Universo da obra
Universo da obra
Júlia acordava antes do despertador desde que mudara de apartamento. Às cinco e quarenta e sete, abria os olhos no quarto estreito e encontrava as caixas alinhadas junto à parede, quatro grandes, duas pequenas, todas fechadas. A mãe escrevera ROUPAS, LIVROS, ESCOLA e COISAS DA MESA com marcador preto. A última guardava objetos pertencentes a outra pessoa. Júlia sabia o que havia dentro: um porta-retrato, canetas sem tampa, ingressos de cinema, uma luminária amarela e o caderno que Natália lhe dera no nono ano. Continuava adiando a abertura.
Naquela manhã, a porta do quarto estava encostada. Uma faixa de luz vinha da cozinha, e o ruído baixo da chaleira indicava que Cida chegara do plantão com energia suficiente para preparar café. Júlia vestiu o uniforme, prendeu o cabelo e atravessou o corredor desviando de uma caixa de panelas que permanecia ali desde a mudança.
— Você dormiu? — perguntou.
Cida estava de costas, ainda com a calça branca do trabalho e uma camiseta azul por baixo do casaco. Serviu café numa caneca e empurrou um prato na direção da filha.
— No ônibus.
— Isso não conta.
— Então não dormi.
Júlia pegou metade do pão. A mãe tinha marcas vermelhas nas laterais do nariz, deixadas pelos óculos, e os olhos mais atentos que o resto do rosto.
— Seu pai mandou mensagem.
— Para você?
— Para as duas. Perguntou do domingo.
Júlia mastigou devagar. Domingo era o dia combinado para almoçar com Marcelo. Nos dois encontros anteriores, ele sugerira restaurantes perto da casa antiga, fingindo que a escolha vinha do cardápio.
— Eu respondo depois.
— Responde mesmo.
— Eu sempre respondo.
Cida ergueu uma sobrancelha.
— Eventualmente.
Júlia pegou a mochila na cadeira. O chaveiro de tecido preso ao zíper dizia VAI DAR CERTO, presente de uma colega que acreditava em frases impressas. Ela o enfiou no bolso lateral, deixando apenas a argola à mostra.
— Tem dinheiro no pote, se precisar.
— Tenho o cartão.
— E se o cartão não passar?
— Eu volto andando.
— Da sua escola?
Júlia beijou a testa da mãe antes que a conversa ganhasse cálculos. Cida cheirava a sabonete do hospital e café recém-passado.
— Dorme na cama — disse Júlia. — Hoje.
— Abre pelo menos uma caixa.
As duas sorriram com pouco entusiasmo, cada uma oferecendo uma tarefa que a outra provavelmente adiaria.
O céu ainda estava escuro quando Júlia saiu. A rua do bairro novo descia por dois quarteirões e depois subia de uma vez; no trecho final, ela sempre diminuía o passo. Havia uma farmácia fechada na esquina, uma oficina protegida por três cadeados e uma padaria que começava a acender as luzes. Júlia conhecia os estabelecimentos pela ordem em que apareciam, sem saber o nome de quase nenhum proprietário. Em trinta e seis dias, aprendera o percurso entre o prédio e o ponto. Todo o restante podia esperar.
O ônibus costumava chegar às seis e vinte e três. Júlia saía com oito minutos de folga e usava três deles para gravar o som da rua. Abriu o aplicativo no celular, conferiu o espaço disponível e apertou o círculo vermelho.
Primeiro veio o motor de uma moto subindo a ladeira. Depois, a grade da padaria, puxada com um solavanco metálico. Um homem varreu a calçada em movimentos curtos. Duas aves discutiram num fio. Júlia aproximou o telefone da alça da mochila para registrar o atrito do tecido enquanto caminhava.
Ela criara a pasta SONS DA CASA NOVA na primeira semana. Já havia ali a descarga que demorava a parar, o elevador chegando ao sexto andar, Cida procurando as chaves depois de um plantão e a chuva batendo na esquadria de alumínio. A professora Clarice dissera que uma cidade também podia ser contada pelas coisas que as pessoas aprendiam a ignorar. Júlia anotara a frase no caderno, mesmo achando que a professora preparava falas bonitas antes das aulas.
No ponto, um homem de uniforme cinza fumava perto da placa. Uma mulher segurava uma criança adormecida contra o peito. Júlia encerrou a gravação e guardou o telefone. Evitava registrar conversas de desconhecidos. Vozes traziam nomes, telefones, horários e assuntos que ninguém lhe oferecera.
O ônibus surgiu no alto da rua com os faróis acesos. Júlia reconheceu o veículo pela faixa de tinta descascada perto da porta traseira. Havia três ônibus diferentes fazendo aquele percurso durante a semana. O de terça e quinta tinha janelas que vibravam nas curvas; o de quarta cheirava a produto de limpeza; aquele, o mais antigo, possuía um banco perto da saída cuja janela abria até a metade.
Júlia passou o cartão, ouviu o sinal e caminhou pelo corredor. O banco estava livre. Sentou-se junto à janela, apoiou a mochila nos joelhos e empurrou o vidro com as duas mãos. O ar frio entrou pela abertura e levantou alguns fios do seu cabelo.
Durante as primeiras semanas, ela tentara ler no trajeto. Desistiu depois de reler a mesma página durante quatro manhãs. Também tentou dormir, tarefa arriscada num percurso cheio de freadas. Agora observava os muros, as lojas e os passageiros. Gravava trechos curtos quando o ônibus estava vazio o bastante. O motor produzia uma vibração grave, quase constante, interrompida pelo assobio das portas e por uma peça solta na parte de trás.
Três pontos depois, o rapaz da sacola de pão subiu.
Júlia ainda pensava nele dessa forma, embora a sacola variasse. Às vezes era grande e parda, dobrada duas vezes no topo. Em outras manhãs, ele trazia apenas um pacote pequeno, manchado de gordura, que colocava com cuidado dentro da mochila. Usava camiseta lisa sob uma jaqueta verde e quase sempre tinha farinha na manga ou perto do bolso. O cabelo cacheado ainda estava molhado nas laterais, sinal de banho rápido ou pia de banheiro.
Ele cumprimentou o motorista com a mão.
— Hoje foi por pouco, Gil.
— Você que anda dormindo em pé.
— Trabalhando em pé. Dormir seria um avanço.
O motorista riu e fechou a porta. Júlia olhou para fora antes que o rapaz avançasse pelo corredor. Já ouvira aquela troca em outras versões. Gil podia ser o nome do motorista ou um apelido inventado entre os dois. O rapaz conhecia também uma cobradora de outro veículo, uma senhora que vendia balas no ponto do centro e o homem que entregava jornal perto do viaduto.
Naquela manhã, ele sentou dois bancos à frente, no lado oposto. Tirou um caderno da mochila, apoiou-o na sacola e tentou ler uma página. O ônibus passou sobre uma depressão no asfalto. A caneta escapou de seus dedos, caiu no corredor e rolou até o tênis de Júlia.
Ela prendeu a caneta com a sola antes que chegasse à porta. Pegou-a e estendeu o braço.
— É sua.
O rapaz se virou. Tinha uma marca clara perto do queixo, dessas deixadas por um corte malfeito ao barbear.
— Obrigado.
Ele precisou levantar para alcançar. Júlia reparou que havia três palavras escritas no dorso da mão dele: inscrição, açúcar, Orlando.
— Quase perdi a única que funciona — acrescentou.
— Você podia ter duas.
— A outra deixaria essa insegura.
Júlia sorriu antes de decidir se a piada merecia. Ele voltou ao lugar e prendeu a caneta na espiral do caderno.
A conversa inteira durara menos de dez segundos. Júlia abriu o aplicativo e iniciou outra gravação. Durante vinte e sete segundos, registrou o motor, a janela vibrando e o clique da caneta sendo encaixada no metal. Nomeou o arquivo como ônibus_quinta_02. Não havia razão para incluir o rapaz no título.
Quando desceu perto da escola, viu seu reflexo no vidro. Atrás dele, o rapaz continuava tentando ler. Ela fechou o aplicativo e correu para atravessar antes que o sinal mudasse.
***
Levi escrevia tarefas na mão porque o caderno tinha páginas demais.
Era uma justificativa ruim quando alguém perguntava. Para ele, fazia sentido. No caderno estavam exercícios, horários do curso, contas da padaria, endereços que o avô pedia e mapas desenhados durante as aulas. Na mão ficava aquilo que precisava acontecer antes do banho da noite. Inscrição. Açúcar. Orlando. A última palavra significava falar com o avô sobre o fornecedor de queijo, conversa que Levi adiava havia três dias.
Ele guardou a caneta e olhou pelo vidro do outro lado. A menina do gravador descia perto de uma escola estadual, segurando a mochila contra o corpo enquanto esperava para atravessar. Levi a reconhecia havia pouco mais de um mês. Primeiro pelo uniforme. Depois pelo telefone erguido perto da janela. Mais tarde, pelo modo como ela trocava de lugar quando alguém começava uma conversa particular.
Na primeira vez em que a viu gravando, pensou que estivesse enviando um áudio comprido. Percebeu o engano quando ela aproximou o aparelho do teto do ônibus, acompanhando o ruído de uma lâmpada frouxa. Em outra manhã, segurou o celular perto da catraca. Levi imaginou que fosse um trabalho de escola. Também considerou a possibilidade de ela colecionar barulhos por gosto, hipótese que o interessava mais. Nunca perguntara.
No ponto seguinte, uma senhora subiu carregando duas bolsas reutilizáveis. Levi guardou o caderno e ofereceu o lugar. Ficou de pé perto da porta até o centro, equilibrando a sacola de pão entre os pés. Às sete e dez, entregou os pães de queijo e as broas numa lanchonete que comprava parte da produção da padaria. Às sete e vinte e cinco, entrou no curso com cheiro de fermento na roupa.
Lucas já ocupava a última fileira. Tinha um copo de café na mão e uma camiseta da universidade por baixo do casaco. Frequentava as aulas como reforço para uma prova específica, embora gostasse de dizer que estava ali apenas para acompanhar Levi.
— Você trouxe?
Levi largou a mochila na cadeira.
— Bom dia.
— Isso significa que esqueceu.
— Eu trouxe.
Tirou o pacote pequeno de dentro da mochila e entregou ao amigo. Lucas abriu o papel e encontrou dois pães de queijo ainda mornos.
— Casaria com você.
— Você não lava nem o próprio copo.
— Posso aprender.
— Aprende primeiro. Depois a gente reavalia a proposta.
Lucas mordeu um dos pães e apontou para a mão de Levi.
— Quem é Orlando?
— Meu avô.
— Achei que fosse um romance de meia-idade.
— Na minha mão?
— As pessoas estão carentes.
Levi abriu o caderno na matéria do dia. Lucas perguntou se ele terminara a inscrição para a prova. Levi mostrou a primeira palavra escrita na pele.
— Faltam os documentos.
— Faltam sempre os documentos.
— A certidão está com meu avô.
— Você tem dezoito anos.
— Obrigado por confirmar.
Lucas limpou os dedos no papel. O professor entrou antes que ele retomasse o assunto. Levi copiou o título da aula e ficou alguns segundos olhando para a própria letra. A inscrição encerrava naquela semana. Ele sabia onde encontrar a certidão: numa gaveta do quarto de Orlando, dentro de uma pasta com documentos da padaria e fotografias da avó. Pedir o papel exigiria explicar a finalidade. Explicar a finalidade abriria uma conversa para a qual Levi ainda não encontrara horário.
No intervalo, apagou a palavra açúcar com álcool em gel. Inscrição e Orlando permaneceram legíveis.
Na manhã seguinte, o ônibus chegou adiantado. Levi viu as portas se fecharem enquanto subia a rua e correu com a mochila batendo nas costas. Gil esperou alguns segundos junto ao ponto.
— Se eu tomar multa, vai para sua conta — disse o motorista.
— Pode descontar dos pães.
— Aí você quer falir minha família.
Levi passou o cartão e respirou fundo perto da catraca. O ônibus estava mais cheio. Havia gente de pé no corredor e uma mochila ocupava o banco ao lado da menina do gravador. Ela não segurava o celular naquela manhã. Mantinha os braços cruzados sobre o peito e olhava para a rua com os olhos estreitos de sono.
Levi avançou até o fundo. Durante o trajeto, viu a menina abrir espaço para uma senhora, guardar a mochila no colo e ficar comprimida junto à janela. Na escola, desceu sem gravar nada.
No sábado, ele não a procurou. Percebeu sua ausência porque o banco da janela ficou livre durante boa parte da viagem e uma criança passou o dedo no vidro embaçado. Levi seguia para a padaria, onde cobriria o turno de um funcionário. Sentou-se no lado oposto e tentou estudar. Depois de quatro parágrafos, fechou o caderno e desenhou o trajeto do ônibus no fim de uma página.
Começou pela rua da padaria. Marcou o ponto onde subia, a curva diante do posto de gasolina e o cruzamento da escola. No espaço em que deveria escrever o nome da avenida, desenhou um retângulo pequeno para representar o banco cuja janela abria pela metade. Achou o detalhe desnecessário. Deixou assim.
Na segunda-feira, choveu pouco antes das seis. Júlia chegou ao ponto com a barra da calça molhada e o cabelo preso de qualquer jeito. O ônibus apareceu quando ela ainda estava do outro lado da rua. Levantou o braço e correu, desviando de uma poça. Gil abriu a porta.
— Hoje vocês combinaram — disse ele.
Júlia olhou para o motorista sem entender.
— O outro também vive correndo.
Ela passou o cartão e procurou lugar. O banco da janela estava ocupado por Levi. A mochila dele descansava no assento ao lado. Júlia reconheceu a jaqueta verde, a sacola parda e a caneta presa na espiral do caderno.
Levi levantou os olhos. Por um instante, os dois pareceram lembrar ao mesmo tempo a conversa sobre a caneta. Ele pegou a mochila e a colocou entre os pés.
— A janela abre — disse.
Júlia sentou-se. O vidro estava fechado por causa da chuva, coberto de gotas que corriam em direções diferentes quando o ônibus fazia uma curva.
— Hoje não seria uma boa ideia.
— Eu quis dizer que este é o banco certo.
— Eu sei.
Levi apoiou a sacola no colo. Júlia tirou o celular do bolso, conferiu a bateria e hesitou antes de abrir o aplicativo.
— Você grava o quê?
Era a primeira pergunta. Ela manteve os olhos na tela.
— Depende.
— Hoje?
Júlia apertou o círculo vermelho. A chuva batia no teto, as palhetas limpavam o para-brisa e alguém sacudia um guarda-chuva perto da porta.
— Ainda estou descobrindo.
Levi assentiu, embora ela continuasse olhando para o telefone. Durante o restante do caminho, nenhum dos dois falou. Júlia registrou um minuto e doze segundos. Quando ouviu o arquivo antes de descer, encontrou chuva, motor, o aviso sonoro da porta e o barulho do zíper da mochila de Levi.
Ela salvou sem alterar o nome automático.
Júlia Ribeiro atravessa Belo Horizonte todos os dias para terminar o último semestre na antiga escola. Levi Lima divide as manhãs entre a padaria do avô e um curso preparatório, enquanto tenta admitir que deseja estudar Geografia. Eles se reconhecem dentro do mesmo ônibus antes de trocarem nomes.
Quando descobrem que a linha será desativada, criam um pacto: a cada sexta-feira, descerão juntos num ponto desconhecido para mostrar ao outro um lugar que jamais encontraria sozinho. Entre padarias antes do amanhecer, casas ainda encaixotadas e mapas desenhados à mão, nasce uma amizade íntima, pura e difícil de reduzir a qualquer outro nome.
Ao usar sem autorização uma gravação confiada por Levi, Júlia rompe o limite que sustentava a relação. Reparar o dano exigirá mais que um pedido de desculpa. Exigirá aceitar distância, consequência e a possibilidade de que algumas amizades continuem mesmo quando os caminhos deixam de coincidir.
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