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Capítulo 38 · Primeiros Cantos

A Villa Maldicta, Cidade De Deos

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A Villa Maldicta, Cidade De Deos

AO SEO QUERIDO E AFFECTUOSO AMIGO

A. T. DE CARVALHO LEAL.

Peccata peccavit Jerusalem, et propter

ea instabilis facta est; omnes qui glorificabant

eam, spreverunt illam, quia viderunt ignominiam

ejus; ipsa autem gemens conversa est retrorsum.

LAMENT.

I.

O immenso aposento a luz alaga

Com soberbo clarão,

E as mezas do banquete se devolvem

Pelo vasto salão;

E os instrumentos palpitantes sôão

Frenetica harmonia;

E o côro dos convivas se levanta

Pleno d’ebria alegria!

Alli se ostenta o nobre vicioso

Rebuçado em orgulho,-o rico infame,

Cheio de mesquinhez,-o envilecido,

Immundo pobre no seo manto involto

De miserias, torpeza e villanias;

-A prostituta que alardêa os vicios,

Menospresando a castidade e a honra,

Sem pejo, sem pudor, d’infamia eivada.

E o livre dithyrambo, a atroz blasphemia,

Os cantos immoraes, canções impudicas,

Gritos e orgia involta em negro manto

De fumo e vinho,-os ares aturdião;

E muito além, no meio d’alta noite,

Nos echos, ruas, praças rebatião.

II.

Depois, ainda suja a bocca, as faces,

D’immundo vomitar,

Com vacillante pé calcando a terra

Os viras levantar.

A larga porta despedia em turmas

A nocturna cohorte;

Ouviu-se depois por toda a parte

Gritos, horror de morte!

E ninguem vinha ao retinir de ferro,

Que assassinava;

Porque era d’um valente o punhal nobre,

Que as leis dictava.

Outra vez a cahir se emmaranhavão

Da porta pelo umbral:

Tinhão tinctas de sangue a face, as vestes,

Em sangue tincto o punhal.

E vinha o sol manifestar horrores

Da noite derradeira;

E a morte vária revelava a furia

Da turba carniceira.

E o sacrilego padre só vendia

O tum’lo por dinheiro;

Vendia a terra aos mortos insepultos,

O vil interesseiro!

Ou lá ficavão, como pasto aos corvos,

Por sobre a terra núa;

E ninguem de tal sorte se pesava,

Que ser podia a sua!

«E Deos maldisse a terra criminosa,

«Maldisse aos homens della,

«Maldisse a cobardia dos escravos

«D’essa terra tão bella.»

III.

E a mortifera peste luctuosa

Do inferno rebentou,

E nas azas dos ventos pavorosa

Sobre todos passou.

E o mancebo que via esperançoso

Longa vida futura,

Doido sentio quebrar-lhe as esperanças

Pedra de sepultura.

E a donzella tão linda que vivia

Confiada no amor,

Entre os braços da mãi provou bem cedo

Da morte o dissabor.

E o tremulo ancião qu’inda esperava

Morrer assim

Como um fructo maduro destacado

D’arvore emfim,

Sentio a morte esvoaçar-lhe em torno,

Como um bulcão,

Que affronta o nauta quando avista a terra

Da salvação.

Era deserta a villa, a casa, o templo-

Ar de morte soprou!

Mas a casa dos vis nos seos delirios

Ebria continuou!

«E Deos maldisse a terra criminosa,

«Maldisse os homens d’ella,

«Maldisse a cobardia dos escravos

«Dessa terra tão bella.»

IV.

Eis o aço da guerra lampeja,

Do fogoso corsel o nitrido,

Eis o bronzeo canhão que rouqueja,

Eis da morte represso o gemido.

Já se aprestão guerreiros luzentes,

Já se enfreião corseis bellicosos,

Já mancebos se partem contentes,

Augurando a victoria briosos.

Brilha a raiva nos olhos;-nas faces

O interno rancor pódes ler;

Eia, avante!-clamarão os bravos,

Eia, avante!-ou vencer ou morrer!

Eia, avante!-briosos corramos

Na peleja o imigo bater;

Crua morte na espada levamos!

Eia, avante!-ou vencer ou morrer!

Eis o aço da guerra lampeja,

Do corsel bellicoso o nitrido,

Eis o bronzeo canhão que rouqueja

E da morte represso o gemido.

V.

E a selva vomitou homens sem conto

A voz do omnipotente,

Como a neve hibernal que o sol derrete,

Engrossando a corrente.

E em redor d’essa villa se estreitarão,

Cingidos d’armadura;

E a villa se doeo no intimo seio

De tão acre amargura.

Mas os fortes bradarão:-Eia, avante!-

Promptos a batalhar;

Mas o braço e valor ante os imigos

Se vierão quebrar.

E um anno inteiro sem cessar lutarão,

Cheios de bizarria,

Como dois crocodilos que brigassem

D’um rio a primazia!

E renderão-se emfim, mas de famintos,

De sequiosos;

Valentes lidadores forão elles,

Se não briosos.

VI.

E o exercito contrario entra rugindo

Na villa, que as suas portas lhe franqueia:

Rasteiro corre o incendio e surdamente

O custoso edificio ataca e mina.

Eis que a chamma roaz amostra as fendas

Das portas que se abrasão; descortina

O torvo olhar do vencedor-apenas-

Lá dentro o incendio só, fóra só trevas!

Urros de frenesi, de dôr, de raiva

Escutão dos que, ás subitas colhidos,

Contra os muros em brasa se arremeção;

Dos que, perdido o tino, intentão loucos

Achar a salvação, e a morte encontrão.

Lá dentro confusão, silencio fóra!

São carrascos aqui, victimas dentro.

Geme o travejamento, estrala a pedra,

Cresce horror sobre horror, desaba o tecto,

E o fumo ennegrecido se ennovella

Co’o vertice sublime os céos roçando.

Como o vulcão que a lava arroja ás nuvens,

Como ignea columna que da terra

Hiante rebentasse,-tal se eleva,

Tal sobe aos ares, tal se empina e cresce

A labareda portentosa; e baixa,

E desce á terra, e o edificio enrola,

E o sorve inteiro, qual se forão vagas

Que a dura rocha do alicerce abalão,

Que a enlação, como a prêa,-e ao fundo pégo

Levão, deixando o mar branco d’espuma.

No horror da noite, sibilando os ventos,

Lingoas pyramidaes do atroz incendio,

Fumosas pelas ruas estalando,

Tingem da côr do inferno a côr da noite,

Tingem da côr do sangue a côr do inferno!

-O ar são gritos, fumo o céo, e a terra fogo.

VII.

E aquelles que inda sãos e immunes erão,

Os que a peste engeitou,

Que fome e sede e privações soffrerão...

A espada decepou.

E a donzella tremeo, da mãi nos braços

Não salva ainda,

Que incitava os prazeres do soldado

A face linda.

E o fido amante, que de a ver tão bella

Sentio prazer,

Sente martyrios por que a vê formosa

No seo morrer.

Coisa alguma escapou!-Já tudo é cinzas,

Tudo destruição:

A columna, o palacio, a casa, o templo,

O templo da oração!

Meninos, homens e mulheres,-todos

Já rojão sobre o pó;

Mas o Deos, o Deos bom já está vingado,

Por ella já sente dó.

E a villa d’outr’ora mais ruidosa,

Lá resurgio cidade;

Por que o Deos da justiça, o das armadas,

O Deos é de bondade.

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