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Inspirações da Tarde

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Inspirações da Tarde

Capítulo 4 · Inspirações da Tarde

Parte III

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Parte III

Venez...............................................................................

L'air est tiède, et là-bas dans les forêts prochaines

La mousse épaisse et verte abonde au pied des chênes.

(V. Hugo)

Descamba o sol - e a tarde no horizonte

Saudosos véus desdobra...

Do manso rio na dourada veia

Tremem ainda os últimos reflexos

Do dia, que se extingue;

E os píncaros agudos, onde pousam

Do sol poente os raios derradeiros,

Ao longe avultam quais gigantes feros,

Que a fronte cingem com diadema d'ouro.

Ah! eis a hora tão saudosa e meiga,

Em que o amante solitário vaga

A cismar ilusdes, doces mistérios

De sonhada ventura...

E vem, ó tarde, suspirar contigo,

Enquanto não desdobra o manto escuro

A noite a amor propícia....

Afrouxa a viração - mole sussurro

Suspira apenas na sombria veiga,

Qual voz sumida a murmurar queixumes.

É junto a ti, meu bem, que nestas horas

Me voa o pensamento. - Ah! não vens inda

Pousar aqui de teu amante ao lado

Sobre este chão de relva?

Vem, ninfa, vem, meu anjo, aqui te aguarda

Quem só por ti suspira....

Da tarde as auras para ti desfolham

Cheirosas flores na macia relva,

E para te embalar em doces êxtases,

Murmura a solidão meigos acordes

De vagas harmonias:

Vem, que ermo é tudo, e as sombras

Da noite, mãe de amor.

Ah! tu me ouviste; - já ligeiras roupas

Sinto leve rugir; - estes aromas

São as tuas madeixas, que recendem.

Oh! Bem-vinda sejas,

Entre meus braços, doce amiga minha!

Graças à aragem, diligente serva

Dos ditosos amantes, que levou-te

Meus suspiros, e trouxe-te a meu seio!

Vem, meu querido amor, vem reclinar-te

Neste viçoso leito, que a natura

Para nós recamou de musgo e flores,

Em diáfanas sombras escondido:

Desata as longas tranças,

E a seda espalha das madeixas negras

Por sobre os níveos ombros;

Desprende os véus ciosos, deixa os seios

Livremente ondearem; - quero vê-los

Em tênues sombras alvejando a furto,

No afã de amor ansiosos arquejarem.

Da boca tua nos mimosos favos

Oh! Deixa-me sorver num longo beijo

Dos prazeres o mel delicioso,

De amor toda a doçura.

Eu sou feliz! - cantai minha ventura,

Auras da solidão, aves do bosque;

Astros do céu, sorride a meus amores,

Flores da terra, derramai perfumes

Em torno deste leito, em que adormece

Entre os risos de amor o mais ditoso

Dos seres do universo!

Brisas da noite, bafejai frescura

Sobre esta fronte que de amor delira,

Com cantos alentai-me, e com aromas,

Que em tamanha ventura desfaleço.

Eu sou feliz... demais!... cessai delícias,

Que a tanto gozo o coração sucumbe!

Assim cantava o filho dos prazeres...

Mas no outro dia um golpe inopinado

Da sorte lhe quebrou o tênue fio

Da risonha ilusão que o fascinava:

A noite o viu cantando hino de amores,

A aurora o achou curvado a verter pranto

Sobre uma lousa fria.

Hino à Tarde

A tarde está tão bela e tão serena

Que convida a cismar ...

Ei-la saudosa e meiga reclinada

Em seu etéreo leito,

Da muda noite amável precursora;

Do róseo seio aromas transpirando,

Com vagos cantos, com gentil sorriso

Ao repouso convida a natureza.

Montão de nuvens, como vasto incêndio,

Resplende no horizonte, e o clarão rábido

Céus e montes ao longe purpureia.

Pelas odoras veigas

As auras brandamente se espreguiçam,

E o sabiá na encosta solitária

Saudoso cadenceia

Pousado arpejo, que entristece os termos.

Oh! que grato remanso! - que hora amena,

Propícia aos sonhos d'alma!

Quem me dera voltar à feliz quadra,

Em que este coração me transbordava

De emoções virginais, de afetos puros!

Em que esta alma em seu selo refletia,

Como o cristal da fonte, pura ainda,

Todo o fulgor do céu, toda a beleza

E magia da terra! ...ó doce quadrar

Quão veloz te sumiste - como um sonho

Nas sombras do passado!

Quanto eu te amava então, tarde formosa.

Qual pastora gentil, que se reclina

Rósea e louçã, sobre a macia relva,

Das diurnas fadigas descansando;

A face em que o afã lhe acende as cores,

Na mão repousa - os seios lhe estremecem

No mole arfar, e o lume de seus olhos

Em suave langor vai desmaiando;

Assim me aparecias, meiga tarde,

Sobre os montes do ocaso debruçada;

Tu eras o anjo da melancolia

Que à paz da solidão me convidava.

Então no tronco, que o tufão prostrava

No viso da colina ou na erma rocha,

Sobre a margem do abismo pendurada,

Me assentava a cismar, nutrindo a mente

De arroubadas visões, de aéreos sonhos.

Contigo a sós sentindo o teu bafejo

De aromas e frescor banhar-me a fronte,

E afagar brandamente os meus cabelos,

Minh'alma então boiava docemente

Por um mar de ilusões e parecia

Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,

Me ia embalando com sonoras dálias:

De um puro sonho sobre as asas de ouro

Me voava enlevado o pensamento,

Encantadas paragens devassando;

Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam

Afoito me embebia, e o espaço infindo

Transpondo, ia entrever no estranho arroubo

Os radiantes pórticos do Elísio.

Ó sonhos meus, ó ilusões amenas

De meus primeiros anos,

Poesia, amor, Saudades, esperanças,

Onde fostes? por que me abandonasses?

Inda do tempo me não pesa a destra

E não me alveja a fronte; - inda não sinto

Cercar-me o coração da idade os gelos,

E já vós me fugis, ó ledas flores

De minha primavera!

E assim vós me deixais, - tronco sem seiva,

Só, definhando na aridez do mundo?

sonhos meus, por que me abandonasses?

A tarde está tão bela e tão serena

Que convida a cismar: - vai pouco a pouco

Desmaiando o rubor dos horizontes,

E pela amena solidão dos vales

Caladas sombras pousam: - breve a noite

Abrigará com a sombra de seu manto

A terra adormecida.

Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,

Nesta hora, em que tudo sobre a terra

Suspira, cisma ou canta,

Como esse afagador extremo raio,

Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,

Vinde pairar ainda sobre a fronte

Do bardo pensativo; - iluminara

Com um raio inspirado;

Antes que os ecos todos adormeçam

Da noite no silêncio,

Quero um hino vibrar nas cordas d'harpa

Para saudar a filha do crepúsculo.

Ai de mim! - esses tempos já caíram

Na sombria voragem do passado!

Os meus Sonhos queridos se esvaíram,

Como após o festim murchas se espalham

As flores da grinalda:

Perdeu a fantasia as asas d'ouro,

Com que Se alava às regiões sublimes

De mágica poesia,

E despojada de seus doces sonhos

Minh'alma vela a sós com o sofrimento,

Qual vela o condenado

Em sombria masmorra à luz sinistra

De amortecida lâmpada.

Adeus, formosa filha do Ocidente,

Virgem de olhar sereno que meus sonhos

Em doces harmonias transformavas,

Adeus, ó tarde! - já nas frouxas cordas

Rouqueja o vento e a voz me desfalece...

Mil e mil vezes raiarás ainda

Nestes sítios saudosos que escutaram

De minha lira o desleixado acento;

Mas ai de mim! nas solitárias veigas

Não mais escutarás a voz do bardo,

Hinos casando ao sussurrar da brisa

Para saudar teus mágicos fulgores.

Silenciosa e triste está minh'alma,

Bem como lira de estaladas cordas

Que o trovador esquece pendurada

No ramo do arvoredo,

Em ócio triste balançando ao vento.

Inspirações da Tarde

Sinopse

Leia Inspirações da Tarde, de Bernardo Guimarães, grátis no Literunico. Coleção poética clássica brasileira em domínio público, publicada para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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