@insanosempre
há 3 meses
Público
Relicário
No fundo do quintal, dorme a memória
sob a folhagem úmida e severa;
ali ficou, sem nome, a primavera
que a vida me tomou sem cerimônia.
Havia sol de bronze sobre a infância,
um rio magro cortando a terra fria,
e o vento, entre os galhos, se perdia,
como quem não voltava da distância.
Eu era então senhor de pouca coisa:
um fruto verde, um pássaro, uma estrada,
a mão ferida, a roupa empoeirada,
e a alma atenta ao que no escuro pousa.
Hoje, se a chuva inclina os arvoredos,
volta-me ao peito um rumor esquecido:
não sei se é folha, se é o tempo perdido,
se é Deus mexendo nos meus brinquedos.