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O Elixir do Pajé

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O Elixir do Pajé

Capítulo 1 · O Elixir do Pajé

O Elixir do Pajé

Lasciva est nobis pagina, vita proba.

Que tens, caralho, que pesar te oprime

Que assim te vejo murcho e cabisbaixo,

Sumido entre essa imensa pentelheira,

Mole, caindo pela perna abaixo?

Nessa postura merencória e triste,

Para trás tanto vergas o focinho,

Que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,

Teu sórdido vizinho!

Que é feito desses tempos gloriosos

Em que erguias as guelras inflamadas,

Na barriga me davas de contínuo

Tremendas cabeçadas?...

Qual hidra furiosa, o colo alçando,

Co´a sanguinosa crista açoitas os manes,

E sustos derramando

Por terras e por mares,

Aqui e além atira mortais botes,

Dando co’a cauda horríveis piparotes,

Assim tu, ó caralho,

Erguendo o teu vermelho cabeçalho,

Faminto e arquejante,

Dando em vão rabanadas pelo espaço,

Pedias um cabaço!

Um cabaço! Que era este o único esforço,

Única empresa digna de teus brios;

Porque surradas conas e punhetas

São ilusões, são petas,

Só dignas de caralhos doentios.

Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?

Quem sepultou-te nesse vil marasmo?

Acaso p’ra teu tormento,

Endefluxou-te algum esquentamento?

Ou em pívias estéries te cansaste,

Ficando reduzido a inútil traste?

Por ventura do tempo a destra irada

Quebrou-te as forças, envergou-te o colo,

E assim deixando-te pálido e pendente,

Olhando para o solo,

Bem como inútil lâmpada apagada

Entre duas colunas pendurada?

Caralho sem tesão é fruta chocha,

Sem gosto nem chorume,

Lingüiça com bolor, banana podre,

É lampião sem lume,

Teta que não dá leite,

Balão sem gás, candeia sem azeite.

Porém não é tempo ainda

De esmorecer,

Pois que teu mal ainda pode

Alívio ter.

Sus, ó caralho meu, não desanimes,

Que inda novos combates e vitórias

E mil brilhantes glórias

A ti reserva o fornicante Marte,

Que tudo vencer pode: engenho e arte.

Eis um santo elixir milagroso,

Que vem de longes terras,

Transpondo montes, serras,

E assim chegou por modo misterioso.

Um pajé sem tesão, um nigromante

Das matas de Goiás,

Sentindo-se incapaz

De bem cumprir a lei do matrimônio,

Foi ter com o demônio,

A lhe pedir conselho

Para dar-lhe vigor ao aparelho,

Que já de encarquilhado,

De velho e de cansado,

Quase lhe sumia entre o pentelho.

À meia-noite, à luz da lua nova,

Co’os manitós falando em uma cova,

Ao som de atroz conjuro e negra praga,

Compôs esta triaga

De plantas cabalísticas colhidas

por suas próprias mãos às escondidas.

Este velho Pajé de piça mole,

Com uma gota deste feitiço,

Sentiu de novo renascer os brios

De seu velho chouriço.

E ao som das inúbias,

Ao som do boré,

Na taba ou na brenha,

Deitado ou de pé,

No macho ou na fêmea,

De noite ou de dia,

Fodendo se via

O velho pajé!

Se acaso ecoando

Na mata sombria,

Medonho se ouvia

O som do boré

Dizendo: — “Guerreiros,

Ó vinde ligeiros,

Que à guerra vos chama

Feroz aimoré”,

— Assim respondia

O velho Pajé,

Brandindo o caralho,

Batendo c’o pé:

— “Mas neste trabalho,

Dizei, minha gente,

Mais forte quem é?

Quem vibra o marzapo

Sem mais valentia?

Quem conas enfia

Com tanta destreza?

Quem fura cabaços

Com mais gentileza?”

E ao som das inúbias,

Ao som do boré,

Na taba ou na brenha,

Deitado ou de pé,

No macho ou na fêmea,

Fodia o Pajé.

Se a inúbia soando

Por vales e outeiros,

À deusa sagrada

Chamava os guerreiros,

Nos graus prazentivos,

De noite ou de dia,

Ninguém jamais via

O velho Pajé,

Que sempre fodia

Na taba ou na brenha,

No macho ou na fêmea,

Deitado ou de pé,

E o duro marzapo,

Que sempre fodia,

Qual rijo tacape

A nada cedia!

Vassoura terrível

Dos cus indianos

Por anos e anos

Fodendo passou,

Levando de rojo

Donzelas e putas,

No seio das grutas

Fodendo acabou!

E com sua morte

Milhares de gretas

Fazendo punhetas

Saudosas deixou...

Feliz caralho meu, exulta, exulta!

Tu que aos conos fizeste guerra viva,

E nas guerras de amor criaste calos,

Eleva a fronte altiva;

Em triunfo sacode hoje os badalos;

Alimpa esse bolor, lava essa cara,

Que a Deusa dos Amores,

Já pródiga em favores,

Hoje novos triunfos te prepara.

Graças ao santo elixir

Que herdei do pajé bandalho,

Vai hoje ficar em pé

O meu cansado caralho!

Vinde, ó putas e donzelas,

Vinde abrir as vossas pernas

Ao meu tremendo marzapo,

Que a todas, feias ou belas,

Com caralhadas eternas

Porei as cricas em trapo...

Graças ao santo elixir

Que herdei do pajé bandalho,

Vai hoje ficar em pé

O meu cansado caralho!

Sus, caralho! Este elixir

Ao combate hoje te chama

E de novo ardor te inflama

Para as campanhas do amor!

Não mais ficarás à-toa

Nesta indolência tamanha,

Criando teias de aranha,

Cobrindo-te de bolor.

Este elixir milagroso,

O maior mimo da terra,

Com uma só gota encerra

Quinze dias de tesão;

Do macróbio centenário

Ao esquecido marzapo,

Que já mole como um trapo,

Nas pernas balança em vão,

Dá tal força e valentia

Que só com uma estocada

Põe a porta escancarada

Do mais rebelde cabaço,

E pode um cento de fêmeas

Foder de fio a pavio,

Sem nunca sentir cansaço.

Eu te adoro, água divina,

Santo elixir do tesão,

Eu te dou meu coração,

Eu te entrego a minha porra,

Faze que ela, sempre tesa,

E em tesão sempre crescendo,

Sem cessar viva fodendo,

Até que fodendo morra!

Sim, faze que este caralho,

Por tua santa influência,

A todos vença em potência,

E, com gloriosos abonos,

Seja logo proclamado

Vencedor de cem mil conos.

E seja em todas as rodas

D´hoje em diante respeitado

Como herói de cem mil fodas,

Por seus heróicos trabalhos,

Eleito — rei dos caralhos!

O Elixir do Pajé

Sinopse

Leia O Elixir do Pajé, de Bernardo Guimarães, grátis no Literunico. Poema satírico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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