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Patkull

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Patkull

Capítulo 1 · Patkull

Ato I

Ato I Personagens PERSONAGENS

PATKULL, gentil-homem da Livônia.

PAIKEL, alquimista.

NAMRY ROMHOR, noiva de Patkull.

BERTHA, namorada de Paikel.

WOLF, pajem.

UM CRIADO.

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Ato I

Uma sala em casa de

NAMRY ROMHOR -uma porta no fundo -portas laterais

-mobília da época.

Cena I NAMRY ROMHOR senta a ao pé

de uma mesa e

BERTHA .

NAMRY.- Que horas são, Bertha?

BERTHA.- Ainda há pouco anoiteceu, minha senhora.

NAMRY.- Ainda há pouco! Pesado e triste corre agora o tempo, como

um velho enfermo e lento!

(Pausa.) Chove?

BERTHA.- Não, minha senhora, não; neva somente.

(Chegando-se à janela e correndo

pouco a cortina.) Se quisésseis chegar a esta janela,

veríeis que majestoso espetáculo é prolongar os olhos por

esta planície, que se estende a perder de vista, toda prateada, e

luzindo um pouco com a luz pálida e vacilante da lua... tão

belo... que prazer não é ver estes flocos de neve que vêm

descendo sobre a terra e lento e lento! quereis vir, senhora?

NAMRY.-

(Como falando consigo.) Houve

tempo em que a vida também para mim corria fagueira e leve. Minhas

noites eram cheias de sonhos de inocência e de ventura... Meus dias

tranqüilos e felizes. -Nada mais desejava -ou brisa ou tempestade sempre

acharam meu coração venturoso e o prazer que se me ria nos

lábios! E hoje?!... Quem me dera ver-me longe deste céu tristonho

-destas nuvens carregadas -desta atmosfera de mau agouro.

BERTHA.- Perdoai, Senhora -mas eu pensava que em parte nenhuma seria

melhor a vida que na terra, em que a provamos. Tem encantos a terra, onde na

infância gravamos passos mal seguros -têm encantos os

sítios, que nos recordam dias mais felizes, que todos nós gozamos

-rico ou pobre-: o céu que nossos olhos primeiro encontraram; o sol que

nos afagou no berço, como olho vigilante de mãe; e a

língua que nós falamos e que outra língua nunca pode

suprir!

NAMRY.- Assim pensei, Bertha, assim pensei, e quem então me

dissesse que este seria o meu desejo de hoje, certo que em mim não

acharia crédito. Mas eu já tenho sobejos motivos para ser triste,

para mais os desejar. Queria alguma coisa que me distraísse! Queria ver

essa terra tão antiga, e que mais que as outras, dizem bela, onde reina

contínua primavera, onde o céu rutila sempre grande, onde a noite

equivale aos nossos dias! Queria ver essa terra! Nápoles, a cidade

afortunada, com seu vulcão fumegando noite e dia; com seu golfo

tão risonho e pitoresco; Veneza, a cidade de encantos e

prodígios, onde de contínuo se escuta ao longe o triste cantar

dos gondoleiros, e a barca que passa silenciosamente com o seu fanal na proa, e

o mascara de traje oriental, que se perde na arcadaria de um palácio

inabitado; talvez que então pensasse menos sobre mim, Bertha; e seria

ainda uma fortuna.

BERTHA.- Sois infeliz?!

NAMRY.- Infeliz?! Vês tu que daria meus títulos de

não sei quantos avós -meu ducado que vale um reino -minhas

terras, minhas jóias -meu brasão -tudo o que me cerca de

adulações, de lisonjas, de galanteios -tudo -tudo -e até o

meu nome, para que me chamasse simplesmente -Bertha. Foi meu nome quem me

trouxe a desventura! Na tua classe não há preconceitos de nomes,

de brasões; não há lei dura e inflexível da vontade

de um pai severo e orgulhoso. Não há nada, -nada, absolutamente

nada: porque são menos os preconceitos quanto mais se aproximam da

terra, e alguns palmos abaixo nem uns!

BERTHA.- Mal pecado que já fiz tão negra experiência

e não desci de tão alto. Crede-me, Senhora -amargo é o

pão do infortúnio e da sujeição. É viver

para os outros e não para si. Não é de mim que eu falo

-amável para com todos muito mais o foste para comigo -e tanto que mais

lágrimas me fez derramar a vossa bondade, que meu infortúnio. Mas

sofrer insulto e repreensões, sempre curvada e humilhada aos pés

do mais rico. -Sempre de um para outro senhor -sem esperanças de melhor

sorte, nem minguadas -nem ao longe -muito ao longe -no extremo de uma vida de

espinhos e de sofrer -oh! que é uma vida bem triste esta assim

vivida!

NAMRY.- Também tu, Bertha?

(Refletindo um pouco.) Vem

cá -senta-te bem perto de mim... Estimo saber que és infiel,

Bertha; por egoísmo? Que importa? Todo este bulício de prazer e

de alegria me pesa no coração -todo este arruído de

passos, de vozes, todos estes cantos de amor e de esperanças, me

desesperam porque já não tenho amor nem esperanças!

Não me interrompas... aflige-me tudo isto que me cerca, que me parece

respirar ledice e contentamento; e eu só no meio de tudo isto?! Estimo

saber que és infeliz. -Eu precisava de alguém que me pudesse

compreender: preciso desabafar o que trago no coração, e que me

tortura todos os momentos da vida. -Felizmente que te encontrei!

Contar-me-ás tuas penas e eu te confiarei as minhas. -Ao

menos no infortúnio seremos irmãs.

BERTHA.-

(Com a mão sobre o

coração.) É meu segredo; não me pode livrar

dos desgostos por que tenho passado, mas pode poupar os novos.

NAMRY.- Não tens ainda em mim bastante confiança?!

É que tu não sabes o que é guardar um segredo no mais

fundo da alma. Um segredo que é o pensamento de todos os dias, de todos

os instantes, que nos prende alma e coração -que nos mina e

consome a existência, que nos esmaga e a martiriza. Falarei eu, Bertha;

falarei; -porque tenho necessidade de dizer o que encerra o meu pobre

coração -falarei, porque preciso de um peito sobre que possa

derramar as lágrimas, que já não posso sorver. Escuta-me.

Outra que não fosse eu daria graças à sua boa estrela por

lhe ter deparado com o amor de Patkull. -É um homem patriota e nobre. Os

reis se calaram na sua presença porque a sua voz era de verdade e

consciência. Seus inimigos o temeram na guerra, porque o seu braço

era de ferro e sua vontade inflexível. -Os seus compatriotas o adoram

porque sacrificou por eles seus bens que um rei invejaria e o seu futuro, que

prometia ser tão brilhante. E no exílio, na pobreza imerecida, no

meio de quanto aviltamento lhe podia arremessar a Suécia, sempre se

ouviu a sua voz que chamava os seus patrícios à liberdade, mais

forte que a destruição de reinos e monarquias -do que o barulho

das armas de Carlos XII -Pedro I e do rei Augusto. E este homem trocou tudo por

mim. Meu pai, a quem ele mais que uma vez salvou a vida no meio dos combates me

pediu no seu leito de morte que lhe pagasse esta dívida de

reconhecimento e de amizade E eu prometi, Bertha; prometi porque já

tinha dado bastantes desgostos a meu pobre pai, para lhe negar este

último pedido ao despedir-se da vida -porque não queria que o

pobre velho saísse do mundo desesperado, com a maldição a

esvoaçar nos lábios quando ele julgava granjear-me um nome e um

apoio...

E no entanto eu nunca amei este homem, que tanto me ama. Seus

extremos me enfastiam; e na minha consciência sinto de lhe não

poder dar amor em troca de amor tamanho.

(Baixo.)

-Eu amo a outrem Bertha: a outrem com quem vivi os primeiros

anos da minha vida, a outrem com quem troquei amor e juramentos, a outrem com

quem talvez me não casasse ainda não havendo estes impedimentos,

porque meu pai lhe negou a minha mão, e o chamou de cara um cavaleiro

que deslustrava a sua nobreza com essa arte diabólica de Alquimia. E ele

calou-se -Paikel...

BERTHA.-

(Indo para se levantar.)

Paikel?!

NAMRY.-

(Como admirada.) Paikel, sim,

conheces-lo?...

(Encarando-a.)

BERTHA.-

(Sentando-se.) Nada; não,

minha senhora; parecia-me que já tinha ouvido pronunciar esse nome;

não sei por que me vem ele agora à memória!

NAMRY.-

(Observando-a.) Paikel calou-se.

Nesse instante agradeci sinceramente essa delicadeza da parte dele: julguei

então generosidade o que agora me vem em dúvida de cobardia.

BERTHA.- Dizem-no valente!

NAMRY.- Ele desamparou-me, fugiu vergonhosamente sem mais se dar de

mim!

BERTHA.- Presumiu talvez que as palavras do pai não eram sem o

consentimento da filha!

NAMRY.- Talvez! Porém, quem tão breve se esquece de que

ama -que assim a traiu, também se esquecerá e trairá o seu

amigo.

BERTHA.- Ele é nobre.

NAMRY.-

(Mais forte.) Ele jogaria o

ducado de seu pai; venderia sua irmã se a tivesse; seu brasão, se

alguma coisa lhe rendesse para as consumir nas suas diabólicas

experiências -é um infame!

BERTHA.- É um homem honrado.

NAMRY.-

(Rindo-se.) Melhor o conheces

que dizias -Bertha! E bastante interessas por ele -vai -outro dia me

contarás a tua história.

( BERTHA sai. Olhando-a

sair.) Também o ama -minha ciada, minha rival!...

(Assenta-se e fica

pensativa.)

(Entra

PATKULL -manso -encosta-se à cadeira em que

NAMRY está sentada. Fica contemplando-a um

pouco tristemente.)

Cena II PATKULL.- Sempre triste.

NAMRY.-

(Sobressaltada e levantando-se.)

Senhor Patkull.

PATKULL.- Por que me tratas tu por senhor? Entre amantes que breve

serão esposos -tu -é um delicioso tratamento, que alimenta o amor

e a confiança -Senta-te, Namry

(Ele também se assenta.)

Vinha eu com o peito cheio de prazer e de contentamento, vinha ansioso por te

ver, vinha feliz e venturoso -ao passar da tua porta -quando te vi tão

triste e pensativa, também eu me entristeci contigo, e pensei que o amor

de teu esposo mal supriria o deserto que teu pai te deixou no

coração!

NAMRY.- Meu pai era bom!

PATKULL.- Nem eu te crimino o sofrimento: ele era meu amigo! senti a sua

morte como se fora a de um irmão, como se fora a morte de um pai -bem

que ele me deixasse um legado a que mal se exaltariam as minhas

esperanças nas minhas noites de amor e de insônia. Deixou-me a tua

mão, que eu não aceitaria por certo se julgasse que a devia

somente à obediência.

NAMRY.- És generoso, Patkull!

PATKULL.- Por que me falas tu em generosidade? Quem te pede

agradecimentos? Nada faço por ti que o não deva fazer. -Olha, por

vezes uma idéia de amor e de egoísmo me atravessa o pensamento.

Eu quisera conhecer-te aldeã humilde e simples -só -com a tua

pureza e formosura -e eu quisera ser o homem rico e poderoso por que tudo se

curvasse às tuas ordens, para que te pudesse transportar para um

palácio de maravilha e de encantos, para que eu fizesse da tua vida um

paraíso, e da minha alma um templo para a tua alma.

NAMRY.- Tens mais do que te posso merecer. Teu amor é o amor com

que se adora a Deus e aos anjos; demais para uma mulher que é uma

frágil criatura.

PATKULL.- Não é demais para ti. -E contudo eu te amo como

neste mundo se pode amar, como se ama a uma coisa pura e bela, como se ama uma

flor encantadora, como se ama o azul de um céu e de um lago, como se ama

o sol e as estrelas -como se ama um instrumento que se escuta no silêncio

da noite -como se ama o perfume e a harmonia. Assim é que eu te amo

-mais do que te posso dizer, mais do que te posso explicar -mais do que pode

exprimir um pensamento, que é teu; uma pulsação do peito,

que é tua. Oh! Que não possa exprimir a linguagem do

coração o falar rude e franco de um soldado que só tem

vivido no meio do estrépito e da carnagem, vida de movimento e de

guerra. Oh! Que não possa minha alma estalar este invólucro de

lodo, e trazer-me lá dos céus a expressão do que eu sinto

por ti?

Namry, tu verias; então o que é o amor deste homem

já maduro e sério, e que até hoje tem conservado sua alma

virgem de todo amor; e debalde teu pensamento se abismaria em sondar a

profundidade desse seu sentir tão ardente, de que nem ele mesmo conhece

a intensidade.

NAMRY.- Tu amas muito, Patkull! Esse teu amor me amedronta mais por ti

que por mim.

Dizem que o pensamento do homem gravita sempre em torno de

fantasmas e de ilusões.

Pensa bem, Patkull. Talvez que num dia, mesmo antes do

matrimônio, se perca o colorido dessas tuas quimeras de amor; -depois

dele poderás achar que a vida doméstica e prosaica é muito

fria e insuficiente para uma alma sedenta de emoções, como a tua

-seria de perder a razão o acordar repentinamente desse sonho; e a culpa

seria tua porque foste tu quem o forjaste.

PATKULL.- Como são feiticeiras essas tuas dúvidas do

coração! És o amor que o comprime, e tu julgas

prudência minguar-lhe a força e a intensidade. Não

-não é quimera ver-te assim tão nobre e tão bela

respirando melancolia e suavidade em todos os teus movimentos. Não;

não é ilusão o fogo tão puro e tão

expressivo que dimana dos teu olhos. Não; não é frieza que

eu receio de ti. Quando te vi tão sentida e penalizada com a perda de

teu pai; quando vi com quanto apego tinhas ligado tua vida à vida dele;

então senti quamanha era a fonte de sensibilidade que encerravas,

quão forte e enérgico devia ser o teu amor, quando o tivesses

-que cedo ou tarde despontaria; foi também então que compreendi

como a vida leve e graciosa escoaria nas asas do tempo, vivida a sós

contigo e com o teu amor! Então amei: então compreendi que havia

outra felicidade que não o arruído de um campo de batalha: outra

magia numa voz de ternura, que eu ansiava, que no estrondo ou no estertor de

moribundos, outra embriaguez, que não a da vitória: então

compreendi a vida que até ali mal pudera decifrar: amei; e o tempo que

dantes se arrastava vagaroso e lento -hoje passa sobre mim mal apercebido e

todo concentrado no amor; e a vida me parece mais radiante e mais afortunada

-assim -do que vista através duma atmosfera de pó e de sangue;

radiante e mais bela passada a sós contigo.

NAMRY.-

(Abraçando-o.) Meu bom

Patkull.

PATKULL.-

(Retendo-a nos braços -encara-a um

pouco, como extasiado.) Ainda há pouco que eu teria nos

lábios um sorriso de compaixão e incredulidade parar aquele que

me dissesse a embriaguez com que enleia os sentidos do homem um som argentino

de voz, que dos ouvidos resvala ao coração, uns olhos que

entornam em nossos olhos mágico fluido de amor; uns braços que

nos cingem, que nos alteiam além da terra, uns peitos que fogosos contra

nós palpitam. Não -tal não crera; e hoje... sinto por ti o

que se não diz no falar dos homens, no cantar dos bardos; uma coisa que

na terra não tem nome, e que os anjos nos céus, entre o coro dos

astros talvez modulem nas suas liras douro, quando à Virgem-Mãe

levantam incensos de louvores.

PATKULL.- Assim! Chama-me sempre por meu nome: nunca o julguei tão

lindo antes que a tua voz o pronunciasse. O teu... mesmo o teu -me parece

despido de encantos em comparação desse nome, que me enamora,

quando tu o pronuncias -Patkull?! Não -não era assim que tu

dizias -Patkull!! Não -não era assim. Donde roubas tu essa

harmonia, que só encontro em ti? -Donde o roubas?!

(Pensando.) Namry, às

vezes me pergunto na minha consciência se não é

possível que um anjo se transformasse em ser humano, conservando ainda

resquícios da sua divindade, porque tu és meu bom anjo -Namry;

paz do coração encontrei a teu lado como no silêncio de uma

noite puramente bela. -Então pesa-me do tempo já passado,

não por feitos maus; o que fiz foi bom, foi justo; mas por te não

haver conhecido, Namry -porque a flor da minha mocidade desfolhei-a eu em

tropeços e barrancos, -nas intrigas de gabinete e em lutas com reis,

porque pouco tempo me resta para viver, porque em um dia meus cabelos

apareceram brancos como a neve, que embranquece o píncaro de um rochedo

num dia -ao principiar do inverno; porque eu me tornarei velho e curvado com o

peso dos anos e dos trabalhos, quando tu brilharás com todo o esplendor

da tua beleza, com todo o fogo dos anos e da mocidade.

NAMRY.- Estás triste, Patkull? Triste te afundaste em

recordações do passado?! Meu amigo, quem de nós que

elevantar o sudário desse morto não encontrará debaixo

dele um pesar e um desacorçoamento?! Quem de nós?! Temos todos

nossos pesares; bem felizes quando nossos amigos o compreendem e nos podem

consolar! Eu sofri muito; derramei lágrimas tristes em silêncio e

no retiro; meu pesar tinha -e no peito; cansei-me de sofrer sozinha, disse-o a

alguém; não achei piedade nem simpatia; mas fui sobejamente

recompensada; achei uma traição -inocente porque fui eu quem a

provoquei. -Breve seremos unidos, Patkull; talvez que a mulher saiba cumprir

melhor os deveres de esposa, do que a amante os de namorada. Então

esqueçamo-nos do que foi, o que em breve não tornará a

voltar.

PATKULL.- Em bem que não, voltará! Assim também se

pudessem abismar no esquecimento recordações do que amargou nossa

vida, a memória sempre viva do que foi, e um brado contínuo de

vingança, que nos ferve na alma e não passa do pensamento. Minha

vida tem sido uma luta contra o sofrimento, um contraste de miséria e de

grandeza. Namry, não me recordo nem de jogos, nem de passatempos da

infância, nem de parceiros de folguedos, nem de passeios à margem

dum regato, ou a corrida afanosa e inocente por um prado florido entre flores e

verdura atrás de uma borboleta, ou de outro inseto brilhante -de nada

disto me recordo, porque nada disto desfrutei. Um dia quando me entendi, estava

num lugar escuro e frio; era uma prisão de Estado; era funda a

prisão, a terra lodosa e encharcada, e alguns molhos de palha. Bem alto

estava uma fresta, por onde enfiava um raio baço de sol de inverno. Ao

meu lado uma mulher que seria bela em outros tempos, porém que eu via

descorada e miserável com as faces fundas, e o cabelo enxovalhado e

solto. Além, um homem alto -magro -pálido -com os olhos

vacilantes e luzentes, o cabelo em desordem e braços cruzados. Seu rosto

metia medo; às vezes uma contração nervosa lhe abalava o

corpo inteiro, e tão seus cabelos se eriçavam, e caíam

pouco depois como árvores que o vento curva a seu bom grado; e os dentes

rangiam e batiam com força como num acesso de febre. Era horrível

vê-lo assim, e contudo, tirante disso, o dirias um espectro. Esse homem

doido era meu pai, essa mulher morta, minha mãe e nada mais sei deles. E

eles ambos me bradam vingança porque morreram ambos de fome; e eu ainda

os não vinguei! À noite, em alguma marcha forçada e

silenciosa eu tenho visto essa visão, que caminha sempre diante de mim

-Quando deitado na tenda -à espera da batalha, um pouco repousava -ainda

via essa visão. Quando contigo, ainda me aparece a sombra de meu pai,

que me pede contas do que fiz e do que poderia ter feito. Pois bem, Namry, eu

direi como tu: esqueçamo-nos do que foi esqueçamo-nos de tudo,

seja nossa vida o amor -sejam nossos dias instantes de ventura -vivamos

sós, só nós -E quando à noite me sentires ansioso e

delirante com a fronte banhada em suor, e com o peito oprimido de um

horrível pesadelo -tu me chamarás, não é assim? E

eu acordarei num paraíso, acordarei feliz quando vir teus olhos sobre

meus olhos; e um sorriso nos teus lábios, e tua mão, que me

enxuga as bagas de suor.

NAMRY.- Patkull, meu amigo, por que te deixas levar destas

idéias, que me aterrorizam? Por que esses pensamentos de

vingança? Não estás cansado de sofrer? -Crê-me;

é curta a vida para ser desperdiçada em ódios e tormentos.

Patkull, teu pai mesmo que agora ressurgisse do sepulcro certo se doeria de ti

-e te pedira o perdão daqueles que omaltrataram, porque se os

mártires se recordam nos céus do que na terra padeceram,

também se esquecem dos que fizeram padecer; Patkull -esquece-te

disso.

PATKULL.- Eu já te disse, minha alma é tua; são teus

meus pensamentos, minha vida é tua.

(Abraçados.)

Cena III Os mesmos e

WOLF .

WOLF.- Senhor Patkull?

PATKULL.- Entra, Wolf -entra -que novas trazes?

WOLF.- É chegado o estrangeiro que me dissestes conduzisse aqui

-Aqui está e vos aguarda.

PATKULL.- Dize-lhe que entre.

(O

PAJEM sai.) Namry tinha-me esquecido de te

prevenir disto e contudo era essa minha intenção quando te vim

falar. É um meu amigo. Diz que me traz notícias importantes, e

que mas quisera comunicar em lugar seguro. -Escolhi a tua casa: porque a minha,

afora este pajem, está cheia de espiões do rei Carlos.

NAMRY.- Escusas pedir, quando podes mandar. -Faz o que te aprouver

-Patkull.

Cena IV Os mesmos e

PAIKEL , vestido de jornada.

PATKULL vai recebê-lo,

PAIKEL e

NAMRY páram, encarando-se.

PATKULL.- Entra, meu amigo -entra sem receios -certo que não me

esperavas achar de companhia. -Entra! -Quê? Dar-se-á acaso que vos

conheçais.

PAIKEL.- Sim -conheço-a, porém é possível que

outro tanto não aconteça à senhora Duquesa. As pessoas

indiferentes usam deixar pouca impressão.

NAMRY.- Bem vindo sejais, Senhor Paikel.

PATKULL.- Melhor -estimo bem que a conheças, Paikel -estimo-o

muito. Escusado será elogiá-la; porque quem uma vez tratou com a

Duquesa de Mecklenburg conhece quão insuficientes são as palavras

para a retratar. -É minha mulher, Palkel.

PAIKEL.- Tua mulher?!

PATKULL.- Brevemente o será, e tão boa estréia foi a

tua que assistirás aos desposórios do teu amigo -dar-me-ás

este prazer?

PAIKEL.- Sim, sim, mas primeiro deixa-me congratular contigo pela tua boa

fortuna; mais feliz do que eu; só a ti poderia eu dar parabéns

duma dita que não pude gozar.

(Com intenção.)

Aceitareis meus parabéns, senhora Duquesa?

NAMRY.- Por que não, Senhor Paikel? De tão bom grado os

destes ao vosso amigo -tão francamente lhe cedestes uma fortuna que

poderia ser a vossa -dissestes que seria faltar ao reconhecimento não

vô-los aceitar -mil vezes obrigada, Senhor Paikel.

PATKULL.- Basta de civilidades. Paikel, serás tão amigo da

esposa como o és do esposo: e certo que algumas vezes te

acontecerá esquecer-te das tuas locubrações

científicas e do ouro que procuras, quando topares com um verdadeiro

diamante.

PAIKEL.- Mas já te esqueceste que tinha de te falar?

PATKULL.- Pelo contrário, lembro-me tanto que já pedi esta

casa a Namry; estaremos aqui mais à nossa vontade, e como querias, longe

de suspeitas.

PAIKEL.- Bom será, porque é de segredo o que tenho de te

comunicar; e contudo a senhora Duquesa poderá assistir à nossa

prática.

NAMRY.- Ainda quando eu vos pudesse ouvir, sem dúvida que tereis

muito que vos dizer, depois de tantos anos de separação; assim

estareis com mais franqueza. Se de alguma coisa careceres -chamarás,

Patkull.

Cena V PATKULL.-

(Vê-a sair.) É um

anjo, Paikel -esta mulher é um anjo de bondade e candura.

PAIKEL.- Dize antes que é uma Armida. -Aqui estás tu novo

Reinaldo, no teu jardim de encantos -a descansar das fadigas da guerra no seio

da moleza e da voluptuosidade. E mal pecado, que eu não tenho o espelho

onde possas ver quanto caíste de tão alto que estavas.

PATKULL.- Tenho eu, Paikel; tenho no coração alegria e

contentamento -tenho na alma tranqüilidade e descanso -tenho amor que me

embeleza todos os momentos da vida; sou feliz, e quem fosse meu amigo

não me quisera ver desgraçado.

PAIKEL.- É certo quanto me tinham dito!... E na minha

consciência, eu que te conhecia de bem perto, apelidei calúnia

quanto de ti me diziam.

PATKULL.- Fizeste mal. O que há no mundo tão seguro e

inabalável por que nos possamos constituir seus garantes? Não

há prudente que diga: deste pão não comerei: é uma

palavra de verdade, entre todas as verdades que prega o Evangelho. Há

pouco tempo um rei desceu do trono ao cadafalso; e era um bom rei Carlos I.

À árvore gigante que do cimo de um rochedo derrama a sombra

até a profundez do vale, em alguns momentos baqueia em terra mais

humilde que os bustos que a cercavam.

Que muito?

PAIKEL.- Há contudo, um povo que te adora, e que pensa que o seu

nome te faria estremecer na sepultura. Dize, Patkull, neste retiro -não

chegaram ainda aos teus ouvidos seus sofrimentos, não retumbou um grito

desesperado -não ouviste teus irmãos, que te chamavam em

auxílio?

PATKULL.- Que mais querem de mim? Dei por eles quarenta anos da minha vida

-sacrifiquei por eles meus bens e o meu repouso. Sofri por eles o degredo e

traguei o negro pão de um mendigo: derramei por eles meu sangue no campo

da batalha -que mais querem de mim?

PAIKEL.- Fizeste muito, Patkull, mas não tudo. Quererias tu perder

quanto tens feito? Que importa se por um instante livraste o escravo da

cólera de um senhor impiedoso, se o deixas na mesma escravidão,

mais dura porque incitaste as iras do senhor.

PATKULL.- Que façam como eu fiz.

PAIKEL.- Porém tu eras só; sem família, qualquer

lugar te oferecia uma pátria; qualquer distração um

prazer.

Quererias tu que todos abandonássemos nossos lares,

nossas terras; e só com nossas famílias e miséria,

fôssemos pelo mundo como uma tribo errante de judeus, esmolando um

asilo?

PATKULL.- Quem quer ser livre peleja: Paikel, esqueçamo-nos

deles.

PAIKEL.- E eles se não esquecem de ti, Patkull. Eu vi por mais de

uma vez uma livônia que mal balbuciava o nome de sua mãe,

pronunciar o teu, como se fora um nome de família. Eu vi por mais de uma

vez o mancebo que sofria a tortura sem lamentações, nem

lágrimas, invocar o teu nome, como se fora o nome de Deus. Mais de uma

vez o velho calvo de cãs venerandas e de rosto engelhado, de quem tinham

recrutado a filha para o leito de um Boiardo, e o filho para vir morrer nas

guerras da Polônia, pronunciar teu nome como se por si só for uma

vingança. -Patkull, um homem que um povo venera tanto, é um homem

grande. Mas o que despreza tantas preces, não merece tanto amor.

PATKULL.- Por mais de uma vez eu chamei por eles. Chamei-os para a

vitória e liberdade; disse-lhes: tereis armas e munições;

forragens e mantimentos para uma -para mil campanhas; e eles ficaram frios e

gelados, como se eu falasse a um cadáver. -Não me fales neles,

Paikel, esse povo é um povo de cobardes.

PAIKEL.- Tu mesmo o disseste: não há prudente que diga:

deste pão não comerei. Tu, que eras um lidador valente, cansaste

-tu que eras um bom patriota, renegaste a tua pátria, e a não

teres dado tantas provas de ambas, os nossos vindouros poderiam pôr em

dúvida a tua coragem e o teu patriotismo. Não fales pois de

coragem e patriotismo, que mal viste experimentada.

PATKULL.- E que resultaria de me empenhar de novo em coisas de mau

agouro?

PAIKEL.- A glória.

PATKULL.- Foi a ilusão dos meus primeiros amores; e por ela

sacrifiquei minha vingança, que me devera ser sagrada. Sabes tu, Paikel,

o que lucrei dos meus quarenta anos, com que a julgava sobejamente recompensada

-o nome do egoísta. -Assim me chamaram uma caterva de escrivinhadores

que formigam em todos os tempos e por toda a parte. Disseram que se eu sofria

era por amor de mim! Almas pequenas, que não compreendiam o

sacrifício de um ao bem-viver de muitos: Satíricos incoerentes e

absurdos que me viam pôr em desleixo meus haveres e me chamaram

-egoísta! Quisesse eu permanecer tranqüilo espectador da

escravidão dos meus! Pudesse cruzar os braços em vez de manejar a

espada ou pena, dignidade e honras, e favores cairiam sobre mim como uma chuva

de inverno. Oh! Quão diversamente me julgava meu gracioso soberano

Carlos XI!

PAIKEL.- E é de Carlos XI que data o teu favor no entusiasmo dos

teus irmãos. Certo que toda a Livônia estremeceu, como se ainda

fosse hora do seu livramento, quando te escutou conciso e forte expondo as

regalias dos teus compatriotas que a Suécia abocanhava como um povo de

Ilotas. O opressor mesmo não pôde negar um bravo de entusiasmo e

admiração aos 19 anos de tão leal representante.

PATKULL.- E ainda se não tinha apagado o murmúrio que a

minha voz fizera alevantar, quando um pregoeiro pelas ruas de Estocolmo

declarava Patkull -réu de lesa-majestade condenado a ter as mãos

cortadas; e o carrasco quebrava publicamente sobre um cepo meu braço

tão nobre -e queimava os artigos do meu mandato tão aplaudido! E

tudo isto para quê? Hoje os livônios dormem tranqüilos na sua

ignomínia e o fel da calúnia se derramou sobre o meu nome.

Paikel, o homem pode resistir a perigos e a embaraços, porém

não resiste à calúnia.

PAIKEL.- O homem virtuoso geme da cegueira dos outros homens. Se a

calúnia lhe enegrece uma virtude -outra virtude que responda aos gritos

da sua satânica vitória. -Há uma coisa grande -Patkull

-virtude -há uma coisa santa -o dever: -De ambas elas, nasce a

glória que dura mais que a inveja. -E ao homem que pesa suas

ações no foro da consciência -pouco se lhe deve dar do

maldizer dos perversos.

PATKULL.- Deixemo-nos disso, Paikel!

PAIKEL.- Pelo contrário, falemos nisto!

PATKULL.- Mas que queres tu que eu faça?

PAIKEL.- Salva-os.

PATKULL.- Salva-os?! Lindas Palavras, Paikel, lindas palavras de

tragédia, que parecem dizer alguma coisa e não dizem nada

-salva-os?!

(Com impaciência.)

Julgas-me tu algum Deus, para que ao meu aceno se faça um mundo ou

rebente água de um rochedo. -Tua idade indica mais experiência,

Paikel!

PAIKEL.- Salva-os; porque os podes salvar.

PATKULL.-

(Pensativo.) Como?

PAIKEL.- E quererias tu fazê-lo?!

PATKULL.- Não é verdade que isto é uma simples

conversação entre amigos?

PAIKEL.- Um dia será pesado na balança da justiça

eterna, não o bem que fizemos, mas o bem que poderíamos ter feito

-Queres tu salvar teus irmãos?

PATKULL.- Se a minha vida a mim só pertencesse de bom grado a dera

ao primeiro que ma pedisse. De sangue e bens fui sempre largo -Mas vês

tu? Eu prometi a um homem no ato mais solene da vida -o da morte -defender sua

filha, que eu amo, que sem ele ficou órfã, e ficaria viúva

sem mim. Dei-lhe a minha palavra de cavalheiro a ele e a ela, e deixá-la

penhorada, seria justificar a sentença de Carlos XII quando mandou ao

carrasco espedaçar as minhas armas em praça pública.

PAIKEL.- Dou-te minha palavra que não há risco nem perigo

-terás o poder de um rei: queres tu salvar teus irmãos?

PATKULL.- Fala.

PAIKEL.- A Dieta de Varsóvia declarou vago o trono da

Polônia: e por vontade de Carlos XII elegeu rei a Jaques Sobieski a quem

devia pertencer o trono, se o trono da Polônia fosse hereditário.

Jaques Sobieski e o príncipe Constantino aguardavam com

impaciência o mensageiro, que lhe trouxesse novas da sua

eleição. Um dia, quando caçava nas vizinhanças de

Breslau -saíram de emboscada 50 cavaleiro saxônicos que os

prenderam. O chefe dos cavaleiros fui eu -tínhamos cavalos folgados e de

muda; e assim os conduzi a Leipzig antes que em Breslau corresse a

notícia de sua prisão. A Dieta não o pode declarar incapaz

de reinar porque ainda ontem o elegeu -não o podem destituir, porque nem

lhe podem forjar culpas. Outra Dieta poderia revogar aquela -porém a

pertinácia e inflexibilidade do rei Carlos não o deixarão

mudar de propósito. E o reino ficará sempre nas mãos do

rei Augusto. Talvez que Augusto pretenda fazer as pazes, porque a sua

Saxônia também pára nas mãos o vencedor. Fleming

assim mo deu a entender; e eu o creio. O rei da Suécia tem já

parte do seu acampamento dentro do Império; presume-se que pretende

destronar também a casa d'Áustria. Neste caso uma paz com a

Rússia torna-se necessária; no turbilhão de tantos e

tamanhos interesses a Livônia pouco avulta. Talvez por estes tratados se

firme a sua liberdade, se houver um político esperto e diligente que a

defenda; serás tu. -Se falhar a política -80.000 homens cobrem as

fronteiras da Livônia -poderás pôr uma

contradição a Carlos XII; e será desfeito o tratado com a

Rússia. E então ver-te-ás generalíssimo de

Grão Czar. -80.000 guerreiros cobrem a Polônia palmo a palmo, e se

vivos não a pudermos defender, nossos cadáveres formarão

uma muralha mais impenetrável que as da China.

PATKULL.- Muito bem, Paikel, e agora tenho de me ir apresentar a Carlos XI

como ministro da Livônia?

PAIKEL.- Não; irás a Dresde ter com Augusto -como

plenipotenciário do Tzar Pedro -Imperador de todas as

Rússias.

PATKULL.- E as provas?!

PAIKEL.- Ei-las -É o diploma selado com as armas do

Império, e do próprio punho do Imperador.

PATKULL.- Vamos: será o derradeiro esforço! Far-me-ás

tu um favor?

PAIKEL.- Fala.

PATKULL.- Ficarás aqui com Romhor.

PAIKEL.- Patkull.

PATKULL.- É um favor, meu amigo, porém que eu só de

ti aceitaria.

PAIKEL.- És generoso.

PATKULL.- Generoso?! Tu brincas? Se o que ora vou fazer fosse por ti

-seria falta de generosidade pedir como um salário do serviço

não prestado, mas ainda assim eu te pediria o mesmo favor, que em iguais

circunstâncias também to faria.

PAIKEL.- Talvez que não!

PATKULL.- Não mo queres fazer?

PAIKEL.- Não te posso dizer que não; mas se houvesse outro

meio...

PATKULL.- Já te disse que só de ti a fiava.

PAIKEL.- Fico.

PATKULL.- Obrigado, meu amigo

(Tocando uma campainha. Entra um

PAJEM .) Que é do meu pajem?

O PAJEM.- Aqui está!

PATKULL.- Dize-lhe que o chamo

(Continuando.

O PAJEM sai.) Não me posso despedir

dela, Paikel, que certo não partira -levo rasgado o

coração por ter de a deixar, dize-lhe o porque parti -que

não há perigos, que não há riscos, que breve serei

dela.

(Entra

WOLF .) Wolf, eu parto, não sei

quando serei de volta, tu aqui ficarás.

WOLF.- Por que me não levais, Senhor?

PATKULL.- Fica, Wolf; para nós ambos é melhor que fiques.

-Ficarás com a Senhora Duquesa, e se alguma novidade ocorrer -que me

seja importante saber -algum infortúnio -alguma fatalidade -virás

ter comigo a Dresde. -Traze o meu manto.

WOLF.- Neva muito, Senhor; algum temporal estará próximo

a rebentar porque relampeja para o norte e a noite tornou-se escura e feia.

PATKULL.- Não importa, bom pajem

( O PAJEM sai. Ele a

PAIKEL .) Pressinto alguma

desgraça, Paikel.

PAIKEL.- Não será nada: são saudades que levas, e

que minguarão a distância e o nojo da jornada.

(Entra

O PAJEM , põe o manto.)

PATKULL.- Adeus Wolf -abraça teu amo.

( WOLF chega-se e ele o

abraça.) Adeus Paikel.

(Estende-lhe a mão.)

PAIKEL.-

(Vê-o sair -fica um pouco a olhar

para a porta que se tem fechado, olha para a câmara de

ROMHOR -dá dois passos para ela apertando

as mãos contra os peitos.) E eu fico.

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