Universo da obra
Universo da obra
Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa. Esta discussão partindo de um ponto--a aprovação do projecto--, para findar exactamente no mesmo ponto de que partiu--a aprovação do dito projecto--, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos egípcios, a velha serpente com o rabo na boca, o simbolo desolador da imobilidade oriental.
Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido, tantos suores, tantos gritos, tantos copos de água desbaratados para se assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!
Como se, não havendo princípios nenhuns de politica interna que afirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei pudesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades retoricas, alargar-se de estes termos.
Discurso da corôa: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»
Resposta ao discurso da corôa: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»
Tudo mais é enfático, é ocó, é ridículo--e é imoral.
Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de acordarem na colocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a confecção de um período banal, se discutem a si próprios; chamam-se reciprocamente desordeiros, calumniadores e ineptos; e documentam e provam entre uns e outros, de partido para partido, que são efetivamente desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos.
As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desocupada e ociosa, que não vai á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos interesses patrióticos. Vai apenas disfructar os contendores, rir-se de eles, apupal-os no fundo da sua consciência, e--o que é peior que tudo--preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a maledicência dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.
Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias, segundo asseveram os jornais. Encheram-as empregados públicos que desertaram as suas repartições, literatos ambiciosos que abandonaram os seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho, operários em grève que foram aprender a discursar nos seus comícios, pretendentes de empregos públicos, que foram examinar os pôdres por onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade, assiste durante um mez inteiro aos exercícios de uma oratoria rasteira, sem elevação moral, sem correcção artística, cheia de arrebatamentos estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em família, de cóleras sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da lucta os atletas, com os coleirinhos abatidos e sujos pelas distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as suas pobres mãos inofensivas e inúteis, e fazem-se gestos amigaveis, surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a língua de fora, riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos rabulas amáveis e cínicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.
E eis aí no mais alto das instituições a escola publica em que o povo tem de aprender a ser digno e honrado!
Tome-se sobre o discurso de cada deputado a soma das afirmativas e negativas que fizeram em todos os princípios gerais da politica e da administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que todos afirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.
Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus cavalos á rédea, esperam tranquilos. A divergência versa sobre os nomes dos individuos atraz dos quais esses correios têm de trotar de ali para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um coupé da Companhia.
Quantos insultos, quantos impropérios, quantos copos de água, quantos erros de gramatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:
«Os partidos são cinco--regeneradores, históricos, reformistas, avilistas e constituintes: que os coupés do ministério parem revesadamente de três em três meses ás portas de cada um de esses senhores, e quando o poder moderador quiser saber quem são os individuos que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»
Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriais, os srs. deputados votariam calados.
Um filósofo americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do que a força de um inimigo morto passa para aquele que o venceu; em Portugal ha egual superstição com as sucessões do governo: a camara é sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discórdias.
Pela primeira vez ouvimos em esta legislatura lançar-se ao debate e discutir-se a palavra República. Vimos que a fórma do governo republicano tem no seio do parlamento defensores e adversários, havendo todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e é: que o povo portuguez não está por enquanto nem bastante educado nem bastante instruido para poder sem grandes perigos aceitar a república.
Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma constituitiva do poder não nos importa. O problema politico interessa-nos pouco. E em este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preocupa os povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os símbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o problema econômico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguém se interessa em que eles se deixem ficar ou em que eles se vão embora. Voltaire defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que tivesse nascido mais forte que ele, a ser devorado por cem ratos da sua especie. Isto era no século XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico, em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão é uma pacifica fera embalsamada, inofensivo ornato de ètagére, que os ratos trazem consigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de pretexto para eles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos declararem que lhes apetece roer:--«Meus senhores, o leão pede viveres.»
Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como fundamentalmente autônomas, isto é, independentes de todo o domínio, o governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se aproximasse de aquele que até hoje tem dirigido os destinos da egreja católica. O poder supremo nas mãos de um papa infalível, arbitro absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado; o domínio e o governo firmado na obediência passiva de todos os súbditos e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a esfera da iniciativa humana desde os atos até os pensamentos; tendo por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos quantos tribunais se têm creado para cohibir as infracções da lei, tribunal que ataca o mal no seu gérmen, dentro da consciência, e não depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no fundo mais recondito da alma é possível um esconderijo para a anarchia! Tal seria o belo ideal do governo, considerado como salva-guarda do socego e da ordem.
Hoje porém:
Como os governos não podem já ser considerados debaixo de esse ponto de vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;
Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si mesmas;
Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados a maior parte dos poderes delegados nos governantes;
Como dentro em pouco tempo, precisamente, fatalmente, todos os povos impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aqueles que por via da eleição representem a vontade popular:
Segue-se que a diferença essencial das formas atuais de governo não póde, como ainda ultimamente disse em um notável livro o sr. Passy, considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte de poder que elas asseguram ao povo.
Vejamos pois agora qual é a diferença que existe entre uma república e uma monarchia parlamentar.
A república é o governo do povo pelos seus mandatários eleitos, tendo por chefe do poder executivo--um presidente eleito.
A monarchia parlamentar, como ela existe em Portugal, é o governo do povo pelos seus mandatários eleitos, tendo por chefe do poder executivo--um rei hereditário.
O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da república conservadora que actualmente existe em França, diz que uma monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos, para o estabelecimento da monarchia é preciso a dinastia, isto é: a tradição. Quando a dinastia cae, desaparecendo ou cortando-se a tradição como em França e em Espanha, nada mais perigoso do que suscitar ruins ambições, chamando um príncipe para cabide de uma corôa. em este caso o único sistema que não oferece gravíssimos perigos e grandes complicações intestinas e internacionais é a república. Ter a monarchia com todos os foros democráticos e derribal-a por um escrúpulo de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e de juízo para governar.
Nos livros mais recentes consagrados aos estudos políticos e á indagação das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade, nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill, Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha diferença entre república e monarchia representativa.
A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a politica. A fórma do governo na egreja--o mais despótico governo de quantos se possam imaginar--é a fórma republicana. O papa é um presidente eleito.
O poder popular não periga na coexistência dos reis. Era Roma o império funda-se esmagando os patrícios. Na moderna Europa as realezas afirmam-se despedaçando as resistências dos senhores feudais. Os soberanos procuram sempre na aliança do povo o apoio do mais forte. Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os em um abrir e fechar de olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro que fora sempre socialista. A Internacional tem origem em uma expedição de operários mandados a Londres á custa do segundo império para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a França poderia introduzir na organisação do trabalho.
A república pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa vantagem--a qual ordinariamente se lhe atribui como o seu maior defeito:--a república suscita as grandes ambições, que o constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.
Isto porém são característicos especiais que, reunidos a muitos outros que seria fácil adduzir, podem em dadas circunstâncias determinar a escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com relação á liberdade os dois sistemas não sofrem evidentemente distincção: um e outro afirmam um governo livre.
A diferença que existe entre governos livres e governos que o não são, é:
Que em certos paizes a vontade que dirige os negócios públicos é em verdade a do soberano; em outros paizes é a da nação.
Resta-nos ver em qual de essas duas categorias nós nos achamos.
Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem a miníma ingerencia na direcção dos negócios. O único ato de iniciativa pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em dar hábitos de Cristo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores guardam de estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança. Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o barítono Cotogni mandara a Sua Majestade uma fotografia, em que o artista conseguiu fazer reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios físicos. Um habito de Cristo que se dá, uma fotografia com pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia. Ninguém dirá que por tão inocentes comércios de afeição el-rei manifeste o intuito partidário--de lançar-se nos braços de um valido. Os únicos convivas extra-oficiais do príncipe--os tenores e os barítonos de primo-cartello--estão fora de toda e qualquer suspeita malévola que não seja--a de desafinarem.
Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia de todos os negócios do estado existe efetivamente desassombrada e livre sob a monarchia portuguesa.
Se depois de isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus correligionários políticos, bem como todos os demais srs. deputados, nos dizem que a república--com ser o mais perfeito dos governos segundo uns, ou ser um imperfeito governo segundo outros--não póde por enquanto existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrução precisa para tomar o governo de si mesmo, hão de permitir os ilustres deputados que nós tiremos de esse seu argumento todas as conclusões que ele encerra....
E que digamos a suas excelências:
Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma república, é egualmente incapaz de suportar um regime constitucional. Porque a verdade, que ninguém nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo governados ha muitos anos, única e exclusivamente, pelos poderes eleitos.
Ora, se o povo não póde exercer sufrágio para a eleição do governo sob o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na constituição dos poderes, as mesmas consequências no uso do mandato, os mesmos resultados no exercício do governo. A grande responsabilidade eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na república e na monarchia parlamentar.
Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da república?! Quem é então que tem a posse exclusiva de essa capacidade no regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do sistema monarchico para o sistema republicano, nos desaparece amanhã perante o exercício do sufrágio a capacidade que temos hoje perante o mesmo exercício? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo portuguez?
Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quais confessam ter a república pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa por suas excelências e pelo povo que os elegeu é sua majestade el-rei! Pelo que suas excelências nos dizem, o soberano não é o poder moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes também a eles o cérebro. A camara electiva, a filha do povo, a representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsável da força e da lei, assim o declara! Ela só é digna, só é autônoma, só é independente e pensante--enquanto houver um rei. No momento em que o monarcha descer do trono, ela será inepta. Animaes do Apocalypse, os srs. deputados só falam agora pela sugestão divina imposta pelo sceptro. A tribuna, essa tribuna que aí está, se um dia o rei lhe voltar as costas, recusará com pudor o copo de água oratorio, e pedirá--herva.
Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs. deputados combatem a oportunidade da república em Portugal? Não é. Se a camara que aí temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do sufrágio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Somente as consequências que esse argumento encerra não ferem somente o direito á república, ferem também o direito á liberdade. A logica não póde parar onde á casuística dos rabulas apraz que ela pare: a logica ha de ir até onde o senso comum a possa acompanhar, e a logica leva o juízo, a boa fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva que acaba de ocupar-se da discussão de estes princípios dá efetivamente a medida legal e autentica da moral, da virtude e da capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma república e uma monarchia democrática e parlamentar. A questão é mais complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas excelências, têm ou não têm a capacidade precisa para serem os representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de não eleição; é de governo livre ou de governo despótico. Se os legítimos representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos dois governos livres--república democrática ou monarchia parlamentar. Se os legítimos representantes do povo não prestam, teremos--a anarchia na república, e teremos--a escravidão na monarchia.
Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal uma farça ridícula para a sciencia e uma vergonha publica para o patriotismo. A camara é de uma ignorância enciclopédica. Erra e insulta, e não se esclarece nem se desafronta,--o que prova que não tem sciencia e que parece não ter caráter.
Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos últimos debates parlamentares a verdade de essa asserção, que poderá ser tida por arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque eles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos dúvida em deixar cahir sobre as pessoas o ridículo, temos repugnância em deixar pesar sobre elas a vergonha. A critica, se a levassemos até aí, tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridículo lava-se na rehabilitação com que nos retemperam os atos sérios, a vergonha quando mancha o caráter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As Farpas ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por essa razão preferimos adoptar em este assumpto a generalidade impessoal.
Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os princípios Morais. de aqui resulta uma perturbação insanável, um mal sem cura. É a corrupção, é a gangrena, é a paralisação senil affectando o jogo de todo o machinismo constitucional.
Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz todo ha um surdo descontentamento geral.
Todos os espíritos que se aplicam ao estudo dos característicos que prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal como já hoje fora de Portugal, que está eminente sobre nós uma de essas grandes transformações politicas que aparecem nos paizes livres sempre que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos diferentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.
Em Portugal os partidos acabaram ha muitos anos. Não existem divergências de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o paiz inteiro. Como o interesse do paiz desapareceu, a urna fica entregue ao arbítrio da autoridade, e os círculos eleitorais convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia elegem a maioria, os grandes proprietários com os seus caseiros e os seus amigos votam as oposições. A vontade popular é muda e passiva, o que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou secas.
Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma oposição perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa na Inglaterra os tories e os whigs, não podem também contar com uma maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscilantes o governo acode submissamente ás exigências dos pequenos corrilhos, promete, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae de fadiga, apupado e corrido.
Ha dez anos temos tido assim quarenta ministérios. Os ex-ministros constituem pequenas dinastias de pretendentes constantemente ávidos do poder. Estes pretendentes quando não têm forças necessárias para alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia burocrática, o partido que não têm na camara, e distribuem pelos seus amigos os empregos públicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.
O paiz inteiro vive em uma miséria baixa, em uma pobresa degradante, sem a altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação militar consegue dar-lhes pelo menos a atitude exterior da dignidade e da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e enérgico que caracterisam logo no primeiro aspecto físico os fortes cidadãos dos paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!
A classe operaria faz grèves, no que está inteiramente no seu direito, mas faz também literatura jornalistica e oratoria sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.
O comércio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está hipotecada.
Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!
Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo, dando dinheiro e recebendo papeis.
A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do século passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem bacharelar acerca da coisa publica e á custa da mesma coisa acerca da qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, falam muito na organisação sistemática do trabalho e nos destinos das classes laboriosas, mas não nos dão em si próprios o exemplo de que o primeiro dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é ele próprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as suas necessidades, descentralisar-se, trabalhar só, viver de si, que é o único meio de não ser explorado e de não explorar ninguém, afirmar-se finalmente na única fórma da independencia poderosa e legitima, na única dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociais, da moral e da justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a sua iniciativa: ela pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão ela caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas necessidades da vida ela fica fatalmente na orbita subalterna das simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da nossa alma pelas esferas transcendentes, temos obrigação de aprender a sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas também tinha um oficio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como tipografo ou como caixeiro que ele ganhava livremente como filósofo e como critico as consciências dos outros pela justiça.
A raça portuguesa foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos, pelo ouro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos ociosos, vaidosos, pusilânimes, supersticiosos e fanáticos. A religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente, dando-nos uma lei infalível para a consciência, prohibindo-nos pensar, assegurando-nos a bemaventurança com o fácil remedio do arrependimento, lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão de eles, lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demônio e a considerarmo-nos inocentes pela absolvição dos confessores. Com semelhante teoria o dever e a responsabilidade desaparecem. A consciência cae na imobilidade. As altas relações verdadeiramente religiosas do homem com Deus desaparecem na intervenção do clérigo que se encarrega de todas as acomodações com o céo. Quando um povo assim delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por ele a eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o domínio da sua consciência aos padres também a não póde ter para disputar a sua liberdade aos déspotas. O fanatismo prostra.
Depois a aliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque conseguiu separal-a do sentimento quá a enerva e do interesse que a rebaixa.
Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra servil. A nossa vocação expecial fora por muitos anos--sermos victimas; faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada, e ficamos em uma desocupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e passageira. Logo que deixamos de discutir os princípios da liberdade que então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os interesses pessoais e a ambição dos individuos.
Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos apenas hoje os benefícios que ele, depois de corrompido, faculta ás mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que ele tinha da mau na lia: a nobilitação dos parvenus, a falsa aristocracia, a falsa grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funcionalismo exuberante, a arrogância burgueza, o reinado da usura, a ruína do trabalho, a sofismação dos princípios, a decadência da arte, a depravação do gosto, a queda dos caracteres e dos espíritos para o fútil, para o ordinário, para o reles, para o chinfrim... Vêde a camara dos deputados: não é só a precisão na idéa, a firmeza nos princípios e a nobresa na palavra o que a ela lhe falta, falta-lhe também a dignidade do porte, faltam-lhe as maneiras, falta-lhe a toilette, e é quase tão ridícula pelos seus discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o mauvais lieu no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.
Sem os partidos fortes, único motor capaz de imprimir um jogo tão regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quase no estado atomistico de Hegel, na desaggregação, em virtude da qual cada molécula social, entregue por sua desgraça á liberdade quase absoluta, volteia ás cegas em busca de um novo centro de atração. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Itália. Na Itália porém a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso saudável de energia patriótica. Portugal não esteve talvez nunca tão perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.
O falarmos tanto em república depois que em Hispanha se aclamou a república demonstra a leviandade de quem se preocupa de escolher um nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma norma de proceder. A república hispanhola foi uma transformação necessária, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer não seja para nós um irremediável perigo.
Querem manter a ordem? Aqui têm um meio bem simples, bem pronto: Deixem imediatamente de manter os abusos.
Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a melhor politica.
Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A inteligência só longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.
Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador politico: Um homem de bem que sabe falar. Ora quando se não possa ser inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se fala, mas saiba-se como se é homem de bem.
Ter, como alguns ou quase todos os srs. deputados, uma opinião na camara e uma opinião diferente nos corredores de S. Bento, ter ainda além de isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalável, é possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa opinião se defende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião oscilante e mutável é comprometer inteiramente os princípios pela falta da virtude.
Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.
Em nenhum paiz do mundo os homens políticos são individualmente mais probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo eles procedem publicamente de um modo mais adquado para deixar em dúvida a consciência que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filipe era também um dos homens pessoalmente mais honrados que têm cingido uma corôa, e todavia poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de corrupção. Foi de esse bom homem que se criou a frase proudhouniana de que ele dominou pelo desprezo, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte pela admiração, Sula e Robespierre pelo terror.
Triste reinado aquele em que o socego e a paz publica se baseam no desdem publico! Debaixo de essa ataraxia superficial do povo está a gangrena e a dissolução latente do estado.
Quer-se a virtude publica, a virtude oficial, a virtude parlamentar, a virtude de Montesquieu, que é a mola indispensável de todo o estado popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á conveniência, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.
De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é em essa comprehensão e em esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a liberdade.
Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na imortalidade da sua alma, acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem imortal da perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu entrasse na gloria, assignalando-se imortalmente com os dois maiores atos que a homem algum foi ainda permitido cometer--dar a liberdade aos negros e dar a paz á America.
Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para fortificar a tua pátria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquilo que ela mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juízo: sê prudente e justo.
No caminho em que nos puzeram aqueles por quem nos temos deixado conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos domínios despóticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação geral, no conflito, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por mais bela que ela seja, é na existência uma circumstancia; a ordem é a condição essencial--intrínseca--da vida, a garantia do trabalho e a segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo, com a supressão do direito ao jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia social os tiranos. Já Aristóteles dizia que o déspota começa no demagogo; assim nasceram Pisistrato em Atenas, Dinys em Siracusa, Theagenes em Megara.
O nosso profundo mal está na nossa profunda indiferença. Aos que ignoram os perigos de esta enfermidade social lembraremos que quando Napoleão desembarcou no golfo Juan não foi a força dos que o defendiam que o reconduziu ao trono, foi a inercia dos que o não atacaram.
Ora as apatias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o desfalecimento e a morte.
Quando o principio vital da autoridade se acha ameaçado sob a sua forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse principio sob a sua forma filosófica--na razão.
O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o coloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais inteligentemente armadas e equipadas da Europa....
A cavalaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortável que as famílias que têm de estes estribos dispensam-se de ter fogão, e depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas famílias vão ler o jornal e tomar o café--para os estribos.
O ato de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os desde hoje e para todo sempre invenciveis.
Porque até aqui havia uma consideração que empalidecia os espíritos dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a artilheria varria os esquadrões e os corseis ofegantes, relinchando, com o pelo hirto e os ilhais rasgados pelas esporas, galopavam freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metálicas, cintilantes e ásperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos nossos soldados acontecia então esta catástrofe pavorosa--molhavam os pés!
De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca saiam das ambulâncias, um parlamentário ia para o inimigo, e nós pediamos tréguas de algumas horas para que a nossa cavalaria--mudasse de piúgas.
Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de que, para todos os efeitos do valor, da disciplina militar, da arte e do amor da guerra, a nossa cavalaria poderá sempre contar com este infalível penhor do cumprimento do dever e do desprezo da vida--ter os pés quentes!
Somente pede a equidade que, uma vez que a cavalaria tem estribos de sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.
Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e estabelecido em campanha o uso terrível das palmilhas impremiaveis, do sapato de ourelo e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--ele será feroz!
Foi submetido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao qual no passado numero das Farpas chamámos erradamente deputado por Tavira.
Que nos perdoe s.ex.ª--e Tavira!
Eis a moção:
«A camara dos deputados afirma que são inabalaveis no povo portuguez os sentimentos de amor ás instituições liberais, de respeito e afeição á dinastia constitucional, e que a nação fará os últimos sacrifícios para manter a independencia do reino contra quaisquer perigos que possam ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»
Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram aprovo todos os srs. deputados.
O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta frase:
«Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a noticia de que em esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional está ao lado de essa independencia, da ordem e da dinastia constitucional.»
Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara aprova que o simples juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para garantir nos diferentes pontos da Europa a incumplicidade de suas ex.'as nos crimes cometidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr. Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que aparecer.
E só assim suas excelências se poderão considerar regosijadoramente ilibados.
Logo na sessão imediata àquela em que foi aprovada a moção a que nos referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha desaparecido das estações oficiais, sem que se pudesse saber do seu destino o espolio de José Antônio, criado de servir, falecido em Lisboa ha dois anos.»
Depois de tão grave acusação levantada no mesmo seio do parlamento, não tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido imediatamente ao queixoso o espolio de José Antônio, ou nós não entendemos bem o espirito da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª illucidar os pontos da Europa sob a sua inocência e a dos seus colegas, mandando para a mesa a seguinte moção:
«A camara dos deputados afirma que não foi ela que furtou o espolio do criado de servir José Antônio, porque ela tem muito menos amor aos espólios dos criados do que ás instituições liberais, á monarchia e á independencia, e passa á ordem do dia.»
Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:
Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.
Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de Palhés e a vila de Mangualde.»
Projecto de moção oferecido ao sr. Barros e Cunha:
«A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde, passa á ordem do dia--e a abotoar-se.»
Entre as moções que propômos e aquela que o sr. Barros e Cunha adoptou ha apenas uma diferença: é que as nossas, posto o principio de sua ex.ª, são logicas, são racionais, baseam-se na verdade, referem-se a crimes cujos réus se não conhecem e em que a camara é inocente: por tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a crimes, cujos cúmplices estão processados--de aqui, inutil--e afirma o que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.
Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e Cunha e a camara asseguram que são inabalaveis no povo portuguez os sentimentos de amor ás instituições, de respeito e afeição á dinastia.
No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara afirmam que o povo conspira e que suas excelências mesmo têm conspirado--não certamente em favor das instituições vigentes nem da dinastia reinante.
O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua moção:
«Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as instituições e contra a dinastia... Esses perigos não posso ocultar á camara que existem... Extranho que o poder moderador não convocasse a camara... pelo duplo perigo que podia correr a dinastia, a liberdade e as instituições.»
Ora é este paiz, em que a dinastia, a liberdade e as instituições correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a independencia, contra as instituições e contra a monarchia, que a camara assegura ser inabalável nos seus sentimentos de amor ás instituições, de respeito e afeição á dinastia!
O partido reformista afirma que quando era poder luctava contra conspirações continuadas.
O partido histórico caiu victima de uma conspiração.
O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de Vasconcellos disse ha dias: «em este ponto (as conspirações) chegou-se ao mais a que se podia chegar.»
Efetivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguém conspira!
Sublime pátria! vai, prosegue magestosa e olímpica no teu destino luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr. Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras imortais costumam os artistas colocar uma Estrela; sobre a tua cabeça, ó pátria, o sr. Barros e Cunha, assim fixado como um simbolo, lembrará aos vindouros a pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias de ovos.
Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo fúnebre. O povo estava em alas nas ruas. As janelas cheias de senhoras. Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se, faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de conversação, de interesse e de verve. Os oficiais cumprimentavam as senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro, trocavam-se ponderações alegres, chistosas, grivoises, entre os que estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em funeral.
Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavalos e coberto com um longo pano preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada, entre as musicas fúnebres dos regimentos em fórma e os chistes das multidões indiferentes, o cadáver da senhora duqueza de Bragança.
Dizia-se falando-se de ela:
«Deixou pouco.»
«Que fez ela ao que tinha?»
«Que miserável! que mesquinha!»
E um jornal católico escreveu:
«O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em cautelas de vinte e cinco.»
Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os homens deseguaes.
Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que elas nos deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.
Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos, levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo, suspendem o trabalho e pensam um momento em aquele para quem principiou o descanço eterno.
E se alguém se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos que esses insultam a memoria de aqueles que nós amamos, e punimos por nossas próprias mãos esse agravo, punimol-o a varapau nas encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duelos.
As imperatrizes--coitadas!--têm de resignar-se á sua triste condição de imperatrizes: passar a vida entre gente medíocre, mercenária, interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, elas têm a sua liberdade de entes racionais e os seus affectos e dedicações de mulher escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro ente indiscutivel, de legarem como quiserem e a quem quiserem o seu triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em semelhantes condições e com eguais amarguras!
Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modéstia democrática o suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aqueles que reinaram tenham que descer tanto para que os consideremos nossos eguais! É criar uma nova gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que devemos a todos os nossos semelhantes que morrem, os príncipes tenham de considerar-se menos que quaisquer outros.
É certo que o Diario do Governo ordenou que tomassemos luto de dois meses pela princesa falecida. Como porém quando chegar a nossa vez de sermos levados para o cemitério, nos custará admitir que a circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise alguém a imprimir chocarrices acerca das nossas últimas vontades, nós proporiamos antes, como tributo ao falecimento da senhora duqueza de Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa ilustre que desapareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito pela mulher digna e virtuosa que morreu.
Por ocasião dos distúrbios populares com que a resistência aos impostos perturbou a ordem em Tavira, o comandante da força armada, chamado a reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns de estes feridos e dois mortos.
Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo programa, pela mesma natureza de elas, que não morria ninguém, que ninguém era ferido.
Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas, levantarem-se resistências, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes de mascaras, nos teatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas iluminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca semelhante coisa acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento, satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa idra da anarchia era recebida em Portugal como uma de essas doces e benévolas pessoas de cujos sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes jardins balsâmicos, das alegres partidas da croquet e do bom chá preto. Quando ás multidões portuguezas se anuncia «s.ex.ª a idra», as multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.
Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo usual, que fez o ilustre o pacifico sr. delegado do ministério publico perante o procedimento extranho do comandante da força armada, que desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr. delegado querelou do comandante da força armada. Querelou por que delicto? «Por abuso de defesa».
Oh! esta frase do ministério publico é boa, é bem symptomatica, é característica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo atacado a desordem, querelado pelo ministério publico--por abuso de defeza.
Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas clavinas, as suas baionetas e os seus sabres para que ele, uma vez armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas não abuse. Defenda-se, mas não arme as baionetas nem carregue as espingardas, nem desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar: contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos. Quantas vezes a gente se revolta por spleen, por tédio, por vapores, por simpatias gástricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã, espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma língua ensaburrada: «Meu Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao rei, ou tomarei bismuto?» E assim é que frequentemente faz a gente barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que em estes momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre fotografias, que lhe diga assim:--«A propósito; se fossemos tomar bíter? ou se comessemos uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esôfago? Anda! vem de aí, bom povo, jogaremos os dominós!»
E se o povo ainda assim resistir--diacho... então, que o exercito fuja!
Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o...
Mas se não foge, o ministério publico querela-o...
Por consequência o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação enérgica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite. Melicio vela!
A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão politica interna nem uma teoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um gesto sequer, que acusasse a inteligência, o espirito, a penetração, a vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira para provar ao paiz que não estava no período imbecil dos amolecimentos de cérebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de retórica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispêndio de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.
Consta que todos os partidos se aliaram para tão alta manifestação patriótica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o governo em esta importantíssima questão fisiológica. Antes mesmo de entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensável provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este fenômeno prévio: que ela não era demente. Produziram-se vários alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal de essa verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo, ouvir o sr. Melicio acerca da imortalidade da alma ou obrigar o sr. Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada. Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da retórica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.
O dia do grande espectaculo, da terrível prova chegou. As galerias encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solene: ela estava sentada nos seus logares, tinha a mão metida na abertura do colete e a barba feita. Havia um silencio palpitante e comovido. Então um sr. deputado, com voz pausada e firme disse:
«Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquele a quem verdadeiramente podemos chamar...»
Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante, bamboou a cabeça, puxou o catarro das comoções supremas, tomou na boca um golo de água, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A multidão imóvel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por um raio de entusiasmo fecundo e creador!
O orador, imergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquele a quem verdadeiramente podemos chamar»--O sol no ocaso! (Prolongados apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros. Vozes: Muito bem! muito bem!)
Tal foi a notável figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ela se acha das terríveis e misteriosas relações que podem prender no terreno da eloquência parlamentar a queda dos reis e os fenômenos meteorologicos.
Sim, ó príncipe infeliz e simpático, cavaleiro e bravo, que acabas de provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente arriscal-a e dirigil-a; que alias singularmente o valor e o senso comum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro... O senso comum com que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tépidos vales da tua pátria, nos subúrbios tranquilos de Sorrento e de Almafi, á beira dos golfos inundados de azul...
Sim, ó príncipe, aprende em essa figura retórica que Portugal te envia, a afinidade estreita que une para idênticos destinos os códigos das monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu? Escuta-o, ó príncipe! Tu és--o sol no ocaso. Teu augusto avô, que também abdicou, é o chefe de essa dinastia planetária; teu avô é Sol no ocaso I; tu és Sol no ocaso II; teu filho primogênito é sua alteza Sol no ocaso presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os deuses imortais, os deuses--guarda-sóis! Que tão augusta dinastia se prolongue por muitos e dilatados anos, até que a posteridade possa ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso Sol no ocaso XIX, por feliz antonomásia ditada pelo refrigério dos povos O entre nuvens com brisa fresca!
Tal foi o efeito de religioso acatamento que a desencerração do tão veemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a camara, que nenhum dos oradores que se ocuparam no parlamento da última evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome que não fosse esse. Somente: como a vivida imaginação, como a fervida fantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas cores próprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que nos referimos, sua alteza o príncipe Amadeu foi consecutivamente modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras seguintes:
Sol no ocaso... como ha bem pouco disse em esta casa uma eloquente e inspirada voz!
Sol no ocaso... qual lhe chamou momentos ha no recinto de esta erudicta assembléa, lábio tão selecto como atico!
Sol no ocaso... só me é licito empregar a frase penetrante que não ha muito ouvi cair ali assim da boca do disserto orador, meu ilustre amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).
Sol no ocaso... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito por todas as bocas excepto pela do fecundo e espontâneo orador, meu imortal amigo, o sr. Jayme Moniz!
(O sr. Jayme Moniz erguendo-se, colocando uma mão sobre o coração e estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).
Sol no ocaso... direi pela segunda vez, se a camara permite que comecemos a repetir aquilo que todos e cada um dos oradores têm já...
(Muitas vozes: Repita-se! repita-se! O sr. presidente: Deu a hora. Vozes: Muito bem! muito bem! Todos os oradores se cumprimentam uns aos outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns de aqueles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje são o andar de s.ex.ª, tira o Times do bolso e vão falar, uma idéa porém lhe ocorre, ele detem-se, toma rapidamente notas para uma interpelação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se malignos, rebolem; e o ministério, pálido, treme olhando Barros, enquanto sobre o craneo de este, ebúrneo e lustroso como o castão de uma badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vai a pôr na cabeça a mesa da presidência, julgando-a o seu chapéu. O sr. Lobo de Avila, muito comovido chora no seio do seu ex-correligionário politico e sempre amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o simpático sr. padre Boavida desaparece como um relâmpago, levado da sala em triunfo, ao colo de um desconhecido).
Àquele que jurou assassinar-me
Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo último paquete, a sua obsequiosa carta, o sendo ela anonima, tomo a liberdade de lhe dirigir a minha resposta por meio de estas obscuras paginas, as quais vejo com prazer que merecem ao meu amigo a benevolência de as ler. Como não posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir, consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:
«Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas Farpas o monarcha sobre cuja cabeça repousa a corôa imaculada do império da Santa Cruz? Tu tiveste essa ousadia, galego, pois bem juro-te que no dia...... de...... de este ano 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da manhã e aí far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não fujas, que é desnecessário! Hás de cair em meu poder mais tarde ou mais cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»
Omito em este extracto o dia e o mez--os quais o meu amigo fixa com a mais amável pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um desenhista que esboce a scena para os jornais ilustrados que houverem de ocupar-se do caso.
Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas... Porque, comprehende bem, que se o meu caro cometesse a inconveniencia de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta pregar-me o cérebro em um muro, eu poderia não achar de um prazer divino o passeio patriitico da sua bala através do meu craneo, e em suma, em um momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.
Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.
Meu amigo--Sem falsa modéstia e sem fingida humildade, francamente, sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promete a minha opinião:
Eu não mereço o fim aparatoso e dramático preparado ao meu pequeno e obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de uma misantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma concorrência perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as convidas e cordiais risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que me não entreluz a vida tão iriada de cor de rosa e de azul, que o meu empenho do a gozar por mais algum ano obrigue uma pessoa, tão rica como o meu amigo denota ser, a consumir a sua fortuna toda á espera do momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de conhecer a amável pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no Brasil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!
Resisto á morte unicamente por duas razões, das quais a segunda é que me apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a vida não vale os incômodos afflictivos que todas as retiradas trazem ordinariamente consigo.
Ora, deste modo, uma vez admitida a morte como o termo logico e fatal da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final fecha o discurso.
Demais conveiu-se em esta falsa opinião, toda favorável á memoria dos assassinados: que só ás victimas do homicídio se concede o prestigio com que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aqueles que entram na posteridade pelo belo pórtico por onde desapareceram, violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln e o jornalista Courrier.
Ninguém comemora nos registos brilhantes do martírio aquelas que, dentro da sua mina, enquanto cá fora uma bala amiga fixava o encéfalo de outros mais felizes em uma luminosa pagina de historia, sucumbiam obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos trabalhos forçados da imaginação e da inteligência!
Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal aplicado ao coração, ou por meio de um tiro disparado em um ouvido, que podemos mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos pálidos que Antony, menos desgrenhados que o príncipe Hamlet,--tão correctos que parecem filósofos ou tão pobres que parecem felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e implacaveis da desgraça!
No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguém o interesse que inspiram os destinos dramáticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!
Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia, afrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso, sentia a displicência, a melancholia.
Antes de ter a sua carta, sabe o que eu supunha que tinha?...
Vermes!
O meu amigo aparece-me do Brasil como uma revelação patológica. A sua existência risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu começava a nutrir--de uma solitária. Sei agora, com aquela viva alegria com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mistérios aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma parte integrante e interessantíssima da minha economia. Trago-o comigo como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é a minha enfermidade incurável, é a minha morte para de aqui a poucos meses, e todavia--como é comodo isto!--o meu amigo não me obriga a tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois golpes em cruz, nem usar uma bambinela sobre um olho. Como o meu amigo é leve! Não me doe, não me afronta, não me dá crescimentos, nem vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!
Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o pronto alivio nem lhe ministro águas de Vidago!
E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo o pequeno material que fornecia á critica, á maledicência, ao despeito de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por ventura me amam... vou descansar para debaixo dos ciprestes--bastante para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens, que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da terra, que me não expulsarão nunca--eles!--da sua convivência gulosa, mas discreta.
A única diferença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que eles terão sofrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades mortais, uns terão tido um tumor no cérebro, um amolecimento na espinha, um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o caráter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!
Espalhada a noticia da minha morte, os benévolos rumores simpáticos zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.
--Coitado! ainda ontem o vi passar com umas luvas amarelas!
--Sabem... era aquele com quem nós embirravamos...
--O que trazia o bigode assim?...
--Esse mesmo!
--Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume...
E algumas outras coisas doces e impereciveis.
E do meu amigo dirão apenas:
«A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»
Não, o belo papel que me destina no drama que imaginou nunca lho agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquilo que o meu amigo tão eloquentemente chama a corôa imaculada do império de Santa Cruz, isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Majestade Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me consta que entre essas cabeças Sua Majestade tivesse especialisado designadamente a minha... Ora, se Sua Majestade se não pronunciou agora diretamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com os apetites do príncipe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão branco.
Na camara dos pares alguns prelados da egreja portuguesa convidaram com encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar, promovendo a fundação de seminários de instrução eclesiástica, onde os soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chamejante e civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.
Sem desaprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão, perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos sertões dos domínios portugueses não lucraria também alguma coisa em que os dignos prelados, despachados para aquelas possessões fossem ocupar nas suas dioceses os únicos logares que convém á missão edificante e redemptora dos representantes de Cristo o dos alumnos de Paulo. Porque, emfim, não será precisamente porque suas excelências passeiam no velho mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque na camara dos pares do reino suas excelências lavram finamente algumas figuras de retórica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros selvagens, confiados aos cuidados espirituais de suas excellenecas, encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os instrua. Que por tanto nos queiram permitir os senhores prelados do ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquência de suas excelências o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com o vate:
Aos infieis, senhores, aos infieis!
de entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares resalta com o relevo poderoso com que se acusam as fortes individualidades uma frase singularmente cortante, ríspida, sincera do ministro do reino.
O sr. Antônio Rodrigues Sampaio, oferecendo á camara, do seu logar de ministro da corôa um volume do Espectro, disse «que se honrava mais de ter feito aquele livro do que de sentar-se em aquele logar, e que, se a camara achasse as duas coisas incompativeis, ele abandonaria a sua pasta para ir adoptar o seu livro.»
O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e pela sua verve de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos de membro do actual gabinete.
É fácil guerra a que se faz a um escritor no momento traiçoeiro em que ele não dispõe nem da sua liberdade nem da sua pena para as represálias terríveis do talento injuriado. Não ha nada mais comodo para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem oportunidade de poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade coloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos efeitos passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.
O processo de aquele que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou iníqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inúteis e tremulas no fundo dos seus buracos enquanto o acusado, combatendo, fazia estremecer o chão.
Ele injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando ela tem na sua máxima força o poder e o mando, quando ela tem a ordem guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa, era fazer uma resistência e era cumprir um sacrifício.
Falam-nos na honra inviolável da mulher honrada. Mas perdão... Quantas mulheres honradas têm sido difamadas na impunidade das confidencias amigaveis, com a hipocrisia das reticencias, com a fatuidade dos sorrisos, com a malevolência das alusões?
Quantas reputações puras têm alguns demolido pelos efeitos corrosivos de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que eles, a rir, entre amigos, fumando um carrajal, no Aterro ou no Chiado, cuspiram desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!
Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade que muitas vezes têm os senhores mesmos feito esta acção torpe e covarde, não declarando-a em um livro, lançando-a na discussão e respondendo por ela, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de salão, como uma curiosidade galante, como uma crônica de moda, lançada de boca em boca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da contestação, da policia correcional, do veredictum do publico, e das bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama difamar. Isso é que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra domestica.
A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de virtuosa, a consagração de esse epiteto provem-lhe da discussão publica da sua virtude.
Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como a victima do Espectro, sair gloriosamente da galeria das calumniadas! As martyres da surda maledicência obscura e irresponsável essas é que ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.
Preferir a paternidade de um pamphleto escrito com o desinteresse da paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo. Porque em verdade ser apenas um ministro--único estado social que nos dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino. Para que uma existência actue assignaladamente nas relações dos homens e marque o sinal da sua passagem é preciso que ela se afirme eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem, pelo sacrifício ou pelo talento--que são as três máximas constelações do trabalho, constituindo a família, a obra ou o combate.
Aquele que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espíritos, inclinando as vontades, influindo nas consciências, esse é o homem que viveu.
Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter passado no mundo.
O governo em Portugal é apenas o capitólio das mediocridades venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.
Durante o espaço da tempo a cuja crônica este volume se refere saíram á luz alguns novos jornais. de estes conhecemos três: a Regeneração, a Patria e a República. Estes três jornais, como a maior parte dos periódicos portuguezes são--anônimos.
Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa alguém por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o único que a lei portuguesa não só não pune, mas auctorisa e regula é este:--não assignar.
Ha apenas em Portugal um só periódico politico em que cada artigo é assignado pelo jornalista que o fez. Este periódico é o Diario da Tarde, folha portuense, onde cada um dos redactores não só aceita mas declara aceitar todos os dias, por meio da sua assinatura, a responsabilidade completa de toda a infracção cometida, bem como os effeiios de todas as resistências, de todas as controvérsias, de todas as antipatias que tenha podido suscitar.
Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escritores portuguezes têm o preciso valor e a necessária independencia, ninguém mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um tem de emitir pela publicidade o seu pensamento.
A primeira razão por que se não assigna é esta:
A empresa do jornal, servindo-se de ele para qualquer fim que seja, convém-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua machina. Para que isto se consiga toma-se necessário estabelecer como lei fundamental da eficacia do aparelho jornal: que o que escreve se eclipse inteiramente por detrás do que paga. Isto é apenas uma das muitas explorações fatais da inteligência e do trabalho pelo dinheiro. em este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da dignidade e da razão.
Por um lado o escritor, acobertado e escondido sempre no anonimo, perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a firmeza dos seus princípios e a logica do seu sistema moral. Começa por transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é responsável, como no fim de contas ninguém o conhece, o auctor resigna-sel É assim que se fazem os escritores indignos, porque na imprensa é indigno de colocar uma palavra todo aquele que não tem uma opinião. O escritor «de manivela» é um escândalo para a razão e uma catástrofe para a justiça.
Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus anúncios, póde sem vexame pôr ao trabalho literário o seu aguadeiro no logar da entidade anonima da sua redacção. E assim os periódicos enchem-se naturalmente com a colaboração gratuita ou barata dos troisièmes dessous da inteligência e do estudo. de aqui a progressiva decadência que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade de este resultado: quanto mais se lê peor se escreve.
Ha outros casos em que o escritor, apesar de inteiramente livre para assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa imediatamente a condemnação da competência moral do quem assim procede.
Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da publicação de ela não virá consequência nenhuma, então não se escreva. Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Suprimam, ao povo que lê durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inépcias que ele absorve em esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do jornal rouba-o o jornal á educação do povo.
Se o escrito lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso que a tome exactamente aquele que lançou esse escrito; se ele encerra apenas uma idéa, o publico a quem ela se oferece tem direito de saber quem é aquele que lha envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de galantine, suspeito de uma e da outra se me disserem que a galantine foi feita pelo sr. Jara, boticário, e a magnezia pelo sr, Colombe, salchicheiro.
Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de que nunca hei de saber quem eles são--dão-me exactamente aquele receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de magnezia.
Tinhamos já Melicio, o José Prudhomme constitucionalismo portuguez. Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o Pickuick do sistema representativo nacional.
Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um pórtico, abalisam uma época, enquadram um século.
Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:
«Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, apareceram sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um de eles em sua respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas bocas rompeu para o século atônito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os princípios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, enquanto eles dois, na frente, deitando sempre torcida, alumiavam. Se este século imortal não isempto de pequenas sombras intermitentes que algumas vezes--ai de nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque eles--o discreto Pickuick e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se detinham,--geniais, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»
O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentais e eternos, têm feito para o movimento geral das idéas e para a afirmação histórica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A posteridade, dominando o grande conjuncto dos sucessos é que ha de fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exíguo dos contemporâneos não permite á simples crônica o descriminar todas as guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quais o historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo actual se ligavam reconditamente ao impulso magnético de estes dois varões extraordinarios!
No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes eléctricas que vibram a opinião se explicam os grandes efeitos no paiz produzidos pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha scientificamente este fenômeno para muitos de nós despercebido:--Barros ter sede e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o estado deitar a tênia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o barrete de algodão branco--casto simbolo dos sonhos imaculados--e a nação ter sono! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hipocrisia!
Agora mesmo em este momento, quando as agitações da Hispanha comovem os espíritos patrióticos, quando as negras apprehensões ibéricas ensombram as alegrías da Baixa e seus inocentes jogos--outrora tão puros!--quando se espera o acordo das grandes potencias para a fixação dos nossos destinos nacionais, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que esta questão foi cortada pela pena fulminante de Melicio em uma correspondência que o Comércio do Porto se resignou a publicar nas suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas ela se gravasse em letras de ouro! Não se tratava ainda então de nacionalidades nem de aggregações, falava-se apenas da configuração do solo e dizia-se em um documento hispanhol--a Peninsula Iberica, ao que Melicio respondeu com um terrível brado: «Peninsula ibérica, não! nunca!»
Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á geografia--e á canalha!
Peninsula ibérica, tu! tu reles pedaço da superfície solida do globo cercada de água por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das penínsulas, a Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quiseres menos isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de pecego. Mas península!... Olha quem! Querias-te fazer península, minha tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó perra vil!
E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão ibérica, os lusos apelam ainda para as potencias, e já se não lembram do que devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!
Falais na aliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na benevolência do imperador Guilherme... Pudera! aquele que acabou com as penínsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos congressos... Boa dúvida! Não que ele ainda a tem, á cabeceira da cama, a sua bengala invencível, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquela que foi mais tarde a virtuosa mãe de seus filhos!
Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada botão de seu colete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de olho de perdiz!
Se o extrangeiro vier, nós, tranquilos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da pátria--e das penínsulas!
Agora--Barros.
Este publicou o seu relatório sobre a emigração portuguesa para o Brasil--grande obra a que prometemos consagrar estudos criticos consecutivos durante um ano! em este livro o imortal filósofo explica o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o aludido fenômeno social para todo sempre fora de controvérsia e de discussão.
Como o explica, como o justifica ele?
Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera ocorrido a ninguém...--Pelo precedente das andorinhas!
Sempre que nós temos tido a imerecida honra da poder contemplar com atenção e respeito a configuração piramidal da cabeça do grande homem, sempre que temos atentado, recolhidos e mudos, no seu belo craneo, magestosamente elevado no ocipício, como se ele usasse uma cuia--por dentro,--nós temos dito do varão ilustre, como Chenier de si mesmo:
«Ele tem alguma coisa na cabeça!»
Oh! sim, ele tinha em ela a teoria das andorinhas, esquecida ao mais excêntrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o celebre amigo dos pássaros, um dos mais interessantes perfis da galeria parisiense de Champfleury!
Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter um verdadeiro rasgo de gênio. Mas o gênio não surge de repente, o gênio é a paciência, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no intelecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei imortal!
Ponderemos o sábio, absorto, contemplativo, extático, considerando simultaneamente em suas intimas correlações e consanguíneas afinidades o povo--e o passarinho!
Ele, o filósofo, sabe bem o que é a miséria no proletariado, ele conhece de certo Ginx's Baby, o monstruoso producto humano das falsas civilisações, ele tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe arranquem já um dente da boca, ao grande homem, se ele não tiver do pauperismo, da fome, do salario e dos sistemas ideais de Fourier, de Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a que lhe assiste a respeito das unhas dos seus próprios dedos!
Previamente armado de tão sólidos princípios e de tão profundos estudos, como seria belo o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e sacrosanto em que a idéa lhe veio!...
Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sábio no bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de lírio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao toque poético das ave-marias, como se permitiria dizer um serralheiro portuguez em grève. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos laranjais em flôr, os zagais tangendo frautas ou dançando na relva com suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do coruchéu da velha ermida em ruínas--- elas, as duas, as misticas amantes do filósofo, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as amplidões do azul em fantásticos arabescos....
E então seria que no espirito apocalíptico do mestre, na mente do magnânimo doutor em êxtase, de repente, como um estalo, como um abcesso que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veio a idéa de que a andorinha poética explicava satisfactoriamente o operário faminto, e que evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando três tostões por dia, do que a avezinha inocente que esvoaça em torno de gótico balção, ou paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no cálice da rosa!
Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e Cunha! Como é bem Paulo e Virgínia! bem Menino da mata e seu cão Piloto! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!
Não se detiveram porém aí os serviços prestados ao mundo pelo grande homem no breve decurso de tempo a que esta crônica se refere.
Mais dotou ele a sua pátria com a idéa de uma economia, cujo alcance profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento e desdem o facalhão legendário com que a s.ex.ª aprouve arrancar a manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados públicos, em que ela se comia, e dos escritos reformistas, em que ela se embrulhava!
O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo recebia sucessivamente em três botes três visitas--a do porto, a da saúde e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:
Que em vez de se gastarem três botes para três visitas, fossem as três visitas em um só bote!
E foi o que o fogoso tribuno imediatamente propoz ao governo em um discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.
Se a politica não aproveitar esta proposta do sábio, que a arte pelo menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos homens o ato de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão portentoso que pretendeu economisar á pátria--dois botes!
Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o Pickuick de Silves, regressando das cortes do seu paiz, austero e simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegúrio e pedindo a extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que ele, o sublime mártir da pátria, está impossibilitado de abrir pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por ele com mão firme ás luctas acerbas do funcionalismo no reino dos seus maiores!
O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este herói--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó ilusão!--eles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.
No mundo civilisado está-se tratando em este momento de fazer isto--um caminho de ferro de 1:600 léguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.
Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de um mez, estendendo-nos em um «fauteuil», abrindo um livro, acendendo um charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais extranhas regiões, os mais opostos climas, com as suas novas paizagens, novos céus, novas floras e novas faunas.
Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.
Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas catedrais de cupolas de ouro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil pessoas.
Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tártara, rebolindo-se nos profundos ruidos do seu comércio com a Siberia, com a Boukharia e com a Russia européa.
Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos felpudos de merinos e de martas famosas, de aquelas martas de que o Czar deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!
Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o termômetro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão gelados nove meses por ano.
Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os Strelitz.
Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinário as caravanas do chá....
E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada, comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara como um de aqueles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se soubermos o mantchou e o chinez, cujo alfabeto tem apenas 36:785 letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e literatura», do celeste império, sermos aprovados mandarins e usarmos no chapéu o botão de ouro que distingue os literatos dos demais súbditos do grande Filho do Céu.
E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absinto e de uma caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o Trem expresso--o herói do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo, fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, enquanto ele galga os abismos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!
E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como através de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um barril imundo para um fino cristal facetado!
A camara dos srs. deputados....
Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs. deputados, que foi, durante este último lapso de tempo, o nosso encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ela, que se vai fechar, e este livrinho, que vai chegar ao seu fim--nós estamos como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Artur, ao primeiro cântico da cotovia, tem selado o cavalo que escarva o chão e remorde o freio, enquanto apoiada ao balção rendilhado a bela, a linda princeza apaixonada, envolve o cavaleiro matinal em um longo olhar de amor, e permanece comovida e pálida para lhe enviar, quando ele for desaparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquele aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco que palpita, ao longe!
E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça, abrimos da mão as rédeas e as clinas do ginete, descemos o pé do estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....
A camara pois--diziamos--querendo colocar-se ao par do que a civilisação prática de mais arrojado á distancia de alguns centos de léguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar um fenômeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:
Pegar em uma garrafa e meter-lhe dentro um cântaro, um caneco, um barril, uma pipa ou um tonel!
E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e revista, a celebre e imortal lei--do engarrafamento das vasilhas, na qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:
«Ficam também auctorisadas as câmaras municipais, nos termos do artigo antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaisquer vasilhas.»
Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face da Europa a este milagre:
Engarrafar vasilhas.
E com isto, ó camara, adeus! Tu vais regressar em breve da scena parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolável da vida intima. Vai em paz, amiga; volta aos cuidados bucólicos e simples das tuas couves, á guarda inteligente e pacifica do teu galinheiro, aos sucos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus bons lenções duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã camoeza!
Vai, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!
Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma de estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se seja uma causa de atividade ou um instrumento de trabalho: um operário, um capitalista ou um sábio.
Ora nenhuma de aquelas coisas tu tens, e nada de isto tu és.
Profundamente medíocre, o teu destino é seres profundamente obscura.
Uma coisa extremamente difícil, que não conseguirás nunca, é fazer leis; mas ha outra coisa muito fácil, para que tu estás superiormente habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.
Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás grande.
Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem, no mundo moderno, na sociedade actual, quem está em esse caso só tem um meio de não ser ridículo:--é ficar em casa.
Cá fora quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser trinchado por ela.... Fica pois em casa, tranquila no teu rapé e no teu voltarete.
Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões um falso ar de homens do mundo com que só eles se enganam. Chamam-se a si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres verdadeiramente elegantes não aceitam senão com repulsão os contactos das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão desprezo--porque eles não têm nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem toilette, nem ortografia, nem mão de rédea!
O que estes são--na elegância, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o, como o foste--na politica! Não tornes cá.
Adeus. Vai com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas moções de ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus discursos,--que tu usas patchouly e comes alho.
As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, reúne em um único registro canônico onze fascículos integrais do Project Gutenberg, de 1873 a 1883, conservadoramente normalizados para PT-BR moderno.
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