Universo da obra
Universo da obra
Venez...............................................................................
L'air est tiède, et là-bas dans les forêts prochaines
La mousse épaisse et verte abonde au pied des chênes.
(V. Hugo)
Descamba o sol - e a tarde no horizonte
Saudosos véus desdobra...
Do manso rio na dourada veia
Tremem ainda os últimos reflexos
Do dia, que se extingue;
E os píncaros agudos, onde pousam
Do sol poente os raios derradeiros,
Ao longe avultam quais gigantes feros,
Que a fronte cingem com diadema d'ouro.
Ah! eis a hora tão saudosa e meiga,
Em que o amante solitário vaga
A cismar ilusdes, doces mistérios
De sonhada ventura...
E vem, ó tarde, suspirar contigo,
Enquanto não desdobra o manto escuro
A noite a amor propícia....
Afrouxa a viração - mole sussurro
Suspira apenas na sombria veiga,
Qual voz sumida a murmurar queixumes.
É junto a ti, meu bem, que nestas horas
Me voa o pensamento. - Ah! não vens inda
Pousar aqui de teu amante ao lado
Sobre este chão de relva?
Vem, ninfa, vem, meu anjo, aqui te aguarda
Quem só por ti suspira....
Da tarde as auras para ti desfolham
Cheirosas flores na macia relva,
E para te embalar em doces êxtases,
Murmura a solidão meigos acordes
De vagas harmonias:
Vem, que ermo é tudo, e as sombras
Da noite, mãe de amor.
Ah! tu me ouviste; - já ligeiras roupas
Sinto leve rugir; - estes aromas
São as tuas madeixas, que recendem.
Oh! Bem-vinda sejas,
Entre meus braços, doce amiga minha!
Graças à aragem, diligente serva
Dos ditosos amantes, que levou-te
Meus suspiros, e trouxe-te a meu seio!
Vem, meu querido amor, vem reclinar-te
Neste viçoso leito, que a natura
Para nós recamou de musgo e flores,
Em diáfanas sombras escondido:
Desata as longas tranças,
E a seda espalha das madeixas negras
Por sobre os níveos ombros;
Desprende os véus ciosos, deixa os seios
Livremente ondearem; - quero vê-los
Em tênues sombras alvejando a furto,
No afã de amor ansiosos arquejarem.
Da boca tua nos mimosos favos
Oh! Deixa-me sorver num longo beijo
Dos prazeres o mel delicioso,
De amor toda a doçura.
Eu sou feliz! - cantai minha ventura,
Auras da solidão, aves do bosque;
Astros do céu, sorride a meus amores,
Flores da terra, derramai perfumes
Em torno deste leito, em que adormece
Entre os risos de amor o mais ditoso
Dos seres do universo!
Brisas da noite, bafejai frescura
Sobre esta fronte que de amor delira,
Com cantos alentai-me, e com aromas,
Que em tamanha ventura desfaleço.
Eu sou feliz... demais!... cessai delícias,
Que a tanto gozo o coração sucumbe!
Assim cantava o filho dos prazeres...
Mas no outro dia um golpe inopinado
Da sorte lhe quebrou o tênue fio
Da risonha ilusão que o fascinava:
A noite o viu cantando hino de amores,
A aurora o achou curvado a verter pranto
Sobre uma lousa fria.
Hino à Tarde
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar ...
Ei-la saudosa e meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! - que hora amena,
Propícia aos sonhos d'alma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste - como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa - os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minh'alma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; - inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, - tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: - vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: - breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; - iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas d'harpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! - esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas d'ouro,
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minh'alma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas,
Adeus, ó tarde! - já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores.
Silenciosa e triste está minh'alma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
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