Leia agora
A Mulher de Preto

Universo da obra

A Mulher de Preto

Capítulo 9 · A Mulher de Preto

A Mulher de Preto: Capítulo 9

9 de 11 ≈ 4 min de leitura

Estevão sahio da casa da viuva agitado por diversos sentimentos, com passo tremulo e a vista turva. A conversa com a viuva fôra um longo combate; a ultima promessa foi um golpe decisivo e mortal. Estevão sahia d’alli como um homem que acabava de matar as suas esperanças em flôr; caminhava ao acaso, precisava de ar e queria metter-se em um quarto sombrio; quizera ao mesmo tempo estar solitario e no meio de immensa multidão.

No caminho encontrou Oliveira, o poeta novel.

Lembrou-se que a leitura da comedia impedíra a remessa da carta, e portanto poupou-lhe um tristissimo desengano.

Estevão involuntariamente abraçou o poeta com toda a effusão d’alma.

Oliveira correspondeu ao abraço, e quando pôde desligar-se do medico, disse-lhe:

-- Obrigado, meu amigo; estas manifestações são muito honrosas para mim; sempre te conheci como um perfeito juiz litterario, e a prova que acabas de dar-me é uma consolação e uma animação; consola-me do que tenho soffrido, anima-me para novos commettimentos. Se Torquato Tasso.....

Diante d’esta ameaça de discurso, e sobretudo vendo a interpretação do seu abraço, Estevão resolveu-se a continuar caminho abandonando o poeta.

-- Adeos, tenho pressa

-- Adeos, obrigado!

Estevão chegou á casa e atirou-se á cama. Ninguem o soube nunca, só as paredes do quarto forão testemunhas; mas a verdade é que Estêvão chorou lagrimas amargas.

Emfim que lhe dissera Magdalena e que exigíra d’elle?

A viuva não era viuva; era mulher de Menezes; viera do Norte mezes antes do marido, que só veio como deputado; Menezes, que a amava doudamente, e que era amado com igual delirio, accusava-a de infidelidade; uma carta e um retrato erão os indicios: ella negou, mas explicou-se mal; o marido separou-se e mandou-a para o Rio de Janeiro.

Magdalena aceitou a situação com resignação e coragem: não murmurou nem pedio, cumprio a ordem do marido.

Todavia Magdalena não era criminosa; o seu crime era uma apparencia; estava condemnada por fidelidade de honra. A carta e o retrato não lhe pertencião; erão apenas um deposito imprudente e fatal. Magdalena podia dizer tudo, mas era trahir uma promessa; não quiz; preferio que a tempestade domestica cahisse unicamente sobre ella.

Agora, porém, a necessidade do segredo expirára; Magdalena recebeu do Norte uma carta em que a amiga, no leito da morte, pedia que inutilisasse a carta e o retrato, ou os restituisse ao homem que lh’os dera. Esta carta era uma justificação.

Magdalena podia mandar a carta ao marido, ou pedir-lhe uma entrevista; mas receiava tudo; sabia que seria inutil, porque Menezes era extremamente severo.

Víra o médico uma noite no theatro em companhia de seu marido; indagára e soube que erão amigos; pedia-lhe pois que fosse mediador entre os dous, que a salvasse e que reconstruisse uma familia.

Não era pois sómente o amor de Estevão que soffria; era tambem o seu amor-proprio. Estevão facilmente comprehendeu que não fôra attrahido áquella casa para outra cousa. É verdade que a carta só chegára na vespera; mas a carta apenas vinha apressar a resolução. Naturalmente Madalena pedir-lhe-hia, sem haver carta, algum serviço análogo áquelle.

Se se tratasse de qualquer outro homem, Estevão recusaria o serviço que lhe pedia a viuva; mas tratava-se do seu amigo, de um homem a quem elle devia estima e serviços de amizade.

Aceitou, pois, a cruel missão.

-- Cumpra-se o destino, disse elle; hei de ir lançar a mulher que amo aos braços de outro; e por desgraça maior, em vez de gozar com este restabelecimento de concordia domestica, vejo-me na dura situação de amar a mulher do meu amigo, isto é, de fugir para longe.....

Estevão não sahio mais de casa n’esse dia.

Quiz escrever ao deputado contando-lhe tudo; mas pensou que o melhor era fallar-lhe de viva voz. Embora lhe custasse mais, era de mais effeito para o desempenho da sua promessa.

Adiou, porém, para o dia seguinte, ou antes para o mesmo dia, porque a noite não lhe interrompeu o tempo, visto que Estevão não dormio um minuto sequer.

A Mulher de Preto

Sinopse

A Mulher de Preto, de Machado de Assis, é um conto envolvente que mescla mistério, paixão e ironia. A trama acompanha o jovem Manuel, que se vê intrigado pela presença enigmática de uma mulher vestida de preto. Movido pela curiosidade e pelo desejo, ele se aproxima dela, apenas para descobrir que nem tudo é o que parece. Com sua prosa refinada e olhar aguçado sobre as fraquezas humanas, Machado conduz o leitor por uma história de expectativas, ilusões e reviravoltas sutis. Um conto curto, mas carregado da genialidade e sutileza que marcam sua obra.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978653551072202332106388
A Mulher de Preto

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de A Mulher de Preto

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Mulher de Preto Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 9 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir