Universo da obra
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Meu Testamento
V—'OMEÇABEI protestando contra a confusão que se faz entre a seriedade do espirito humano e, por exemplo, a sisudez de uma sessão acadêmica, com Suas ratazanas fardadas e a coleção de suas carecas de louça. Ao contrário disso nada mais sério que a blague de Voltaire ou de Ilya Ehrenburg, a fantasia de joyce e o suspeito moralismo de Froust Ser contra uma determi- nada moral ou estar fora dela não é ser imoral. Atacar com saú- de os crepúsculos de uma classe dominante não é de modo al- gum ser pouco sério. O sarcasmo, a cólera e até o distúrbio são necessidades de ação e dignas operações de limpeza, principal- mente nas eras de caos, quanqo a vasa sobe, a subliteratura trona e os poderes infernais se apossam do mundo em clamor. Que houve, para que tudo isso acontecesse e se despejasse sobre a cabeça aesavisada dos que, como eu, nasceram cin- qüenta anos atrás, numa capital de cônegos e de sinos da América paulista? Apenas isto — estamos em plena e rasa mu-
dança de um ciclo histórico. Para melhor me definir, vou dialo- gar pédagogícamente. VOCÊ — Que fatos ocasionaram essa mudança? Eu — Quero tomar para referência deste speculum mun- di que me £ exigido, os fenômenos mais significativos da histó- ria humana e dar como padrão as sociedades mais avançadas, mais eficientes e mais cultas. São elas aliás que marcam o ca- ráter de cada época, influindo de um modo apressado ou tar- dio, total ou pardal, sobre os demais aglomerados humanos. Se examinarmos em conjunto a geografia e a história, vere- mos que tudo que de mais importante se vem processando no globo, tem por habitai uma faixa que se pode situar entre o Trópico de Câncer e o 60° de latitude norte. Ai demoram os Estados Unidos e a Europa, o Egito, a Judéia e o Japfto. Que aconteceu de essencial fora desta faixa geográfica? As sodeda- des, paises ou aglomerados que ai se desenvolveram, dividiram precocemente ou melhor o seu trabalho e criaram mais cedo as suas instituições e as suas éticas. Daí partiram tanto as con- quistas da guerra, como saíram os frutos da paz. A geometria e a gramática, a colonização e a máquina, a finança e o direito, a arte, a literatura e a ciência. Vocâ — Quais as razões que encontra para esse privilégio? Eu — O solo, a fauna e a flora, o clima e a nitidez das es- tações, o subsolo e as cercanias fáceis do mar, o índice demo- gráfico e a técnica. Tudo isso preparou uma eleição antropo- lógica que se tornou preponderância histórica. Foram as na- ções marinhas desse anel latitudinário que criaram a navega- ção. E esta lhes deu as descobertas. A Fenída levou as suas moedas até o Báltico, a Holanda e a Península Ibérica domina- ram os oceanos renascentistas. Foi o carvão que equipou de- pois o Império Britânico e o petróleo a América do Norte e a Rússia atual Todos esses fatos se localizaram na faixa situada ao norte do Trópico de Câncer. Ao lado desse anel de terra e mar, onde brotou e se fez o homem organizado e inquieto, fica o anel equatorial onde o Brasil acorda, com a China, a índia e a África. Ao sul, na faixa correspondente à primeira, isto é, do Trópico de Capricórnio a 00° de latitude meridional, uma atividade de reflexo parece imitar e querer seguir a outra. São
Paulo situa-se no limiar deste último anel, onde estão a Argen- tina, a Austrália, a África do Sul e o sul do Brasil. Agora passo a examinar a sua primeira pergunta. Na faixa mais decisiva e importante, os ciclos históricos se têm sucedido e revezado com características que os separam nitidamente. Numa fase, pre- domina o elemento individual e, na outra, o coletivo. Assim, verificam-se na história períodos de individualismo e períodos de coletivismo. Você — Peço exemplos. Eu — Pelo menos quatro períodos se marcaram no desen- volvimento da humanidade, desde que a vida sobre a terra foi fixada pela memória, pela arte e pela escrita. Dois trazem um forte caráter coletivista e social. Suas expressões são dadas pela Judéia dos profetas e pela Idade Média européia. Dois outros períodos, apesar de suas intimas contradições, são preponderantemente humanistas. O primeiro vem do século V (a.C.) até a queda de Roma, o segundo do Renascimento à atualidade. Hoje estamos em face de um quinto período, cujo caráter é eminentemente social. Você — Queria que esclarecesse o sentido da palavra "hu- manista". Eu — O humanismo é sempre uma cultura da liberdade que traz no bojo o individualismo econômico. Anima-o a cons- ciência de novas necessidades do indivíduo em expansão. Ao contrário, os períodos coletivistas se caracterizam por uma cultura do social, que traz em si uma economia sempre dirigi- da, seja patriarcal como na Judéia, comunal como na Idade Média ou, como hoje, nacional ou autárquica. Forma-se neles uma consciência da necessidade de novas limitações do indiví- duo pelo bem social. VOCÊ — Que produziram esses ciclos? Eu — Da Judéia saiu, do Velho Testamento, o espírito au- tocrático. Ao contrário, o primeiro período humanista deu como seu índice, o Direito Romano, base de toda legislação indivi- dualista posterior. Depois do período coletivista chamado Ida- de Média, cujo signo e o Papado e cujo bardo é o Dante, apa- rece o segundo período humanista. Ê o que inicia a busca de matérias-primas, o comércio exterior e a conquista colonial Criou o Renascimento e a Reforma. Na era da máquina pro-
duziu o Código Napoleão, essa marselhesa dos direitos burgue- ses, e como resultado deu Wall Street A revolução vertical de hoje o liquida... VOCÊ — Quer dizer que estaínos À entrada de um período coletivista? Eu — O inquieto declínio burguês é indicado por Unamu- no, Spengler, Cide, Thomas Mann. Mas para que recorrer aos índices intelectuais, quando temos em presença os fatos, os surtos do comunismo e o fascismo e seus panaches, enfim toda a inevitável derrocada das liberdades burguesas? Tudo isso está fazendo a estas horas sua trágica experiência nos sete mares, nos cinco continentes e nesse dedo de atmosfera que envolve a terra. Não se pode negar a evidência da solução que virá: um período coletivista. VOCÊ — Como e quando se dão essas transformações? Eu — A forma por que se processam essas mudanças his- tóricas já foi estudada por mais ae um exegeta. A superestrutura da sociedade (direito, moral, forças espirituais, letras e artes) passa a não mais corresponder à estrutura (forças econômicas, progresso técnico, índice demográfico). E a derrocada dos sis- temas dominantes se produz inexoravelmente. Foi assim quando a idade homérica, mitológica e fideísta terminou na democracia ateniense. Os filósofos gregos aparece- ram no ângulo de dissociação dos dois ciclos. A moral socrá- tica, apesar de seu tom de conquista social, levado avante por Platão e expresso na ética aristotélica. (A humanidade tende ao bem geral) — apesar desse tom social — a moral so- crática era a oposição individualista ao ciclo dionisíaco que a precedera. Jsso não foi totalmente visto por Nietzsche. E ela estava também longe do pensamento tribal judaico. Do "oonhe- ce-te a ti mesmo" é que saíram o cinismo de Diógenes e ce- ticismo de Pirro, o edonismo de Epicuro. Há um progresso sen- sualista que doira toda a cultura romana. Isso conduziria o Im- pério ao latifúndio e à conquista exterior. Sucedeu então o que tinha de suceder. A superestrutura exorbitou da estrutura. É a derrocada se produziu, conduzida ideologicamente pela revo- lução cristã. Já nos primeiros séculos da nossa era, um ciclo social se movimenta na mitologia das catacumbas. Ele traz
em si, contraditoriamente, a personalidade humana, posta em foco pelo agreste espirito pauliniano. Mas é Agostinho, com seu mágico lideísmo, que prevalece sobre o individualismo de Paulo. O período é vitoriosamente conventual, místico e cole- tivista. E é esse o caráter que oferece toda á Idade Média. VOCÊ — Quer dizer que foi o Cristianismo que derrocou o Estado romano? Eu — Não. O Cristianismo foi a ideologia revolucionária do momento mas não teria êxito se as condições econômicas do Império não exigissem uma transformação de sistema polí- tico. A conquista liquidara os mercados, as taxações então au- mentaram. Com o latifúndio as exigências de mão-de-obra cresceram também, mas os exércitos imperiais haviam sido der- rotados em Teutburg e não puderam conter a independência balcânica. "Latifúndio perdiaere Ittãia'* — gritava Plínio. Fal- tando o escravo, foi urgente um acordo com o trabalhador ru- ral. Parecido com o que se fez aqui na crise cafeeira de 29. Aqui choveram os meeiros e os terceiros. Lá, criou-se o servo liggdo à terra e instituiu-se o "justo preço". Está claro que quando uma forma de produção deixa de ser remuneraaora, uma nova fórmula já tem os seus após- tolos. Uma era evangélica profetiza sempre as convulsões eco- nômicas. Com a quebra do "livre contrato" e o advento da pequena propriedade, o Cristianismo estava maduro para to- mar o poder. E, como a propriedade, cresceria depois, durante o Feudalismo. Do mesmo modo quando na alta Idade Média se estabeleceu a querela filosófica da Santíssima Trindade, já se colocavam em face um do outro, os dois ciclos novos em debate, ante a aproximação de uma ruptura econômica do sis- tema feudal. Os realistas quê acreditavam na realidade do "unum in trino" eram os senhores da época, os que afirmavam a realidade substancial do coletivo e da sua forma de produção. Ao contrário os nominalistas eram os condutores do futuro, os pioneiros da liberdade econômica. Foram os revolucioná- rios do momento, os que viram no coletivo somente um nome; incapaz de dissolver o indivíduo ímpar. Eles vinham de S. Pao* lo e iam direito a Rockefeller. Foram eles, os nominalistas, que deram Descartes, Hume e a democracia liberal e tam- bém o Rei do Prego e a Rainha do Café.
VOCÊ — Como pode explicar o pensamento socrático no inicio de uma era individualista e o pensamento pauliniano no prenúntio de uma era coletivista? Eu — A dialética hegeliana elucida perfeitamente isso. O progresso humano se processa por contradições e não caminha numa reta a s c e n s i o n a l . Aliás, Sócrates e São Paulo são fontes luminosas de contradições. Como o Cristianismo foi beber suas origens triunfais nos elementos platônicos do ciclo huma- nista anterior, é no paulinismo individualista que a Renascen- ça e a Reforma vão buscar suas ardências contra a hegemonia tomista. Algumas das obras-primas do humanismo clássico, a Cidade do Sol, de Campanella, a Utopia de Morus, têm sentido social. São tardes góticas em meio das auroras da burguesia. No entanto é o racionalismo cartesiano, a mordacidade de Erasmo, a análise de Montaigne que oferecem o tom ao perío- do que se segue, de Cervantes a Molière aos enciclopedistas, aos naturalistas ingleses como Dickens, a Renan e Spencer, aos sorrisos cansados de Anatole France. Mas contínuo a afirmar que cada fase conduz em si a sua própria subversão. Veja como num período em que dominou o individualismo exaltado de Adam Smith a Jeremias Bentham, houve os adeptos de Ma- quiavel, houve os jesuítas e houve Kant. As contradições per- manecem e se avolumam. VOCÊ — E isso não tem fim? Eü — Se fosse um antropófago transcendental, eu diria que não. A vida na terra produzida pela desagregação do siste- ma solar, só teria um sentido — a devoração. Mas se bem que eu dê à Antropofagia os foros de uma autêntica Weltans- ckauung, creio que só um espírito reacionário e obtuso poderia tirar partido disso para justificar a devoração pela devoração. Melhor seria vestir logo uma camisola verde e exclamar com aquele insondável humorismo do Sr. Plínio Salgado: "Nós, os caboclos, desceremos sobre as cidades". De cacetão. Não. E preciso parar nas análises históricas de cada ciclo. Ê preciso ver como têm razão os que acreditam no progresso humano e mesmo no apogeu, agora mais próximo do que nunca, desse progresso. A guerra, os terrores do fascismo, o apelo às forças primitivas da humanidade, tudo isso, só, significa descalabro e
morte para um ciclo — o ciclo individualista -burguês. Nunca para a numanidade. Ao contrário, tudo vem apressar a revolu- ção perpendicular que se está processando, em meio das mais violentas contradições, nos países mártires, nos países algozes e mesmo nos países amortalhados pelo conformismo. Através da reação, crepita e sobe a fé humana, a fé sodal, a fé numa era melhor. Estamos no verdadeiro limiar da História. Quero dizer com isto, que a era da máquina tecnizou de tal maneira o homem em toda a tora que ele pode alcançar, enfim, uma unificação de destino e igualar-se num padrão geral de vida civilizada. Agora, por exemplo, não prevalecem mais, de um modo decisivo, as diferenças que privilegiaram a faixa eleita, como referi no início desta suma. A eletricidade, o petróleo, a onipresença trazida pela comunicação, compensam pouco a
r uco as deficiências da faixa equatorial e da faixa antártica, preciso porém que se destaque das mãos aferradas da bur- guesia o monopólio dos meios de produção. Então o homem poderá ser o mesmo em todo o globo, e pretender portanto os mesmos direitos em qualquer latitude. As veleidades racistas alimentadas pelo predomínio histórico, tendem a se explicar e desaparecer. O mesmo se dá em relação às classes. Estamos pois à entrada de um ciclo que traz, de um modo novo, todas as características coletivistas. Vivemos no mesmo sentido da Idade Média ou da Judéia, mas bem longe delas. Há a máquina entre o século XIII e XX Essa distância não priva a arte mo- derna de ser geométrica ou gótica e não ática. A política de nossos dias de ser mais comunal ou autárquica que burguesa. E a economia mais social que individual. A diferença porém é frisante na atual transmutação de valores. Quando se afirmou, há cem anos, que bastava de explicar o mundo, pois o necessá- rio era transformá-lo, é porque o hálito das massas industria- lizadas falava. Elas adiavam enfim a sua própria mitologia. Uma mitologia brotada das forças do mundo explorado e co- nhecido. Note que as massas sempre tenderam ao mitológico no seu desenvolvimento espiritual. Talvez hoje seja uma porta mística a que se escancara para elas, na História, mas na dire- ção inflexível das realizações terrenas. Desta terra, nesta terra, para esta terra. E já é tempo. Nada mais disse nem lhe foi perguntado.
Meu Testamento, de Oswald de Andrade, é um texto de intervenção crítica publicado originalmente em 1944. A edição Literúnico preserva o texto autoral em domínio público, sem reproduzir aparato editorial protegido.
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