Universo da obra
Universo da obra
O tilintar do gelo contra o cristal era o metrônomo da minha infância. "O mundo ao nosso redor é tão belo e ao mesmo tempo tão imperfeito", minha mãe costumava dizer, a voz arrastada pelo rum com tônica que ela consumia como se fosse água benta. Ela se sentava na poltrona de veludo da sala de música, uma relíquia trazida das Terras do Sul, envolta em uma névoa de perfume de jasmim e melancolia. Ao fundo, o som cansativo e técnico do piano preenchia o ar. Era Heriko, meu irmão, o "queridinho", praticando pela vigésima vez a mesma sonata que compusera para as bodas de prata de nossos pais. Para eles, era uma obra-prima; para mim, soava como uma marcha fúnebre para a minha própria liberdade.
Havia duas versões de Viollete Harman. A primeira era a anfitriã perfeita, que sorria para os convidados enquanto ostentava sua ninhada de filhos impecáveis. A segunda era a mulher severa que me prendia entre seus joelhos todas as manhãs para domar a minha natureza. Enquanto ela passava a escova de cerdas duras pelos meus cabelos, puxando com uma força que me obrigava a morder o lábio para não gritar, o mantra se repetia:
— O mundo ao nosso redor é tão belo e ao mesmo tempo tão imperfeito, igualmente a você, Roselly. Tão bela, porém... — ela parava a escova exatamente onde os nós eram mais rebeldes, e seu reflexo no espelho mostrava um brilho de desdém — ...uma coisa imperfeita. Uma mancha de ferrugem em nosso ouro.
Algumas palavras têm o poder de sangrar a alma antes mesmo de cortarem a pele. Essas, com toda a certeza, foram as que plantaram em mim o desejo de não ser mais uma Harman. Eu queria sumir. Queria correr pela floresta de pinheiros que cercava nossa propriedade, onde as sombras eram longas e silenciosas, e atravessar o grande Rio Janem.
Do nosso lado, o Sul, a terra parecia carregar um peso antigo; as árvores eram retorcidas, as flores tinham tons pálidos de cinza e lavanda, e o céu parecia sempre prestes a desabar em uma tempestade que nunca vinha. Mas do outro lado... ah, o lado dos Rain. A margem Norte era onde a vida parecia ter sido inventada. Mesmo de longe, eu podia ver o brilho de um sol que parecia mais quente, as árvores carregadas de frutos que brilhavam como joias e, o mais torturante de tudo, o eco dos risos que atravessavam a água, carregando uma alegria que a mansão Harman jamais conheceu.
Minha única âncora de sanidade era minha avó, Gardênia. Ela era a única que não me olhava como se eu fosse um prato quebrado. Frequentemente, fugíamos da vigilância de meus pais para a beira do Rio Janem. Ali, onde a água corria rápida e escura, ela me contava as histórias que os outros Harman tentavam enterrar.
— A muitos anos atrás — ela começava, sua voz misturando-se ao murmúrio das águas — uma bela moça dos cabelos negros como a noite mais profunda, uma Rain de linhagem pura, encontrou o proibido.
Eu me sentava aos seus pés, ignorando a umidade da terra.
— Ela se encontrou às escondidas com um rapaz de cabelos cor de entardecer — continuava ela, e seus olhos pareciam brilhar com uma lembrança que não era dela. — Um Harman que carregava o fogo no sangue. Ali, naquele exato ponto onde a terra encontra o rio, eles juraram um amor que desafiava as leis da natureza e dos homens. Mas o amor deles não era apenas um sentimento; era uma semente.
A história seguia o curso trágico que eu já decorara, mas que pedia para ouvir de novo. O nascimento dos gêmeos — a menina com o cabelo de fogo do pai e o menino com a escuridão da mãe — era o ápice da minha fascinação. Quando minha avó descrevia o sacrifício da jovem Rain, executada por seu próprio sangue no último mês de gestação, eu sentia um frio que nenhum casaco de lã podia aquecer. A maldição lançada pelo Harman sobrevivente, o lamento que atravessou as margens, ecoava na minha mente.
— Vovó — eu perguntava, as mãos pequenas tocando minhas próprias mechas alaranjadas que tanto incomodavam minha mãe — eu sou a maldição?
Ela sorria, um sorriso triste que vincava seu rosto cansado, e passava os dedos pelos meus fios.
— Minha querida boneca, a única maldição deste lugar é a terra que pisa e o orgulho que a governa. Você não é a maldição. Você é a promessa que eles esqueceram de cumprir.
Mas o consolo da minha avó era apenas um paliativo para a realidade brutal da nossa história oficial: a Guerra do Hegdar. Se a história do rio era um romance trágico, a Guerra era o nosso fundamento de ódio. Mais de mil anos atrás, as famílias Harman e Rain não eram inimigas; eram as duas faces de uma moeda próspera que governava a cidade de Janem.
Tudo ruiu por causa de Hegdar Harman. Os livros de história em nossa biblioteca, encadernados em couro de cabra, descreviam Hegdar como um homem de "paixões intensas", mas a verdade era mais suja. Bêbado de poder e rum, ele invadira a floresta Norte e destruíra a inocência de uma família Rain, assassinando os pais e violando a filha antes de tirar sua vida. O crime de um homem tornou-se o pecado de uma linhagem.
Os Rain juraram que nenhum Harman voltaria a tocar sua terra ou seu povo. O Rio Janem, que antes era uma artéria de comércio, tornou-se uma veia aberta, dividindo o mundo em dois. Do lado Sul, nós, os Harman, crescemos rígidos, obcecados por uma perfeição que escondia a podridão de Hegdar. Do lado Norte, os Rain floresceram em seu isolamento, protegidos pelo ódio que nutriam por nós.
Eu cresci sob a sombra dessa guerra silenciosa. Meus irmãos — Kiro, o sucessor frio; Guilherme e Gabriel, os gêmeos que pareciam falar uma língua que só eles entendiam; e Heriko, o músico — eram os pilares daquela estrutura. Eles eram os Harman ideais. E então, havia eu. A quinta de cinco irmãos. A única fêmea. A ruiva.
Minha cor de cabelo não era apenas um traço genético; era um lembrete visual do "entardecer" que minha avó descrevia nas histórias proibidas. Para meu pai, Gardon, cada vez que ele olhava para mim, via o reflexo da traição e da impureza. Para meus avós Urias e Viollete, eu era o erro de cálculo em uma linhagem de precisão.
Eu ainda não sabia, enquanto observava o sol se pondo sobre o Rio Janem naquela tarde de outono, que a paz que minha avó prometera seria comprada com mais sangue. Eu não sabia que o rio exigiria um novo sacrifício, e que a garota ruiva que todos chamavam de "nada" se tornaria a ponte sobre um abismo que já durava um milênio. A guerra silenciosa estava prestes a gritar, e eu seria a primeira a ouvir o chamado das águas.
Por muito tempo, eu acreditei no eco de uma promessa. Minha avó costumava dizer que a paz e a felicidade seriam o meu destino, mas as palavras dela se perderam no tempo, sufocadas pelo peso de um sobrenome que carrega mais sombras do que glória. Na família Harman, o nascimento não é um milagre, é um veredito. Aqui, os pesadelos são lapidados até parecerem contos de fadas para quem vê de fora, enquanto, por dentro, a alma de quem não se encaixa sucumbe ao mais absoluto vazio. No centro de uma linhagem de nove pessoas, ergue-se a "ninhada perfeita": o patriarca rígido Urias e a complacente Gardênia; meus pais, Gardon e Viollete, guardiões de uma moral impecável; e meus quatro irmãos — Kiro, o sucessor; os gêmeos Guilherme e Gabriel; e Heriko, o reflexo do orgulho materno. E então, há o erro. Eu sou Roselly Harman, a filha mais nova e a única mulher entre cinco irmãos. Mas meu maior crime não é o meu gênero, e sim a minha marca: os cabelos ruivos que gritam minha diferença em cada corredor desta mansão. Alvo de um ódio que não ajudei a semear e herdeira de um erro do passado que insistem em projetar em mim, sou a imperfeição que eles tentam esconder. Em um mundo onde ser Roselly é ser "nada", eu precisarei encontrar a minha própria trilha — ou ser consumida pelas chamas do meu próprio sangue.
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