Era uma linda tarde de verão quando Alice, que adorava brincar no jardim da casa dos avós, encontrou algo estranho perto de umas pedras, ao lado de uma roseira.
Era um bichinho pequeno que, sempre que ela chegava perto, se enroscava como se quisesse desaparecer dentro de si mesmo.
Achando aquilo muito curioso, Alice correu até a mãe para perguntar o que era aquele ser tão diferente.
A mãe falava ao telefone quando Alice começou a puxar sua roupa, falando apressada, cheia de novidade:
— Mamãe… vem ver… olha… tem um bicho estranho no jardim!
Sem tirar o aparelho do ouvido, a mãe respondeu com a voz curta, meio impaciente, mandando a menina largar o bichinho, dizendo que ele podia causar alguma doença ou dar germes. Depois perguntou se ela queria tomar uma injeção..
No entanto, Alice não se assustou. Sua curiosidade falava mais alto, e o mistério daquele bichinho só crescia dentro dela. Passou o restante do dia inquieta e, antes de ir embora, resolveu levar um daqueles bichinhos com ela, guardando-o com cuidado numa caixinha vazia que encontrou na cozinha.
Mais tarde, já em casa, Alice mal via a hora de contar ao papai sobre sua descoberta. Assim que ele chegou, ela correu até o quarto, pegou a caixinha de fósforos onde havia colocado o bichinho e voltou depressa para mostrar ao pai. A menina tinha certeza de que ele saberia responder.
O pai, porém, mal levantou os olhos. Só prestava atenção na tela do telefone, assim como a mamãe.
Alice ficou triste. Só queria saber que bicho era aquele, mas ninguém parecia ouvir suas perguntas.
No dia seguinte, voltou com a mãe à casa dos avós. Assim que chegaram, correu até o jardim e devolveu o bichinho ao lugar de onde o havia tirado.
Os dias passaram, as noites também, mas aquela história continuava morando na cabeça da garota.
Quando voltou outra vez à casa dos avós, ela já tinha decidido: iria descobrir o segredo daquele bichinho que se enrolava todo ao ser tocado. Logo que chegou, correu direto para o jardim.
Mexe a terra para cá.
Mexe a terra para lá.
Tira uma pedra daqui.
Puxa outra dali.
E então…
POOOOM!
Não era um só, e sim muitos. Vários bichinhos iguais, escondidos na terra, quietinhos, como se o chão fosse a casa deles.
Alice pegou a caixa de fósforos, colocou terra dentro e juntou alguns dos bichinhos. Desta vez, não ia desistir de descobrir.
Correu até o quarto da avó, que descansava deitada, e a chamou. Porém, a avó não respondeu.
Chamou mais uma vez, mas a vovó não respondia.
Então foi atrás do vovô, mas o vovô não estava em canto algum.
Até queria perguntar para a mamãe, porém, já sabia que não teria resposta.
Ela voltou para o jardim, triste e desanimada por não conseguir resposta. Sem ter mais o que fazer, sentou-se no chão e encostou-se no tronco da velha mangueira. Abraçou os joelhos, apertou os olhos e deixou o choro sair devagar, miúdo, como quem não queria incomodar ninguém.
Foi quando ouviu passos.
O avô apareceu trazendo uma cesta cheia de verduras e legumes, ainda com cheiro de terra fresca.
Ele se aproximou e perguntou por que a neta estava triste.
Com os olhos vermelhos, Alice contou tudo: o bichinho, o jardim, as perguntas sem resposta. Disse que ninguém sabia dizer o que era aquele ser tão estranho.
O avô tirou as luvas, colocou a cesta no chão e pediu para ver os bichinhos.
Na mesma hora, o choro virou sorriso. Alice pegou a caixa, mexeu devagar na terra, e um dos bichinhos apareceu. Mostrou-o ao avô com cuidado, como quem apresenta um segredo que não é segredo nenhum.
O avô olhou. Fez algumas caretas, como quem não tinha certeza do que via. Olhou de novo. Então sorriu.
— Isso é um tatuzinho-de-jardim.
Alice franziu a testa.
— Vovô… tatu não é bem maior? — disse a menina, lembrando do que vira na fazenda do padrinho
Naquele instante, o avô se abaixou ao lado da neta e disse que aqueles bichinhos eram chamados de tatuzinhos-de-jardim. Não eram grandes nem fortes como os tatus que ela viu na fazenda, mas tinham um trabalho importante: cuidar da terra por baixo, sem ninguém ver.
Alice escutava tudo com muita atenção. Não demorou para começar a perguntar tudo o que lhe vinha à cabeça sobre os estranhos animaizinhos. E, a cada resposta do avô, mesmo quando ele não sabia responder, seus olhos brilhavam de felicidade por enfim desvendar aquele mistério.
Agora sim, ela sabia de tudo: o nome, o lugar e o cuidado que precisava ter.
Toda contente, correu até o jardim e devolveu os bichinhos ao mesmo cantinho de onde os havia pegado. Despediu-se deles em silêncio, como quem promete não contar a ninguém.
Depois voltou pulando e saltitando, feliz por ter descoberto algo que só quem olha com atenção consegue ver.
Segurou a mão do avô e, juntos, foram procurar outros pequenos mistérios no canteiro da horta.