Universo da obra
Universo da obra
A barca das quatro levava botijões de gás, caixas de legumes, dois homens que discutiam o campeonato local e Nara Rocha. Ela se sentou perto da janela com a mala entre os joelhos, o contrato de venda na bolsa e o telefone do hotel vibrando a cada nova reserva. O gerente lhe concedera três dias. No quarto, precisaria trabalhar a distância ou apresentar uma justificativa melhor do que vender a casa onde crescera.
À esquerda, o continente perdia definição. À frente, a Ilha do Farol ocupava o vidro aos poucos: o quebra-mar de pedras escuras, o telhado comprido do mercado, as casas subindo a encosta e a torre branca no extremo norte. A tinta da torre recebera uma faixa azul desde a última vez que Nara a vira. O restante continuava disposto segundo a ordem que ela aprendera na infância.
Ela respondeu a duas mensagens do hotel, confirmou uma alteração de datas e fechou o aplicativo antes de abrir o contrato. A proposta de compra venceria na sexta-feira, às cinco da tarde. Norma Azevedo pagaria as dívidas do inventário, assumiria o financiamento do telhado e depositaria a diferença em trinta dias. O corretor do continente chamara aquilo de saída limpa.
Nara leu a expressão outra vez. Saída limpa. Nenhum cálculo que ele enviara incluía o salário de Zilda atrasado, as toalhas compradas por ela ou os meses em que Edmundo Rocha mantivera a pousada aberta com três quartos ocupados e oito preparados. Nara acrescentara esses valores numa planilha. Ainda assim, a venda bastava.
O motor reduziu. Um marinheiro abriu a corrente da proa e pediu que os passageiros permanecessem sentados. Nara guardou o contrato, passou a alça da bolsa pelo ombro e observou o cais se aproximar. Zilda estava junto ao portão com um vestido amarelo, sandálias de borracha e o cabelo preso por um lápis.
Quando a rampa tocou o concreto, Zilda levantou uma mão.
— Trouxe uma mala pequena.
— Eu volto domingo.
— Seu pai também dizia a data da volta antes de dizer boa tarde.
Nara puxou a mala pela rampa. Zilda não abriu os braços. Pegou a alça e examinou uma das rodas, que travava entre as pedras.
— Boa tarde, Zilda.
— Agora melhorou.
O calor do cais carregava cheiro de diesel e peixe. Um funcionário descarregava caixas de tomate enquanto o sino da igreja marcava quatro e vinte. Nara procurou um carro.
— Cadê o táxi do Joel?
— Virou transporte escolar. A pousada fica a sete minutos.
— Com esta roda, fica a vinte.
— Por isso trouxe isto.
Zilda apontou para um carrinho de mão encostado no muro. Colocou a mala dentro, ajeitou a bolsa de Nara por cima e começou a empurrar.
— Você sabia que eu vinha com documentos.
— Documento não estraga com carrinho de mão.
Nara acompanhou-a pela rua do mercado. Conhecia o modo de Zilda separar os assuntos: primeiro a bagagem, depois a fome, por último o motivo da viagem. Na porta da farmácia, duas mulheres interromperam a conversa. Uma delas reconheceu Nara e tocou o próprio peito num cumprimento silencioso. A outra desviou os olhos. O desaparecimento de Gabriel ainda lhe conferia aquela recepção incompleta, um cuidado que nunca perguntava o que ela precisava.
Elas subiram a Rua das Amendoeiras. A pousada surgiu depois da curva, com as paredes verdes clareadas pelo sal e uma placa de madeira onde ainda se lia Mar Aberto. A varanda tinha folhas acumuladas num canto. Duas venezianas do andar superior estavam fechadas; as demais, abertas.
— Você abriu os quartos?
— Abri seis. Os fundos continuam com infiltração.
— A gente não vai receber ninguém.
— Amanhã chegam os engenheiros da compradora. Gente que mede parede gosta de encontrar janela aberta.
Zilda destrancou a porta principal. O salão guardava o odor de madeira encerada, tecido fechado e café. Sobre o balcão, um vaso com ramos de alecrim ocupava o lugar do sino. Nara passou a mão pelo tampo e encontrou três riscos deixados por Gabriel ao tentar cortar uma laranja com uma faca de pão. O pai brigara durante uma semana. Depois cobriu os riscos com a tabela de passeios.
Agora não havia tabela.
— Você almoçou? — perguntou Zilda.
— Na rodoviária.
— Isso significa salgado.
— Significa que almocei.
Zilda foi para a cozinha. Nara ouviu a geladeira abrir, pratos se tocando, uma torneira tossir ar antes da água. Deixou a bolsa atrás do balcão e ligou o computador da recepção. O monitor acendeu, exibiu a fotografia do farol sob um céu cor-de-rosa e pediu a senha de Edmundo.
— A senha ainda é o aniversário da sua mãe — disse Zilda da cozinha.
— Você usou o computador depois que ele morreu?
— Usei para imprimir as contas que mandei a você. Seu pai deixou tudo misturado. Reserva, compra, boleto, fotografia de hóspede.
— Eu trouxe um disco externo. Vou copiar o que importa antes da vistoria.
Zilda voltou com arroz, peixe e abóbora num prato fundo.
— O que importa para você?
Nara digitou a senha.
— Documentos fiscais, reservas, recibos. Arquivos pessoais vão para o disco.
— Perguntei porque Norma mandou o corretor aqui ontem.
Nara afastou as mãos do teclado.
— Ele entrou?
— Ficou na varanda. Queria saber onde seu pai guardava os livros antigos.
— Que livros?
— Os de reserva. Antes deste computador.
— Você contou?
— Contei que eu trabalhava na pousada, não no inventário.
Zilda empurrou o prato na direção dela e permaneceu do outro lado do balcão. Nara provou o peixe para encerrar a fiscalização. Estava quente, com limão demais e a quantidade exata de coentro que o pai tolerava.
— A proposta inclui tudo o que está no imóvel — disse Nara. — Talvez o corretor esteja fazendo o levantamento.
— Engenheiro mede parede. Corretor procura preço. Esse procurou papel.
— Sexta eu assino. Depois disso, qualquer dúvida vai para a empresa.
Zilda apoiou as duas mãos no balcão.
— E o que devem a mim?
Nara abriu a planilha no celular e virou a tela.
— Está aqui. Oito meses, férias e o dinheiro das toalhas. Separei antes de calcular o restante.
Zilda leu os números sem pegar o aparelho.
— Seu pai me devia seis meses.
— Os outros dois são pelo tempo depois que ele morreu. Você manteve a casa de pé.
— Mantive porque minhas coisas estavam aqui.
— Mesmo assim, vou pagar.
Zilda assentiu. A rigidez dos ombros cedeu um pouco.
— Seu quarto está pronto. Troquei a roupa de cama hoje.
— Eu podia usar qualquer um.
— Podia. Preparei o seu.
No andar superior, o corredor rangia nos mesmos três pontos. Nara abriu a porta do quarto 7 e encontrou a colcha azul-marinho, a escrivaninha junto à janela e uma caixa de papelão sobre a cadeira. O pai escrevera seu nome na tampa com caneta preta.
— Achei no armário dele — disse Zilda. — Estava atrás das pastas do inventário.
Nara deixou a mala ao lado da cama.
— Você abriu?
— Se eu tivesse aberto, não perguntaria depois.
Zilda seguiu para o corredor. Antes de descer, virou-se.
— A água quente leva um minuto. O registro do banheiro fecha para a direita. Às sete eu volto para trancar a cozinha.
— Você não precisa voltar.
— Preciso buscar minha bolsa. Deixei lá de propósito.
Nara esperou os passos alcançarem a escada. Sentou-se diante da caixa e passou o polegar sobre a caligrafia do pai. Durante os seis meses entre o desaparecimento de Gabriel e a morte de Edmundo, eles haviam conversado por telefone vinte e três vezes. Nara sabia o número porque o aplicativo mostrava o histórico. Em nenhuma das ligações o pai mencionara aquela caixa.
Dentro havia um fichário do casamento, duas amostras de tecido, os recibos do bufê, um envelope de fotografias e uma nécessaire preta. Nara reconheceu a nécessaire antes de tocar nela. Tinha comprado o objeto para Gabriel guardar cabos durante as viagens da cooperativa.
Abriu o zíper. Encontrou um carregador, fones enrolados e o telefone que os bombeiros devolveram depois das buscas. A capa transparente guardava areia nas bordas. O vidro tinha uma rachadura curta perto da câmera, anterior à tempestade. Gabriel deixara o aparelho na pousada naquela tarde e levara outro, usado para o trabalho.
Nara o recebera desligado. Tentara ligá-lo duas vezes durante a primeira semana. Depois entregou tudo ao pai, junto com as fotografias impressas e os papéis do casamento cancelado.
Ela conectou o carregador à tomada ao lado da cama. Nenhum sinal. Girou o plugue, apertou o botão lateral e pousou o telefone na escrivaninha.
O e-mail do hotel trouxe uma reclamação sobre um quarto com vista parcial. Nara respondeu, ligou para a recepção e orientou a troca do hóspede. Ao terminar, o telefone antigo exibia um desenho vermelho de bateria. A imagem despertou uma tarefa simples: copiar as fotografias, salvar os áudios, apagar os dados antes da venda.
O aparelho levou quarenta minutos para chegar a três por cento. Nara tomou banho, trocou a roupa e abriu a janela. O fim da tarde cobria a rua com a sombra da pousada. Na varanda de uma casa vizinha, uma menina treinava três notas numa flauta e recomeçava sempre que errava a terceira.
Às seis e vinte e sete, Nara pressionou o botão.
O logotipo surgiu. O aparelho pediu um código de seis dígitos.
Ela tentou a data de nascimento de Gabriel. Código incorreto. Tentou o próprio aniversário. A tela abriu.
Nara ficou com o telefone na mão, irritada com a facilidade e com o que ela sugeria. A imagem de fundo mostrava os dois no cais, meses antes do noivado. Gabriel segurava um saco de pães; ela tinha o cabelo molhado e ria para alguém fora do quadro. Tomé tirara a foto durante uma transmissão de verão da Rádio Farol.
Os ícones carregaram devagar. Havia quarenta e três chamadas perdidas, notificações antigas e uma sequência de alertas de conexão. Nara ativou o Wi-Fi. A rede MarAberto apareceu, protegida pela mesma senha anotada atrás do roteador desde 2018.
Quando digitou o último número, o aparelho vibrou.
Um aviso informou que as mensagens estavam sendo atualizadas. Nara abriu a galeria e viu fotografias de hóspedes, ônibus, recibos e tardes comuns. Gabriel diante de uma roda furada. Gabriel dormindo no sofá da recepção. O pai com um regador azul. Ela mesma, de costas, escrevendo o cardápio do café.
O aparelho vibrou outra vez.
No alto da tela, surgiu o nome de Gabriel. Abaixo dele, a indicação de uma mensagem de voz recebida às 18h31 daquele dia.
Nara tocou na notificação. A conversa estava vazia até uma linha cinza informar que o histórico fora sincronizado. O áudio tinha nove segundos.
Ela aumentou o volume e apertou o triângulo.
Primeiro veio uma respiração curta. Ao fundo, uma campainha eletrônica anunciou alguma coisa que a gravação não permitia entender. Depois, a voz de Gabriel ocupou o quarto.
— Nara. Não assine. Eu volto em doze dias.
O áudio terminou. Na rua, a menina acertou a terceira nota.
Nara reproduziu a mensagem de novo.
Um ano depois do desaparecimento do noivo durante uma tempestade, Nara Rocha retorna à Ilha do Farol para vender a pousada herdada do pai e encerrar uma vida que ficou suspensa. Ao ligar o antigo celular de Gabriel, ela recebe uma mensagem enviada naquela tarde:
Não assine. Eu volto em doze dias.
A voz é dele. O anúncio de uma rodoviária ao fundo também é real.
Enquanto a data prometida se aproxima, Nara encontra reservas de hóspedes que nunca chegaram, documentos assinados pelo pai e uma divergência no boletim meteorológico da noite do desaparecimento. Cada descoberta aproxima Gabriel da ilha e compromete pessoas que escolheram guardar partes diferentes da verdade.
Para saber por que ele voltou, Nara precisará reunir aqueles que Gabriel manteve separados e decidir o que ainda pode ser salvo antes que a barca atraque.
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