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Capítulo 1 · Investigação Sobre o Entendimento Humano

Seção I - Das diferentes espécies de filosofia

Nota editorial. Tradução original Literunico, em português brasileiro, preparada a partir do texto inglês em domínio público de David Hume, An Enquiry Concerning Human Understanding. Esta seção corresponde à abertura da obra e apresenta a distinção entre a filosofia fácil, ligada à vida comum, e a filosofia rigorosa, voltada ao exame dos princípios do entendimento.

## Seção I - Das diferentes espécies de filosofia

A filosofia moral, ou ciência da natureza humana, pode ser tratada de duas maneiras diferentes. Cada uma delas tem seu mérito próprio e pode contribuir para o entretenimento, a instrução e a reforma da humanidade.

A primeira considera o homem principalmente como nascido para agir, movido em suas escolhas pelo gosto e pelo sentimento, perseguindo um objeto e evitando outro conforme o valor que esses objetos parecem possuir e conforme a luz sob a qual se apresentam. Como a virtude, entre todos os objetos, é reconhecida como o mais valioso, essa espécie de filósofo a pinta com as cores mais amáveis. Recorre a todos os auxílios da poesia e da eloquência, trata seu assunto de modo fácil e evidente, do modo mais adequado para agradar à imaginação e envolver os afetos.

Esses filósofos escolhem as observações e exemplos mais marcantes da vida comum, colocam caracteres opostos em contraste adequado e, atraindo-nos para os caminhos da virtude pela visão da glória e da felicidade, dirigem nossos passos por esses caminhos com os preceitos mais sólidos e os exemplos mais ilustres. Fazem-nos sentir a diferença entre vício e virtude, excitam e regulam nossos sentimentos, e, se conseguem inclinar nosso coração ao amor da probidade e da verdadeira honra, julgam ter alcançado plenamente o fim de todos os seus trabalhos.

A outra espécie de filósofo considera o homem mais como ser racional do que como ser ativo, e procura formar seu entendimento mais do que cultivar seus costumes. Toma a natureza humana como objeto de especulação e, com exame estreito, investiga-a para encontrar os princípios que regulam nosso entendimento, despertam nossos sentimentos e nos levam a aprovar ou censurar determinado objeto, ação ou comportamento.

Esses filósofos consideram uma vergonha para toda literatura que a filosofia ainda não tenha fixado, para além da controvérsia, o fundamento da moral, do raciocínio e da crítica, e que continue sempre falando de verdade e falsidade, vício e virtude, beleza e deformidade, sem ser capaz de determinar a fonte dessas distinções. Ao empreenderem essa tarefa árdua, não se deixam deter por dificuldades. Partindo de casos particulares para princípios gerais, avançam ainda para princípios mais gerais, e não se dão por satisfeitos até chegar àqueles princípios originais nos quais, em toda ciência, deve terminar a curiosidade humana.

Embora suas especulações pareçam abstratas, e até ininteligíveis para leitores comuns, elas miram a aprovação dos instruídos e dos sábios. Esses filósofos se consideram suficientemente recompensados pelo trabalho de toda uma vida se conseguem descobrir algumas verdades ocultas que possam contribuir para a instrução da posteridade.

É certo que a filosofia fácil e evidente sempre terá, junto à maior parte dos homens, preferência sobre a filosofia exata e abstrusa. Muitos a recomendarão não apenas como mais agradável, mas também como mais útil. Ela entra mais na vida comum, molda o coração e os afetos, e, tocando os princípios que movem os homens, reforma sua conduta e os aproxima daquele modelo de perfeição que descreve.

A filosofia abstrusa, ao contrário, por fundar-se numa disposição de espírito que não consegue penetrar nos negócios e na ação, desaparece quando o filósofo deixa a sombra e entra na luz do dia. Seus princípios dificilmente conservam alguma influência sobre nossa conduta e nosso comportamento. Os sentimentos do coração, a agitação das paixões e a força dos afetos dissipam todas as suas conclusões e reduzem o filósofo profundo a um simples homem comum.

Também se deve confessar que a fama mais durável, e também a mais justa, foi conquistada pela filosofia fácil. Os raciocinadores abstratos parecem ter desfrutado até aqui apenas de uma reputação momentânea, nascida do capricho ou da ignorância de seu próprio tempo, sem conseguir sustentar seu renome diante de uma posteridade mais equitativa.

É fácil que um filósofo profundo cometa um erro em seus raciocínios sutis. E um erro torna-se necessariamente pai de outro, quando ele prossegue em suas consequências e não se deixa deter por nenhuma conclusão, por mais incomum que pareça ou por mais que contradiga a opinião popular. Mas o filósofo que pretende apenas representar o senso comum da humanidade com cores mais belas e mais atraentes, se por acaso cai em erro, não avança muito. Renovando seu apelo ao senso comum e aos sentimentos naturais do espírito, retorna ao caminho correto e se protege de ilusões perigosas.

A fama de Cícero floresce ainda hoje, enquanto a de Aristóteles se encontra profundamente diminuída. La Bruyère atravessa os mares e conserva sua reputação, mas a glória de Malebranche fica limitada à sua própria nação e à sua própria época. E Addison, talvez, ainda será lido com prazer quando Locke estiver inteiramente esquecido.

O mero filósofo é um tipo geralmente pouco aceito no mundo, pois se supõe que nada contribui nem para a vantagem nem para o prazer da sociedade. Vive afastado do convívio humano, envolto em princípios e noções igualmente distantes da compreensão comum. Por outro lado, o mero ignorante é ainda mais desprezado. E nada é considerado sinal mais seguro de espírito inculto, numa época e numa nação em que as ciências florescem, do que ser inteiramente destituído de todo gosto por esses nobres entretenimentos.

Supõe-se que o caráter mais perfeito esteja entre esses extremos: conserva igual capacidade e gosto pelos livros, pela convivência e pelos negócios, preserva na conversa o discernimento e a delicadeza que nascem das letras cultas, e nos assuntos práticos a probidade e a precisão que são resultado natural de uma filosofia justa.

Para difundir e cultivar um caráter tão completo, nada pode ser mais útil do que composições de estilo e maneira fáceis. Elas não se afastam demais da vida, não exigem aplicação profunda nem retiro para serem compreendidas, e devolvem o estudante ao convívio humano cheio de sentimentos nobres e preceitos sábios, aplicáveis a toda exigência da vida. Por meio dessas composições, a virtude se torna amável, a ciência agradável, a companhia instrutiva e o retiro interessante.

O homem é um ser racional, e como tal recebe da ciência seu alimento próprio. Mas os limites do entendimento humano são tão estreitos que pouca satisfação se pode esperar, nesse particular, quer da extensão, quer da segurança de suas aquisições. O homem é sociável tanto quanto racional, mas nem sempre pode desfrutar de companhia agradável e divertida, nem conservar por ela o gosto devido. O homem é também um ser ativo, e por essa disposição, assim como pelas várias necessidades da vida humana, deve submeter-se aos negócios e às ocupações. Mas o espírito exige alguma pausa e não pode sustentar sempre sua inclinação ao cuidado e à indústria.

Parece, portanto, que a natureza indicou uma espécie mista de vida como a mais adequada ao gênero humano, e secretamente advertiu os homens para que não permitam que nenhuma dessas inclinações os puxe em excesso, a ponto de incapacitá-los para outras ocupações e prazeres. Satisfaçam sua paixão pela ciência, diz ela, mas façam com que sua ciência seja humana e tenha referência direta à ação e à sociedade. Proíbo o pensamento abstruso e as pesquisas profundas, e os punirei severamente pela melancolia pensativa que introduzem, pela incerteza interminável em que os envolvem e pela recepção fria que suas pretensas descobertas encontrarão quando forem comunicadas. Sejam filósofos, mas, no meio de toda a sua filosofia, continuem sendo homens.

Se a maioria dos homens se contentasse em preferir a filosofia fácil à abstrata e profunda, sem lançar censura ou desprezo sobre esta última, talvez não fosse impróprio concordar com essa opinião geral e permitir que cada um desfrutasse, sem oposição, de seu próprio gosto e sentimento. Mas, como o assunto costuma ser levado mais longe, até a rejeição absoluta de todos os raciocínios profundos, ou daquilo que comumente se chama metafísica, devemos agora considerar o que pode razoavelmente ser alegado em seu favor.

Podemos começar observando que uma vantagem considerável resultante da filosofia exata e abstrata é servir à filosofia fácil e humana. Sem a primeira, esta jamais pode alcançar grau suficiente de exatidão em seus sentimentos, preceitos ou raciocínios. Todas as belas letras são apenas retratos da vida humana em várias atitudes e situações, e inspiram em nós diferentes sentimentos, de louvor ou censura, admiração ou ridículo, conforme as qualidades do objeto que colocam diante de nós.

Um artista estará mais qualificado para ter sucesso nessa tarefa se, além de gosto delicado e apreensão rápida, possuir conhecimento exato da estrutura interna, das operações do entendimento, dos movimentos das paixões e das várias espécies de sentimento que distinguem vício e virtude. Por mais penosa que pareça essa busca ou investigação interior, ela se torna, em alguma medida, necessária àqueles que desejam descrever com sucesso as aparências evidentes e exteriores da vida e dos costumes.

O anatomista apresenta ao olhar os objetos mais horríveis e desagradáveis, mas sua ciência é útil ao pintor mesmo quando este desenha uma Vênus ou uma Helena. Enquanto o pintor emprega as cores mais ricas de sua arte e dá às suas figuras as atitudes mais graciosas e atraentes, ainda precisa dirigir sua atenção à estrutura interna do corpo humano, à posição dos músculos, à composição dos ossos e ao uso e à forma de cada parte ou órgão. A exatidão, em todos os casos, é vantajosa à beleza, e o raciocínio justo ao sentimento delicado. Em vão exaltaríamos uma coisa depreciando a outra.

Além disso, podemos observar, em toda arte ou profissão, mesmo nas que mais dizem respeito à vida ou à ação, que um espírito de exatidão, seja como for adquirido, aproxima todas elas de sua perfeição e as torna mais úteis aos interesses da sociedade. E embora um filósofo possa viver afastado dos negócios, o gênio da filosofia, se cuidadosamente cultivado por vários, deve difundir-se pouco a pouco por toda a sociedade e conceder correção semelhante a cada arte e ofício.

O político adquirirá maior previsão e sutileza ao subdividir e equilibrar o poder. O jurista terá mais método e princípios mais refinados em seus raciocínios. O general terá mais regularidade em sua disciplina e mais cautela em seus planos e operações. A estabilidade dos governos modernos acima dos antigos, e a exatidão da filosofia moderna, melhoraram, e provavelmente ainda melhorarão, por gradações semelhantes.

Mesmo que não se pudesse colher dessas investigações nenhuma vantagem além da satisfação de uma curiosidade inocente, nem por isso tal vantagem deveria ser desprezada, pois acrescenta algo aos poucos prazeres seguros e inofensivos concedidos ao gênero humano. O caminho mais doce e menos ofensivo da vida passa pelas avenidas da ciência e do saber. Quem quer que possa remover algum obstáculo desse caminho, ou abrir nele alguma nova perspectiva, deve até esse ponto ser estimado como benfeitor da humanidade.

E embora essas pesquisas possam parecer penosas e fatigantes, há espíritos como há corpos que, dotados de saúde vigorosa e florescente, exigem exercício severo e colhem prazer daquilo que, para a maioria dos homens, parece pesado e laborioso. A obscuridade, é verdade, é dolorosa para o espírito assim como para os olhos. Mas trazer luz da obscuridade, por qualquer trabalho que seja, deve necessariamente ser deleitoso e motivo de alegria.

A essa obscuridade da filosofia profunda e abstrata se objeta, contudo, não apenas como penosa e fatigante, mas como fonte inevitável de incerteza e erro. Aqui se encontra, de fato, a objeção mais justa e plausível contra parte considerável da metafísica: a de que ela não é propriamente uma ciência, mas nasce ou dos esforços infrutíferos da vaidade humana, que pretende penetrar em assuntos inteiramente inacessíveis ao entendimento, ou da astúcia das superstições populares, que, incapazes de se defender em terreno aberto, levantam esses emaranhados de espinhos para cobrir e proteger sua fraqueza.

Expulsos do campo aberto, esses assaltantes fogem para a floresta e ficam à espreita para invadir toda passagem desguarnecida do espírito, esmagando-o com medos religiosos e preconceitos. O adversário mais firme, se relaxa por um momento sua vigilância, é dominado. E muitos, por covardia e tolice, abrem as portas aos inimigos e os recebem voluntariamente, com reverência e submissão, como seus soberanos legítimos.

Mas será essa uma razão suficiente para que os filósofos desistam dessas pesquisas e deixem a superstição ainda em posse de seu retiro? Não é mais adequado tirar a conclusão oposta e perceber a necessidade de levar a guerra aos recessos mais secretos do inimigo? Em vão esperamos que os homens, por frequentes decepções, abandonem enfim essas ciências aéreas e descubram a verdadeira província da razão humana.

Pois, além de muitas pessoas encontrarem interesse demasiado sensível em recordar perpetuamente tais assuntos, o motivo do desespero cego nunca pode ter lugar razoável nas ciências. Por mais malsucedidas que tenham sido as tentativas anteriores, ainda resta espaço para esperar que a indústria, a boa fortuna ou a sagacidade aperfeiçoada das gerações seguintes alcance descobertas desconhecidas por épocas anteriores.

Todo gênio aventureiro ainda saltará em direção ao prêmio difícil e se sentirá estimulado, antes que desencorajado, pelas falhas de seus predecessores, enquanto espera que a glória de realizar aventura tão árdua esteja reservada somente a ele. O único método para libertar de uma vez o saber dessas questões abstrusas é investigar seriamente a natureza do entendimento humano e mostrar, por uma análise exata de seus poderes e de sua capacidade, que ele de modo algum está preparado para assuntos tão remotos e abstrusos.

Devemos nos submeter a esse trabalho para viver depois com tranquilidade. Devemos cultivar com algum cuidado a verdadeira metafísica para destruir a falsa e adulterada. A indolência, que para algumas pessoas oferece proteção contra essa filosofia enganosa, é superada em outras pela curiosidade. E o desespero, que em certos momentos prevalece, pode depois dar lugar a esperanças e expectativas ardentes.

O raciocínio exato e justo é o único remédio universal, adequado a todas as pessoas e disposições. Só ele é capaz de subverter essa filosofia abstrusa e esse jargão metafísico que, misturados à superstição popular, tornam-na de certo modo impenetrável aos raciocinadores descuidados e lhe dão aparência de ciência e sabedoria.

Além dessa vantagem de rejeitar, depois de investigação deliberada, a parte mais incerta e desagradável do saber, há muitas vantagens positivas que resultam de um exame exato dos poderes e faculdades da natureza humana. É notável, quanto às operações do espírito, que, embora nos estejam intimamente presentes, sempre que se tornam objeto de reflexão parecem envolvidas em obscuridade. O olhar não encontra facilmente as linhas e limites que as discriminam e distinguem.

Os objetos são finos demais para permanecer longo tempo sob o mesmo aspecto ou situação, e precisam ser apreendidos num instante por penetração superior, derivada da natureza e aperfeiçoada pelo hábito e pela reflexão. Torna-se, portanto, parte nada desprezível da ciência simplesmente conhecer as diferentes operações do espírito, separá-las umas das outras, classificá-las sob seus títulos próprios e corrigir toda aquela desordem aparente em que se encontram envolvidas quando são feitas objeto de reflexão e investigação.

Esse trabalho de ordenar e distinguir, que não tem mérito quando realizado em relação aos corpos externos, objetos dos sentidos, aumenta de valor quando dirigido às operações do espírito, na proporção da dificuldade e do esforço que encontramos ao realizá-lo. E se não pudermos ir além dessa geografia mental, ou delineamento das partes e poderes distintos do espírito, ainda será satisfação chegar tão longe. Quanto mais óbvia essa ciência puder parecer, e ela de modo algum é óbvia, mais desprezível deve ser considerada a ignorância dela em todos os pretendentes ao saber e à filosofia.

Nem pode restar suspeita de que essa ciência seja incerta e quimérica, a menos que abracemos um ceticismo que destrua inteiramente toda especulação, e mesmo toda ação. Não se pode duvidar de que o espírito seja dotado de vários poderes e faculdades, de que esses poderes sejam distintos entre si, de que aquilo que é realmente distinto para a percepção imediata possa ser distinguido pela reflexão e, consequentemente, de que há verdade e falsidade em todas as proposições sobre esse assunto, uma verdade e uma falsidade que não estão além do alcance do entendimento humano.

Há muitas distinções óbvias desse tipo, como as que existem entre vontade e entendimento, imaginação e paixões, que caem dentro da compreensão de toda criatura humana. As distinções mais finas e filosóficas não são menos reais nem menos certas, embora sejam mais difíceis de compreender. Alguns exemplos, especialmente recentes, de sucesso nessas investigações podem dar-nos noção mais justa da certeza e solidez desse ramo do saber. E consideraremos digno do trabalho de um filósofo dar-nos um verdadeiro sistema dos planetas, ajustando a posição e a ordem desses corpos remotos, enquanto fingimos desprezar aqueles que, com tanto sucesso, delineiam as partes do espírito, nas quais estamos tão intimamente interessados?

Mas não podemos esperar que a filosofia, se cultivada com cuidado e encorajada pela atenção do público, leve suas pesquisas ainda mais longe e descubra, ao menos em algum grau, as molas e princípios secretos pelos quais o espírito humano é movido em suas operações? Durante muito tempo os astrônomos se contentaram em provar, a partir dos fenômenos, os verdadeiros movimentos, a ordem e a grandeza dos corpos celestes. Até que enfim surgiu um filósofo que parece ter determinado, pelo mais feliz raciocínio, também as leis e forças pelas quais as revoluções dos planetas são governadas e dirigidas.

Algo semelhante foi realizado em outras partes da natureza. E não há razão para desesperar de igual sucesso em nossas investigações sobre os poderes e a economia do espírito, se forem conduzidas com igual capacidade e cautela. É provável que uma operação e um princípio do espírito dependam de outro, que por sua vez possa ser resolvido em algo mais geral e universal. Até onde essas pesquisas podem possivelmente ser levadas, será difícil determinar com precisão antes, ou mesmo depois, de uma cuidadosa tentativa.

Isto é certo: tentativas desse tipo são feitas todos os dias mesmo por aqueles que filosofam com mais negligência. E nada é mais necessário do que entrar nessa empresa com completo cuidado e atenção, para que, se ela estiver dentro do alcance do entendimento humano, possa enfim ser felizmente realizada, e, se não estiver, possa ao menos ser rejeitada com alguma confiança e segurança.

Esta última conclusão, certamente, não é desejável, nem deve ser aceita de modo precipitado. Pois quanto teríamos de diminuir da beleza e do valor dessa espécie de filosofia sob tal suposição? Os moralistas, até aqui, quando consideravam a vasta multidão e diversidade das ações que excitam nossa aprovação ou desagrado, acostumaram-se a procurar algum princípio comum do qual pudesse depender essa variedade de sentimentos.

E embora às vezes tenham levado o assunto longe demais, por paixão por algum único princípio geral, é preciso confessar que são desculpáveis ao esperar encontrar alguns princípios gerais aos quais todos os vícios e virtudes pudessem ser justamente reduzidos. Tentativa semelhante foi empreendida por críticos, lógicos e até políticos. Seus esforços não foram inteiramente malsucedidos, embora talvez mais tempo, maior exatidão e aplicação mais ardente possam aproximar ainda mais essas ciências de sua perfeição.

Abandonar de uma vez todas as pretensões desse tipo pode ser considerado, com justiça, mais temerário, precipitado e dogmático do que a filosofia mais ousada e afirmativa que jamais tentou impor à humanidade seus ditames e princípios ainda crus.

Que importa que esses raciocínios sobre a natureza humana pareçam abstratos e de difícil compreensão? Isso não oferece presunção alguma de falsidade. Ao contrário, parece impossível que aquilo que até aqui escapou a tantos filósofos sábios e profundos seja muito óbvio e fácil. E, quaisquer que sejam os trabalhos que essas pesquisas nos custem, podemos julgar-nos suficientemente recompensados, não apenas em proveito, mas também em prazer, se por esse meio pudermos acrescentar algo ao nosso estoque de conhecimento em assuntos de importância tão inexprimível.

Mas, afinal, como o caráter abstrato dessas especulações não é uma recomendação, e sim antes uma desvantagem, e como essa dificuldade talvez possa ser superada por cuidado e arte, evitando todo detalhe desnecessário, tentamos, na investigação seguinte, lançar alguma luz sobre assuntos dos quais a incerteza até aqui afastou os sábios, e a obscuridade afastou os ignorantes.

Seremos felizes se pudermos unir os limites das diferentes espécies de filosofia, reconciliando investigação profunda com clareza, e verdade com novidade. E mais felizes ainda se, raciocinando dessa maneira fácil, pudermos minar os fundamentos de uma filosofia abstrusa que parece até agora ter servido apenas de abrigo para a superstição e de cobertura para o absurdo e o erro.

Investigação Sobre o Entendimento Humano

Sinopse

Ensaio filosófico de David Hume sobre experiência, ideias, causalidade, crença, probabilidade, milagres e os limites do entendimento humano. Tradução brasileira Literunico em andamento a partir do texto inglês original em domínio público.\n\nTexto original no Aurora: An Enquiry Concerning Human Understanding - https://literunico.com.br/aurora/93441\nFonte-base: https://www.gutenberg.org/ebooks/9662

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