Universo da obra
Universo da obra
O bar estava quase vazio quando Bunny chegou. Era uma sexta-feira treze, e ela tinha saído só para não ficar em casa, mas se arrependeu no instante em que atravessou a porta e viu que só havia homens espalhados pelo salão. A ansiedade não veio por ouvir no consultório as histórias horríveis sobre gente como eles, nem pela possibilidade de algum daqueles rostos fazer parte da pasta dela. Veio porque fazia tempo demais que não se deitava com um homem, e o corpo já queimava dentro da roupa colada de vinil preto.
Puxou a banqueta diante do balcão e ao se sentar viu um pote de amendoim ali, e pegou alguns, jogando um por um para o alto e aparando com a boca.
— Você é muito boa… — o homem parou ao lado dela — com a boca, docinho.
— Own! — levou a mão aos lábios enquanto mastigava. — Que adorável.
— Adorável é você, tão bela. — Ele se sentou ao lado dela. — Posso pagar uma bebida?
— Cosmopolitan — disse, sorrindo, enquanto cruzava uma perna sobre a outra e quase perdia o equilíbrio, nada que já não conhecesse no próprio corpo.
— Uma dose de whisky e um Cosmopolitan.
O barman assentiu e foi preparar os dois drinques. O Cosmopolitan saiu cor-de-rosa, cítrico, com a base clássica de vodca, licor de laranja, suco de cranberry e limão, delicado só na aparência.
Quando Bunny percebeu, o bar já estava enchendo. Mais mulheres, mais homens, perfume caro se misturando com cigarro e o suor de quem tinha acabado de sair do trabalho. Enquanto o barman mexia a bebida, ela observou o homem ao lado com atenção. Era bem mais velho, talvez perto da idade que o pai teria. Cabelos pretos riscados por alguns fios brancos, barba bem-feita, rosto liso demais, hidratado demais, como se o espelho fosse uma religião particular. Vestia um terno cinza elegante, e o perfume amadeirado com toque cítrico.
— Estava no trabalho? — ela perguntou, como se fosse só curiosidade.
— Acabei de sair de uma reunião — respondeu ele. — Mas não vim aqui para falar de trabalho. A propósito, eu me chamo…
— Não precisa dizer seu nome.
Ela interrompeu num tom calmo colocando a mão sobre o ombro dele, porque já tinha reconhecido o rosto de algum jornal de banca. Sorrio de forma doce e deixou o dedo deslizar por uma mecha do próprio cabelo, enrolando a ponta num cacho.
— Gosta de segredinhos? — perguntou de soslaio, pegando o copo que o barman deixou diante dele.
— Você deve gostar mais. — Ela olhou para a mão dele, para a marca pálida da aliança ainda impressa no dedo.
— Segredinhos são bons. — A mão grande do homem pousou na coxa grossa de Bunny. — Você gosta?
— Gosto.
O sorriso que abriu veio lento, malicioso, e a saliva já se acumulava na boca.
Era ruim demais pensar em sexo com um homem que fingia ser divorciado? Estava óbvio. A marca da aliança no dedo mostrava que ele tinha acabado de entrar naquele bar, arrancado o ouro do lugar e sentado ao lado dela como se isso apagasse alguma coisa.
Bunny pegou o drinque e tomou o primeiro gole. Estava precisando daquilo. Passar o dia inteiro ouvindo pacientes sem uma gota de álcool na cabeça às vezes cansava num nível quase físico. Não que fosse alcoólatra, longe disso, mas um Cosmopolitan não fazia mal a ninguém, ainda mais depois de meses sem um sexo decente. O gosto veio doce e ácido ao mesmo tempo, cítrico, com aquela aparência delicada que enganava fácil.
— Você está sozinha, docinho? — ele perguntou, alisando a coxa dela em apertos lentos.
— Tenho sua companhia agora. — Bunny sorriu.
— O que acha de ir para um lugar reservado? — Ele ergueu uma sobrancelha, depois a outra.
— Gosto da ideia. — Ela bebericou o Cosmopolitan.
— Gostei demais de você, docinho.
O rosto dele se aproximou do ouvido dela num sussurro confiante, desses de homem acostumado a achar que tudo se abre quando ele empurra um pouco. O homem da foto do jornal pagou as bebidas, e Bunny ainda conseguiu terminar os últimos goles antes de ser conduzida para fora dali e levada a um dos hotéis mais luxuosos de Los Angeles, a poucos quarteirões do bar. Em hotéis assim, tudo parecia abafado e elegante demais, com aquela calma controlada que fazia qualquer gesto fora do tom chamar atenção.
— Mora aqui? — ela perguntou, passando a mão pelo peitoral dele.
— Sou um dos sócios.
A probabilidade de aquela noite dar certo já era praticamente zero. Bunny talvez conseguisse um orgasmo, mas não do jeito que queria. Ainda assim, podia acabar levando alguma coisa daquela noite, mesmo que não fosse o que tinha saído para procurar.
Subiu no elevador e se comportou, embora tivesse sido difícil. Tentou o máximo. As pessoas já olhavam demais para ela vestida daquele jeito, e a roupa de vinil, brilhante e justa, só piorava quando rangia a cada movimento. O material fazia isso mesmo, chiava e guinchava quando uma parte roçava na outra. Ela se sentiu suja, odiava aquela sensação. Não era uma prostituta.
— Eu vou embora — disse, antes que o elevador parasse no andar.
— Por quê, docinho? — Ele olhou para ela, pousando as mãos na cintura dela.
— Não estou me sentindo muito bem. — Fez um biquinho curto. — Quem sabe na próxima?
— Tudo bem. Quando poderemos nos ver de novo?
Ele apertou o botão que mandava o elevador de volta ao hall.
— Sua mulher não iria gostar, iria? — Bunny perguntou, segurando a mão dele e alisando com o polegar o dedo ainda marcado pela aliança.
— É só um detalhe. Estamos nos divorciando.
— Todos dizem o mesmo.
Ela beijou a bochecha dele e se afastou.
Quando o elevador finalmente parou no hall, pareceu uma eternidade vencida num silêncio tenso demais para duas pessoas que, minutos antes, sorriam uma para a outra. Bunny saiu do hotel luxuoso e seguiu pela calçada. Tinha perdido o homem gostoso que conhecera no bar, o orgasmo e a noite boa que tinha imaginado. Tudo porque não se sentira bem num lugar como aquele, vestida de vinil, exposta aos olhares dos outros. Talvez devesse ter escolhido outra roupa. Talvez julgassem menos. Talvez. Mas a verdade era que não estava preparada para aquilo.
Só que havia outra fome crescendo nela, e essa não tinha nada a ver com sexo.
— Hey.
A voz veio de um beco sem saída.
— Estou falando com você mesmo, gostosa.
Bunny abriu um sorriso lento, malicioso. Deu um passo para trás sobre o salto alto, e o vinil rangeu outra vez. Foi então que viu o homem parado ali, de braços cruzados, o cigarro preso na boca.
— Está sozinha? — ele perguntou, tirando o cigarro dos lábios e soltando a fumaça. — Quer uma companhia?
— Estava procurando por você — Bunny respondeu, aproximando-se.
Ele não era como o homem da foto do jornal. Fedia a colônia barata. As roupas pareciam de segunda mão. Ainda assim, tinha aquele ar de homem que saía do escritório e topava foder num beco sem precisar pensar duas vezes.
Bunny agarrou o blazer dele e o puxou para dentro. Não era o melhor lugar. Cheirava a urina velha, rato e lixo azedo. Mas a única coisa em que ela pensava não era em sexo.
Era em descobrir a cor do sangue dele.
Bunny tem 26 anos, cabelo castanho, sorriso manso e um consultório cor-de-rosa que cheira a bolinho de baunilha. É psiquiatra meiga, fofa e educada, seus pacientes a amam. O que ninguém sabe é que 54/‘cado no fundo do armário, existe um macacão preto, luvas e uma pasta com nomes que o sistema não condena. Doce. Letal. Inesquecível. Ninguém deveria cruzar o caminho dessa garota, a não ser que queria ser pego por ela.
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