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Cass Razzini
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há 8 meses
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#Link365TemasLivros 181 um livro em que a narrativa seja construída como um confronto de versões, onde o enredo se forma por múltiplas perspectivas, revelando que o centro da verdade nunca está onde se imagina.

Meia-noite e Vinte, de Daniel Galera. A história acompanha quatro amigos que se reencontram após a morte de um colega em comum, e cada capítulo é narrado por um deles. O mais fascinante é como cada perspectiva revela não apenas versões diferentes dos mesmos eventos, mas também contradições, silêncios e ressentimentos que estavam enterrados sob a superfície da amizade. A verdade, se é que existe uma, se dissolve entre as vozes.
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há 8 meses
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#Link365TemasLivros 180 um livro que narre o fim do mundo como espelho da alma humana.

Estação Onze (Station Eleven), de Emily St. John Mandel. Embora publicado originalmente em 2014, ele ganhou nova relevância nos últimos anos — e continua sendo uma leitura profundamente atual.

A história acompanha os sobreviventes de uma pandemia devastadora, mas o foco não está na catástrofe em si, e sim naquilo que permanece: a arte, a memória, os vínculos humanos. A narrativa salta entre o passado e o presente, revelando como cada personagem lida com a perda, o silêncio e a reconstrução de sentido em um mundo despido de excessos.

O mais fascinante é que o fim do mundo aqui não é tratado com explosões ou heroísmo, mas com delicadeza e introspecção. A autora transforma o colapso da civilização em um espelho íntimo, revelando o que somos quando tudo o que nos distrai desaparece. A “Sinfonia Itinerante”, um grupo de artistas que viaja apresentando Shakespeare e música clássica, é um símbolo poderoso dessa busca por beleza mesmo no deserto.
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há 8 meses
Público
#Link365TemasLivros 179 um livro onde a narrativa aborda a morte como parte da juventude, obras em que a finitude se apresenta cedo demais.

A Culpa é das Estrelas, de John Green.

 Por que ele? Porque a juventude aqui não é promessa de futuro, mas um presente intensamente vivido sob a sombra da morte. A protagonista, Hazel Grace, tem 16 anos e um câncer terminal. Ela conhece Augustus Waters, também sobrevivente da doença, e juntos vivem um amor que sabe que vai acabar — mas que, por isso mesmo, se torna ainda mais urgente, mais bonito, mais verdadeiro.

️ Finitude como revelação
A narrativa é leve, irônica, cheia de referências literárias — mas por trás do humor, há uma dor que pulsa.
A morte não é tabu: é personagem. Está sempre ali, mas nunca rouba a cena — ela apenas lembra que o tempo é curto.
O livro fala sobre o direito de amar mesmo quando o fim é certo. E sobre como a juventude pode ser profunda, mesmo que breve.
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há 8 meses
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#Link365TemasLivros 178 um livro onde a infância revela o que a maturidade esqueceu, obras em que a linguagem simples esconde uma complexidade emocional e filosófica que só o coração atento consegue ouvir.

Se Deus Me Chamar Não Vou, de Mariana Salomão Carrara, é daqueles romances que parecem pequenos, mas carregam o mundo inteiro dentro.

 Quem narra? A história é contada por Maria Carmem, uma menina de 11 anos que decide escrever um livro sobre o seu ano, um ano estranho, cheio de silêncios, perguntas e solidão. Ela vive com os pais, que têm uma “loja de velhos” (uma loja de artigos geriátricos), e passa os dias entre fraldas geriátricas, bengalas e pensamentos que ninguém parece escutar.

易 Infância como filosofia Maria Carmem é precoce, mas não no sentido clichê. Ela pensa sobre a morte, sobre Deus, sobre o amor dos pais, sobre o corpo que cresce e não cabe mais. Ela escreve porque ninguém conversa com ela de verdade , e o livro se torna o único lugar onde ela pode existir inteira. A linguagem é simples, mas cheia de camadas: cada frase parece uma pergunta disfarçada de piada.

 Por que dói (e encanta)? Porque a infância aqui não é idealizada. É um lugar de exclusão, de bullying, de não-pertencimento. Mas também é um lugar de invenção, onde a escrita vira abrigo. Como ela mesma diz: “É possível que um lápis pareça estar novo, mas todo quebrado por dentro.”
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há 8 meses
Público
#Link365TemasLivros 177 um livro que articule movimentos de ruptura estética, obras que pensam ou narram as transformações da linguagem literária diante das revoluções culturais, artísticas ou sociais.

O que é ruptura estética?
É quando a arte —e aqui, especialmente a literatura — rompe com as formas, estilos e convenções estabelecidas, criando novas maneiras de dizer, de ver, de sentir. Não é só mudar o conteúdo: é mudar a forma como o conteúdo é apresentado. É quando o autor diz: “não basta contar outra história — é preciso contar de outro jeito.”

 Na literatura, isso pode significar:
Abandonar a narrativa linear e apostar em fragmentos, fluxos de consciência, vozes múltiplas.
Misturar gêneros: poesia com prosa, ensaio com ficção, diário com manifesto.
Criar personagens que não são pessoas, mas ideias, vozes, atmosferas.
Usar a linguagem como matéria viva — que tropeça, que falha, que inventa.

 Por que isso importa? Porque a ruptura estética acompanha ou antecipa revoluções culturais, sociais e políticas. Quando o mundo muda, a linguagem precisa mudar também. Foi assim com o modernismo, com o concretismo, com a literatura pós-ditadura, com as vozes periféricas que hoje reinventam o português nas margens.

 Exemplos?

Macunaíma, de Mário de Andrade, que mistura mito, oralidade e crítica social.
A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, onde a linguagem implode para dar lugar ao indizível.
Os Detetives Selvagens, de Bolaño, que desmonta o romance tradicional e o reconstrói como polifonia errante.
A Estética do Fracasso, de Luiza Romão, que transforma a falha em forma.

 Indicação de livro:
Os Detetives Selvagens - Roberto Bolaño (apesar de não ter lido, fiquei interessada ao pesquisar sobre "ruptura estética")

Os personagens principais deste livro são os amigos Ulises Lima e Arturo Belano, dois poetas que decidem investigar o que teria acontecido com Cesárea Tinajero, uma misteriosa e desaparecida poeta da vanguarda mexicana. Mas embora a história gire em torno destes dois "detetives selvagens", o verdadeiro detetive do romance é o leitor.

Os protagonistas de Os detetives selvagens são Arturo Belano e Ulises Lima, dois poetas "marginais", mas em poucos trechos do livro são eles que conduzem a ação. O leitor sabe deles quase sempre através do olhar de outros personagens, numa investigação típica de romance policial. Por sua vez, Belano e Lima também estão numa busca detetivesca, atrás dos rastros de uma misteriosa poeta vanguardista que desapareceu no deserto de Sonora, no norte do México.
Na primeira parte, escrita em forma de diário, acompanhamos as andanças dos dois e seu grupo de poetas adeptos do "realismo visceral" em muitas conversas de bar, discussões intelectuais, encontros e desencontros sexuais, puxadas de fumo, num clima típico dos jovens daquela década. A segunda parte é composta por dezenas de "depoimentos" que reconstituem a trajetória de Arturo Belano e Ulises Lima durante os vinte anos que sucedem o diário. Cabe ao leitor-detetive fazer esta reconstituição, a partir dos fiapos que vai colhendo dos "depoentes", alguns dos quais contam longas histórias (sempre muito interessantes) que pouco ou nada têm a ver diretamente com os dois enigmáticos protagonistas. Bolaño exercita aqui sua capacidade de dar a palavra a múltiplas e diferentes vozes e de fazer paródias hilariantes. A terceira parte retoma o diário, relata a busca pela poeta Cesárea Tinajero e explica, de certa forma, as duas décadas de errância dos protagonistas.

Bolaño exercita aqui sua capacidade de dar a palavra a múltiplas e diferentes vozes e de fazer paródias hilariantes. A terceira parte retoma o diário, relata a busca pela poeta Cesárea Tinajero e explica, de certa forma, as duas décadas de errância dos protagonistas.

Na verdade, com muito humor, ironia corrosiva e algum desespero, Bolaño faz o balanço de uma geração intelectual que era demasiado jovem quando havia projetos de transformação radical da América Latina e do mundo e que, ao chegar à idade de participar, descobriu que só restavam escombros e cadáveres.

"A linguagem vigilante e cheia de graça de Bolaño, sua maneira de construir textos ao mesmo tempo desconcertantes, brilhantes e infinitamente próximos, é uma forma de resistir ao mal, à adversidade, à mediocridade." - Le Monde

"O tipo de romance que Borges teria escrito [...]. Um livro original e belíssimo, divertido, comovente, importante." - Ignacio Echevarría, El País.

"Um fecho histórico e genial para O jogo da amarelinha de Cortázar [...] uma fenda que abre brechas pela quais haverão de circular novas correntes literárias do próximo milênio." - Enrique Vila-Matas, Letras Libres.
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há 8 meses
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#Link365TemasLivros 176 um livro onde o território é linguagem e o personagem principal não é apenas um ser, mas uma voz, um fluxo de pensamento que cenários com analogias sociais.

Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

Neste livro, o território é a própria linguagem. O sertão não é apenas cenário é pensamento, é ritmo, é sintaxe. A narrativa é conduzida por Riobaldo, ex-jagunço que conta sua história em um longo monólogo, onde o tempo se dobra, a memória se embaralha e a fala se torna um rio que arrasta tudo. O personagem não é apenas um ser: é uma voz que pensa o mundo enquanto o narra.
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@cassescreve
há 8 meses
Público
#Link365TemasLivros 175 um livro onde a política é pensada a partir da dúvida, e não da doutrina, obras em que o autor questiona as estruturas.

Passeio com o gigante, de Michel Laub.

Laub escreve como quem interroga o mundo com um gravador ligado e o coração em suspenso. O livro, lançado em 2024, acompanha um protagonista que caminha por uma cidade em ruínas — física e moralmente — enquanto grava áudios para um interlocutor ausente. A política aqui não é bandeira, é ruído de fundo, é dúvida que atravessa o corpo. O narrador não tem respostas, mas carrega perguntas que incomodam: o que é ser justo num país injusto? o que resta quando a linguagem falha?

Política como inquietação, não doutrina Laub tensiona temas como fascismo, memória, masculinidade e crise ética sem cair em panfletos. A estrutura do romance é fragmentada, ensaística, e mistura ficção com reflexão, como se o próprio ato de narrar fosse um gesto político. A dúvida é o motor da narrativa, e o leitor é convidado a caminhar junto, sem mapa.
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há 8 meses
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#Link365TemasLivros 174 um livro em que a terra não é cenário, mas destino, obras onde o vínculo com o solo é sagrado, político, inevitável. Quando a terra dá e tira, e quem a habita precisa aprender a colher sem esquecer que também é colhido.

Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.

Neste romance, a terra não é cenário, é destino, maldição e promessa. A história acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores rurais em uma fazenda no sertão da Bahia. Desde a infância marcada por um acidente brutal, elas crescem em meio a tradições, silêncios e lutas por sobrevivência. A terra que cultivam é também a terra que as prende e que, aos poucos, se revela como espaço de resistência, espiritualidade e pertencimento.

O romance entrelaça religiosidade afro-brasileira, ancestralidade e crítica social. A terra dá, mas também exige. E quem a habita precisa aprender a escutar seus ciclos, suas dores, seus segredos. A linguagem de Itamar é lírica, mas firme, como quem escreve com os pés descalços no chão batido.
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há 8 meses
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#Link365TemasLivros 173 um livro em que a narrativa se dá de dentro para fora, onde o mundo é percebido por um sujeito obsessivo, atormentado, e a linguagem revela não os fatos, mas os labirintos da mente.

O Túnel, de Ernesto Sabato.

Tudo nele é visto por dentro: e esse “dentro” é um abismo. O narrador, Juan Pablo Castel, é um pintor obsessivo que confessa, logo na primeira linha, ter assassinado a mulher que amava. A partir daí, o livro se transforma em um mergulho claustrofóbico na mente de um homem atormentado, paranoico, que tenta justificar o injustificável. A realidade externa importa menos do que os desvios da percepção, os silêncios interpretados como sinais, os gestos mínimos que se tornam labirintos.

A escrita de Sabato é seca, precisa, mas carregada de tensão. Não há floreios, há cortes. A linguagem revela não os fatos, mas os delírios, as repetições, os pensamentos circulares de um sujeito que tenta desesperadamente dar sentido ao caos interno. É uma narrativa de dentro para fora, onde o mundo é deformado pelo olhar de quem o observa.
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há 8 meses
Público
#Link365TemasLivros 172 um livro onde o desejo é o foco e a ruptura, obras em que amar, querer não é leveza, mas uma dificuldade, é conflito ou quebra do tradicional.

Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño.

Porque o amor aqui não é consolo, é abismo. O desejo, em todas as suas formas (erótico, literário, existencial), move os personagens como uma febre. A trama acompanha dois jovens poetas — Ulises Lima e Arturo Belano — em busca de uma poeta desaparecida no México dos anos 1970. Mas essa busca é só o pretexto: o que se desenrola é uma odisseia de rupturas, exílios, paixões fracassadas e identidades em trânsito.

Amar, neste livro, é sempre um gesto de risco. Os personagens desejam com intensidade, mas nunca com leveza. O amor é atravessado por política, por distância, por silêncio. O querer é sempre também um perder-se. E a linguagem de Bolaño — fragmentada, polifônica, pulsante — reflete esse desejo que não se encaixa no mundo.
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