Universo da obra
Universo da obra
Terminára a moagem, ia adiantada a primavera.
A flora tropical rejuvenescera na muda de todos os annos : os gomos, os brotos, a fronde nova rebentára pujante, aqui de um verde claro deslavado, velludoso, muito tenro ; alli lustrosa, vidrenta, côr de ferrugem ; além rubra. Depois tudo isso se expandira, se robustecera, se consolidára em uma verdura forte, sadia, vivaz.
A natureza mudára de toilette, e entrára no periodo dos amores.
Irrompia a florescencia com todo o seu luxo de fórmas, com toda a sua prodigalidade de matizes, com todo o seu esbanjamento de perfumes.
Por sobre os cafezaes escuros atirára ella, com suave monotonia, um lençol de corollas alvissimo, deslumbrante.
Na matta toda arvore, todo arbusto, toda a planta tomava-se de extranha energia.
As flores, em uma abundancia impossivel, comprimiam-se nos galhos, empurravam-se, deformavam-se. No quebrantamento volupia amorosa pendiam, reviravam os calices, entornavam no ambiente ondas de pollen, de pulverulencia fecundante.
Á lascivia da flora se vinha junctar o furor erotico da fauna.
Por toda a parte ouviam-se gorgeios e assobios, uivos e bramidos de amor. Era o trilar do inambú, o piar do macuco, o berrar do tucano, o grasnar gargalhado do jacú, o retinir da araponga, o chiar do serelepe, o rebramar do veado, o miar plangente, quasei humano dos felinos.
A essa tempestade de notas, a esse cataclysma de gemidos cupidos, sobrelevava o regougo aspero do cachorro-do-matto, o guincho lancinante, phrenetico do cará-cará perdido na amplidão.
A folhagem tremia agitada, esbarrada, machucada. Insectos brilhantes, verdes como esmeraldas, rubros como rubins, revoluteavam em sussurro, agarravam-se frementes. Os passaros buscavam-se, beliscavam-se, em vôos curtos, fortes, sacudidos, com as pennas arrufadas. Os quadrupedes retouçavam, perseguiam-se, aos corcóvos, arripiando o pello. Serpentes silvavam meigas, enroscando-se em luxúria aos pares.
A terra casava suas emanações quentes, ásperas, elétricas com o mormaço lúbrico da luz do sol coada pela folhagem.
Em cada buraco escuro, em cada fenda de rocha, por sobre o solo, nas hastes das ervas, nos galhos das árvores, na água, no ar, em toda a parte, focinhos, bicos, antenas, braços, élitros desejavam-se, procuravam-se, encontravam-se, estreitavam-se, confundiam-se, no ardor da sexualidade, no espasmo da reprodução.
O ar como que era cortado de relâmpagos sensuais, sentiam-se passar lufadas de tépida volúpia. Sobressaía a todos os perfumes, dominava forte um cheiro acre de semente, um odor de cópula, excitante, provocador.
Lenita estava preguiçosa. Internava-se na mata e, quando achava uma barroca seca, uma sombra bem escura, reclinava-se aconchegando o corpo na alfombra espessa de folhas mortas, entregava-se à moleza erótica que estilava das núpcias pujantes da terra. Voltava à casa, estendia-se na rede, com uma perna estirada sobre outra, com um livro que não lia caído sobre o peito, com a cabeça muito pendida para trás, com os olhos meio cerrados, e assim quedava-se horas e horas em um lugar cheio de encantos.
Pensava constantemente, continuamente, sem o querer, no caçador excêntrico do Paranapanema, via-o a todo o momento junto de si, robusto, atlético como o ideara, dialogava com ele.
Ficara cruel: beliscava as criolinhas, picava com agulhas, feria com canivete os animais que lhe passavam ao alcance. Uma vez um cachorro reagiu e mordeu-a. Em outra ocasião pegou num canário que lhe entrara na sala, quebrou-lhe e arrancou-lhe as pernas, desarticulou-lhe uma asa, soltou-o, findo com prazer íntimo ao vê-lo esvoaçar miseravelmente, com uma asa só, arrastando a outra, pousando os cotos sangrentos na terra pedregosa do terreiro.
O escravo, a quem ela fizera tirar o ferro do pé, fugira de fato, como tinha previsto o coronel: um dia voltou preso, amarrado com uma corda pelos lagartos dos braços, trazido por dois caboclos.
Que não havia remédio, disse o coronel, que dessa feita o negro tinha de tomar uma funda mestra por ter abusado do apadrinhamento de Lenita, que ia tornar a pôr-lhe o ferro, e que não o tiraria mais nem à mão de Deus Padre.
Lenita, muito de adrede, não intercedeu. Sentia uma curiosidade mordente de ver a aplicação do bacalhau, de conhecer de vista esse suplício legendário, aviltante, atrozmente ridículo. Folgava imenso com a ocasião talvez única que se lhe apresentava, comprazia-se com volúpia estranha, mórbida na idéia das contrações de dor, dos gritos lastimados do negro misérrimo que não havia muito lhe despertara a compaixão.
Disfarçadamente, habilmente, sem tocar de modo direto no assunto, conseguiu saber do coronel que o castigo havia de ter lugar na casa do tronco, no dia seguinte, ao amanhecer.
Passou a noite em sobressalto, acordando a todas as horas, receosa de que o sono imperioso da madrugada lhe fizesse perder o ensejo de ver o espetáculo por que tanto anelava.
Cedo, muito escuro ainda, levantou-se, saiu, atravessou o terreiro, e, sem que ninguém a visse, entrou no pomar.
Do lado de leste era este fechado pela fila das senzalas, cujas paredes de barro cru erguiam-se altas, inteiriças, muito gretadas.
Havia uma casa mais vasta duas vezes do que qualquer outra: era a casa do tronco.
A essa chegou-se Lenita, encostou-se e, tirando do seio uma tesourinha que trouxera, começou a abrir um buraco na parede, à altura dos olhos, entre dois barrotes e duas ripas, em lugar favorável, donde já se protraía um torrão muito pedrento, muito fendido, meio solto.
A tesourinha era curta, mas reforçada, sólida, de aço excelente, de Rodgers. A obra avançava, Lenita trabalhava com ardor, mas também com muita paciência, com muito jeito. O aço mordia, esmoía o barro friável quase sem ruído. Um rastilho de pó amarelado maculava o vestido preto da moça.
Deslocou-se o torrão, e caiu para dentro, dando um som surdo ao tombar no chão fofo, de terra mal batida.
Estava feito o buraco.
Lenita retraiu-se, ficou imóvel, sustendo a respiração.
Após instantes estendeu o pescoço, espiou. Nada pôde ver: estava muito escuro dentro. Ouvia-se um ressonar alto, igual.
Passou-se um longo trato de tempo.
O brilho das estrelas empalideceu. Uma faixa de luz branca desenhou-se ao nascente, ruborizou-se, purpurejou inflamada com reflexos cor de ouro. O ar tornou-se mais fino, mais sutil e a passarada rompeu num hino áspero, desacorde, mas alegre, festivo, titânico, saudando o dia que despontava.
Ouviu-se o sino da fazenda vibrar muito sonoro.
Lenita tornou a espiar: a casa do tronco já estava clara.
A um canto espalmava-se um estrado de madeira engordurado, lustroso pelo rostir de corpos humanos sujos. As tábuas que o constituíam embutiam-se em um sólido pranchão de cabriúva, cortado em dois no sentido do comprimento: as duas peças por ele formadas justapunham-se, articulando-se de um lado por uma dobradiça forte, presas de outro por uma fechadura de ferrolho. Na parte superior da peça fixa e na inferior da móvel havia piques semicirculares, chanfrados, que, ao ajustarem-se essas peças, coincidiam, perfazendo furos bem redondos, de um decímetro mais ou menos de diâmetro.
Era o tronco.
Sobre o estrado, de ventre para o ar, com as pernas passadas, pouco acima dos tornozelos, nos buracos dos pranchões, envolto em uma velha coberta de lã parda, despedaçada, imunda, tinha atravessado a noite o escravo fugido.
Dormira, ao bater do sino acordara.
Segurando-se a um joelho com as mãos ambas, sentara-se por um pouco, espreguiçara, volvera a deitar-se, com os membros doloridos, resignado.
Abriu-se a porta, e entrou o administrador seguido por um dos caboclos que tinham trazido o preto.
—Olá, seu mestre! gritou o caboclo, olhe o que aqui lhe trago:
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