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Capítulo 3 · A Carne

III

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Realisou-se o prognostico do medico.

Lenita, após um comprido somno, acordou calma, com os nervos socegados, com os musculos distendidos, soltos. Mas estava abatida, molle, queixava-se de peso na cabeça, de grande cançasso. Passou dous dias na cama, e só ao terceiro poude levantar-se.

O apetite foi voltando aos poucos, e suas refeições foram sendo tomadas com prazer, a horas regulares.

Podia-se dizer que entrára em convalescença do cataclysma organico produzido pela morte do pae.

E Lenita sentia-se outra, femininizava-se. Não tinha mais gostos viris de outros tempos, perdera a sede de sciencia : de entre os livros que trouxera procurava os mais sentimentaes. Releu Paulo e Virginia, o livro quarto da Eneida, o sétimo do Telemakho. A fome picaresca de Lazarilho de Tortnes fel-a chorar.

Tinha uma vontade exquisita de dedicar-se a quem quer que fosse, de soffrer por um doente, por um invalido. Por vezes lembrou-lhe que, si casasse, teria filhos, criancinhas que dependessem de seus carinhos, de sua sollicitude, de seu leite. E achava possivel o casamento.

A imagem do pae ia-se esbatendo em uma penumbra de saudade que ainda era dolorosa, mas que já tinha encanto.

Passava horas e horas juncto da entrevada, conversava com o coronel, por vezes ria.

—Isto vai melhor, muito melhor, dizia o bom do homem. É pôr-se você por ahi alegre, filhinha. O mundo é assim mesmo : o que não tem remedio remediado está.

Uma tarde, achando-se só em sua sala, Lenita sentiu-se tomada de uma languidez deliciosa, sentou-se na rede, fechou os olhos e entregou-se á modorra branda que produzia o balanço.

Em frente, sobre um consolo, entre outros bronzes que trouxera, estava uma das reducções celebres de Barbedienne, a da estatua de Agasias, conhecida pelo nome de Gladiador Borghese.

Um raio mortiço de sol poente, entrando por uma frincha da janella, dava de chapa na estatua, afogueava-a, como que fazia correr sangue e vida no bronze mate.

Lenita abriu os olhos. Attraiu-lhe as vistas o brilho suave do metal ferido pela luz.

Ergueu-se, acercou-se da mesa, fitou com attenção a estatua : aquelles braços, aquellas pernas, aquelles musculos resaltantes, aquelles tendões retezados, aquella virilidade, aquella robustez, impressionaram-n-a de modo extranho.

Dezenas de vezes tinha ella estudado e admirado esse primor anatomico em todas as suas minudencias cruas, em todos os nadas que constituem a perfeição artistica, e nunca experimentára o que então experimentava.

A cerviz taurina, os biceps encaroçados, o thorax largo, o pelvis estreito, os pontos retrahidos das inserções musculares da estatua, tudo parecia corresponder a um idéial plastico que lhe vivera sempre latente no intellecto, e que despertava naquelle momento, revelando brutalmente a sua presença.

Lenita não se podia arredar, estava presa, estava fascinada.

Sentia-se fraca e orgulhava-se de sua fraqueza. Atormentava-a um desejo de cousas desconhecidas, indefinido, vago, mas imperioso, mordente. Antolhava-se-lhe que havia de ter goso infinito si toda a força do gladiador se desencadeasse contra ella, pisando-a, machucando-a, triturando-a, fazendo-a em pedaços.

E tinha impetos de comer de beijos as fórmas masculinas estereotypadas no bronze. Queria abraçar-se, queria fundir-se com ellas. De repente corou até á raiz dos cabellos.

Em um momento, por uma como intuscepção subita, aprendera mais sobre si propria do que em todos os seus longos estudos de physiologia. Conhecera que ella, a mulher superior, apezar de sua poderosa mentalidade, com toda a sua sciencia, não passava na especie de uma simples femea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade organica do macho.

Invadiu-a um desalento immenso, um nojo invencivel de si propria.

Robustecer o intellecto desde o desabrochar da razão, perscrutar com paciencia, aturadamente, de dia, de noute, a todas as horas, quasi todos os departamentos do saber humano, habituar o cerebro a demorar-se sem fadiga na analyse subtil dos mais abstrusos problemas da mathematica transcendental, e cahir de repente, com os arkhanjos de Milton, do alto do céo no lodo da terra, sentir-se ferida pelo aguilhão da carne, espolinhar-se nas concupiscencias do cio, como uma negra boçal, como uma cabra, como um animal qualquer… era a suprema humilhação.

Fez um exforço enorme, arrancou-se do feitiço que a dementava, e, vacillante, encostando-se aos moveis e ás paredes, recolheu-se ao seu quarto, fechou com difficuldade as janelas, atirou-se vestida sobre a cama.

Jazeu immovel largo espaço.

Uma humidade morna, que se lhe ia extendendo por entre as coxas, fel-a er-guerse de subito, em reacção violenta contra a modorra que a prostrára.

Com movimentos sacudidos, nervosos, atirou o chale, desabotoou rapida o corpete, arrebentou os coses da saia preta e das anaguas, ficou em camiza.

Uma larga mancha vermelha, rutila, viva, maculava a alvura da cambraia.

Era a onda catamenial, o fluxo sanguíneo da fecundidade que reçumava de seus flancos robustos como da uva esmagada jorra o mosto rubejante.

Mais de cem vezes já a natureza se tinha assim nella manifestado, e nunca lhe causára o que ella então estava sentindo.

Quando aos quatorze annos, após um dia de quebramento e cançasso, se mostrára o phenomeno pela vez primeira, ella ficára louca de terror, acreditára-se ferida de morte, e, com a impudicicia da innocencia, correra em gritos para o pae, contára-lhe tudo.

Lopes Mattoso procurára socegal-a—que não era nada ; que isso se dava com todas as mulheres ; que evitasse molhadellas, sol, sereno ; que dentro de tres dias, ou de cinco ao mais tardar, havia de estar boa, que se não assustasse da repetição todos os mezes.

Com o tempo, os livros de physiologia acabaram de a edificar ; em Küss aprendera que a menstruação é uma muda epithelial do utero, conjuncta por sympathia com a ovulação, e que o terrivel e calumniado corrimento é apenas uma consequencia natural dessa muda.

Resignára-se, afizera-se a mais essa imposição do organismo, assim como já estava afeita a outras. Sómente, para estudo de si propria, começára de marcar, com estigmas de lapis vermelho, em kalendariosinhos de algibeira as datas dos apparecimentos.

Anoiteceu.

A mulata a veiu chamar para a ceia. Encontrou-a deitada, encolhida, aconchegando-se nas roupas.

Perguntou-lhe si estava doente : ao saber que effectivamente o estava, sahiu, avisou o senhor, trouxe as suas cobertas e travesseiros, arranjou uma cama no tapete, ao pé do leito, quedou-se sollícita para o que fosse preciso.

O coronel, cheio de cuidados, veiu á porta do quarto interrogar Lenita.

—Que não era nada, respondeu ella, que aquillo não passava de uma indisposição sem consequencias, que havia de acordar boa no dia seguinte.

—Menina, você sabe que agora seu pae sou eu. Si precisar de alguma cousa, franquezinha, mande-me chamar a qualquer hora, não receie me incommodar. A pobre da velha lá está afflicta, amaldiçoando o tolhimento que a faz não prestar para nada. Não quererá você um chá de salva, um pouco de vinho quente ?

—Obrigada, não quero cousa nenhuma.

—Bem, bem, já a deixo em paz. Até ámanhã. Procure dormir.

E sahiu.

Lenita adormeceu. A principio foi um dormitar interrompido, irrequieto, cortado de pequenos gritos. Depois apoderou-se d’ella um como languor, um extase que não era bem vigilia, e que não era bem somno. Sonhou ou antes viu que o gladiador avolumava-se na sua peanha, tomava estatura de homem, abaixava os braços, endireitava-se, descia, caminhava para o seu leito, parava á beira, contemplando-a detidamente, amorosamente.

E Lenita rolava com delicias no effluvio magnetico do seu olhar, como na agua deliciosa de um banho tepido.

Tremores subitos percorriam os membros da moça : seus pellos todos hispidavam-se em uma irritação mordente e lasciva, dolorosa e cheia de goso.

O gladiador extendeu o braço esquerdo, apoiou-se na cama, sentou-se a meio, ergueu as cobertas, e sempre a fital-a, risonho, fascinador, foi-se recostando suave até que se deitou de todo, tocando-lhe o corpo com a nudez provocadora de suas fórmas viris.

O contacto não era o contacto frio e duro de uma estatua de bronze : era o contacto quente e macio de um homem vivo.

E a esse contacto apoderou-se de Lenita um sentimento indefinivel : era receio e desejo, temor e volupia a um tempo. Queria, mas tinha medo.

Collaram-se-lhe nos labios os labios do gladiador, seus braços fortes enlaçaram-n-a, seu amplo peito cobriu-lhe o seio delicado.

Lenita offegava em extremeções de prazer, mas de prazer incompleto, falho, torturante. Abraçando o phantasma de sua hallucinação, ella revolvia-se como uma besta fera no ardor do cio. A tonicidade nervosa, o erethismo, o orgasmo manifestava-se em tudo, no palpitar dos labios tumidos, nos bicos dos seios cupidamente retezados.

Em uma convulsão desmaiou.

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Sinopse

Leia A Carne, de Júlio Ribeiro, grátis no Literunico. Romance naturalista brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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