Universo da obra
Universo da obra
Desabava a tempestade, que desde o transmontar do sol estava iminente sobre a costa.
Passaram algumas lufadas rijas e ardentes: eram as primeiras baforadas da procela. Pouco depois caiu a refega impetuosa e cavou o mar, levantando enormes vagalhões.
Aires até ali bordejava com os estais e a bujarrona, entre as Ilhas dos Papagaios e a do Breu, mascarando a balandra de modo a não ser vista da escuna, que passava ao largo com as gáveas nos rizes.
Ao cair da refega porém, mandou Aires soltar todo o pano, e meter a proa direita sobre o corsário.
-- Cheguem à fala, rapazes, gritou o comandante.
Cercaram-no sem demora os marujos.
-- Vamos sobre a escuna com a borrasca, desarvorados por ela, traquete roto e o mais pano a açoitar o mastro. Percebeis?
-- Se está claro como o sol!
-- Olhai os arpéus, que não nos escape das garras o inimigo. Quanto às armas, aproveitai este aviso de um homem que ele só a dormir entendia mais do ofício, que todos os marítimos do mundo e bem acordados. Para a abordagem não há como a machadinha; apunhada por um homem destemido, não é arma, senão braço e mão de ferro, que decepa quanto se lhe opõe. Não se carece de mais; um cabide d'armas servirá para a defesa, mas para o ataque, não.
Proferidas estas palavras, tomou Aires a machadinha que lhe fora buscar um grumete e passou-a na cinta sobre a ilharga.
-- Alerta, rapazes, que estamos com eles.
Nesse momento, com efeito, a balandra acabando de dobrar a ponta da ilha estava no horizonte da escuna e podia ser avistada a cada instante. À advertência do comandante, os marujos dispersaram-se pelo navio, correndo uns às vergas, outros às enxárcias e escotas de mezena e traquete.
No portaló Aires comandava uma manobra, que os marinheiros de sobreaviso executavam às avessas; de modo que em poucos momentos farrapos de vela estortegavam como serpentes em fúria, enroscando-se ao mastro; levantava-se de bordo medonha celeuma; e a balandra corria em árvore seca arrebatada pela tempestade.
Da escuna, que singrava airosamente, capeando à refega, viram os franceses de repente cair-lhes sobre como um turbilhão, o barco desarvorado, e orçaram para evitar o abalroamento. Mas de seu lado a balandra carregara, de modo que foi inevitável o choque.
Antes que os franceses se recobrassem do abalo produzido pelo embate, arremessavam-se no tombadilho da escuna doze demônios que abateram quanto se interpunha à sua passagem. Assim varreram o convés de proa a popa.
Só aí encontraram séria resistência. Um mancebo, que pelo trajo e aspecto nobre, inculcava ser o comandante da escuna, acabava de subir ao convés, e precipitava-se contra os assaltantes, seguido por alguns marinheiros que se haviam refugiado naquele ponto.
Mal avistou o reforço, Aires que debalde buscava com os olhos o comandante francês, pressentiu o na figura do mancebo, e arrojou-se avante, abrindo caminho com a machadinha.
Foi terrível e encarniçada a luta. Eram para se medirem os dois adversários, na coragem como na destreza. Mas Aires tinha por si a embriaguez do triunfo que obra prodígios, enquanto o francês sentia apagar-se a estrela de sua ventura, e já não combatia senão pela honra e pela vingança.
Recuando ante os golpes da machadinha de Aires, que relampeava como uma chuva de raios, o comandante da escuna, acossado na borda, atirou-se da popa abaixo, mas ainda no ar o alcançara o golpe que lhe decepou o braço direito.
Um grito de desespero estrugiu pelos ares. Soltara-o aquela mulher que lá se arroja para a popa do navio, com os cabelos desgrenhados, e uma linda criança constrangida ao seio num ímpeto de aflição.
Aires recuou tocado de compaixão e respeito.
Ela, que chegara à borda do pavês de ré precisamente quando o mar rasgava os abismos para submergir o esposo, tomou um impulso para arrojar-se após. Mas o pranto da filha a retraiu desse primeiro assomo.
Voltou-se para o navio, e viu Aires a contemplá la mudo e sombrio; estendeu para ele a criança, e depondo-lha nos braços, desapareceu, tragada pelas ondas.
Os destroços da tripulação da escuna aproveitavam-se da ocasião para atacar à traição Aires, que eles supunham desprecatado; porém o mancebo apesar de comovido, percebeu-lhes o intento, e cingindo a criança ao peito com o braço esquerdo, marchou contra os corsários, que buscavam nas vagas, como seu comandante, a última e falaz esperança de salvação.
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