Lisboa

Universo da obra

Lisboa

Capítulo 1 · Lisboa

Lisboa

Et nunc et semper

(Divisa dos príncipes de Este)

As geografias antigas, dizem: «Lisboa, cidade antiga rica e forte: ali o ar é melhor que em qualquer sítio da Espanha. Está sobre sete montanhas à beira do Tejo. Long. 9., lat. 38..»

Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura: apesar dos asfaltos, das fábricas, dos gasômetros, dos cais, ainda aqui as primaveras escutam os versos que o vento faz: sobre os seus telhados ainda se beijam as pombas: ainda, no silêncio, o ar escorre pelas cantarias, como o sangue ideal da melancolia. E Deus ainda não é um poeta impopular.

Lisboa que faz?

Antigamente a cidade, pólis, era o lugar que pensava e que falava, que tinha o verbo e a luz. Roma criou a justiça, Atenas idealizou a carne, Jerusalém crucificou a alma. Por isso Roma caiu, e os porcos enlameiam os restos de Atenas, e os cães uivam no silêncio de Jerusalém. Os seus olhos olharam muito para a verdade, e cegaram: os seus ouvidos escutaram muito o pensamento, e ensurdeceram: as suas mãos esculpiram muito o ideal, e tolheram-se.

Pensar é sofrer, alumiar é lutar. A noite, ao sucumbir, luta com a madrugada, e deixa-lhe a chaga incurável do sol: dela escorre a luz. As superstições, os preconceitos, os erros, os prejuízos, as fatalidades, lutam com a alma, e deixam-lhe a ferida insanável do ideal: dela escorre a verdade. Esta ferida dá a febre, o cansaço, o desespero, a convulsão. Paris tem esta antiga e trágica ferida que teve Atenas, Babilónia e Jerusalém. Sofre, porque pensa. Os pés têm a intimidade da lama, as asas têm a camaradagem da luz. Todo o pé quer ser asa.

Daí ambições, desalentos, lutas obscuras, perdições, descrenças, fulgurações do mal, impurezas, traições, invejas, injúrias, torturas: — a congestão do espírito! São estas as dores imensas, as nódoas do pensamento, as manchas do sol.

Lisboa não tem estes defeitos da luz: é serena, imperturbável, silenciosa. Quer a sua inviolabilidade, evita as feridas terríveis. Tem a sensatez, a prudência, a economia, o medo. Não quer alumiar, para não lutar; não quer pensar, para não sofrer. Não quer criar, pensar, apostolar, criticar. Escuta e aplaude toda a voz, ou sejam as imprecações de Danton, ou os versos do poeta Nero. As ondas que solucem, as florestas que se lamentem! Ela tem o riso radioso e sereno.

Sente-se abundante, gorda, coberta de luz. Sente-se protegida, livre, caiada e fresca. Não tem de catar as suas misérias, nem de amparar o pau das forcas: por isso, comenta Sancho Pança. Não tem de construir a catedral das ideias, nem de compor a sinfonia da alma: por isso, escuta os melros nas várzeas, e reza as Ave-Marias. Paris, Londres, Nova Iorque, Berlim, suam e trabalham, em espírito. Ela não tem que semear: por isso, ressona ao sol.

Às vezes, porém, comete o mal, enterrando ideias. Onde? Na escuridão, no silêncio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira de almas!

Como Roma, ela tem as sete colinas; como Atenas, tem um céu tão transparente que poderia viver nele o povo dos deuses; como Tiro, é aventureira do mar; como Jerusalém, crucifica os que lhe querem dar uma alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come.

Come, ao cair da tarde, sem testemunhas impiedosas, quando sabe que os astros vêm longe, que as asas sonham com o vento, que os olhos das flores se fecham de sono. Deus não vê, da sua varanda de sol, que, para esta velha cidade, heróica e legendária, que nos seus velhos dias tomou o pecado da gula, o abdômen é uma realidade livre! Até ali, durante o dia, os seus cabelos caíam como ramos de salgueiros, as suas faces estavam amareladas, dos seus olhos chovia dor; ainda não tinha comido! Depois, à noite, quando sai do alimento como duma vitória, os olhares são gritos de luz, os cabelos plumas gloriosas, o peito arca de ideais: comeu!

Lisboa nem cria, nem inicia; vai.

Em religião, nem tem a devoção dos monges, nem a impiedade irônica: é simples. Antigamente fazia ir um Cristo crucificado, erguendo os braços suplicantes, no préstito dos enforcados: hoje choraria pela Mãe Dolorosa, depois de ter erguido uma estátua a Voltaire: penduraria ao pescoço, singelamente, com as contas de um rosário, a sua antiga viola de Alfama.

Em política, copia Sancho Pança.

Não tem a coragem que se dedica, nem o medo soluçante: parece ter justamente o heroísmo de uma espada embainhada: na campanha da Europa, todavia, com os seus uniformes negros, espantava a velha guarda. Tem a religião sensual do sol, do calor, e do sono: na Beresina, apupava as neves!

Não tem a febre das especulações e das indústrias, nem o amor das contemplações e dos sonhos: tem um trabalho cheio de sestas: em Abril suspende a enxada para ver voltar as andorinhas.

No vício é tímida: copia desjeitosamente as Babilónias distantes: aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés: apara as unhas ao diabo; é o banho tépido dos pecados mortais.

Adoradora, em arquitectura, da linha recta dos palácios de cristal; sectária, em escultura, dos biscuits de Sevres; namorada, em poesia, do visconde de Arlincourt — no teatro quer a mágica: tem sede e fome daquele ideal: quer as montanhas transparentes, os palácios de missanga, nudezas celestes, noivas de coral, arquitecturas de luz e sons, papéis colados, vermelhão e ouropéis, mulheres despidas, pedraria, e ouro, ouro, ouro, e ainda ouro, e mulheres despidas, e mais ouro! Lisboa, por sobre uma cena resplandecente, vê as formas estranhas, que toma o sonho

da imbecilidade: quer a mágica: em verdade, a mágica é o espectro solar do idiotismo!

Vem a noite, e Lisboa toma a impassibilidade das penedias.

As casas, sem luz, têm o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas. A iluminação é um coro de gás, bocejando. Das encruzilhadas das ruas solitárias, de todo este deserto de cantarias e de vidraças, exala-se uma sonolência fluida, um hálito de tédio, Lisboa, de noite, é tão silenciosa que quase se sente o crescer da erva que a há-de cobrir no dia das ruínas.

É tão triste, que a noite parece um arrependimento da vida! Nas belas moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraia, em farrapos, em palhas, por toda a parte, há um vasto sono inerte e vegetal.

Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a família Vicio, a gente crepuscular, os herdeiros terríveis de Lovelace e de D. Juan Tenório?

Compram, na penumbra doméstica, o amor fuliginoso das cozinheiras, comem, melancolicamente, mexilhões nas tabernas; os mais pobres encostam-se às esquinas, esfarrapados e doentes, cariátides sonolentas do tédio!

E nas casas? Aí, nos andares resplandecentes, onde as mãos são macias e macios os sentimentos, estão, concentradas e sérias, formas vestidas de luto, como os viúvos, ou vestidas de branco, como as monjas. E suaves são as falas, e o andar cheio de ondulações como o nadar das sereias, e as danças severas como a celebração dum rito: e suaves são as pétalas, e as musicais chorosas, e as luzes, aves de claridade presas, que palpitam e querem o livre azul: mas sobre

a alma, e os corpos, e os adornos, derrama-se a tristeza dos viúvos e a frialdade das monjas. E isto são as festas!

Mais acima, nos andares modestos, ressonam aquelas famílias, vulgares e ásperas, que nascem com a alma cheia de frio, que vivem entre a beleza, a graça, a paixão, como insectos entre os cabelos duma santa, e morrem solitárias, invejosas, com os corações cheios de revolta, porque não amaram! Depois, mais em cima, nos últimos andares, é a gente do trabalho: operários severos, doces raparigas com alma de pássaro, gargantas onde, como nas veigas de Israel, todo o dia se canta; e, também, a gente estúpida e metálica que tem a brutalidade do trabalho com a rudeza do coração, índoles ásperas, olhos invejosos, mãos avaras, peitos vazios, que a essas horas da noite, com os cabelos caídos, veem a vida tão nua, tão apertada, tão brutal, tão suja como a sua trapeira! E depois mais acima, debaixo dos telhados, os mendigos, os esfomeados, os miseráveis, a essas horas, com grandes olhos aterrados, catam-se, ou roem as côdeas, ou gemem de dor, ou morrem entre a caliça e as aranhas, ou se remendam, cantando impuramente!

E por cima (como na jerarquia da dor, das tristezas do pobre, só estão as chagas de Cristo) o grande azul, sereno, transparente, cheio de universos, esconde, por detrás da gradaria dos astros, o Mistério e a Graça!

A essas horas, ó miséria das cidades! longe dos conservatórios, e das academias, e das mágicas, pelos prados e pelas várzeas, representam-se as verdes comédias da natureza: os rouxinóis dão

a réplica às folhas melodiosas, as flores choram pelas desgraças de um melro amoroso, os olmos têm atitudes grotescas de palhaços, e o céu, como amante trágico, criva-se de punhaladas de luz!

Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações dum peito desmaiado. Não há ambições explosivas; não há ruas resplandecentes cheias de tropéis de cavalgadas, de tempestades de ouro, de veludos lascivos: não há amores melodramáticos: não há as luminosas eflorescências das almas namoradas da arte: não há as festas feéricas, e as convulsões dos cérebros industriais.

Há escassez de vida; um frio senso prático; a preocupação exclusiva do útil; uma seriedade enfática; e a adoração burguesa e serena da moeda de cinco tostões — da moeda de cinco tostões, branca, perfeita, celeste, pura, imaculada, consoladora, purificadora!

O luxo dos vestuários é reflectido, pausada, calculado.

Um outro luxo há, mais doido: esse, quando é novo, ruge, resplandece, deixa-se balançar em grandes pregas desfalecidas — um pouco baixamente, de camaradagem com a lama. Mais tarde, depois das ostentações e dos amores, envergonha-se e vai-se mascarar às tinturarias: nos seus velhos dias anda, miserável, pedindo esmola por casa das adelas!

A Lisboa material tem posições morais. Há sítios que dão, aos que os pisam, uma individualidade. O lajedo e a cantaria consagram espíritos. Encontrar-se no Chiado — significa ter a fina flor da graça, a vivacidade conceituosa e costumes dissipados. Estar no Martinho — revela inspiração, divindade interior, lirismo e política, Ó Lisboa, tu não tens caracteres, tens esquinas!

Lisboa tem compaixões celestes: agrupa-se, em coro de lágrimas, para ver a morte dum cão: mas afasta-se logo, assobiando, se começa a agonia duma alma. Tem também uma curiosidade tímida e fácil: senta-se nos passeios pelo Estio, entre o pó, olimpicamente, como os Deuses entre a luz, e fica atenta, concentrada, suspensa, idiota — a ver caminhar seis mil pernas.

Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis; outro dia aborreceu-se e acolheu os imperadores. Às vezes Lisboa aborrece-se — e entra na política.

Lisboa toma então atitudes, clama, conjura nas esquinas, é bondosamente afastada pela polícia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas tiranias derrubadas, reler a cartilha!

Uma das maiores alegrias de Lisboa é sujar-se!

Nos tempos mitológicos, às vezes, uma deusa fazia-se mulher, esposa e mãe, fiava na roca de ébano incrustada de lápis, e dobrava as lãs vermelhas de Mileto. Vinha, porém, um dia no ano em que a mulher ia, no Olimpo, ser deusa. Deixava esposo, filhos, lares, parentes; debalde lhe pediam que não fosse, temendo que ela, mulher e deusa, não se acostumasse, na volta, às lâmpadas de gineceu, ela que só ia ser alumiada pelos astros do Olimpo. Debalde: chegado o momento, nada impedia a esposa de ser divindade: via-se aquele corpo casto, argila ideal, azular-se e, transparência viva, perder-se na luz.

Lisboa é assim. Vem um dia em que ela quer voltar ao seu elemento primitivo, e ninguém a pode impedir de ser lama: é pelo Entrudo.

Suja-se então livremente, faz tempestades nojentas; naqueles dias o seu tédio é feito de imundície.

Transfigura-se. E como a Deusa deixava, na antiguidade, os filhos e os lares, para ir ser luz, Lisboa esquece as funções do seu tédio, a religião da moeda de ouro, o sacerdócio da economia, as atitudes enfáticas do seu pudor, para se dar livremente à lama!

Lisboa é a hospedaria do vento. O antigo Euro paga a hospedagem, atirando a poeira às ruas, às praças, às avenidas, aos cais, à cara de Lisboa! Sublime adulação: suja-a!

Lisboa respeita a limpeza, mas adora a lama. Colisão! Lisboa, cidade inspirada, corta magnificamente o embaraço, lavando-se no lodo do Tejo!

Atenas produziu a escultura, Roma fez o direito, Paris inventou a revolução, a Alemanha achou o misticismo. Lisboa que criou?

O Fado.

Fatum era um Deus no Olimpo; nestes bairros é uma comédia. Tem uma orquestra de guitarras, e uma iluminação de cigarros. O palco está mobilado com uma enxerga. A cena final é no hospital ou na enxovia.

O pano de fundo é uma mortalha!

Todos os dias, quando o sol se vai lavar, nas águas, dos olhares dos homens, quando os corpos estão em flor e passam os olhos pretos, de que Deus é avaro, e a maledicência se abre como uma túlipa, e os risos são clarões, e a vida se balouça cheia de sonhos, de lustres de olhares, de beijos cor de sol, de camélias e de pomadas, passam na rua umas carruagens lentas, com grandes arabescos dourados: são coches; as suas armas são caveiras; vão ali os mortos.

«Anda, cocheiro: é um freguês que vai para a cova: a passo! Alto de S. João! A eternidade toma-te à hora!»

E enquanto o pobre morto vai, que dizem os que o viram partir, soluçando?

Os filhos dizem: «Tinha de ser...» A esposa diz: «Vestida de luto!...» O agiota: «Não foi mau freguês». Os médicos: «É um caso interessante...» Os que o levam para a cova: «Era pesado, o maroto!»

O coveiro canta:

o preto que vem d' Angola Traz a bordo fava rica.

Tu, pobre mulher chorosa, amaste aquele homem: vestiste-o com os teus cabelos, alimentaste-o com o teu hálito, coroaste-o com o teu olhar, divinizaste-o com o teu desejo; ele era formoso, e são, e forte, e apaixonado: mas se passares por ao pé dele agora, ó pobre mulher chorosa, põe bem a mão no nariz!

Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, ressona, soluça e cachimba. E se algumas lágrimas em ti caírem, vai-as enxugar depressa ao sol! Fica-te em paz! Os que têm alma não querem a luz dos teus olhos; podes consumi-la a contemplar o céu e os universos; por causa do teu olhar, sempre erguido para lá, ninguém terá ciúmes do céu!

Os que têm coração, não querem as carícias das tuas mãos; podes emagrecê-las a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas para ele, ninguém terá ciúmes de Deus!

Tu tens a beleza, a força, a luz, a graça, a plástica, a água resplandecente, a linha magnífica! Resigna-te, ó Lisboa querida, ó clara cidade bem-amada, ó casta graça silenciosa, resigna-te, ó doce Lisboa, coroada de céu, resigna-te — a não ter alma!

Lisboa

Sinopse

Leia gratuitamente Lisboa, texto de Eça de Queirós publicado em Prosas Bárbaras, preparado para leitura online no Literunico a partir de fonte em domínio público.

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