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A Alma Encantadora das Ruas

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A Alma Encantadora das Ruas

Capítulo 5 · A Alma Encantadora das Ruas

Os Urubús

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— Estou esperando!

— Não quero!

— Deixal-o passar!

— Naufragou!

Eu vinha vindo com o frescor da manhã por aquelle trecho da praia de Santa Luzia, tão suave e tão formoso, onde se amontoam as cousas lugubres da cidade — a Santa Casa, o Necroterio, o serviço de enterramentos. Entre as arvores fronteiras ao hospital vendedores ambulantes vociferavam os pregões de cangica, de mingáo, de pães doces; dos bondes pejados de gente saltavam creaturas doentes, paraliticas algumas, de oculos outras. Pelas escadas de pedra lavada formigava constantemente a turba doente, mostrando as mazelas, como um insulto e uma afronta aos que estavam sãos, entre os enfermeiros do hospital, de calça de zuarte azul e dolman pardo, nedios e sadios. Eu vinha precisamente pensando como gosam saude os enfermeiros, e aquellas phrases maçonicas fizeram-me mal. Parei, consultei o relogio. Os quatro tipos não se ralavam mais com a minha presença. Dous olhavam com avidez os bondes que vinham da rua do Passeio; dous estavam totalmente voltados para o lado da Faculdade. Ao aparecer um bond, um magrinho bradou:

— Largo!

Prestei atenção. Do «tramway» em movinto saltou um cavalheiro defronte do Necroterio.

— De cima! bradou outro typo.

— Ultima! regougou o terceiro.

E cercaram o cavalheiro.

— V. S. ha de aceitar um cartãosinho da nossa casa. Não precisa de se incomodar. Tratamos de tudo! Faça negocio comigo!

A um tempo fallavam todos, e o cavalheiro, coberto de luto, com o lenço empapado de suor e de lagrimas, murmurava, como si estivesse a receber pezames:

— Muito obrigado! Muito obrigado!

Aproximei-me de um dos funcionarios do serviço mortuario.

— Que especie de gente é essa?

— Oh! não conhece? são os urubús!

— Urubús?

— Sim, os corvos... É o nome pelo qual são conhecidos aqui os agenciadores de coroas e fazenpara luto. Não é muito numerosa a classe, mas que faro, que atividade!

Totalmente interessado, tive uma dessas exclamações de pasmo que lisonjeiam sempre os informantes e nada exprimem de definitivo. E sorriu, tossiu e falou. Foi prodigioso.

– Os agenciadores de coroas levantam-se de madrugada e compram todos os jornais para ver quais os homens importantes falecidos na véspera. Defunto pobre não precisa de luxo, e coroa é luxo. Logo que tomam as notas disparam para a casa do morto e propõem adiantar o que for necessário para o enterro, com a condição de se lhes comprarem as coroas. Algumas casas têm mesmo nos cartões os seguintes dizeres – encarregam-se de tratar de enterros sem cobrar comissão de espécie alguma. E os títulos dessas casas davam para um tratado de psicologia recreativa. Há os poéticos os delicados, os floridos, os babosos, os fúnebres – “Tributo da Saudade,” Coroa de Violetas “,” Flor de Lis “,” Bogari “,” A Jardineira “,” Coroa de Rosas"...

– Mas...e estes homens aqui?

– Estes homens são os urubus de Santa Luzia, serviço especial e maçônico. Três ficam à entrada principal da Santa Casa. Quando avistam um tipo, brada o primeiro: estou esperando!

Se o tipo não tem cara de enterro: não quero! Deixá-lo passar. Se o homem vem de tílburi, correm até aqui a acompanhá-lo... Se o tílburi segue, bradam: naufragou! E voltam ao lugar donde não saíram os outros. É interessante ouvir-lhes o diálogo. Tu é que não correste! Conheço o homem; antes fosse, era meu o negócio...

– Mas é horrível!

– É a vida, meu caro. Aqui estacionam sete agentes; o assalto ao freguês vai pela vez, como aos sábados, nos barbeiros. Quatro oferecem grinaldas aos passageiros que saltam dos bondes; três aos que vêm a pé. Ao ver o bando ao longe há a frase: De cima! que é o sinal. Do lado de lá! quando ele salta do lado oposto. Última! quando salta no Necrotério. um dos urubus acerta, grita: Estou empregado! E feito o negócio o outro avança, dizendo: Grinalda! para obter como resposta: A tua é minha...

Quando aparece por acaso algum freguês conhecido de um agenciadores dá-se o “combate” . Os três que ficaram “desempregados” , desejando “furar” o agenciador amigo, quando não conseguem convencê-lo arranjam meio de o cacetear até que o negócio não se realize. Nessa ocasião assistimos a cenas calorosas, a conflitos sérios, em que se faz sentir a intervenção da polícia. Mas à noite, graças aos deuses, acabado o trabalho, vão todos para a venda do Antônio, à Rua da Misericórdia, beber cerveja.

– São estes então? fiz, voltando-me.

– Estes só, não. Há outros, os que fazem ponto no Largo da Batalha e rendem estes à hora do almoço e que só têm o posto depois de ter todas as notas dos tipos que estão na secretaria e tratar de enterros.

– Como os agentes de polícia?

– Tal qual. E terminam sempre com a nota policial: quarenta anos presumíveis.

Rimos ambos. O sol está brilhante e o céu, inteiramente azul, dá-nos desejos de viver e de compreender a vida pelos seus mais ridentes aspectos.

– Os urubus devem ter nome?

– Têm, são urubus urbanos. Vê o senhor aquele? É o Chico Basílio. Há cerca de 30 anos exerce a profissão. Está vendo aquele grupo? Encontra lá o Brasilino, o Caranguejo, o Bilu, o Espanhol da Saúde, o Mangonga. Os outros são o Joaquim, o Tatuí, o Paulino, o Cá e Lá, o Buriti, o Manduca.

Neste momento um mocinho de lápis e linguado de papel na mão indagou, entrando:

– Alguma coisa de novo?

– Sim, pode entrar.

O mocinho desapareceu. O complacente informante sorria.

– Outro urubu.

– Outro?

– São os que parecem reporters. Vêm para a secretaria da Santa Casa munidos de tiras de almaço para copiar dos livros os nomes e residências das pessoas mortas, isto é, só copiam os daquelas cujo enterro custar mais de 100$. Saem daqui para o lugar indicado e ficam às portas à espera que o corpo saia, um, dois, cinco às vezes. Quando o cadáver sai e a família ainda está aos soluços, embarafustam com as amostras de luto. Contaram-me que chegam à concorrência, a ver quem faz o luto em 24 horas mais em conta. Neste serviço conheço o Ferraz, o Saul, o Guedes, o Matos, o Araújo, o Campos, o Mesquita.

Eu ouvia o meu informante um pouco melancólico. Que diabo! Por que urubus, naquele pedaço da cidade que cheira a cadáveres e a morte?

Não há terra onde prospere como nesta a flora dos sem-ofício e dos parasitas que não trabalham. Esses sujeitinhos vestem bem, dormem bem, chegam a ter opiniões, sistema moral, idéias políticas. Ninguém lhes pergunta a fonte inexplicável do seu dinheiro. Aqueles pobres rapazes, lutando pela vida, naquele ambiente atroz da morte, vestindo a libré das pompas fúnebres, impingindo com um sorriso à tristeza coroas e crepes, só para ganhar honestamente a vida, eram dignos de respeito. Por que urubus? Maçonaria da má sorte, pelotão dos tristes, seres sem o conforto de uma simpatia, no limite do nada, encarregados de fornecer os símbolos de uma dor que cada vez a humanidade sente menos.

Despedi-me, comecei a andar devagar. Um dos urubus aproximou-se.

– Estiveram contando coisas a nosso respeito?

– Não, absolutamente.

– Que se há de fazer? A comissão é tão pequena! Quando quiser uma coroa...

– Deus queira que não! fiz assustado.

E apertei a mão do homem urubu com um tremor de superstição e de susto.

A Alma Encantadora das Ruas

Sinopse

A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio, é uma obra clássica brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 27 capítulos com fonte pública validável na Wikisource, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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