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Banguê

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Banguê

Capítulo 1 · Banguê

Banguê

Banguê Cadê você, meu paiz do Nordeste,

que eu não vi nessa Usina Central, Leão da minha

terra ?

Ah ! Usina, você enguliu os banguêsinhos do paiz

das Alagôas !

Você é grande, Usina Leão !

Você é forte, Usina Leão !

As suas turbinas têm o diabo no corpo !

Você uiva !

Você geme !

Você grita !

Você está dizendo que U. S. A. é grande !

Você está dizendo que U. S. A. é unica !

Mas eu estou dizendo que V. é triste

como uma igreja sem sino,

que você é mesmo um templo evangelico !

Onde é que está a alegria das bagaceiras ?

O cheiro bom do mel, borbulhando nas tachas ?

A tropa dos pães de assucar atrahindo arapuás ?

Onde é que mugem os meus bois trabalhadores ?

Onde é que cantam meus caboclos lambanceiros ?

Onde é que dormem de papos para o ar os bebe-

dores

de resto de alambique ?

E os senhores de espora ?

E as sinhás-donas de cocó ?

E os cambiteiros, purgadores, negros queimados na

fornalha ?

O seu cozinhador, Usina Leão, é esse tal de Mister

Cox

que tira da canna o que a canna póde dar

e não deixa nem bagaço

com um tiquinho de caldo

pra as abelhas chupar !

O meu banguêsinho era tão differente,

vestidinho de branco, o chapéosinho do telhado sobre

os olhos

fumando o cigarro do boeiro pra namorar a mata

virgem.

Nos domingos tinha missa na capella

e depois da missa uma feira damnada:

a zabumba tirando esmolas para as almas;

e os cabras de faca de ponta na cintura,

a camisa por fóra das calças,

cacete de jucá com dente de cobra na ponta !

"Mão de milho a meia pataca !

Canna crioula pra quem gosta, molle "

Carretel marca Alexandre a doistões !"

Docê de banana comprida, de lata !

Cadê você, meu paiz de banguês

com as cantigas da bocca da moenda:

"tomba canna, João, que eu já tombei !"

E o eixo de massaranduba chorando

talvez os estragos que a cachaça ia fazer !

E a casa dos cobres com o seu mestre de assucar

potoqueiro,

com seu banqueiro avinhado,

e as tachas de mel, escumando,

escumando, como cachorro damnado !

E o banguê, que só sabia trabalhar cantando,

cantava em cima das tachas:

"Tempera o caldo, mulher, que a escuma assobe..."

Cadê a sua casa grande, banguê,

com as suas Dondons,

com as suas Têtés,

com as suas Benbens,

com as suas Donannas alcoviteiras ?

Com os seus Totós e seus Pipius corredores de ca-

valhadas ?

E as suas molecas catadoras de piôlho,

e as suas negras Calús, que sabiam fazer munguzás.

manuês,

cuscús,

e as suas sinhás dengosas, amantes dos banhos do rio

e das rêdes de franja larga !

Cadê os nomes de você, banguê ?

— Maravilha,

— Corredor,

— Cipó-branco,

— Fazendinha,

— Burrego d'agua,

— Menino Deus!

Ah ! Usina Leão, você enguliu

os banguêsinhos do paiz das Alagôas !

Cadê seus quilombos com seus indios armados de

flecha,

com seus negros mucufas que sempre acabam ven-

didos,

tirando esmolas pra enterrar o rei do Congo !

"Folga, negro,

branco não vem cá !

se vier,

pau ha de levar !"

Você vai morrer, banguê !

Ainda hontem, seu Major Totonho do Sanharó

esticou a canella.

De noite se tomou uma canninha

pra se ter força de chorar.

E se fez sentinella.

E você, banguêsinho, que faz tudo cantando,

foi cantar nos ouvidos do defunto:

"Totonho ! Totonho !

Ouve a voz de quem te chama,

vem buscar aquella alma,

que ha treis dias te reclama !"

Banguê ! Eu pensei que estavam

cantando nos ouvidos de você:

"Banguê ! Banguê !

Ouve a voz de quem te chama !"

Banguê

Sinopse

Edição Literunico do poema original de Jorge de Lima, publicada a partir do recorte de Banguê preservado pela Fundação Casa de Rui Barbosa.

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a5 cm
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