CAPÍTULO
I IRMÃS
Laisa e Alice corria pela mata procurando
algum esconderijo, as perguntas curtas de Alice a tornavam mais lentas, mas
Laisa nunca deixaria sua irmãzinha para trás e segurava sua mão com força para
não a perder de vista. Elas desviavam dos galhos secos, mas ainda assim haviam
cortes tanto em seus braços quanto nas pernas, causados pelos galhos afiados.
— Onde está o
esconderijo? — Alice perguntou com sua voz chorosa. A frente dela, Laisa corria com seus cabelos escuros balançando,
as folhas presas entre seus fios denunciavam o desespero da maior.
— Está perto! —
Gritou apertando ainda mais a mão pequena da irmã. A verdade era que Laisa não
fazia ideia de onde estava o bendito esconderijo, o desespero em precisar se
esconder estava nublando sua mente.
— Ela vai pegar
a gente! — Alice gritou ouvindo ao galhos quebrando atrás de si, os sons
estavam cada vez mais próximos.
— Não. Ela não
vai! — Laisa encheu o peito de coragem e raiva, ela apressou o passo e estudou
uma possível estratégias de fuga.
As pernas de
Alice já estavam cansadas, seus músculos doíam e começavam a tremer devido ao
esforço para fugir. Em meio a corrida, os olhos atentos de Laisa avistaram um
pequeno tronco de árvore caído no chão, ela puxou a irmã e ambas pularam por
ele, mas a maior impediu a irmã de continuar correndo. Ela puxou o braço da
menor e a segurou embaixo do tronco, a boca da pequena tinha uma mão a tampando.
A mais velha pegou um galho e jogou nas plantas a frente fazendo elas se
moverem.
— Fica quieta. —
Sussurrou no ouvido da menor enquanto a segurava.
Não demorou
muito e uma mulher alta e musculosa pulou pelo galho e correu na direção onde
acreditava que as meninas estavam correndo. As irmãs só esperaram a mulher
desaparecer de suas vistas e saíram correndo na direção oposta, a mais velha
sabia que o esconderijo não estava longe. Elas caminharam um pouco mais
devagar, a ligeira vantagem das irmãs fez a mente de Laisa trabalhar com
mais calma e reconhecer alguns locais que indicavam o esconderijo.
— Estamos perto!
— Ela falou sorrindo, havia reconhecido um montinho de terra que havia feito
quando ela e a irmã fizeram o esconderijo.
— Pena que não
irão chegar até ele! — Uma voz firme e rouca falou atrás da meninas.
Laisa e Alice
viraram apenas para dá de cara com a sua perseguidora a poucos metros delas. Roberta
segurou a menor, ela sabia que Laisa nunca fugiria deixando a irmã para trás e
a ela estava certa. A menina pegou um galho qualquer e se preparou para lutar
pela irmã, suas mãos tremiam e a mulher já sabia que ela não iria até o fim.
— Solta isso.
Você não tem a coragem necessária para me machucar. — Roberta falou com um
pouco de decepção na voz.
O peito de Laisa
se inflava e mesmo com as mãos trêmulas, a menina não recuou. Ela apertou o
galho com força e olhou a irmã, Alice negava com a cabeça quase implorando para
a irmã não reagir. A jovem ignorou o pedido silencioso da irmã e partiu pra
cima da mulher sem medo do que iria acontecer.
Horas mais tarde
as meninas caminhavam em silêncio, as cabeças baixas denunciavam a frustração,
as mãos ainda estavam unidas como um laço de sangue que nunca seria quebrado.
Pouco mais de um metro a frente Roberta caminhava em silêncio, a mulher tinha
machucados nos braços, resultado do ataque da pequena guerreira que havia
criado, mas obviamente a pequena havia perdido a briga, e ainda assim, Roberta
estava orgulhosa da reação da pequena, uma compensação pela frustração da fuga
mal feita.
As árvores de
ambos os lados do caminho eram enormes, forneciam sombras e proteção contra o
sol e outras coisas que poderiam acontecer. Uma casinha logo foi avistada e
Alice correu para entrar, a casinha tinha uma varanda aconchegante e uma
mesinha com quatro cadeiras.
— Vão para a
banheira, vocês estão muito sujas. — Roberta falou, ela ignorava a própria
sujeira em seu corpo, pois para ela não significava nada.
— Tá bem, mãe. —
Alice falou correndo em direção ao banheiro.
— Vai lá com sua
irmã. — Roberta falou para a filha que estava de pé com o rosto rígido, a
pequena apenas olhava a mão sem demonstrar o que estava pensando. — Eu já vou
dá banho em vocês. —
Laisa e Alice
estavam na banheira, Roberta Passava o shampoo nos cabelos da mais velha, ela
estava sentada fora da banheiro enquanto as filhas aproveitavam o banho. Alice
brincava com as bolhas, soprando para elas voarem o mais longe possível, mas
sua irmã estava quieta e pensativa.
— Vocês passaram
direto pelo esconderijo. — Comentou Roberta tirando uma folha que ainda estava
no cabelo da filha.
— Desculpe, eu
não lembrei do lugar exato, acabei levando a gente mais longe do que deveria. —
A irmã mais velha falou olhando seu reflexo na água. — Desculpe. —
— Está tudo bem,
mas tente ter mais atenção da próxima. — Roberta notou o tom triste da filha,
ela sempre notava, porem, raramente falava a respeito. — Vocês nunca devem
esquecer onde os esconderijos ficam. —
— Eu não gosto
dessa brincadeira, mamãe. — Alice comentou com a voz inocentes de uma criança
que não entende o que acontece a sua volta. — A gente pode brincar de outra
coisa amanhã? — Perguntou soprando bolhas em direção a irmã.
— Claro, amanhã
brincamos de subir em árvores. Quem subir mais alto escolhe o jantar. — Roberta
respondeu sorrindo.
Alice terminou
seu banho e Roberta a levou para o quarto, mas Laisa continuou na banheiro pois
estava mais cansada que a caçula. Roberta permaneceu com a filha limpando e
enxaguando a menina.
— Você está
chateada? — Pergunta jogando água nos cabelos ondulados da filha mais velha.
— Por que temos
que brincar disso? A Alice ficou assustada de verdade. — Perguntou olhando a
mãe.
— Não era minha
intensão, eu só queria que vocês tivessem mais contato com a natureza. —
Explicou pegando uma toalha. — Você ficou com medo de mim? — Ela cobriu a filha
com uma toalha vermelha e colocou outra em seu cabelo.
Laisa nada
respondeu, ela tinha medo da mãe? Naquele momento em que a viu segurando sua
irmã como uma refém ela sentiu medo e… alguma outra coisa. Ela sentiu raiva,
quis partir para cima da mãe e salvar sua irmã como se ela fosse sua inimiga.
Mas tirando aquele momento em que as brincadeiras eram mais intensas, ela
sentia medo da mãe? Não sabia responder.
— Vai se vestir,
é minha fez de tomar banho. — Beijou a testa da filha e fechou a porta após ela
sair.
Na hora do
jantar a TV estava ligada enquanto a mulher servia uma sopa de legumes de seu
próprio quintal e um pouco de carne. As meninas tinham as colheres em mãos e um
sorriso largos os pequenos ferimentos em seus braços já estavam tratados com
álcool e tomadas. Na TV uma notícia a respeito de uma senadora entrava no ar.
“A senadora, Ana Zarata, comemora a maior
bancada de Aquabissais da história e manda recado para adversá…”
A TV foi
desligada por Roberta que sentou a mesa visivelmente incomodada. As irmãs
notaram a mudança da mãe, mas apenas se olharam para confirmar que havia notado
a mesma coisa e voltaram a tomar sua sopa.
— Laisa, Alice,
eu vou dizer uma coisa que vocês precisam prestar atenção. — A mulher anunciou
e as meninas voltaram sua atenção a mãe. — Nós vivemos em um mundo que esquece
de tudo com a mesma facilidade que respira; então nós, como uma família única,
não podemos esquecer. Guardar nossas memórias é um privilégio, nunca se
esqueçam disso. — Roberta olhava diretamente para Laisa. — Você entende, filha?
Não esqueça. —
Aquelas palavras
se repetiam na mesma de Laisa a ponto de deixa-la tonta, a menina fechou os
olhos enquanto a sua volta tudo girava, quando voltou a abrir se deparou com
uma linda e jovem mulher de cabelos negros cacheados. Era muito diferente de
sua mãe e isso era um alívio para ela.
— Bom dia. — A
voz baixa de Daniela soou como uma doce melodia nos ouvidos de Laisa.
— Bom dia, amor.
— A mulher abriu um singelo sorriso. — A quanto tempo tá acordada? —
— Bastante. —
Respondeu olhando sua esposa com um sorriso apaixonado.
— E ficou me
olhando esse tempo todo? — Indagou coçando os olhos.
— Você sabe que
meu dia só começa quando você abre os olhos. — Daniela segurou uma mexa de
cabelos negros da amada e a colocou atrás de sua orelha.
— Que exagero da
sua parte. — Laisa pegou a mão da amada e beijou. A pele marrom era tão macia
como algodão e tinha um cheiro agradável.
— Não é exagero,
você é o sol que ilumina meus dias, meu sol particular. — O comentário da
mulher fez sua esposa sorrir.
— Se eu sou o
seu sol, você é meu céu. Sem você eu não brilho, sem você não importa estar
viva. — O comentário de Laisa fez a mulher corar.
— Boba. — A
mulher respondeu. — Você teve um pesadelo? Estava murmurando e fazendo uma
careta enquanto dormia. —
— Está mais para
uma lembrança. — Laisa se recompôs em seu lado da cama, ela deitou de barriga
para cima e contemplou o teto.
— Quer falar
sobre isso? —
— Sonhei com a
minha infância, quando minha mãe obrigada eu e minha irmã a fazer buracos na
terra para nos esconder. — Respondeu lembrando de algumas situações em que fazia
tais buracos.
— Por que ela
fazia isso? — Perguntou Daniela olhando a esposa com gentileza e curiosidade.
— Era uma
brincadeira. Nós passávamos um dia cavando após a escola e no dia seguinte ela
corria atrás da gente para nós pegar, mas se a gente conseguisse se esconder no
esconderijo, vencíamos. — Ela gesticulava enquanto respondia, as
lembranças da época vinham a tona conforme ela falava e até sentiu saudade da
época. Mas saudade de que?
— E o que vocês
ganhavam? — Daniela estava curiosa com a tal brincadeira.
— Qualquer coisa
que quiséssemos desde escolher o que íamos comer até viajar ou comprar brinquedos.
—
— Parece que sua
mãe era divertida. — Comentou sorrindo para a amada.
— Tá mais pra
maluca, mas entendo de onde vem seu pensamento. Você cresceu na cidade. — Laisa
sentou na cama. — Vou fazer o café. —
— Eu ajudo. —
Daniela tirou os lençóis de seu corpo.
— Nem pense
nisso, você ainda está se recuperando. — Ela segurou a esposa a impedindo de
sair da cama.
— Você não
pensou nisso ontem a noite. — Comentou a mulher fazendo um bico em reprovação a
atitude da amada.
— Primeiro: são
duas cosias diferentes, segundo: Nós não fizemos nada, mulher. — Laisa de um
selinho na namorada indo até a porta.
— Por que você
não quis. —
Um travesseiro voou
em direção a porta, mas a mulher a fechou antes de sair. Daniela sorriu da
esposa, amava todo o cuidado que sua amada depositava em si e agradecia ter
tido coragem de chama-la para sair na faculdade.
Quando Laisa
retornou para o quarto trazia consigo uma bandeja com guloseimas para saciar a
fome de sua amada esposa. Sentara juntas para o desjejum e Daniela ligou a TV
para saber as últimas noticias do pais.
“Nesta manhã as
tropas especiais iniciaram uma operação para prender membros de facções que
ameaçavam o governo. As TEs apreenderam armas, cartazes ofensivos contra nosso
amado presidente. Além disso, os integrantes também revelaram a intenção de
sequestrar ministros e o próprio presidente, os criminosos foram levados as
prisões especiais onde irão esperar o julgamento. Esperamos que as autoridades
façam sua competência e mantenha esses traidores da pátria atrás das grades
pelo resto de suas vidas. Alguns criminosos conseguiram fugir, mas as TEs estão
no encalço dos meliantes.”
— Já chega. —
Laisa falou desligando a televisão. — Esses caras tem noção de que só estão
piorando nossa situação? — Comentou apontando a TV.
— Acho que eles
estão cansados de esperar melhorias para nós. — Daniela comentou.
— É, mas tomar
essas decisões dará aos aquabissais mais motivos para nós querer longe. —
— Deixa isso pra
lá, vamos levantar, amanhã você viaja e temos que arrumar suas malas hoje. — Daniela
falou segurando uma colher com mamão. — Para que horas seu voo tá marcado? —
— O voo e só as
nove, temos tempo. — a mais alta tomou um generoso gole de café.
— Quanto tempo
vai ficar lá? — Perguntou Daniela sentada de frente para a esposa.
— Provavelmente
eu estarei de volta no próximo sábado. Não quero passar o domingo longe de
você. — Deu um beijo na bochecha da companheiro enquanto pegava um pedaço de
bolo. — Só quero ter certeza de que minha irmã está bem e conversar com ela. —
Informou e chamando a atenção da esposa.
— Vai tentar
convence-la a vir com você, não vai?! — Sorriu imaginando a conversa entre as
irmãs. — Nem adianta negar, eu sei que é isso. — Falou antes que a esposa
tivesse chance de retrucar.
— Qual o
problema de eu querer minha irmã perto de mim? — Questionou após colocar a
xícara de café sobre a mesa. — Ela está quase terminando a faculdade, porque
não pode vir morar com a gente? — Seu rosto transparecia frustração.
— Talvez ela
goste de lá. — Argumentou pegando a xícara de café. — Além do mais ela é jovem
e quer viver a própria vida, ter suas próprias conquistas invés de viver na
sombra das suas. — Constatou levando a xícara aos lábios e soprando para
esfriar o líquido.
— Mas ela terá
suas conquistas, eu só quero ela perto para ter certeza de que estará bem. —
Falou com tristeza ao lembrar as imagens que apareceram no jornal.
— Está
preocupada que essa onda violência chegue até ela? —Indagou notando o olhar da
esposa para a tela.
— Como poderia
não estar? Parece que o mundo virou do avesso. — Terminou de tomar o café. —
Pelo menos aqui eu estaria por perto para cuidar dela. —
— Ela vai ficar
bem, meu amor. — Daniela tocou a mão de Laisa. — Afinal vocês duas são
corajosas e muito fortes. — Sorriu de forma a encorajar a confiança da esposa.
— De qualquer forma
eu tentarei. — Baixou o olhar.
— Está bem, mas
tente não ser muito agressiva em sua abordagem. — Aconselhou — Lamento não poder ir com você. — Lamentou
apertando mão de Laisa.
— Não se
preocupe com isso, você tem que cuidar da sua saúde e uma viagem não ajudaria
nisso. — Se inclinou dando um beijo nos lábios da esposa. — Eu vou sair para
comprar seus remédios e algumas coisas que vou precisar. — Levantou indo pegar
um casaco. — Volto logo, mas tranque bem as portas. Um desses procurados pode
querer se esconder aqui. — Alertou dando um beijo no topo da cabeça de Daniela.
— Pode deixar,
amor. — Falou continuando a tomar seu café.
Na rua Laisa
estava distraída com sua lista de compras e não notava a enorme quantidade de
cartazes contra o governo espalhados pelos muros, paredes e postes, nem mesmo
os carros militares na rua lhe chamavam atenção. Ela entrou em uma farmácia e
finalmente se deu ao trabalho de olhar ao seu redor apenas para ver os clientes
a olharem estranho. Dentro do estabelecimento estavam varios aquabissais, eles
tinham um pequeno aparelho do lado direito da cabeça que os hidratava para
manter suas escamas sempre molhadas, o olhar do aquabissais era sempre
assustador. Seus olhos grandes e negros pareciam penetrar a mente de quem quer
que estivesse os olhando.
— Desculpe, mas
não atendemos humanos aqui. — A atendente falou forçando uma educação.
Laisa então
desviou o olhos para um cartas ao lado e viu escrito uma mensagem que dizia: estabelecimento
destinado a aquabissais, humanos não serão atendidos a menos que estejam que
seja um caso de vida ou morte. Acima da placa havia um cartaz indicando que
humanos não podiam entrar.
— Desculpe. — Ela
saiu do local o mais rápido possível para evitar problemas.
Laisa saiu
procurando uma farmácia onde poderia fazer suas compras sem incomodar ou ser
incomodada por outras pessoas, demorou um pouco, mas conseguiu após alguns
minutos. Ao voltar para casa entregou os remédios a esposa, mas não falou sobre
o incidente da primeira farmácia para evitar preocupar a esposa. O dia foi
destinado a arrumar as malas e organizar o cronograma dos remédios para que
nenhum faltasse. Na manhã seguinte o casal levantou cedo para a viajem e dessa
vez Daniela se forçou a levantar mais cedo para fazer o café da esposa.
— Bom dia, meu
amor! — Falou entrando no quarto com uma bandeja em mãos. — Que bom que já
acordou. — Sentou na cama.
— Bom dia. —
Respondeu esfregando os olhos ainda sonolenta. — Café da manhã na cama?! —
Olhou a bandeja com um sorriso gentil. — Já pedi pra não se esforçar enquanto
se recupera. —
— Já que
ficaremos uma semana sem nos vermos é justo eu fazer um mimo pra você. — Deu um
selinho e depois pegou uma uva levando-a a boca da esposa.
— Acho que devo
viajar mais vezes. — Brincou se aproximando de Daniela e a beijando.
— Não precisa
disso pra ser bem tratada, meu amor. — Ela retribuiu o beijo que ficou
levemente mais intenso. — Para! — Pediu dando tapinhas leves nos braços da
morena. — Se não pararmos você vai se atrasar. — Se afastou contrariando sua
própria vontade.
— Está bem. — Laisa
se afastou. — Vamos tomar o café. — Falou e a morena de olhos verdes sentou ao
seu lado.
Laisa ligou a TV
que estava a sua frente e mais uma vez notícias de prisões eram o foco do
jornal, aquele era um jornal de um canal de transmissão destinado a humanos,
eram os únicos que o casal acompanhava. As manchetes denunciavam a intensa
violência promovida pelas forças especiais contra os manifestantes, juntamente
com as prisões os âncoras e comentaristas chamavam atenção para a aprovação de
uma nova lei que dava aos aquabissais ainda mais poder, eles já eram maioria no
parlamento e já estava difícil conter seus avanços de poder.
— Já chega!
Desligar TV. — Daniela falou e o aparelho desligou. — Já vimos notícias ruins o
bastante nós últimos dias. — Aconchegou-se nos braços de sua mulher.
— Falei com sua irmã, nós poderíamos sair do
país por um tempo. — Laisa fazia carinho nos cabelos da menor. — Talvez quando
as coisas se acalmarem um pouco. —
— Deveríamos ir
o mais rápido possível, eu não acho que as coisas vão melhorar tão cedo. — Seu
tom de voz era triste e ela se encolheu. — Poderíamos ir para a China, a
reunificada Coreia, Japão ou até mesmo a Inglaterra. —
— Você está
certa, se Alice aceitar podemos ir logo que ela se formar. — Concordou. — Vou
tomar banho ou vou me atrasar. — Beijou a testa de sua amada. — Você vem? —
— Como posso
resistir a um convite desses? — Daniela respondeu mordendo o lábio inferior.
Após tomarem
banho juntas as mulheres pedem um táxi que levará as duas para a casa dos pais
de Daniela pois ela ficará com eles até que a esposa retorne por conta de sua
saúde e principalmente por causa da violência crescente. As mulheres digitaram
o interesso e a máquina tratou de leva-las ao seu endereço, a casa, ou melhor a
mansão, ficava fora da cidade, levou alguns minutos chegarem e logo que o carro
parou elas poderiam ver um casal mais velho formado por um homem negro de
cabelos grisalhos, uma mulher branca com os cabelos tingidos presos em um coque
elegante e junto a eles uma mulher de pele parda e cabelos escuros que parecia
mais velha que Daniela.
— Papai, mamãe!
— Daniela abraçou os pais cheia de saudade. — Camila. — Abraçou também a irmã
com força. — Desculpem dar esse trabalho a vocês. — Falou ficando ao lado da
irmã enquanto Laisa tirava as malas da esposa.
— Não é trabalho
querida, você sempre terá um lugar em nossa casa. Vocês duas. — Camila apertou
o braço da irmã. — Oi Laisa. — Foi até a cunhada para ajuda-la.
— Olá! —
Respondeu sorrindo. — Alberto, como está? — Estendeu a mão para o homem e ele a
apertou.
— Estou bem,
filha. — O homem respondeu com um sorriso que deixava evidente suas rugas. —
Somente aquelas dores da velhice que me atormentam. — Acrescentou largando a
mão da nora.
— O senhor ainda
é jovem, não esqueça que antes um homem de 105 anos mal andava sozinho. —
Sorriu genuinamente para o sogro que sempre se mostrou muito amigável com ela.
— Isso mesmo
papai : O senhor é jovem e tem muito o que viver. — Daniela abraçou o homem.
—Olá, Margarete.
— Laisa estendeu a mão para a sogra que se recusou a aperta-la. — Educada como
sempre, pelo jeito. — Recolheu a mão sem qualquer surpresa ou constrangimento,
ela já estava acostumada com a sogra sendo rude e levava tudo com humor.
— Está cuidando
bem de minha filha após a cirurgia. — A mulher levantou a sobrancelha deixando
sua postura ainda mais elegante imponente.
— Claro. Estou
cuidando muito bem dela apesar dos meus recursos limitados. — Retrucou em tom
de deboche.
— Olha aqui... —
Margarete saiu de sua pose.
— Mãe já chega.
— Daniela se pós entre as duas. — Laisa cuida muito bem de mim e você sabe bem
disso. — Alterou levemente a voz para um tom mais incisivo.
Daniela olhou
para a esposa a repreendendo com o olhar, não era novidade para ninguém a
inimizade entre sogra e nora, a troca de farpas entre elas eram comuns, mas elas
sempre paravam com um pedido da menor.
— Vamos entrar.
— Segurou o braço da esposa.
— Vão na frente,
eu levo as malas. — Laisa pegou as malas enquanto sua esposa entrou segurando
no braço de seu pai.
— Daniela, pega
os remédios para a dor nas costas do
papai? Eu vou falar com a Lai. — Camila segurou o braço da cunhada e a puxou para
fora.
— O que foi? — A morena perguntou se soltando.
— Estive falando
com meus pais sobre sairmos do país, eles concordam em irmos para um dos países
onde a entrada de aquabissais ainda é proibida. — Cruzou os braços enquanto
caminhava pelo jardim. — Outro dia prenderam o dono do hospital concorrente ao
da minha família por dar abrigo aos rebeldes. — Informou.
— Eu concordo
com você, mas não posso ir sem minha irmã. — Afirmou suspirando pesadamente.
— Tente
convencê-la, esse país não é mais seguro para humanos. — Olhou para a cunhada
com preocupação.
— Vou fazer o
possível. — Falou comprometida a convencer a irmã.
— Sobre o que
vocês estão falando? — Daniela se juntou as duas e abraçou a esposa.
— Estamos
falando sobre viagens, irmãzinha. — Tentou não entrar em detalhes pois não
queria deixar a irmã preocupada, já era muito ela ter de cuidar de sua saúde
depois da cirurgia que fez.
— Vou deixar
você se despedir de sua mulher. — Falou em tom sugestivo. — Boa viagem, Laisa.
— Abraçou a cunhada e voltou para dentro da mansão.
— Então vocês
estavam falando sobre viagens mesmo? — Colocou os braços em volta do pescoço da
esposa.
— Sim. — Laisa segurou
na cintura de Daniela. — Não era nada demais. — Beijou a testa da menor. — Será
que a empresa espera a gente se despedir adequadamente. — Falou beijando a
bochecha da esposa.
— Estou pagando
um extra para esperarem você, então não se preocupe. — A menos acalmou a esposa
sobre a questão. — Já estou morrendo de saudade. —
— Vai ser apenas
uma semana, amor. — Laisa fez carinho no rosto da amada.
— Esperarei
ansiosamente seu retorno. — Daniela beijou a esposa com paixão.
— Antes que
sinta minha falta eu estarei de volta. — Apertou mais a amada entre seus
braços. — O que foi amor. — Questionou ao sentir Daniela a apertar com mais
força.
— Não sei, eu
só... tive uma sensação ruim de repente. — Escondeu o rosto na volta do pescoço
da esposa — Promete voltar pra mim o mais rápido possível? —
— Prometo. — A
mais alta prometeu retribuindo o aperto. — Eu tenho que ir. — Falou ao sentir
seu celular vibrar lembrando do horário.
— Está bem. — Se
afasta dando um pouco de espaço. — Eu te
amo. — Os olhos de Daniela estavam levemente marejados, mas nem ela sabia dizer
o motivo.
— Eu também te
amo. — Um beijo rápido selou a despedia.