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Capítulo 39 · Primeiros Cantos

Quadras Da Minha Vida. Recordação E Desejo

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Quadras Da Minha Vida. Recordação E Desejo

AO MEO BOM AMIGO O DR. A. REGO.

Sol chi non lascia eredità d’affetti

Poca gioia ha dell’urna.

FOSCOLO.

I.

Houve tempo em que os meos olhos

Gostavão do sol brilhante,

E do negro véo da noite,

E da aurora scintillante.

Gostavão da branca nuvem

Em céo de azul espraiada,

Do terno gemer da fonte

Sobre pedras despenhada.

Gostavão das vivas côres

De bella flôr vicejante,

E da voz immensa e forte

Do verde bosque ondeante.

Inteira a natureza me sorria!

A luz brilhante, o susurrar da brisa,

O verde bosque, o rosicler d’aurora,

Estrellas, céos, e mar, e sol, e terra,

D’esperança e d’amor minha alma ardente,

De luz e de calor meu peito enchião.

Inteira a natureza parecia

Meos mais fundos, mais intimos desejos

Perscrutar e cumprir;-almo sorriso

Parecia enfeitar co’os seos encantos,

Com todo o seo amor compor, doiral-o,

Porque os meos olhos deslumbrados vissem-no,

Porque minha alma de o sentir folgasse.

Oh! quadra tão feliz!-Se ouvia a brisa

Nas folhas susurrando, o som das agoas,

Dos bosques o rugir;-se os desejava,

-O bosque, a brisa, a folha, o trepidante

Das agoas murmurar prestes ouvia.

Se o sol doirava os céos, se a lua casta,

Se as timidas estrellas scintillavão,

Se a flôr desabrochava involta em musgo,

-Era a flôr que eu amava,-erão estrellas

Meos amores sómente, o sol brilhante,

A lua merencoria-os meos amores!

Oh! quadra tão feliz!-doce harmonia,

Acordo extreme de vontade e força,

Que atava minha vida á natureza!

Ella era para mim bem como a esposa

Recem-casada, pudica sorrindo;

Alma de noiva-coração de virgem,

Que a minha vida inteira abrilhantava!

Quando um desejo me brotava n’alma.

Ella o desejo meo satisfazia;

E o quer que ella fizesse ou me dissesse,

Esse era o meo desejo, essa a voz minha,

Esse era o meo sentir do fundo d’alma,

Expresso pela voz que eu mais amava.

II.

Agora a flôr que m’importa,

Ou a brisa perfumada,

Ou o som d’amiga fonte

Sobre pedras despenhada?

Que me importa a voz confusa

Do bosque verde-frondoso.

Que m’importa a branca lua,

Que m’importa o sol formoso?

Que m’importa a nova aurora,

Quando se pinta no céo;

Que m’importa a feia noite,

Quando desdobra o seo véo?

Estas scenas, que amei, já me não causão

Nem dôr e nem prazer!-Indifferente,

Minha alma um só desejo não concebe,

Nem vontade já tem!... Oh! Deos! quem pôde

Do meo imaginar as puras azas

Cercear, desprender-lhe as niveas plumas,

Roja-las sobre o pó, calca-las tristes?

Perante a creação tão vasta e bella

Minha alma é como a flôr que pende murcha;

E qual profundo abysmo:-embalde estrellas

Brilhão no azul dos céos, embalde a noite

Estende sobre a terra o negro manto:

Não póde a luz chegar ao fundo abysmo,

Nem póde a noite ennegrecer-lhe a face;

Não póde a luz á flôr prestar mais brilho,

Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!

III.

Houve tempo em que os meos olhos

Se extasiavão de ver

Agil donzella formosa

Por entre flôres correr.

Gostavão de um gesto brando,

Que revelasse pudor;

Gostavão de uns olhos negros,

Que rutilassem de amor.

E gostavão meus ouvidos

De uma voz-toda harmonia,-

Quer pesares exprimisse,

Quer exprimisse alegria.

Era um prazer, que eu tinha, ver a virgem

Indolente ou fugaz-alegre ou triste,

Da vida a estreita senda desflorando

Com pé ligeiro e animo tranquillo;

Improvida e brilhante parecendo

Seos dias desfolhar, uns após outros,

Como folhas de rosa;-e no futuro-

Ver luzir-lhe sómente a luz d’aurora.

Era deleite e dôr vê-la tão leda

Do mundo as afflicções, angustias, prantos

Affrontar co’um sorriso; era um descanso

Interno e fundo, que sentia a mente,

Um quadro em que os meos olhos repousavão,

Ver tanta formosura e tal pureza

Em rosto de mulher com alma d’anjo!

IV.

Houve tempo em que os meos olhos

Gostavão de lindo infante,

Com a candura e sorriso

Que adorna infantil semblante.

Gostavão do grave aspecto

De magestoso ancião,

Tendo nos labios conselhos,

Tendo amor no coração.

Um representa a innocencia,

Outro a verdade sem véo;

Ambos tão puros, tão graves,

Ambos tão perto do céo!

Infante e velho!-principio e fim da vida!-

Um entra neste mundo, outro sae delle,

Gozando ambos da aurora;-um sobre a terra,

E o outro lá nos céos.-O Deos, que é grande,

Do pobre velho compensando as dôres,

O chama para si; o Deos clemente

Sobre a innocencia de continuo vela.

Amei do velho o magestoso aspecto,

Amei o infante que não tem segredos,

Nem cobre o coração co’os folhos d’alma.

Amei as doces vozes da innocencia,

A rispida franqueza amei do velho,

E as rigidas verdades mal sabidas.

Só por labios senis pronunciadas.

V.

Houve tempo, em que possivel

Eu julguei no mundo achar

Dois amigos extremosos,

Dois irmãos do meu pensar;

Amigos que compr’hendessem

Meo prazer e minha dôr,

Dos meos labios o sorriso,

Da minha alma o dissabor;

Amigos, cuja existencia

Vivesse eu co’o meo viver:

Unidos sempre na vida,

Unidos-té no morrer.

Amizade!-união, virtude, encanto-

Consorcio do querer, de força e d’alma-

Dos grandes sentimentos cá da terra

Talvez o mais reciproco, o mais fundo!

Quem ha que diga: Eu sou feliz!-se acaso

Um amigo lhe falta?-um doce amigo,

Que sinta o seo prazer como elle o sente,

Que soffra a sua dôr como elle a soffre?

Quando a ventura lhes sorri na vida,

Um a par d’outro-ei-los lá vão felizes;

Quando um sente afflicção, nos braços do outro

A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos,

Encontra doce alivio o desditoso

No thesouro que encerra um peito amigo.

Candido par de cysnes, vão roçando

A face azul do mar co’as niveas azas

Em deleite amoroso;-acalentados

Pelo sereno espreguiçar das ondas,

Aspirando perfumes mal sentidos,

Por vesperina arajem bafejados,

É jogo o seo viver;-porém se o vento

No frondoso arvoredo ruge ao longe,

Se o mar, batendo irado as ermas praias,

Crusadas vagas em novello enrola,

Com grito de terror o par candente

Sacode as niveas azas, bate-as,-fogem.

VI.

Houve tempo em que eu pedia

Uma mulher ao meo Deos,

Uma mulher que eu amasse,

Um dos bellos anjos seos.

Em que eu a Deos só pedia

Com fervorosa oração

Um amor sincero e fundo,

Um amor do coração.

Qu’eu sentisse um peito amante

Contra o meu peito bater,

Sómente um dia ... sómente!

E depois delle morrer.

Amei! e o meo amor foi vida insana!

Um ardente anhelar, cauterio vivo,

Posto no coração, a remorde-lo.

Não tinha uma harmonia a natureza

Comparada a sua voz; não tinha côres

Formosas como as della,-nem perfumes

Como esse puro odor qu’ella esparzia

D’angelica dureza.-Meos ouvidos

O feiticeiro som dos meigos labios

Ouvião com prazer; meos olhos vagos

De a ver não se cansavão; labios d’homens

Não poderão dizer como eu a amava!

E achei que o amor mentia, e que o meo anjo

Era apenas mulher! chorei! deixei-a!

E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo,

A sorte, boa ou má, levou-m’os longe,

Bem longe quando eu perto os carecia.

Conclui que a amizade era um phantasma,

Na velhice prudente-habito apenas,

No joven-doudejar; em mim lembrança;

Lembrança!-porém tal que a não trocára

Pelos gozos da terra,-meos prazeres

Forão só meos amigos,-meos amores

Hão de ser neste mundo elles sómente.

VII.

Houve tempo em que eu sentia

Grave e solemne afflicção,

Quando ouvia junto ao morto

Cantar-se a triste oração.

Quando ouvia o sino escuro

Em sons pesados dobrar,

E os cantos do sacerdote

Erguidos junto do altar.

Quando via sobre um corpo

A fria lousa cahir;

Silencio debaixo della,

Sonhos talvez-e dormir.

Feliz quem dorme sob a lousa amiga,

Tepida talvez com o pranto amargo

Dos olhos da afflicção;-se os mortos sentem,

Ou se almas tem amor aos seos despojos,

Certo dos pés do Eterno, entre a alleluia,

E o gozo lá dos céos, e os córos d’anjos,

Hão de lembrar-se com prazer dos vivos,

Que chorão sobre a campa, onde já brota

O denso musgo, e já desponta a relva.

Lagem fria dos mortos! quem me dera

Gozar do teo descanço, ir asilar-me

Sob o teo sancto horror, e nessas trevas

Do bulicio do mundo ir esconder-me!

Oh! lagem dos sepulchros! quem me désse

No teo silencio fundo asilo eterno!

Ahi não pulsa o coração, nem sente

Martyrios de viver quem já não vive.

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