já estava de pé. Recolhendo o notebook, guardando os óculos no bolso da camisa. Ele era alto. Eu tinha esquecido como ele ocupava espaço, como a presença dele parecia sugar o oxigênio da sala.
— Não precisa — respondi rápido, instintivamente dando um passo para trás. — A casa é perto. A subida faz bem pro cardio.
— Helena. — Ele falou meu nome como se fosse uma sentença. — Lá fora é um forno. Você já tá pálida e tremendo só de estar aqui dentro com o ar ligado. Imagina arrastando peso ladeira acima no sol das 15h.
Ele pegou a chave do carro em cima da mesa. Girou-a no dedo indicador.
— O carro tá na porta.
Olhei para a Nina em busca de socorro. Ela desviou o olhar, pegou um envelope pardo de cima da máquina de café e o deslizou pelo balcão em minha direção.
— Ele tá certo, amiga — ela disse baixinho, empurrando a chave para a minha mão trêmula. — Aceita a carona. Eu não vou te deixar subir a pé nesse estado.
Peguei o envelope. O metal da chave parecia pesar um quilo dentro dele.
Voltei a olhar para o Caio. Ele não estava sorrindo. Ele estava esperando. Com aquela paciência geológica que sempre me tirava do sério.
Aceitar a carona era logística. Era sensato.
Mas entrar num carro fechado com Caio Lemos, depois de oito anos de silêncio absoluto, não era apenas uma carona.
Era entrar na jaula do leão e torcer para ele já ter almoçado.
— Tá — soltei o ar, derrotada pelo cansaço e pela lógica imbatível dele. — Mas só porque eu não tenho condições de carregar isso sozinha.
Ele não sorriu. Apenas alcançou a alça da minha bagagem estropiada. Nossos dedos quase se tocaram, e eu puxei a mão como se tivesse levado um choque. Ele percebeu. O canto do olho dele se estreitou minimamente.
— Vamos — ele disse, passando por mim. O cheiro dele — sândalo, café e algo puramente masculino — invadiu minhas narinas, bagunçando a pouca organização mental que me restava.
Segui as costas largas dele para fora do café, para o bafo quente da tarde.
Voltar era um risco. Eu sabia disso.
Mas eu não sabia que o perigo começaria nos primeiros 15 minutos.