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Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos, são produtos de imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.
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Edição Digital | Criado no Brasil.
Existem lendas contadas ao longo das gerações que servem para assustar. Em Niveland, um condado no interior da Califórnia, não era diferente.
Contava-se que, há muitos séculos, o condado foi palco de um ritual proibido. Uma seita se reuniu em segredo para praticar o ato, pois acreditava que ali existia uma fenda, um ponto de travessia entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos.
Na noite de 31 de outubro, guiados por ambição e desespero, realizaram o ritual para rasgar o véu entre os planos e trazer de volta os que haviam partido. Mas o que atravessou não foram os entes queridos. Foram criaturas deformadas pela morte, famintas por energia humana.
O ritual foi interrompido à força, e os sobreviventes selaram a fenda com sangue e ferro; contudo, o equilíbrio jamais foi restaurado.
Alguns diziam que era apenas superstição. Outros acreditavam tratar-se de uma história criada por religiosos para que os jovens não se envolvessem em rituais pagãos. Mas o fato era que, todos os anos, na noite de Halloween, o clima no condado ficava tenso e uma névoa espessa o cobria; por isso, por ali não se viam crianças batendo de porta em porta atrás de doces, tampouco enfeites como na maioria dos locais por perto. As ruas ficavam desertas.
Uma das histórias mais temidas envolvia o hospital do condado, já que, segundo os antigos, fora ali o ritual. Segundo as histórias, espíritos à deriva, criaturas famintas e ecos do outro lado vagavam por seus corredores, à procura de uma alma com energia suficiente para abrir o véu de vez.
Isolado no alto de uma colina, cercado por árvores retorcidas e uma névoa constante, o prédio exalava um frio diferente, como se ele mesmo não pertencesse completamente a este mundo. Era comum que as pessoas evitassem o lugar, preferindo enfrentar quilômetros de estrada até a cidade vizinha. Aquelas que ousavam entrar raramente saíam da mesma forma.
Aneela era uma jovem que não acreditava em tudo o que ouvia; para ela, era preciso ver para crer. Contudo, as coisas mudaram. Na véspera de Halloween, Aneela teve um mal-estar decorrente de uma crise de ansiedade e, por insistência da mãe, foi até o hospital. A garota, em sua inocência, acreditou que tomaria um ansiolítico e voltaria para casa, como nas vezes em que esteve ali pelo mesmo motivo; porém, teve um sobressalto ao ouvir que precisaria ser internada para realizar exames.
Ao pisar na recepção gelada, um tremor percorreu seu corpo, e um pavor que não sabia explicar se fez presente. Aneela teve um pressentimento ruim; sua pele se eriçou como se serpentes estivessem se enrolando em seus membros, causando certa paralisação.
Pensando nisso, a garota agarrou com força o braço de sua mãe, arrastando-a para um canto.
— Por favor, mãe, não me deixe aqui — implorou ela em meio ao desespero.
Sua mãe franziu o cenho, estranhando o jeito de sua filha se comportar; afinal, ela nunca teve medo de hospitais.
— An, já faz um bom tempo que você sente essas coisas; não vejo mal em interná-la para fazer exames — respondeu com paciência.
— Mas você não sente esse clima? — quis saber, aflita. — Tem algo errado, mãe. Por favor, me leve para casa com você.
— Eu queria, filha, mas não posso. Não até ter certeza de que você está bem.
— Então fique aqui comigo.
— Sinto muito, querida — pela primeira vez, a atendente atrás do balcão se fez ouvir —, vejo aqui em seu prontuário que já completou a maioridade; sendo assim, não é possível que fique um acompanhante.
Nem mesmo a própria Aneela conseguia decifrar aquilo que a afligia; ainda assim, seus nervos aflorados fizeram o mal-estar piorar. Agora, além do aperto no peito, começava a faltar-lhe o ar.
Sua mente começou a entrar em colapso, imaginando mil e um cenários desastrosos. Logo, pontos pretos foram cercando sua visão e, em menos de um segundo, viu-se mergulhada na completa escuridão — não antes de ouvir a voz distante da atendente:
— A senhora fez a coisa certa; temos que verificar se é algo grave.
Quando acordou, percebeu que tinha um acesso intravenoso em seu braço. Ainda meio grogue, graças ao efeito do medicamento aplicado no soro, olhou à sua volta e viu que estava em um quarto, sozinha.
Aneela levantou-se, arrancando a agulha do braço; no mesmo instante, o sangue esguichou, manchando o lençol branco que a cobria. Fazendo uma careta de dor, fez pressão no pequeno furo e logo o sangue já não vazava por ali.
Ela foi até a porta, tentando girar a maçaneta; porém, encontrava-se trancada.
Por que a trancaram naquele lugar? Esse não era o procedimento do hospital; o correto seria Aneela estar na enfermaria junto aos demais pacientes.
— Oi? — Bateu na porta com força. — Oi! Alguém pode me tirar daqui?
Mexeu freneticamente na maçaneta até que uma enfermeira abriu a porta com o semblante sério.
— Não deveria ter saído da cama — repreendeu.
— Por que estou presa aqui e não na enfermaria?
O peito de Aneela subia e descia, do mesmo modo que as narinas se dilatavam em sinal claro de pavor.
— A enfermaria está lotada, e sua mãe quis que você tivesse algum conforto; por isso, pagou por este quarto — explicou a mulher com calma. — Quanto à porta trancada, alguém deve ter se confundido. Peço desculpas; não vai acontecer novamente.
Ainda desconfiada, Aneela voltou a se deitar. Logo, a enfermeira inseriu outra agulha em seu braço, colocando uma nova bolsa de soro. Dentro do recipiente plástico, ela aplicou algo amarelado com uma seringa; depois saiu, fechando a porta de novo.
Imediatamente, a garota fechou o acesso e tornou a retirar a agulha de seu braço, preferindo continuar deitada.
Presa naquele quarto, vez ou outra ela ouvia choro de criança ou alguém gritando de dor. A curiosidade de ver o que acontecia logo era substituída por medo, e ela permanecia no mesmo local.
As horas se arrastavam, e Aneela lamentou não ter trazido um livro para ler; assim, o tédio iria desaparecer. Por volta de 23h59, tudo ficou estranhamente silencioso; não se ouvia nada, nem os pacientes, nem os médicos no frenesi de antes. Pela fresta embaixo da porta, Aneela podia enxergar vultos que pareciam se arrastar pelo largo corredor.
Ela começou a sentir um cansaço estranho, como se algo estivesse sugando sua energia cada vez que uma dessas sombras ficava mais tempo próxima à sua porta.
Determinada a descobrir o que acontecia ali, desceu da cama com cuidado, e os pés se retraíram ao pisar no chão gelado. Ignorando os calafrios e tremores que tomaram conta de seu corpo, Aneela andou até a porta de forma lenta, mas não a abriu; encostou o ouvido nela para tentar escutar o que acontecia.
Do lado de fora, os enfermeiros contabilizavam as pessoas ali, todos com seus olhos negros, dentes afiados e peles opacas, ansiando por sugar a energia vital dos humanos moribundos para conseguir voltar para seu mundo.
O hospital sempre foi uma ótima forma de juntar energia para o véu; contudo, como as pessoas ali estavam muito doentes ou à beira da morte, algumas vezes não era suficiente.
Aneela abriu a porta e deparou-se com as criaturas: espectros de névoa cinzenta com olhos de fogo, monstros com chifres e sulcos na pele por onde dava para ver o sangue podre circulando, criaturas com feridas enormes em suas peles pretas e dedos ossudos.
Quando os olhos opacos de um daqueles seres recaíram sobre ela, apontou os dedos em sua direção e, mesmo sem mexer os lábios, a voz — que mais parecia um chiado cheio de estática — soou estrondosa, fazendo com que Aneela tapasse os ouvidos:
— A garota é dela que precisamos.
Seu coração disparou e, sem pensar, correu. Em seu íntimo, ela sabia que não poderia deixar que aquelas coisas a pegassem.
No corredor, as luzes acendiam e apagavam, deixando tudo ainda mais assustador.
Parecia que, quanto mais corria, mais suas pernas pesavam, deixando-a exausta, ao passo que os espectros se aproximavam cada vez mais.
Aneela forçou seu corpo ao limite e, quando perdeu as criaturas de vista, abriu uma porta e entrou nela, escondendo-se atrás de uma mesa; a respiração alta fazia eco no espaço vazio.
Tudo o que Aneela conseguia pensar naquele momento, além de sair daquele hospital, era que a lenda que ouvira ao longo dos anos tornava-se real bem diante de seus olhos. Aquele local era realmente um hospital dos monstros.
De repente, atrás de si, algo caiu, fazendo um barulho alto. Com um sobressalto, ela virou-se, temendo ser mais um daqueles demônios; contudo, deparou-se com uma garotinha vestida de branco, encolhida em um canto. Seu choro baixo fez com que o coração de Aneela se apertasse.
— Ei — chamou em um sussurro, e a menina levantou os olhos vermelhos em sua direção. — Você está bem? Está sozinha?
— Eles… pegaram minha mãe — choramingou ainda mais.
— Nós vamos sair daqui, tudo bem? E depois voltamos para buscar sua mãe.
Com olhar assustado, a menina concordou, levantou-se e foi para perto de Aneela.
Ela segurou a pequena mão gelada entre as suas e fez sinal para que fizesse silêncio ao ouvir barulhos de portas batendo, aproximando-se de onde elas estavam.
Lá fora, os espíritos ficavam cada vez mais agitados, enfurecidos, correndo contra o tempo para encontrar Aneela; essa seria a única chance de voltarem para o mundo dos mortos, pois ela tinha a energia necessária para que o véu se abrisse — uma energia que eles não conseguiram acumular ao longo dos anos.
Havia muito tempo que estavam presos neste mundo e já não aguentavam mais alimentar-se de pessoas doentes.
A porta do local onde elas estavam se abriu com um estrondo, e o ambiente se impregnou com o cheiro forte de enxofre. Assustada e agarrada à mão da pequena menina, Aneela mirou a saída e correu, pegando os espíritos desprevenidos.
Não demorou para que chegassem à porta de saída, e Aneela quase chorou de alívio; mas a sensação de que algo estava terrivelmente errado se tornou mais forte. A mão entre as suas agora parecia pegar fogo.
Quando finalmente chegou à saída, a garotinha parou de repente. Aneela foi puxada bruscamente e, sem entender como a criança possuía aquela força, virou a cabeça até encontrar o olhar sem vida no rosto dela e um sorriso macabro que revelava a fileira de dentes pretos afiados.
— Obrigada, An — murmurou com uma voz distorcida. — Agora o véu pode ser rasgado.
Aneela tentou recuar, mas sentiu garras invisíveis puxando-a para a escuridão.
Dizem que, desde então, o hospital nunca mais foi o mesmo.
E que, toda vez que o vent
o muda e o ar gela em Niveland, o véu se prepara para abrir de novo.