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Primeiros Cantos

Capítulo 24 · Primeiros Cantos

Iii. Passamento

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Iii. Passamento

Era um quarto espaçoso;-alli se vião

Rojar no pavimento, ha pouco, as sedas,

Ricos tapetes multicor bordados,

E franjas complicadas d’um céo d’oiro

Pendentes,-vastos rases narradores

De lenda pia ou de briosos feitos.

Mas de tanto luzir, de tanto ornato

Ora por mãos aváras depredado

O vasto d’área revelava aos olhos,

Tendo n’um canto escuro um leito apenas.

Do leito alguem rasgára o cortinado.

E da curva amação polida e bella

Aqui, alli, pendia a seda em fios,

Bem como tranças de mulher formosa

Por sobre o seio nú.-Alli no leito

Jazia um moribundo; em torno os olhos

Cheios de pasmo e de terror volvia,

Bebendo pelos sofregos ouvidos

Mal sentido rumor d’outro aposento.

Confusas vozes, altercar ruidoso,

E o tinir de metal ouvia apenas!

Então por vezes tres no leito afflicto

Erguer-se maquinou de raiva insano!

Por tres vezes cahio, gemendo, sobre

O leito que da queda se sentia.

Da morte o cru torpor nos membros frios

Pouco e pouco s’espalha; mas teimoso

Da vida o amor debate-se nas ancias

Desse passo fatal...

-Eis nisto á porta.

Um Padre assoma,-d’entre as mãos erguidas

Da hostia sancta resplendor luzia;

E palavras de paz, de amor, divinas,

Que nos labios do justo Deos entorna,

Abundantes soltava. Longos annos

De piedoso soffrer o corpo enfermo

Alquebrárão por fim; as cãs nevadas

Raras tremião sobre a testa, como

Tremia na garganta a voz cançada.

Dizia o bom do velho:-«Irmão, nas ancias,

«No extremo agonisar da morte amiga

«Ergue os olhos ao céo;-do céo te venha

«Esse divino amor, que só lá mora,

«Que filtra por nossa alma, que nos deixa

«Mais celeste prazer, mais doce arroubo,

«Do que a terra sóe dar...

«Infames, trédos,

«Bufarinheiros de palavras, corvos

«De negro, feio agoiro, que esvoação

«Com grito grasnador por sobre o campo,

«Onde a peleja de reinar começa;

«Dizes-me tu-a mim! a mim que ao fóro

«Caminho inda hoje entre alas de clientes,

«Que so me visto de velludo e d’oiro,

«Em quanto vives de burel coberto,

«Co’os labios sobre o pó mordendo a terra!

«Dizes-me tu-a mim!...»

Ergueo-se,... e o corpo

Cahio de fraco sobre o leito; o velho

No emtanto humilde orava, que alma sancta

Do mal cabido insulto não se offende.

Jehovah, que entre myriadas

Vives de estrellas formosas,

Que das flôres melindrosas

Da terra-os anjos formaste;

Jehovah, que pela agoa

Lustrar quizeste o Messias,

Que ao beato, ao sancto Elias

Nas chammas purificaste;

Jehovah, que a mente apuras

No fogo do soffrimento,

Que divino, alto portento

Déste fazer á Moisés,

Quando a negra rocha dura

Tocando co’a tenue vara,

Rebentou a lympha clara,

Lambendo-lhe mansa os pés;

Jehovah, que eterno existes,

Cujo ser em si se encerra,

Que formaste o céo e a terra,

Que te chamas-o que é, [2]

-Faz, Senhor d’altos prodigios,

Com que a mente empedernida

Não se aparte desta vida

Sem sentir a sancta fé.

E tu, Christo, que soffreste

Martyrios por nosso amor,

Tu que foste o Salvador,

Salva-o, Senhor, por quem es.

Dá que em palavras piedosas

Se derrame contristado,

Como o rochedo tocado

Pela vara de Moisés.

E o confuso rumor do outro aposento

Crescia mais e mais.-Do moribundo

Os cúpidos herdeiros dividião

Por si a vasta herança; os torvos olhos

Ião de rosto a rosto, fusilando

Ameaças de morte.

No entanto o velho exanime e sem forças

Curtia amargos transes, que avarento,

E tendo a vida inutil presa a terra

Com toda a força d’alma,-agora em ancias

Sentia o halito vital fugir-lhe,

E a terra abandonal-o.

Estuava-lhe a dôr no peito afflicto!...

Só não chorava, que do pranto a fonte

Jazia extincta; mas pensava triste:

-Não tinha alguem que lhe cerrasse os olhos

Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo

Do extremo agonisar.

E a mente, já medrosa, em feio quadro

Lhe pintava os seos feitos;-a vingança,

Que tão grande prazer lhe tinha sido,

Ora em martyrios se tomava; a chusma

Dos homicidios seus crescia torva,

E no leito o cercava.

Crença infantil! dizia; loucos, cegos

Prejuizos do vulgo;-e assim dizendo

Os vãos phantasmas repellir buscava.

Mas a crença infantil, os prejuizos

Do nescio vulgo, rispidos tornavão,

Como insecto importuno.

Debalde por não ver cerrava os olhos,

Sobre os olhos debalde as mãos crusava,

Que as sombras nos ouvidos lhe fallavão,

E mais distinctas se pintavão n’alma

-Tão bem molesta, qual se pinta o corpo

Do espelho no polido.

E do seo passamento o caso infando

Narrava uma após outra, sobre o peito

Mostrando o golpe funebre e cruento;

Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo

Parecia sorrir!... era qual louco

Que soffre e um riso finge.

E das visões indo a fugir se arroja

De sobre o leito delirante; as sombras

Vôão sobre elle, e em circulo se ordenão.

O moribundo a esta, a aquella, a todas

Volvo o pavido rosto, no mover-se

Progressivo, incessante.

E preso ao duro embate da vertigem.

As mestas sombras ao redor com elle

Fugir sentia; o pavimento, a casa

Rapido rodava; a terra e tudo,

Como aos soluços d’um vulcão tremendo,

As forças lhe tolhião.

E o orgulhoso que feliz vivera,

Movendo a seo bom grado mil escravos,

Querendo a terra dominar co’um gesto;

Ora mesquinho, solitario e louco,

Face a face lutando com seos crimes,

Morria impenitente.

Primeiros Cantos

Sinopse

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