Universo da obra
Universo da obra
Decorei finalmente as endeixas que tamanha impressão me fizeram, da primeira vez que as ouvi, pela sua singeleza
A menina canta-as todas as noites, ao nascer da estrela d'alva. É uma Ave-Maria graciosa e pura; inspirou-a o amor filial santificado pela religião.
Tornei a ouvi-la ontem, e hoje ainda ouço o eco a murmurejar-me dentro d'alma.
Quero escrevê-la.
Os homens ricos de prazeres e afeições, desfloram apenas as suas alegrias; quando o quisessem, não teriam tempo de estancar-lhes a última gota de essência.
Fazem como as crianças que babujam e provam de todos os frutos, e de nenhum se fartam.
Esses pródigos de sua alma não compreendem decerto a usura dos pobres e deserdados, como eu, quando Deus lhes depara no deserto da vida com um óbolo de prazer.
Avaro de sua migalha, que lhe é tesouro, não se cansa de a gozar; vive nela, sonha dela. Quer senti-la por todos os modos e a todos os instantes.
Assim fui eu com aqueles versos, que muitos acharão mesquinhos; mas, ou fosse pela voz harmoniosa que os dissera, ou pelo desvelo e saudade que respiravam, ou pela cadência suave do ritmo; me infundiram não sei que doce melancolia.
É outra cousa que os felizes não compreendem, como a melancolia é supremo júbilo para as almas imersas num continuado descrer e numa acerba tristeza.
Mas a canção... Não me saciei de a escutar, de a recordar, de a repetir às vagas que rumorejavam na praia. Quero senti-la pelos olhos. Já a ouvi tantas vezes, ainda não a vi.
Esquecer-me-ia?...
Não! -- lembro-me...
Ave, Maria! Ave, estrela, Formosa estrela do mar! Dá-me novas de meu pai, Que se foi a navegar. Por esses mares dalém Vai seu brigue a bolinar. -- Leme á orça! Molha a vela! E deixa o vento soprar. A borrasca o não assusta: Não se teme de afrontar; Mas eu que temo por ela Vivo somente a rezar. Fio de ti, minha estrela, Que o protejas sem cessar. Faz que bem cedo ele possa A minha mie abraçar. Dá-lhe tempo de bonança, Mares de leite a surcar; Vento á feição, quanto baste Para depressa chegar. Ave, Maria! Ave, estrela, Formosa estrela do mar! Cheia de graça tu brilhas A quem te sabe adorar.
Onde aprendeu aquela menina esta oração?... Quem lha ensinou? Por que a diz ela todas as noites?
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