Universo da obra
Universo da obra
Era o vulto de um homem morto que afastando o sudario se hia erguer
do tumulo para revelar alguns dos temerosos mysterios, que encerra a
apparente quietação dos sepulchros.
O PRESBYTERO.
O negrume da noite avulta; e cresce
Mais feia a escuridão
Á luz da sacra pyra que derrama
Frouxo e tibio clarão.
Calou-se o canto, a prece,-é mudo o templo;
Apenas fraco sôa
Da torre o bronze, que a nocturna brisa
De rumores povôa.
Mas eis que de um sepulchro a pedra fria
S’ergue e sobre outras cáe.
Não se escuta rumor!-da campa livre
Medroso espectro sáe.
O rosto ossificado em torno volve,
Volve a suja caveira;
Do liso craneo os longos dedos varrem
A funebre poeira.
Mas inda inteiro o coração se via
Do peito nas cavernas,
Inda sangrento lagrimas chorava
De negro sangue eternas.
E caminhando, qual se move a sombra,
Ao orgão e assentou!
Já não dormem os sons, não dormem echos...
-O triste assim cantou:
«Onde estás, meo amor, meos encantos
Por quem só me pezava morrer,
Doce encanto que a vida me prendes,
Que inda em morto me fazes soffrer?
«Doce amor, minha vida no mundo,
Desse mundo em que parte serás;
Em que scismas, que pensas, que fazes,
Onde estás, meo amor, onde estás?
«Ah! debalde na campa gelada
Fria morte me poude deitar!
Foi debalde,-que eu sinto, que eu ardo;
Foi debalde, que eu amo a penar.
«Ah! si eu triste no mundo podesse
Como outr’ora viver, respirar....
Não soubera dizer-te os ardores
Que o sepulchro não poude apagar.
«Onde estás?-Já da morte o bafejo
Por teo rosto divino roçou;
Já na campa descanças finada,
Que o teo corpo sem vida tragou?
«Mas a morte não poude impiedosa
Crua foice vibrar contra ti!
Ah! tu vives, que eu sinto, que eu soffro
Crús ardores quaes sempre soffri.
«E eu não posso o teo nome á noitinha
Entre as folhas saudoso cantar,
Nem seguir-te nas azas da brisa,
Nem teo somno de sonhos doirar.
«Nem lembrar-te os queridos instantes
Que a teo lado arroubado passei,
Sem cuidados de incerto futuro,
Só cuidoso da vida que amei.
«Não te lembras da noite homicida
Em que um ferro meo peito varou,
Quando a facil conversa de amores
Teo marido cioso quebrou?!
«Desde então hei penado sósinho,
Verte sangue meo peito-de então;
Poude a morte acabar-me a existencia,
Mas delir-me não poude a paixão!
«Nosso adultero affecto no mundo
Não se acaba;-assim quiz o Senhor!
Não se acaba...-qu’importa?-hei gozado
Teos encantos gentis, teo amor.
«Por te amar outras fragoas soffrera,
Outros transes e dôr e penar;
Oh! poder que eu podesse outra vida
E outro inferno soffrer por te amar!»
Mas da aurora ja raiava
Macio e brando clarão;
Macia e branda a canção
Do negro espectro soava.
E medroso se collava
Ao orgão seo negro véo,
Que imiga não se ajuntava
Ao seo vulto a luz do céo.
Pouco a pouco se perdia
O negro espectro; a canção
Pouco a pouco enfraquecia:
Do dia ao tenue clarão,
Era o cantar um soído
Fraco, incerto e duvidoso;
Era o vulto pavoroso
D’uma sombra vão tremido.
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