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O Sal na Nossa Ferida

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O Sal na Nossa Ferida

Capítulo 2 · O Sal na Nossa Ferida

Relatório do Dia

2 de 6 ≈ 8 min de leitura

CAIO

O vidro duplo com isolamento acústico funcionava exatamente como especificado no projeto. Da minha cadeira, no último andar do prédio da Construtora Valente, eu conseguia ver o mar quebrando contra as pedras do Ponta Negra, as traineiras de pesca voltando para o cais com a maré, o vento dobrando as copas das amendoeiras na orla. Eu via o movimento, mas não ouvia nada.

A sala inteira era um exercício de contenção térmica e sonora. O ar-condicionado mantinha a temperatura em cirúrgicos dezenove graus — um contraste calculado com o mormaço violento que, eu sabia, derretia o asfalto lá fora.

Controle. Era o que essa sala vendia. Era o que eu comprava todos os dias quando passava pela porta.

Na minha frente, a mesa de nogueira maciça estava coberta pelas plantas do Maré Viva Resort. Não as renderizações 3D em papel brilhante que o marketing mandava para os investidores em São Paulo. Eu estava olhando para a topografia real. As cotas de nível. O mapeamento do solo. A linha vermelha fina que delimitava os quatrocentos metros de praia que o projeto original do meu pai planejava engolir.

Apertei a ponta da lapiseira metálica contra a planta, redesenhando mentalmente a curva de contenção do manguezal. A engenharia é a ciência de prever como e onde uma estrutura vai falhar. Se você calcula a carga correta, o edifício fica de pé. Se você ignora a fundação, a gravidade cobra o preço. Meu pai nunca ligou para a fundação. Ele construía baseado em força bruta e influência política.

Eu passei os últimos dez anos tentando consertar a estrutura por dentro. Reduzindo o impacto. Comprando brigas silenciosas com o conselho de administração. Tentando fazer o nome Valente significar algo além de predação.

Duas batidas secas na porta de carvalho quebraram o vácuo da sala.

— Entre — eu disse, a voz nivelada, sem tirar os olhos da planta.

Tiago, um dos assessores jurídicos juniores, abriu a porta. Ele usava um terno cinza bem cortado, mas o nó da gravata estava frouxo e havia uma camada fina de suor na testa dele, apesar do ar gelado do prédio. Ele segurava uma pasta parda contra o peito como se fosse um escudo.

— Com licença, Sr. Valente.

Eu odiava o título. "Sr. Valente" era meu pai, operando nas sombras com charutos e promessas compradas. Mas eu nunca corrigia os funcionários. A distância era necessária.

Soltei a lapiseira. Ela rolou dois centímetros sobre o papel vegetal e parou. Encostei as costas na cadeira.

— O que foi, Tiago?

— Acabamos de receber uma notificação da Vara da Comarca, senhor. — Ele engoliu em seco, o pomo de adão subindo e descendo rápido. — Um pedido de tutela de urgência antecipada. Liminar para suspensão imediata da movimentação de terra na Ponta do Sol.

Minha expressão não mudou. Meu batimento cardíaco permaneceu nos mesmos sessenta e cinco compassos por minuto. Problemas jurídicos eram física aplicada. Causa e efeito. Nós tínhamos as licenças da prefeitura. Tínhamos o Estudo de Impacto Ambiental. Eu sabia que o EIA tinha zonas cinzentas — as mesmas que eu estava tentando mitigar —, mas, no papel, a obra era legal.

— Baseado em quê? — perguntei, estendendo a mão.

Tiago hesitou antes de dar um passo à frente e depositar a pasta na minha mesa, cruzando o espaço impecável sobre as plantas.

— Irregularidades no EIA. Omissão da zona de desova no manguezal e questionamento constitucional sobre a privatização da faixa de areia. A argumentação é... muito sólida, senhor. Eles pediram o embargo até que uma nova perícia federal seja feita. Se o juiz despachar, as dragas vão ter que desligar os motores amanhã cedo.

Um embargo de trinta dias significava maquinário parado. Juros acumulando. O conselho entrando em pânico. Meu pai ligando de São Paulo para exigir que cabeças rolassem. Logística pura. Nada que não pudesse ser resolvido.

Puxei a pasta. O papel era áspero sob os meus dedos.

— Quem está assinando a petição? O Ministério Público? Uma ONG?

— Uma advogada particular, senhor. Representando a associação de pescadores locais em conjunto com o Instituto de Defesa Costeira. Ela protocolou a liminar agora à tarde.

Abri a pasta.

Meus olhos escanearam a formatação do documento. Arial, tamanho doze. Espaçamento um e meio. O texto era limpo, direto, sem excesso de latinês ou gordura argumentativa. Quem escreveu isso não estava tentando impressionar o juiz com erudição; estava construindo uma gaiola de ferro, parágrafo por parágrafo.

Fui direto para a última página. Para a assinatura.

A luz do fim de tarde, filtrada pelo vidro fumê, bateu sobre as letras pretas impressas no rodapé.

Lia Cardoso.

OAB/SP 412.890

O diafragma parou por dois compassos. Só dois.

Eu não pisquei. Não movi um milímetro do rosto. Mas, sob o tampo da mesa de nogueira, a sola do meu sapato pressionou o chão acarpetado com tanta força que o arco do meu pé doeu.

A imagem do farol invadiu minha cabeça antes que eu pudesse bloquear. O cheiro de chuva. A voz dela cortando o vento.

Lia Cardoso.

Dez anos. Eu calculei a probabilidade do retorno dela centenas de vezes. Criei cenários. Projetei estruturas de contenção. Eu sabia que a família dela tinha sido esmagada pela minha. Sabia o que a minha covardia aos dezessete anos tinha custado. Eu passei a última década tentando compensar um erro que não tinha compensação, usando o poder do meu pai para tentar limpar a sujeira que o dinheiro dele deixava para trás.

Mas a matemática é implacável. Toda ação tem uma reação igual e oposta.

Ela não voltou para pedir desculpas. Ela voltou com uma liminar perfeitamente estruturada para destruir a fundação do projeto de um bilhão de reais da minha família.

— Senhor? — a voz de Tiago pareceu vir debaixo d'água.

O som me puxou de volta para o ar-condicionado a dezenove graus. Forcei o diafragma a expandir. Puxei o ar de forma controlada, no exato tempo de quatro segundos que uso em reunião de conselho.

— O departamento jurídico do prédio já está com a cópia? — minha voz saiu idêntica ao que era cinco minutos atrás. Fria. Metálica. Sem variação de tom.

— Sim, senhor. A equipe do Dr. Medeiros está analisando a tese. Eles perguntaram qual é a diretriz. Como devemos proceder com as dragas amanhã se a liminar cair?

Lembrei de Lia no farol. Da teimosia absoluta nos olhos castanhos escuros. Ela não daria um tiro de aviso se não estivesse pronta para o combate corpo a corpo. Onde quer que ela estivesse hospedada agora, ela já sabia a resposta da prefeitura, a resposta do juiz e a nossa.

Fechei a pasta parda. O som do papelão batendo contra a mesa soou alto na sala isolada.

— A diretriz é não subestimar quem escreveu isso — eu disse, mantendo os olhos na pasta fechada. — Mandem Medeiros preparar a defesa técnica. Se a liminar sair, paralisem as dragas imediatamente. Não vamos dar a ela o argumento de descumprimento de ordem judicial.

Tiago piscou, confuso. Meu pai teria mandado acelerar as máquinas durante a madrugada para causar o dano ambiental antes do juiz acordar.

— Paralisar, senhor? Isso custa meio milhão por dia em logística.

Levantei os olhos para Tiago. Foi o suficiente. Ele recuou meio passo.

— Paralisar. Pode sair, Tiago.

— Sim, Sr. Valente.

Ele virou as costas e saiu rápido.

A porta de carvalho se fechou com um clique pesado e hermético. O vácuo acústico engoliu a sala de novo.

Lentamente, levantei a mão e esfreguei o polegar sobre a junta do indicador. Minha pele estava gelada. O silêncio pressionava meus tímpanos.

Não olhei para as plantas do resort. Não olhei para o mar lá fora. Deslizei a mão de volta para a pasta parda e a abri novamente na última página.

Fiquei encarando o nome impresso. Oito letras em tinta preta que acabavam de implodir a fundação de tudo.

O Sal na Nossa Ferida

Sinopse

Lia Cardoso voltou para Maré Alta com duas coisas na mala: um processo judicial e dez anos de raiva bem guardada. Caio Valente destruiu sua família quando os dois tinham dezessete anos. Agora ela tem as ferramentas legais para destruir o que ele construiu. O problema é que Caio voltou diferente — carregando culpa onde ela esperava arrogância, e um desejo que ela não sabe se quer mais matar ou alimentar. Entre audiências públicas e encontros que não deveriam acontecer, Lia precisa escolher: a vingança que a manteve de pé por dez anos, ou a pessoa que ela pode ser quando parar de carregar o ódio. O mar não escolhe lados. Mas o sal fica.

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