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Iemanjá e o Destino Líquido

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Iemanjá e o Destino Líquido

Capítulo 1 · Iemanjá e o Destino Líquido

A Água Respirável

Iemanjá abriu os olhos dentro da água. Primeiro achou ruim. Depois achou impossível. Depois parou de achar, porque o corpo dela já tinha começado a viver antes da cabeça dar licença. A água entrava pela boca, descia pela garganta e voltava calma, trabalhadeira, igual mulher que conhece a casa dos outros melhor que a dona. Iemanjá tentou tossir. Veio uma dor curta no peito, uma raiva pequena, quase vergonha. Até para morrer direito a pessoa precisava de costume.

A pedra embaixo dela era morna. Isso ofendeu mais que o resto. Pedra no fundo d’água tinha obrigação de ser fria. Ela pensou isso com uma clareza besta, agarrada a uma regra trazida da primeira vida, dessas que a gente guarda sem perceber. Pedra fria. Água molhada. Boca feita para ar. Morte feita para acabar. A boca recebeu água outra vez. Iemanjá ficou quieta.

Havia uma pressão ao redor do corpo, uma mão grande segurando tudo: nuca, barriga, coxa, tornozelo. A água apertava com intimidade de parente pobre, sem pedir desculpa. O cabelo subia devagar diante do rosto. Ela viu as próprias mãos abertas na pedra, os dedos escuros, as unhas com areia. Aquela mão era dela. Ou tinha sido. Ou estava sendo de novo, o que era uma grosseria maior.

A lembrança veio por um canto. Veio sem cena inteira. Um lençol. Um copo fora de alcance. Uma voz dizendo o nome dela do jeito errado, com pena demais. O peito fechando. A língua grande. O teto ficando longe. Alguém chorava. Iemanjá sentiu irritação ao lembrar do choro. A pessoa chorava em cima dela, ocupando o pouco ar que ainda existia no quarto. Agora havia água em todo lugar e ela respirava. Então talvez aquilo fosse a morte.

A ideia chegou simples, de chinelo no pé, sentando perto dela sem cerimônia. Iemanjá quis afastar a ideia, chamar aquilo de sonho, febre, castigo, qualquer palavra com saída. A água passou pelo nariz e pelo peito com uma paciência sem idade. O corpo aceitou. O corpo traíra a primeira vida depressa demais.

Ela tentou levantar. O mundo puxou por partes. Primeiro o quadril subiu, depois um joelho escapou da pedra, depois a cabeça foi para o lado errado. Iemanjá abriu os braços para se equilibrar e girou devagar, ridícula, sem peso bastante para cair direito. A água segurou a cintura dela e soltou em seguida. A queda veio atrasada. O ombro bateu no chão com força. A dor subiu limpa, humana, quase consoladora.

Ela agarrou uma fenda da pedra e respirou de novo. Respirar água cansava. A garganta aceitava, o peito trabalhava, o corpo descobria caminhos de dentro para fora. Nas laterais do pescoço, três cortes finos ardiam. Iemanjá passou os dedos neles e sentiu pequenas bordas fechadas. Ferida recente sangra, pensou. Aquilo tinha cicatrizado por ela. Alguém ou alguma regra mexera em sua carne enquanto ela estava longe de si.

A câmara apareceu aos poucos. Colunas brancas subiam para uma escuridão azulada. Plantas grossas agarravam a base das pedras, abrindo folhas quando a água se movia, recolhendo as pontas quando Iemanjá olhava. Peixes transparentes passavam em silêncio, compridos, com ossos brilhando dentro do corpo. No alto, muito distante, uma lua enorme tremia atrás da superfície. A luz descia quebrada e deixava tudo com aparência de coisa encontrada no fundo de uma bacia esquecida. Iemanjá pensou na bacia do quintal.

Na primeira vida, as pessoas chegavam com vergonha de pedir. Sentavam na cadeira de plástico, segurando pacote, retrato, roupa usada, papel dobrado, garrafa com água de torneira. Chamavam aquilo de energia, bênção, força, trabalho. Iemanjá nunca gostou de nome grande. Pegava o objeto, escutava a história, às vezes rezava baixo, às vezes ficava calada. Havia pedidos que davam certo. A febre baixava. O homem voltava para casa. A dor sumia do joelho por uma semana inteira. Uma porta se abria. Um exame vinha limpo. Iemanjá recebia agradecimento com desconfiança, porque acerto demais também assusta quem acerta.

As flores vieram depois. Primeiro uma só, branca, comprada com moeda contada. Depois duas, três, maços pequenos amarrados com linha de costura, pétalas já cansadas pelo caminho. Ela punha tudo numa bacia com água limpa atrás da casa. A flor murchava ali, sem espetáculo. Quem trazia queria acreditar que alguma coisa tinha sido aceita. Iemanjá deixava. Fé de pobre chega cansada; tirar dela o único banco era crueldade.

Uma flor branca rodou perto de sua mão, vinda do fundo da câmara, machucada nas bordas, com o talo escuro e uma pétala faltando. Parou nos dedos dela. Iemanjá fechou a mão sem pensar e sentiu uma tristeza irritada. A flor tinha a mesma humildade das que recebia no quintal. Dava a impressão de ter sido carregada longe, por alguém com pouco tempo, pouca certeza e muita precisão no sofrimento. Ela olhou ao redor. Havia moedas furadas entre a areia, escamas secas, pedacinhos de pano claro, contas azuis quebradas. O fundo daquele mundo guardava pedidos.

A vergonha veio funda. Em vida, ela tinha recebido flores por causa de curas que jamais soube provar. Agora acordava dentro da água, segurando uma flor que ninguém ali devia ter entregue por engano. A morte, ou o que viesse depois dela, tinha achado seu endereço. Ao longe, uma escada branca subia dentro do escuro.

Os degraus eram largos, gastos no centro, marcados por pés e por outras coisas que tinham passado ali pagando alguma conta. A escada parecia limpa demais. Iemanjá sempre desconfiara de limpeza em lugar de sofrimento. Onde muita gente ajoelha, alguma sujeira fica. Ali a sujeira tinha sido lavada com capricho. Isso era pior.

Ela tentou dizer o próprio nome. A água se mexeu antes da voz. Pequenas conchas saíram das fendas da pedra. Um peixe transparente parou perto do joelho dela. A flor tremeu na mão. Do lado da escada, uma faixa de água preta começou a subir pelo centro dos degraus, vencendo a corrente comum, grossa e quieta. Cada degrau acendeu por dentro, um branco de osso molhado. A câmara inteira pareceu prestar atenção.

Iemanjá abriu a boca e só entregou metade da primeira sílaba. A metade bastou. A pressão no pescoço aumentou. As três marcas arderam juntas. Dentro da cabeça dela veio uma contagem sem voz: corpo, nome, lembrança. A ordem dessas três palavras incomodou. Na primeira vida, tudo isso cabia numa pessoa só, mesmo quando a vida era difícil. Ali, a água dizia cada coisa separada, igual atendente chamando senha.

Uma mulher apareceu no terceiro degrau. Usava roupa branca presa por tiras escuras, e segurava uma tigela contra o peito. O cabelo estava amarrado alto, puxado com força. O rosto tinha beleza cansada, dessas que o trabalho não consegue tirar de todo. Ela olhou para Iemanjá, olhou para a flor, olhou para as marcas no pescoço. O medo dela ficou arrumado no rosto, obediente, treinado para trabalhar mesmo tremendo.

A mulher tentou falar. A faixa preta subiu mais um degrau e roubou parte do som. Iemanjá entendeu apenas pedaços.

— ...subir... inteiro...

Iemanjá apertou a flor. Queria perguntar onde estava, quem era aquela mulher, quem mexera em sua garganta, por que a água entrava nela sem matar. A pergunta mais feia ficou encostada atrás dos dentes: eu morri? Ela sentia a resposta andando perto, sem coragem de entrar pela porta da frente.

A mulher da tigela desceu um degrau. A Escada rangeu. Esse som chegou ao corpo de Iemanjá pelo osso do calcanhar. Era som de coisa contrariada, coisa acostumada a receber obediência. A mulher parou na hora. Seus dedos apertaram a tigela até as juntas clarearem. Iemanjá viu pequenas cicatrizes nas mãos dela, cortes finos, repetidos, de quem lida com borda afiada todos os dias.

A água perto da boca de Iemanjá se abriu. Uma criatura transparente saiu de trás de uma planta e veio até ela. Era pequena, redonda, com patas finas e grãos escuros boiando dentro da barriga. Parou diante do rosto dela e inclinou o corpo, curiosa. Tinha um jeito quase infantil, uma coragem sem juízo. Iemanjá pensou em espantar o bicho. Antes do gesto, a criatura pegou uma bolha que escapava dos lábios dela e engoliu.

Os grãos dentro da barriga clara se juntaram. Formaram uma curva, depois outra. Iemanjá reconheceu o desenho com o corpo inteiro. Era o começo do nome dela. A raiva veio quente. Ela estendeu a mão, e a criatura escapou para trás, carregando a primeira parte do nome dentro de si. Outras surgiram entre as folhas, abrindo caminho para um corredor baixo, iluminado por manchas azuis. O nome de Iemanjá ficou menor dentro da boca. Uma casa depois de perder janela. Uma pessoa depois de esquecer uma palavra simples.

A Escada respondeu. A água preta subiu mais um degrau. A mulher da tigela olhou para o corredor das criaturas com desespero contido. A flor na mão de Iemanjá começou a perder pétalas, uma por uma, e cada pétala parou no chão em volta dela, formando um círculo irregular.

Algo bateu em seus dentes. Iemanjá cuspiu na palma. Era uma carta de baralho, molhada, pesada, feita de material claro. No centro havia uma mulher sentada dentro da água, cabelo espalhado ao redor do corpo, uma criança no colo. A figura também segurava uma faca pequena, dessas usadas para descascar fruta ou cortar linha de pesca. Quando Iemanjá piscou, a faca virou remo. Quando piscou de novo, virou colher. A criança virou tigela, depois peixe, depois um rosto sem olhos. A carta esquentou na mão dela.

A mulher da tigela arregalou os olhos. A Escada rangeu outra vez. A criatura transparente fugiu para o corredor levando a metade do nome. Iemanjá sentiu tudo ao mesmo tempo: o corpo querendo subir os degraus, a carta puxando a mão para baixo, a lembrança do quarto abrindo uma porta dentro da cabeça, o nome indo embora na barriga de um bicho pequeno.

A água deixou de apertar. Por um instante, deu espaço. A folga assustou mais que a pressão. Iemanjá percebeu que aquele lugar sabia esperar. Quem sabe esperar possui alguma forma de poder. Na primeira vida, ela esperava a febre baixar, a pessoa voltar, o telefone tocar, o exame chegar. Ali, era o mundo que esperava sua reação.

A flor terminou de se desfazer. O círculo de pétalas ficou no chão, claro, pobre, teimoso. Iemanjá olhou para ele e entendeu uma coisa sem frase pronta: as flores que recebera em vida talvez fossem o começo de uma dívida que só agora mostrava a boca. Gente tinha pedido coisas a ela. Algumas coisas tinham acontecido. Agora outro lugar pedia de volta.

A mulher da tigela conseguiu falar uma frase inteira, baixa, com a voz raspando na água.

— Não entregue tudo de uma vez.

Iemanjá encarou a Escada. Depois a carta. Depois o corredor azul. O corpo dela já subia por dentro, a mão já guardava a carta, o nome já seguia com a criatura. A escolha deixava todos os caminhos abertos. Apenas dava ao olhar um lugar para começar.

Ela respirou água devagar. O medo continuava ali, e isso a confortou. Medo conhecido ainda era dela.

Iemanjá e o Destino Líquido

Sinopse

Spin-off do Universo em Órbita. Iemanjá desperta da morte em um planeta de água, onde cartas, fauna, flora, signos e forças culturais revelam caminhos simultâneos. Uma fantasia sombria de escolhas, sentimento e destino em forma líquida.

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