A Compra do Amor

Universo da obra

A Compra do Amor

Capítulo 1 · A Compra do Amor

Somos Quem Podemos Ser

Apesar de tudo, Melanie ainda recordava a infância com carinho. Até do pai, que a abandonara quando ela tinha dez anos e a deixara com uma desconfiança que aparecia sempre que um homem começava a falar em namoro, futuro ou qualquer outra coisa que durasse além da manhã seguinte.

Não tivera luxo, mas sabia que havia sido mais sortuda do que muita gente. Nunca passou fome, teve brinquedos e, durante boa parte da infância, foi muito amada. Seu pai era seu herói, a pessoa que parecia saber resolver qualquer problema, até se apaixonar por outra mulher e decidir acompanhá-la para fora do país. Depois mudou outra vez, talvez mais de uma. Ele mandava mensagens e, por algum tempo, mandou dinheiro. Melanie deixou de acompanhar os endereços. Saber em qual país ele acordava não mudava o fato de que não estava com ela. Aos dez anos, não conseguiu entender por que a nova vida dele precisava ser construída tão longe. Apenas sofreu.

Sua mãe sofreu mais e não teve a mesma facilidade para esconder. Melanie entrou na adolescência tentando sustentar a sanidade das duas justamente quando também precisava que alguém cuidasse dela. Escutava, consolava, procurava razões para a mãe levantar e seguir o dia, enquanto media a própria tristeza antes de demonstrá-la. Qualquer choro seu parecia aumentar o que já ocupava a casa, por isso guardava as perguntas e fazia o possível para parecer bem. Era responsabilidade demais para uma menina.

Mesmo assim, aquelas lembranças ainda estavam entre as melhores que possuía. Melanie percebeu isso diante do espelho, enquanto terminava de se maquiar. Em alguns momentos enxergava o próprio rosto; em outros, ficava parada com o pincel na mão, voltando para cenas que já não conseguia reconstruir por inteiro. Quando prestou atenção outra vez, havia borrado a maquiagem abaixo do olho.

Sorriu, pegou um pedaço de algodão e começou a limpar. O risco escuro cedeu aos poucos, deixando uma mancha que exigiu outro pedaço e mais alguns minutos diante do espelho. Aquilo ela podia corrigir. Bastava paciência, cuidado e luz suficiente para enxergar onde tinha errado.

— Nem sei por que estou me arrumando tanto se a intenção é bagunçar tudo, tirar a roupa, estragar a maquiagem, ficar suada e descabelada, jogada na cama no fim da noite e, se der sorte, nunca mais ver esse cara na minha frente.

Melanie afastou o rosto do espelho para conferir o resultado. Não havia ninguém no quarto para responder. Falava com as paredes porque preferia passar muito tempo sozinha e já tinha adquirido o hábito de dizer em voz alta aquilo que as outras pessoas apenas pensavam. Às vezes fazia uma pergunta e respondia. Em outras, criticava a própria resposta e acabava rindo sem precisar de companhia.

Sentia desejo e não tentava fingir que era outra coisa. O calor começava embaixo, subia pelo corpo, secava sua boca e deixava as pernas inquietas. Chegava uma hora em que precisava de alguém que a pegasse, a possuísse e a satisfizesse, mesmo que por pouco tempo. Gostava de poder entregar o corpo durante algumas horas porque a escolha de estar ali ainda era sua. Escolhia o homem, o lugar e o momento de ir embora. Não queria conversar sobre sentimentos depois, apresentar ninguém aos amigos ou receber mensagens no dia seguinte perguntando por que estava distante.

Afetivamente, não precisava de ninguém. Era o que repetia para si mesma e, até então, funcionava. Sexualidade era outro assunto. Sozinha, nunca conseguia chegar ao mesmo lugar.

A regra era clara: não repetir.

Não importava se o homem tinha sido gostoso, carinhoso ou se sabia exatamente onde tocar. Melanie preferia correr o risco de encontrar outro pior a permitir que o primeiro começasse a ocupar espaço em sua vida. Repetir criava costume. O homem descobria seu horário, aprendia quando ela estava cansada, passava a reconhecer suas desculpas e logo acreditava ter direito a perguntar onde ela estivera. Depois vinham ciúme, planos e alguma tentativa de mudar a maneira como ela vivia.

Durante a graduação, experimentou futuros advogados e estudantes de outras áreas. Houve dois professores, um atendente da farmácia do bairro, um entregador de aplicativo, um rapaz que conheceu numa balada — lugar onde normalmente não procurava parceiros — e um cabeleireiro do qual precisou deixar de ser cliente. Havia também os escolhidos no cardápio dos aplicativos, avaliados por fotografia, distância e disponibilidade. Alguns eram bonitos demais e não sabiam fazer nada. Outros surpreendiam. Nenhum recebia uma segunda oportunidade.

O cabeleireiro tinha sido uma escolha especialmente ruim, não pelo sexo, mas pela inconveniência de precisar procurar outro salão depois. Voltar à cadeira dele, permitir que tocasse seu cabelo e conversar durante todo o atendimento produziria exatamente a continuidade que ela evitava. Melanie perdeu um bom profissional porque não abria exceções nem quando a própria regra lhe causava prejuízo.

Com o tempo, começou a perceber que a regra não afastava apenas os relacionamentos. Afastava também qualquer possibilidade de cuidado. Alguns amigos gostavam dela, aproximavam-se, preocupavam-se e acabavam se iludindo com seus sorrisos, seus olhares e aquele cabelo que nunca permanecia no lugar. Melanie sabia disso, ainda que fingisse não perceber. Não fazia nada de propósito, mas também não podia controlar o que os outros decidiam sentir.

Transar com um amigo próximo seria uma sentença de problemas sentimentais e ela não queria lidar com nenhum deles. No dia seguinte, continuaria encontrando o homem, ouvindo sua voz, reconhecendo seus gestos e percebendo qualquer esperança escondida numa conversa comum. Era mais seguro escolher alguém que pudesse desaparecer. Mesmo assim, parecia cada vez mais injusto ignorar quem se importava para terminar debaixo dos músculos de um idiota que não perguntava do que ela gostava e mal percebia quando ela deixava de sentir prazer.

Numa dessas noites, sentiu que não era mais ela quem usava os homens.

O sujeito a virou, segurou-a e começou a socá-la num ritmo abrupto, doloroso, interessado apenas no próprio prazer. Melanie tentou ajustar o corpo, afastar um pouco o quadril e encontrar uma posição menos incômoda, mas ele continuou. Não percebeu a mudança em sua respiração, a rigidez das pernas nem o momento em que ela parou de acompanhá-lo. Ou percebeu e não se importou.

O pouco desejo que ainda havia desapareceu. Melanie olhou para um ponto da parede e passou a calcular apenas quanto tempo faltava para aquilo terminar. Até então, aceitava que alguns fossem ruins. Fazia parte da escolha de não repetir e da maneira prática com que tratava aquelas noites. Naquele momento, porém, não havia diversão, domínio nem liberdade. Ela tinha se tornado uma boneca sem vida, usada por um homem incapaz de notar a diferença entre prazer e tolerância.

O nojo veio de uma vez. Dele, da situação e de ter permanecido ali. Tudo o que minutos antes acreditava ser atração se transformou em frustração e arrependimento.

Ainda assim, não decidiu procurar um relacionamento, dar uma chance ao amor ou inventar um nome mais aceitável para algum acordo contínuo e recíproco. Não estava pronta para trocar uma noite ruim por promessas que sempre lhe pareceram perigosas. Apenas parou. Fechou-se e concentrou-se no trabalho com uma dedicação que impressionava até quem já conhecia sua capacidade.

No trabalho, havia documentos, prazos, responsabilidades e fatos que podiam ser confrontados. Mesmo os problemas mais difíceis permitiam alguma providência. Ajudar outras pessoas ocupava sua cabeça e também lhe dava motivos para adiar qualquer decisão sobre si mesma.

Isso não fez as necessidades desaparecerem. O dinheiro continuava insuficiente para tudo que pretendia construir. O corpo continuava cobrando. A cabeça não descansava apenas porque ela enchia o dia de tarefas. E os homens que sempre estiveram por perto continuavam prontos para oferecer companhia, segurança, ajuda financeira ou qualquer outra coisa que acreditassem que poderia aproximá-los.

Um deles talvez valesse o risco. Era calmo, conhecido e seguro. Permanecia por perto sem exigir uma resposta imediata e parecia capaz de conviver com sua rotina sem transformar cada gesto numa cobrança. Poderia ajudá-la a recuperar a Melanie forte, centrada e corajosa que ela sabia ainda existir.

O problema era descobrir se realmente o queria ou se apenas estava cansada de escolher homens que não precisaria ver outra vez.

A Compra do Amor

Sinopse

Christopher acaba por herdar toda fortuna do pai e a administração do seu império empresarial. O que ele não esperava era que, ao embarcar nesse mundo dos negócios se apaixonaria por uma advogada que estaria justamente contra ele. Cego, acostumado a ter tudo que deseja, para possuí-la ele passa a comprar tudo que está em seu caminho, até deixá-la sem outra alternativa que não seja se entregar a ele. Para ajudá-lo, ele traz uma outra pessoa de seu passado que acaba entrando nesse relacionamento de uma forma que ele não esperava. A pergunta passa a ser: até onde chega esse preço dessa paixão e no final, para alguém, terá valido a pena esse valor? Livro pode acionar gatilhos relacionados à traumas de violência sexual e sequestro.

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