Universo da obra
Universo da obra
Tu vais completar teus doze anos! eu escrevo pois para minha inocente Lívia, que nada mais conhece do mundo senão os cuidados, com que sua terna mãe lhe tem dirigido a infância, e nestas circunstâncias procurando amoldar a minha lingoagem à tua infantil comprehensão, eu começarei por insinuar-te aqui em um estilo simples e claro os deveres e virtudes filiaes. Não quero, nem desejo antecipar tuas idéas em conhecimentos mais profundos, em que os anos, e o estudo far-te-hag meditar: possam a ternura e a experiencia de tua triste mãe servír-te então de guia na escabrosa senda da vida. Por ora fallo a minha pequena Lívia. Possa ela, a despeito de sua idade, ouvir-me com a attenção de uma filha, por cuja felicidade jurei viver sobre o tumulo de seu Pai. Sendo as virtudes filiaes as que em primeiro lugar desejo inspirar-te, como as que servem de base a todas as outras, e que te cumpre hoje seguir, falar-te-hei de um
exemplo de ternura, e adhesão de uma filha a seus pais, que estou certa falará melhor ao teu coração, do que essas longas teorias, que fatigam às vezes mais do que penetram, mormente em um coração como o teu, ainda tão novo. Vou dizer-te de passagem alguma coisa de minha infância, sem a pretenção de fazer-te persuadir virtudes, que não tenho. Eu tinha pouco mais de tua idade quando em 1824 o horror da guerra civil patenteou-se a meus olhos, destruindo incontinente o repouso de meu querido Pai! Por vezes vi-o a ponto de sucumbir ao golpe do assassino; por vezes minha alma tremeo, e detestou os homens a cuja maldade sucumbia a innocencia e a virtude nesses calamitosos tempos de horror, e de desolação! Foi n'essas tremendas crises, que eu, guiada por um verdadeiro zelo filial, achava em meu coração uma coragem superior á minha idade. Consolava minhaterna mãe desolada de dor tremendo a cada instante pela preciosa vida de seu bom esposo; procurava adoçar a existencia deste por meus ternos cuidados, e uma constante obediência a seus sabios preceitos. Quantas vezes o meu coração pulava de prazer ouvindo-o exclamar " Oh! minha filha! quão feliz sou em possuir-te! Depois mesmo que os Fados desencadeiaram seus cruéis satelites para sitiarem minha triste juventude, e me oprimiram com seus primeiros furores, a mesma exclamação escapou por vezes a esse terno Pai. Eu era a filha predilecta do seu coração, e nada poupava para provar-lhe que o merecia. De dia ocupava-me em prevenir seus menores desejos, e em ouvir com uma profunda attenção as instrucções, que
me ele dava para um tempo, em que (dizia com uma aparente calma) já não existiria para guiar meus incertos passos em um mundo cheio de seduções, e de infelicidades! À noite prostrada ante a Imagem do Todo Poderoso, eu lhe rogava, com o mais religioso recolhimento, conservasse meu Pai, subtraindo-o sempre ao furor dos mãos homens! Muitas noites velei assim, e a aurora vinha esclarecer meu quarto sem que eu me tivesse podido resolver a procurar um repouso; a vida de meu Pai estava em perigo! Apezar de minha extrema juventude, esse bom Pai julgawa-me digna de sua confidencia. Eu me achava com minha querida Mãe em todos os intretenimentos desses bons esposos a respeito de seus planos nesses terríveis tempos. Quando ele foi constrangido a abandonar imprevistamente sua casa, e a procurar um asilo, que o puzesse ao abrigo de seus cruéis perseguidores, eu fui a fiel depositacia de suas correspondencias, e do segredo do seu retiro, que eu sube religiosamente guardar, apezar das pesquizas e dos laços, com que se pretendeu iludir minha innocencia para arrancarm'o. Entretanto, com que ternura, e cuidados esse respeitavel Pai se ocupava de minha felicidade pelo meio ainda mesmo das maiores perseguições de seus vís inimigos! Como esquecia ele seus interesses, e sua propria existencia para cuidar na de sua familia, e particularmente velar na minha inexperta, e incauta juventude! Uma longa vida passada na obediência e attenções filiaes, não compensaria tantas bondades, e tanta indulgencia. Mas ai de mim! ele acabou tão cedo! e eu, infeliz! eu não tive a triste consolação de receber seu derradeiro suspiro!
A. ti, minha cara filha, menos infeliz que tua mãe, foi permitido chorar sobre os restos de teu Pai; minha ternura os depôz em um santo asilo, onde durante cinco anos te conduzia, e a teu inocente irmão, e ali fazia-te recordar, apezar de tua extrema infância, o inestimavel Amigo, que perdeste n'esse terno Pai, que, semelhante á tenra flor, que os furiosos Aquilões derribam, quando apenas começava a espargir seu precioso aroma, foi prematuramente ceifado pela mão da inexoravel parca! Ea lembrança d'esse Pai extremoso, que tanto me hei esforçado por despertar em tua verde memoria, que cu desejo que graves n'ela para ouvir tua mãe. Foi ele quem traçou o plano de educação que, pelo meio mesmo de meus acerbos desgostos, e vicissitudes, tenho procurado ministrar-te; é a sua vontade que eu sigo ainda a teu respeito. Lembra-te pois que, se corresponderes sempre a minha espectativa, seguirás também os dictames d'aquele, que vive ainda em meu coração, e cujos preceitos te são comunicados por tua máy. N...... Meus filhos!........ Eis os ultimos monossílabos, que escaparam de seus moribundos labios nesse fatal vinte e nove de Agosto, que deluio até o alicerce o edificio de minha felicidade!.... Ele queria sem duvida recomendar-me seus filhos; a voz sumiu-se-lhe nos labios apossados já do frio da morte!... mas seu echo retumbou até a parte mais recondita de meu coração, e ahi ficou gravada para sempre..... Oh! minha Lívia! filha querida de nossos corações, objecto de nossos mais caros intretenimentos outr'ora,
ouve a voz de tua triste mãe! não iludas minhas unicas esperanças nesta vida de dores! Tua docilidade, e ternura filial me promettem muito, e tua penetrante comprehensão, apezar da extrema juventude, me deixa crer que lhe não escapará o verdadeiro interesse, que me guia por ti como a melhor amiga de tua infância, aunica, que te falará sempre a linguagem pura da verdade. A vivacidade do teu caracter me garante a força de teu espírito; mas, minha querida, a Natureza, que me fez apreciar todos os encantos do amor maternal, sem vedarme para com os seus perniciosos abusos, me impõe o dever de advertir-te, que procures sempre contêl-a para que ela não exceda os limites, que lhe tem marcado a prudencia na tua idade mesmo. A vivacidade para agradar em uma menina deve ser de envolta com a moderação e modéstia em todas as suas acções. Interiormente detestam-se sempre aquelas que fazem um abuso desse encanto infantil, que aliás tanto nos atrai quando, como te disse já, é dirigido pela molestia, tu mesma o tens comigo muitas vezes sentido nesses exemplos, que te faço constantemente notar como um espelho, em que deves vêr a sorte, que te aguarda se por ventura tiveres a desgraça de imital-os. Se pois sempre natural e simples: a simplicidade deve presidir ás acções e ornatos de uma joven em todos os
estados, e circunstâncias da vida, pois que ela é a filha primogenita da virtude. Se amavel sem pretenção de agradar, procura sel-o para tua mãe, tua familia, tuas companheiras, e todos emfim que te rodeiam; mas não ambiciones sel-o para ouvir-te louvar. Possa a vaidade, esse terrivel escolho da mocidade, em que tantas vezes tem naufragado a innocencia mesmo, te não assomar nunca! Apezar de meus cuidados em educar-te longe do turbilhão do mundo, todavia vem algumas vezes ferir teus ouvidos a perniciosa lingoagem da lisonja, a qual tem-se ali adoptado como polidez, lingoagem tanto mais perigosa a uma joven, quanto a fraqueza de seus orgãos, a inhabilita para distinguir o falso do verdadeiro, e por consequencia conhecer o veneno, que esses elogies distilam. Não obstante ter-te eu advertido desde a tua mais tenra infância d'esse indigno abuso da sociedade, temo com tudo que ele faça alguma impressão sobre teu espírito quando apenas começa a desenvolver-se; mas espero que o estudo, e minhas constantes advertencias, finalisem a obra, que meus solicitos e ternos cuidades teem por ti encetado. Se procuro abrir-te, e facilitar-te o caminho das ciências, se me esforço por dar-te uma educação, que entre nós senega ao nosso sexo, é sem duvidana esperança de que a minha cara filha, bebendo as saudaveis lições da sabedoria, procure dar um dia á seu espírito o realce das virtudes que tanto o ennobrecem, e que é o único a tornal-o digno daestima e respeitos da sociedade. E como não pertendo limitar-me a dar apenas a teu espírito uma leve noticia da ciência, que, diz o vulgo, não ser necessária a mulher, eu
não temo que a vaidade, vício desprezível, que geralmente se atribue ao nosso sexo, infecte tua alma. O verdadeiro sábio, tu ouves dizer, é aquele, que julga mais ignorar. Entretanto, enquanto não atinges a esse fim sublime, a que eu ouso aspirar para ti, põe-te em guarda contra ti mesma, para que ele não sitie tua debil razão, e te faça perder as qualidades do coração, sem as quaes nada pode brilhar em uma mulher. Segue a practica das virtudes inherentes à tua idade, e que tantas vezes te hei traçado com uma solicitude verdadeiramente maternal. Repara n'esses exemplos de amor e obediência filial, que a historia de todos os tempos nos apresenta, e teu coração se ennobrecerá, desejando imital-os. Tu verás nos primitivos tempos do mundo, entre Innumeros exemplos, um Isaacsubmettendo-se resignado á morte para obedeceraseu pai Abrahão, ea reconpensa, que por uma tal virtude recebeo de Deus. Attende para aquela joven, cujo pai condemnado a morrer de fome emuma prisão, onde ninguem entrava sem primeiro ser revistado, era alimentado por ela, que sofrendo igual revista antes de aproximar-se dele, para que lhe não levasse algum alimento, lhe oferecia seu seio, e assim salvou a vida ao velho pai, deixando seu nome imortalizado na posteridade, onde as almas sensiveis lhe renderão sempre um culto! Que sublime exemplo nos oferece a historia do Japão σ
n'aquele moço, que para socorrer sua mãe enferma, que exnania na miseria, obrigou seu irmão a fazel -o passar para com o Imperador por um bandido daquella tropa de ladrões, que infestavam as florestas visinhas de Meaco, capital do Imperio, e que tinha mandado aflixar um Edital promettendo uma recompensa a quem lhe apresentasse un d'aqueles facínorosos!... Essa interessante Noemi, cuja historia actualmente traduzes, te oferece um tocante exemplo de amor filial. Com que ternura, e admiravel perseverança ela consolava sua sensível mãe em uma idade tão tenra! Com que sublime resignação sofria ela a desgraça, que a oprimia em paizes inhospitos, e animava a essa infeliz mãe, a quem acompanhava nos áridos desertos da Arabia, pedindo-lhe que esperasse de Deus, todo de bondade, o termo de seus trabalhos! Oxalá, minha Lívia, qual outra Noemi, perseveres sempre na wirtude, eme faças gozar, morrendo assim como Mime de Marsol, da doce consolação de te contemplar sempre digna de minha ternura, e das bençãos do Céo!! São as virtudes christaas, que eu desejo inspirar-te, e para conseguil-o é mister que basée na religião todos os exemplos que emprehender oferecer-te; nesta Santa Religião, em que tento elevar tua alma, mostrando-te a necessidade de a bem seguir para sermos felizes nesta vida ilusória, onde tudo são escolhos; e em que, sem tão sabia guia, a virtude mais austera naufragará. Santa Ignez tinha pouco mais ou menos a tua idade, quando tentaram por mil lisonjeiras caricias e seduções fazel-a renunciar a suavocação; mas essa admiravel menina preferiu ser quei.
mada viva, no momento em que todos contemplavam extasiados a beleza de sua encantadora figura, a profanar sua alma com sentimentos impuros! Só uma alma vā, minha filha, um acanhado espírito, se ocupa dos encantos externos. Cultiva as virtudes, cujo germe apraz-me achar em teu coração. " Ser obediente a seus pais, mesmo quando eles forem intrataveis e austeros; amal-os, mesmo a despeito de seus vicios grosseiros e ingratidões, é uma virtude rara e de um grande merecimento. Reflecte bem neste sublime pensamento; foi um santo homem quem o escreveu. Foge desses filhos que murmuram de seus pais, por mais rigorosos que eles sejam, que os censuram e arvoram-se juizes de sua conduta! É o crime de Cam, filho de Noé, que vemos desgraçadamente muitas vezes reproduzido em seus descendentes, crime que o Todo Poderoso não deixa impune! Não são menos perigosos aqueles filhos que não veem nos autores de sua existencia mais do que o movel primario de sua vaidade e orgulho, aqueles que devem satisfazer cega e loucamente os seus Imenores caprichos, e que aplaudem indiscretos seus defeitos chamando-lhes belas agudezas! Taes filhos serão sempre desgraçados, pois que não terão, como Santo Agostinho, uma Santa Monica por mãe, cujas súplicas, pela conversão de seu filho, chegaram ao trono do Todo Poderoso e conseguiram fazel-o trium. far da perniciosa educação que lhe dera seu pai.
A obediência é uma virtude que muito realça em um filho. S. Paulo, fazendo uma lista dos maiores pecadores, colocou nesse numero os filhos desobedientes. Obedece porém por amor de ti mesma e não porque temas as reprehensões de tua mãe e mestres que deves olhar com igual respeito, enquanto ouvires suas lições. Obedecer por am temor puramente servil ou por força, é uma obediência de escravo que deixa então de ser virtude. Obedece pelo prazer que te deve resultar de haveres preenchido os teus deveres, Da mesma sorte pratica o bem unicamente pela doce satisfação que disso te deve ficar e foge do mal pela dolorosa impressão que ele deixa n'alma do que o pratica, e pelas funestas consequencias que o seguem. Deus, minha filha, esse sábio autor de quanto vemos de admiravel sob a abobada celeste, deu-nos um juiz demasiadamente severo para punir-nos na terra, mesmo antes de nos apresentarmos junto de seu divino trono; juiz, a cuja punição é-nos impossivel escapar, e, como as leis do homem, iludir! A consciência!!.. Os mãos escapam muitas vezes á justiça da terra, mormente (para vergonha dos administradores dela) se a sua posição é feliz, isto é, se possuem com abundancia esse vil metal que na terra compra tudo, exceto a virtude. Eles parecem felizes no meio dos prazeres, e muitas vezes cercados das honras vas da sociedade; e alguns fugindo á patria e aos objectos que lhes representam seus crimes, e pondo assim entre eles e seus perseguidores uma barreira que julgam inacessível, creem ter encontrado o repouso e a felicidade! Mas ah! quanto são inuteis semelhantes esforços! Sua alma é continuamente despedaçada pelo cruel abutre do remorso, tormento nesses casos a que a morte deve ser preferivel! Seu somno será sem cessar interromrido, e os afiados aguilhões da consciência o convencerão a cada instante de que nenhum suplício inventado pelos homens igualará ao seu tormento. O mau, minha filha, não pode jamais ser feliz, embora o pareça, pois que a felicidade é sempre o resultado da virtude. Faze com que tua conduta esteja sempre de acordo com a consciência, dirigindo tuas acções conforme os dictames da sā razão, para que tua alma goze de uma calma que é preferivel á todas as grandezas do mundo. Sê condescendente, e habitua-te desde já á sofrer com resignação os inconvenientes da vida. Sempre boa e solícita em satisfazer ás tuas companheiras, ainda mesmo com sacrificio de tua vontade, procura provar-lhes que tu és mais feliz em satisfazer os seus desejos do que os teus mesmo; força-as á amarem-te por tua docilidade, tuas attenções e bondades, mas não porque te julgues de vin talento e ilustração de espírito superior ao seu. A vaidade só é propria de uma alma baixa, de umamediocre educação. O sábio não ri, mas se compadece do ignorante. A caridade, a primeira das virtudes christaas, nos prohibe censurar as faltas do nosso proximo com escarneo. Demais, lembra-te sempre que, por mais elevada que seja a tua educação, terás defeitos, pois que pertences á especie humana; e para que eles sejam menos sensiveis,
leves procurar suportar paciente egenerosa os dos outros, afim de que tenhas para com eles iguaes direitos. Quando te achares em qualquercompanhia, mostra sempre mais benevolencia á aqueles que ahi se acharem mais constrangidos, ou pormenos favorecidos da fortuna ou da natureza. Decide-te sempre pelo oprimido; os desgraçados tem incontestaveis direitos á nossa protecção e amizade. Prefere a virtude sob quaesquer trages que ela se patenteie a teus olhos. Acostuma-te a não julgar as coisas pelo exterior; basea teu juizo em provas mais reaes, procurando com cedo vencer a fraqueza da mocidade tão prompta em conceber as primeiras e mais perigosas impressões! Muitas vezes encontram-se sob feias aparências o realce de todas as virtudes reunidas; sendo certo que mais frequentemente ela habita a pobre choça do camponez, do que o rico palacio do cortezão. Não te iludas pots por simples aparências. Quando porem qualquer desgraçado implorar teu auxilio, corre a socorrê-lo-o, sem indagar se a sua desgraça é ou não merecida, nem te importe a forma com que ele se apresenta, assim como com o que poderão dizer em seu desabono aqueles que, gozando no mundo de todas as comodidades, nem ao menos selembram que seria possivel operar-se umamudança que os fizesse pa: tilhar igual destino! Amaledicência tudo envenena, e aqueles aquem a fortuna deixa de favorecer são sempre as primeiras e tristes victimas de seus tiros!
Mostra-te sempre mais humana para com estes; porque 03 outros tem uma sociedade que, premiando raras vezes o verdadeiro merecimento, os indemnisa da falta deste, conferindo-lhes honras e rendendo-lhes todas as sortes de homenagens... Detesta com horror o vil interesse, minha filha, nem te deslumbre esse aparato vão das grandezas do mundo. Aqui tudo é passageiro e transitorio! felizes somente são aqueles que firmam seu império na virtude. Sê generosa, minha querida; a generosidade éum sencimento sublime, digno de uma alma bem formada; ambiciona ocasiões de podel-a exercitar; e se a pessoa a quem a deves fazer sentir tiver-te porventura feito alguma injusiça, folga de a poder convencer por tuas bondades de que anão merecias. Pratica bem, eu te repito, pelo único prazerde o fazeres sentir ao teu semelhante, e não desejes a vingança nem mesmo contra o teu maior inimigo (se tiveres a desgraça de o ter), seguindo nisso aquele preceito de J. C. " Paga o mal com o bem. " Sim, minhacara filha, avingançaéum sentimentotão vil, que deixa a alma que a exercita inhabilitada para conceber qualquer sentimento virtuoso, enquanto a generosidade, que praticamos a respeito mesmo dos que nos ofendem, prepara-nos as mais doces afeições! Consulta o teu coração quando acabares de fazer qualquer beneficio e o sentirás tão satisfeito! tão tranquilo! Mas se tiveres a infelicidade de fazer sofrer ao teu semelhante, teu coração cerrar-se-há, e o peior dos tormentos, de que ácima falei-te, virá dilaceral-o! Compara pois esses dous sentimentos, e tu reconhecerás naquelle o premio davirtude, eneste a punição do crime. Faze porém o bem sem garbo nem ostentação, procu rando cuidadosa ocultá-la-o a todos, e, se for possivel, áquelles mesmos a quem o fizeres sentir. Sê tanto mais omissa em declarar o beneficio que fizeres, quanto prompta em propagaro que receberes, pois que as vozes da gratidão devem exceder ao objecto que a fez nascer. Gratidão! virtude sublime que tanto honra a humanidade! O ser que te não conhece é incapaz de outra qualquer virtude! Foge pois aos ingratos, minha querida filha; eles receberão de um Deus, sempre justiceiro, a pena devida a um tão enorme crime! Crime para que os homens não tem até aqui achado suficiente castigo!! A Providencia Divina, tocada sem duvida de meus primeiros infortunios, deu-me um filho, que tem feito contigo a doçura de minha vida, e que espero será o apoio de minha velhice, e sempre o teu melhor amigo, como tem sido o único companheiro de tua infância. Ama-o sempre com uma verdadeira ternura fraternal, e contempla nelle a viva imagem de teu pai. Sua boa indole me promette que terás de aplaudir sempre tua ternura por ele. Condescende com ele em tudo aquilo que for razoavel, obrigando-o por teu exemplo a satisfazer todas as tuas vontades. Ama-o emfim tanto quanto cu amei em tua idade mesmo a meus ultimos dous irmãos, cujos primeiros passos guiei, e por quem sempre depois senti um interesse puramente materno. Um deles é essa Tia, que tantos direitos tem à tua amizade, à tua gratidão e respeito; aquela, que, depois de tua boa Avó, a quem deves relevantes cuidados na tua primeira infância, deves como a mim, respeitar, e se. guir os seos conselhos. Toma-a por modelo de tua conduta, essa virgem, cuja pureza e virtudes estão muito além do quadro, que delas poderia minha fraca penna esboçar! Foi em seu casto seio que repousei minha delirante cabeça quando em país estranho sofri agrande perda de teu inestimavel Pai, e foi a unicaamiga, cuja voz penetrou em meu coração dilacerado, quandome pedia entre lágrimas, que vivesse para meus inocentes filhos, e para ela! Essa virtuosa menina, que votou-se toda a mim, nada esquecia do que poderia arrancar-me a uma funesta melancolia, em que languescia de dia em dia, tornando-me inepta para qual. quer ocupação, e fazia-me todos os momentos bem dizer os cuidados que dei á sua infância. Oh! minha filha, ajuda-me a indemnisar esta inestimavel irma, esta incomparavel amiga, de uma amizade tão sublime, de um exemplo tão raro de afeição fraternal. Olha-a como uma segunda mãe, e eleva como os meus teus votos ao Todo Poderoso, para que lhe prolongue a vida, uma vida feliz, poupando-nos á dòr de a vêr acabar tão cedo, como aquela irmã querida, por quem tua debil mão me tem tantas vezes enxugado o pranto!! Tributa emfim a toda a tua familia um profundo sentimento de veneração, e estima, apressa-te em prevenir, podendo, seus menores desejos; acompanhando tuas acções daquella encantadora benevolencia, que mais nos aproxima da Divindade! Se algum dia ela precisar de teus socorros, imita tua mãe, não hesites um momento em preferir a sua a tua felicidade. Sacrifica-lhe tudo, menos a virtude!.. A virtude, minha cara filha, que é o mais precioso dom da vida, o primario, o mais poderoso attractivo de uma joven, e o único escudo com que poderás triunfar das infelicidades da vida! A virtude, te repito, que deves preferir neste mundo a todos os vãos explendores, e cuja palma te será preparada na Celestial habitação pelas mãos da Divindade. Filha do Céo, e tendo ali seu trono, ela não pode ser premiada pelas mãos profanas dos mortaes. Despreza os que com uma doutrina diversa tentarem iludir tua razão; antepõe uma firme constancia ass miseraveis sofismas, de que abundam suas teorias. Convém que sejas attenciosa para todos, e com particu. laridade para a velhice, minha filha, que tem direitos a nossos respeitos. Em uma sociedade, aproxima-te sempre los mais velhos, e doutos; sua experiencia e instrução não pode deixar de utilizar-te muito, enquanto os moços pela maior parte te oferecerão um entretenimento bem diferente: seus discursos são sempre intermediados dessas sátiras ridículas, que dizem ser agradáveis assembleias, e que
não podem agradar senão a um espírito tao mediocre como o seu. Uma outra advertencia tefaz minha vigilante ternura eé que nessas ocasiões em que não poderes furtar-teás vo zesda lisonja, quando ouvires louvar exageradamente teu genio, teus talentos, não te mostres desdenhosa, mas agradece tudo isso com uma continencia modesta, dizendo em teucoração " quanto são exagerados semelhantes elogios! " Minha querida filha, há no mundo duas sortes de admiradores de nosso sexo, uma assás comum, outra extre. mamente rara. A primeira é daquelles homens, que olhando-nos com desprezo, não vêem em nós, assim como nessas lindas flores, que se colhem para servir-nos de um ornato passageiro, mais do que um objecto digno somente de lisonjear seus sentidos. Aseus olhos uma mulher amarel é sempre aquela que reune mais graças exteriores, e ousados pela fraqueza, com que os prejuizos de nossa edu cação nos apresentam aos olhos do mundo, eles tem estudado, e põem em pratica umalingoagem toda engenhosapara attrahir nossa attenção e triunfar dessa fraqueza a despeito de nossa virtude mesma. Eles te dirão com toda a impudencia que és bella como a rosa, engraçada como as Ninfas; gabarão exageradamente tua destreza nas belas artes, colocando-te mesmo a par das filhas de Apollo; chamarão ás tuas disposições para os estudos, profundos talentos: enquanto interiormente lançarão um olhar escrutador sobre a tua fisionomia, para gozarem da impressão, que teu inexperto coração sentirácom o energico esboço, que eles souberam ardilosamente traçar, deperfeições, queestão bem longe de crêr que tu possues! E se alguns hamenos impudentes, ou menosgalantes, como lhes chama o vulgo,
seu grosseiro egoismo, suggere-lhes então mil ridiculos, com que procuram oprimir aquelas, cujos pais, maisjustos, facilitaram-lhes o caminho das ciências! A segunda porém é a daquelles homens, cujo coração formado na escoladavirtude, parahonrada humanidade, se prestam expontaneamente avingar-nos dos ultrages, com que pretendein abocanhar-nos o credito aqueles, de que acabo de falar- te. As armas de seu ilustrado entendimento, aguçadas na fina Pedra da Moral, contrastam superiormente esses ridiculos dicterios, que para nós assestam grosseiros, e fractuosos arcos brandidos por mãos impuras. Um aspecto sisudo, em que todavia transluz uma galhardia nobre; expressões subidamente honestas, representativas de suas afeições; um recolhimento em seu porte, sem ser com tudo exclusivo de uma certa acessibilidade, de que tanto precisamos; eis em resumo o quadro, que a Filosofiados costumes (aMoral) nos traça do homem, que, merecendo as nossas simpatias, tem direito aque lhe tributemos as nossas deferencias. Aperspicacia de sua inteligência discrimina profundamente as nossas fraquezas de nossas elevações; fazendo-nos sentir as primeiras para que nos emendemos dos erros, a que elas tão frequentemente nos induzein, combatidas de insinuações malignas; o homem serio não abusa de uma posição, que por ventura facilmente se prestaria á realisação de planos, que a deshonestidade ceva, mas que a razão condemna; pagando o tributo de sua admiração a nossotalento, ele não exagera, receiando assisado, que ultrapassemos os limites do justo emprego, que dele é mister façamos. É de um tal homem, minha filha, que te recomendo
procures a coinmunicação, e cultives a amizade, quando tua razão se tiver desenvolvido. Foge cautelosa aos primeiros que só te falarão de uma maneira propria para lisonjear a tua vaidade. Eles não pensam nas desgraças que causam, ena viciosa fraqueza que alimentam, quando exhortam as mulheres, a lazerem-se unicamente amaveis, nem advertem, que o sexo tendo sido feito para tudo harmonisar na Natureza; eles põem em oposição o dever natural, e o artificial, sacrificando a consolação, e a dignidade da vida das mulheres, á noções deliciosas da beleza. Aquelles, que menos te falarem de tuas qualidades, e te admirarem em silêncio, serão justamente os que mais convencidos estarão delas. É esteril a lingoagem da modéstia, enquanto a da lisonja demasiadamente fertil. Adverte porêm que entre esses, há uma qualidade de homens, de que te não falei ainda, e de quem, mais que do venenoso áspide, é mister precaver-te! São os hipócritas, minha, filha, esses detestaveis seres, que sabem a seu grado manejar as armas de uma aparente modéstia, afim de que possam mais seguramente chegar a seus fins, e fazer cahir sobre ti os tiros da maledicência. O vicio, engenhoso em disfarçar-se, toma muitas vezes belas formas, com que aparece aos olhos da demente mocidade, e a atrai, conduzindo-a subtilmente a sua ruína, assim como a brilhante chama atrai a borboleta e a consome! Cumpre por-te em guarda contra esses outros
tantos inimigos do teu repouso, da tua innocencia e felicidade para o que tens precisão de um guia esclarecido, que te advirta, e desvie dos perigos, que tua inexperta mocidade, não poderá prever; um guia porém a quem teu coração se patenteie sem reserva alguma, e cuja ternura te garanta a indulgencia, de que há mister a confissão de tuas menores fraquezas; um guia emfim que se interessando mais por ti, que tu mesma, prefira a tua a sua felicidade. Não tens tu adevinhado já qual ele possa ser? não o tem teu coração já elegido? Sem duvida que qualquer outrem alem da tua mãe, não poderia melhor prestar-te esse poderoso auxilio. Sim, minha cara filha, é tua mãe, que toma em tudo um interesse eminente por ti, que te servirá de guia; mas para isso é mister que o menor, o mais insignificante segredo não ache asilo contra ela em teu coração. Tu lhe deves como à tua primeira amiga a confissão de todos teus pensamentos, e de tuas menores faltas, que deves submetter a seujuizo, sem temer, mas desejando as suas admoestações. Desgraçados daquelles que se negam a esse dever.! Não seguindo os seus conselhos em uma idade, em que não podem discernir o bem do mal, eles correm vendados a precipitar-se no horroroso abysmo, que absorve a felicidade dos mãos filhos, preparando-lhes dias de lágrimas e arrependimento!! Oh! possa a filha querida do meu coração evitar tão funesta sorte! Possa ela, pela regularidade de sua conduta, pela sua obediência, e docilidade aos conselhos de sua mãe, preparar-se uma mocidade feliz, e uma velhice sem remorsos!! FIM.
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