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Primeiros Cantos

Capítulo 18 · Primeiros Cantos

Amor! Delirio-Engano

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Amor! Delirio-Engano

Y el llanto que en su cólera derrama,

La hoguera apaga del antiguo amor!

ZORRILLA.

Amor! delirio-engano.... Sobre a terra

Amor tão bem fruí; a vida inteira

Concentrei n’um só ponto-ama-la, e sempre.

Amei!-dedicação, ternura, extremos

Scismou meo coração, scismou minha alma,

-Minha alma que na taça da ventura

Vida breve d’amor sorveo gostosa.

Eu e ella, ambos nós, na terra ingrata

Oásis, paraiso, eden ou templo

Habitámos uma hora; e logo o tempo

Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto,

Doce encanto que o amor nos fabricára.

E eu sempre a via!... quer nas nuvens d’oiro,

Quando ia o sol nas vagas sepultar-se,

Ou quer na branca nuvem que velava

O circulo da lua,-quer no manto

D’alvacenta neblina que baixava

Sobre as folhas do bosque, muda e grave,

Da tarde no cahir; nos céos, na terra,

A ella, a ella só, vião meos olhos.

Seo nome, sua voz-ouvia eu sempre;

Ouvia-os no gemer da parda rola,

No trepido correr da veia argentea,

No respirar da brisa, no susurro

Do arvoredo frondoso, na harmonia

Dos astros ineffavel;-o seo nome!

Nos fugitivos sons de alguma frauta,

Que da noite o silencio realçavão,

Os ares e a amplidão divinisando,

Ouvião meos ouvidos; e de ouvil-o

Arfava de prazer meo peito ardente.

Ah! quantas vezes, quantas! junto d’ella

Não senti sua mão tremer na minha;

Não lhe escutei um languido suspiro,

Que vinha lá do peito á flor dos labios

Deslisar-se e morrer?! Dos seos cabellos

A magica fragrancia respirando,

Escutando-lhe a voz doce e pausada,

Mil venturas colhi dos labios d’ella,

Que instantes de prazer me futuravão.

Cada sorriso seo era uma esp’rança,

E cada esp’rança enlouquecer de amores.

E eu amei tanto!-Oh! não! não hão de os homens

Saber que amor, á ingrata, havia eu dado;

Que affectos melindrosos, que em meo peito

Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte!

Oh! não,-morra commigo o meo segredo;

Rebelde o coração murmure embora.

Que de vezes, pensando a sós commigo,

Não disse eu entre mim:-Anjo formoso,

Da minha vida que farei, se acaso

Faltar-me o teo amor um só instante;

-Eu que só vivo por te amar, que apenas

O que sinto por ti a custo exprimo?

No mundo que farei, como estrangeiro

Pelas vagas crueis á praia inhóspita

Exanime arrojado?-Eu, que isto disse,

Existo e penso-e não morri,-não morro

Do que outr’ora senti, do que ora sinto,

De pensar nella, de a revêr em sonhos,

Do que fui, do que sou e ser podia!

Existo; e ella de mim jaz esquecida!

Esquecida talvez de amor tamanho,

Derramando talvez n’outros ouvidos

Frases doces de amor, que dos seos labios

Tantas vezes ouvi,-que tantas vezes

Em extasis divino aos céos me alçárão,

-Que dando á terra ingrata o que era terra

Minha alma além das nuvens transportárão.

Existo! como outr’ora, no meo peito

Férvido o coração pular sentindo,

Todo o fogo da vida derramando

Em queixas mulherís, em molles versos.

E ella!... ella talvez nos braços d’outrem

Com sua vida alimenta uma outra vida,

Com o seo coração o de outro amante,

Que mais feliz do que eu, inferno! a goza.

Ella, que eu respeitei, que eu venerava

Como a reliquia sancta!-a quem meus olhos,

Receiando offendel-a, tantas vezes

De castos e de humildes se abaixárão!

Ella, perante quem sentia eu presa

A voz nos labios e a paixão no peito!

Ella, idolo meo, a quem o orgulho,

A força d’homem, o sentir, vontade

Propria e minha dediquei,-sugeita

Á voz de alguem que não sou eu,-desperta,

Talvez no instante em que de mim se lembra,

Por um osculo frio, por caricias

Devidas dum esposo!...

Oh! não poder-te,

Abutre roedor, cruel ciume,

Tua funda raiz e a imagem d’ella

No peito em sangue espedaçar raivoso!

Mas tu, cruel, que es meo rival, n’uma hora,

Em que ella só julgar-se, has de escutar-lhe

Um quebrado suspiro do imo peito,

Que d’éras ja passadas se recorda.

Has de escutal-o, e ver-lhe a côr do rosto

Enrubecer-se ao deparar comtigo!

Preza serás tambem d’átros cuidados,

Terás ciume, e soffrerás qual soffro:

Nem menor que o meo mal quero a vingança.

Primeiros Cantos

Sinopse

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