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A península - ao acaso

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A península - ao acaso

Capítulo 1 · A península - ao acaso

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A PENÍNSULA

AINDA ontem eu pensava que nós outros, os peninsulares, nem sempre tínhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendências, sonolenta, chata, fria, burguesa, cheia de espantos e de servilidades: e que este velho canto da terra, cheio de árvores e de sol, tinha sido pátria forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, épica!

Ah! foi há muito tempo...

Era naquele tempo em que a Itália rodeava os papas severos; e olhavam para o céu as virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia, pela Europa, uma profunda transformação social. Na Alemanha, Lutero entrava em Worms, com um canto batalhador, em nome do espírito e da alma. O Papado ia morrer. Era necessário que todo o Sul se aliasse na cruzada católica.

Toda a revolta de Lutero foi tomada, ao princípio, por um daqueles lentos suspiros alemães, que se perdiam no coro profano, luminoso, embalador e forte do Sul.

Viu-se, depois, que era a voz imensa da alma do Norte, toda uma humanidade austera e vital,

que se movia, que vinha falar, pensar, examinar, revelar, sob o peso da teocracia romana, dos papas, dos imperadores, das tiranias, dos sacerdócios.

Todo o Sul católico estremeceu: aquela revolta vinha imprevista e rápida: um 'dia, a imperceptível e vasta humanidade, quando fosse, uma madrugada, para as suas adorações, podia encontrar a velha Roma deserta, e, ao longe, o catolicismo dissipando-se com um som hierático de salmos, e um colorido vermelho de fogueiras.

Era necessário salvar o Sul.

A Itália tinha-se familiarizado com o cristianismo: tinha-se acostumado às santas macerações de Jesus, à transparência ascética das virgens; os renunciamentos e os medos católicos já a não vergavam para o pó. Ela, cheia de sol, e de sons, e de forças, começava a olhar a natureza, as grandes fecundidades, as vitalidades poderosas, as melodias moventes da carne.

Os velhos Deuses da Grécia tinham-se refugiado na alma italiana: ao princípio andavam no fundo, como recordação leve, transfigurados pela dor, encolhidos, soluçantes, miseráveis: depois, lentamente, foram aparecendo, espalhou-se um cheiro de ambrósia e um (Som de idílio; e os seus corpos, sãos como astros, ocuparam, por fim, toda a alma italiana com coreias, derramações de néctares, palpitações de luz, divinos resplandecimentos de vida.

A Itália tinha-se afastado de Dante e das visões devoradoras do infinito: e os poucos que s<e curvavam sobre a Divina Comédia, não era para ver os castigos e os paraísos, mas para

sentir as palpitações, que lá tinham ficado, da alma de Florença.

A Itália seguia Petrarca: mas em Petrarca havia ainda uma religião e um misticismo — o amor: e a Laura dos Sonetos, como a Virgem mística, prendia nas humilhações religiosas todos os cavaleiros do Sul. A Itália então deixou Petrarca e rodeou Ariosto, o aventureiro, o jovial, o descrente, cavaleiro e escarnecedor.

Foi então que se ouviu aquela voz do Norte.

Todas as coortes católicas andavam dispersas, galhofeiras e namoradas, rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta Pulci, guiadas por Lorenzo de Médicis e pelo Cardeal Bembo, cantando às estrelas, adorando as Violantes, rindo de Fra-Angélico, aclamando Ticiano, cobertas das sedas de Veneza, com o peito cheio da religião do sol, da música e das noites profanas.

Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Lutero. Todos os católicos correram instintivamente, rodearam os papas severos, Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os salmos e as missas de Marcelo, cheias dos renascimentos ascéticos, e foram seguindo o Tasso, que voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus.

E o papa continuou caminhando, sereno e terrível, deixando as sombras das masmorras de Galileu e de Campanella, e mais longe o fumo das fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno.

Tal era a luta do Norte e do Sul.

Ora, durante essa luta das religiões e das pátrias, a Península, encolhida nas suas montanhas, coberta de sol, violenta, sinistra cavaleira

de Deus, armava as caravelas e os galeões para as bandas desconhecidas das ilhas, dos continentes, dos cabos temerosos. Nós outros, os peninsulares, aparecíamos às demais nações como velhos lobos do mar, sempre sobre os tombadilhos, trigueiros, rijos como calabres, sãos como o sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios de legendas, e perdidos, ao longe, nas brumas terríveis.

De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiais e nuas, sob a bênção dos padres: ali mesmo, sobre a areia, ao rumor das maresias, escrevia a história trágica da sua viagem, e uma madrugada, tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a banda das Índias.

Era assim. Todos os anos, aquela multidão imensa de aventureiros embarcava nos galeões, entre os salmos e os coros, e eles iam, silenciosos e flamejantes, por entre as sonoras ilimitações, os ventos infinitos e os tremores da água — para os nevoeiros inexplorados.

Iam em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as constelações augustas, entre as tempestades, os rochedos, os climas e as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos, rodeando um Cristo, cantando os salmos ao coro dos furacões, todos reluzentes de armaduras e de divisas de amor, com a alma cheia de altivezas de batalhadores e de doçuras de apóstolos.

Iam como numa glória e em nome de Deus! E quando encontravam as hostilidades e os

encrespamentos irados dos elementos, as opressões infinitas dos ventos e das águas, erguiam as mãos como para uma excomunhão, e bradavam, soberbos, àqueles sopros e àquelas maresias, os versículos do Evangelho segundo S. João.

Ora aqueles homens, marinheiros e batalhadores, eram historiadores e poetas. Escreviam os seus feitos.

Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convés das caravelas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da índia, sob as imobilidades cruas da luz: escreviam cobertos das espumas, enegrecidos pelos fumos, trêmulos das iras das batalhas. Por isso enchiam as suas crônicas e os seus poemas duma estranha prodigalidade de força e de vida. E os seus diários de bordo tinham, muitas vezes, a simplicidade épica de Homero.

Mas eles também tinham amores, ciúmes, paternidades, paixões, lirismos interiores, e as saudades da pátria nasciam naquelas almas, como grandes açucenas que se abrem dentro dum vaso, e que o enchem.

De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados, deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, enquanto os pilotos, silenciosos, seguiam com os olhos as viagens imensas das estrelas, e todo o mar enorme se amolecia como um seio cansado, eles contavam em voz baixa, com as cabeças juntas, as histórias de amores, os torneios, as aventuras, as serenatas, e a vida da pátria.

E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farsas, comédias e elegias.

E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do sol e do mar, tomavam a forma popular.

Estavam longe da Europa, das plásticas da Itália, dos renascimentos gregos e romanos, das antigas formas rituais, das educações clássicas.

Não conheciam isto.

Mas lembravam-se sempre das cantigas da pátria, das lendas heróicas, dos romances populares, que eles tinham ouvido pelos campos, com que os velhos embalavam os netos, que se cantam de noite às estrelas, por Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos godos e dos árabes. Porque o povo, na Península, tinha uma poesia, sua exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos, em que escarnecia os alcaides e celebrava os heróis.

Fazia daquela poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande leito misterioso onde adormecia as tristezas: era ali que procurava confortos, recompensas, e as ideias da pátria.

No Norte, a poesia popular foi a Invisível que levou, pela mão, os trovadores, filhos das glebas, até às lareiras dos senhorios feudais: foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da populaça, místicos e sensuais, soltaram para as brancas castelãs que entreviam nos torneios, cobertas de pedrarias; ou passando de noite, brancas, às estrelas, pelos altos terraços; ou entre as árvores, ao entardecer, quando as ogivas, cheias do sol oblíquo, estão flamejantes como mitras.

E as castelãs abriram os braços para os poetas tristes, indolentes, e cheios do paraíso. Admi-

rável influência da poesia, que produziu, pelo amor, um renascimento social!

Mas a poesia da Península era unicamente do povo: era a epopeia austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo dei Carpio, exterminador de bárbaros. Na península, o povo estava sob uma condição especial; tinha uma importância no estado forte, fecunda e soberba: a Península tinha passado os primeiros anos da sua constituição, nas lutas terríveis do forte Maomé e do Cristo místico; ora o popular da Península não era um servo, era um cristão: consagrado pelos baptismos, era uma força individual, que impelia e dissolvia o elemento mourisco, sensual e poderoso.

Ora, foi sob a forma popular que aqueles batalhadores e poetas, que vão hoje tomando a vaga atitude da legenda, escreveram os seus poemas, as suas cantatas, as suas comédias e os seus sonetos.

Então toda a literatura peninsular tem uma originalidade profunda, independente de formas e ritos: a arte, o drama, a poesia, saem das tradições populares, do clima, do sol, de todas as vitalidades meridionais: isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades esqueciam as suas tradições, a sua história, a sua velha alma, para se envolverem nas formas antigas. Era a Renascença. Então aparece o teatro espanhol, original, cavalheiresco, enérgico, apaixonado, cheio de selvagens palpitações, de lances, de religião: teatro onde a cruz é um personagem; onde falam lacaios, heróis, santos, ventos, galeões; onde todas as formas da vida se confundem — o riso, o choro, a ironia, a sátira, o madrigal...

Depois uma pintura mística e sensual: não é a espiritualização da alma, é antes a imortalização da carne, inspirada daquele misticismo espanhol, que sob a influência da natureza, do clima, da política, da raça, parece mais cheio das trágicas iras de Jeová, do que das doçuras de Jesus.

Depois uma música, como a do Dies iraê, obra dos terríveis dominicanos: um poema de morte: uma das maiores agonias da alma: música ascética e flamejante, onde a natureza aparece, trágica e desgrenhada.

Uma arte onde se torcem todas as chamas do inferno, e todas as pedrarias dos paraísos católicos, que parece uma luta trágica e cômica da vida e da morte; uma igreja cheia de renunciamentos místicos, mas onde o misticismo parece mais um desespero de não poder saciar-se dos bens do mundo, do que uma aspiração a poder fartar a alma nas contemplações divinas: uma defesa do catolicismo, trágica e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdócios: confusão dos imperadores com os santos e das coroas de metal com as coroas de luz: uma vida superabundante: ascetismos ferozes e onde o sentimento mais aparente é o rancor.

Ao mesmo tempo uma austeridade monástica em tempo de guerra: caravelas que partem, sem cartas nem roteiros, sob as simples indicações das estrelas: quase, por vezes, uma reconciliação aparente do Maometanismo e do Cristianismo: uma paixão avara pelo dinheiro: o elemento da intriga que quer entrar na política, vindo substituir o elemento da força: combates cavalheirescos

com a Europa vizinha. Depois um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a América e as Índias como um paraíso de ouros, de metais e de soberanias.

Tal é o aspecto mais geral da Espanha, nas vésperas da Renascença.

É dramática aquela vida.

Não admira, por isso, que a forma suprema da sua arte — fosse o drama.

Em Portugal, não é este rigorosamente o fundo do gênio: há mais serenidade na força: o carácter português é mais parecido com o carácter italiano: os nossos sábios, os nossos viajantes, os nossos descobridores, tinham mais a lucidez do tempo de Galileu do que a fé do tempo de Dante: as navegações são prudentes: por isso, Portugal não resistiu nada à influência italiana. O renascimento da antiguidade, a serenidade plástica, a frieza clássica, aclimatam-se na Espanha, mas com dor e com luta: foi necessário que a Espanha já não acreditasse na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes começasse a fazer trotar, pelos caminhos, o magro D. Quixote.

Em Portugal não: o gênio antigo aclimatou-se: transformou-se mesmo: perdeu o elemento vital e fecundo — e ficou-lhe o elemento retórico.

ó Arcádia! ó moços pastoris e burgueses? Ó clássicos!

A península - ao acaso

Sinopse

Leia gratuitamente A península - ao acaso, ensaio de Eça de Queirós reunido em Prosas Bárbaras, preparado em texto único para leitura online no Literunico.

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