Universo da obra
Universo da obra
— Um dia, — suspira chateado, todavia, diz em tom animado: —algum dia verei um sorriso nesse rosto!
Eros cutuca seu parceiro de patrulha no braço enquanto caminham rumo ao portal pela floresta encantada que contorna os limites do castelo Leukocyte cuja fronteira faz a divisa entre os territórios dos seres mágicos com as fadas, especialmente com Brumafe, o reino dos humanoides dotados de magia, basicamente o que mantém o equilíbrio como uma linha divisória entre as criaturas das luz e das sombras. Além de Brumafe ao norte do continente, há as terras umbras cujo reino de maior impacto leva no próprio nome a ideia do que se esperar das criaturas que vivem nessa região mórbida e mortal, Umbrossangue, governado há milênios por um encourado amaldiçoado e selado dentro das paredes escuras e frias do castelo Andira Poranga, tendo que ser cuidado por seus poderosos caçadores Kupendiepes, uma raça carnívora real de humanoides que lembram morcegos gigantes de pele avermelhada, ao contrário dele que se tornou quem é por forças sobrenaturais malignas.
O reino que separa os seres sombrios das criaturas puras, vive em guerra contra Umbrossangue e, para sua própria sobrevivência, é necessária a cordialidade respeitosa com Neonfae, que lhes garante recursos mágicos raros e poderosos, além de sua pureza manter as forças sombrias longes das cidades dependentes de Brumafe para que a população possa viver em paz.
E por mais estranho que possa parecer inicialmente, visto que as fadas são as criaturas mágicas de menor porte físico, sua abundância populacional e reinado sólido pela linhagem das arco-íris, são extremamente poderosos e intocáveis pela escuridão. Pelo menos, é o que se acredita dentre todas as raças e espécies inteligentes viventes em Runex, o continente que abriga a magia do mundo, localizado em um plano sobreposto — porém invisível — ao mundo mortal dos humanos desprovidos de poder como punição por sua imensa ganância e arrogância; feito pelo detentor de toda a sabedoria, e responsável pelo equilíbrio cósmico e mágico daquela galáxia, mais conhecido como Esfinge.
De volta aos soldados sanguíneos, as fadas vermelhas, seguem em silêncio, saltando de uma árvore a outra, Eros tenta acompanhar seu líder sem usar magia; teve o azar de logo no seu primeiro dia fazer par com o segundo comandante Hema, que está há horas em silêncio teimando em andar por um percurso que poderia ter feito em minutos se simplesmente utilizassem suas asas. Mas o macho é irredutível, zangado e implacável, de uma teimosia intransponível, então o jovem só pode se esforçar em alcança-lo, mesmo que não faça sentido enquanto se auto encoraja a tentar uma amizade, já que Hema é o único com idade mais próxima a sua, visto a raridade de sua raça.
— Você não é muito de usar as palavras, por quê? Todos dizem que é excelente, um prodígio promissor, mas também, um chato.
O comandante não responde. Eros o observa, o olhar é impassível e determinado, o maxilar sempre travado como se estivesse o tempo todo irritado, seria pela especificidade do clã Tócrito? Porém não pode simplesmente perguntar, não quer se indispor com o comandante por questionar algo pessoal; assim como sabe que vindo do clã Paixão, Eros tem sua magia ligada ao amor e que seu potencial será liberado quando finalmente se apaixonar, e até lá, está conhecendo todas as jovens do vilarejo. E os Tócritos têm sua especificidade na ira.
— Posso te perguntar algo? — Eros salta atrás do comandante e apressa o passo se colocando ao lado. — Por que a sua orelha é diferente? Nunca vi alguém com essa deformidade, parece que tem três pontas.
— Cale a boca, sua voz é irritante — sua mão enluvada toca a ponta da orelha, tudo o que sabe é que seu pai não gosta do assunto, certamente deve ser algo herdado de sua falecida mãe.
Eros engole seco com o olhar frio e adianta o passo, mais alguns minutos e finalmente estão no local designado, se aproxima dos outros dois que assim que os veem, sorriem e os cumprimentam.
— Novidades? — Eros soa animado, está ansioso de mais pelo seu primeiro dia como guardião de portal. — Alguém tentou usar o portal, hoje?
— Quem dera, continua sendo só um monte de pedra empilhada empoeirada — Forje responde e dá um peteleco numa borboleta que pousou em seu ombro.
— Boa sorte com o senhor sorriso, é o pior parceiro para fazer vigília — Sandy sorri antes de tocar nos ombros de Eros e lhe dar um beijo no rosto, usa um tom irônico para se referir às próximas horas de trabalho ao lado de Hema: — Me contate quando acabar seu velório, vou te levar na vila Bananeiras, é festa da colheita, preciso te ensinar uns truques.
Eros se afasta de Sandy, é seu principal mentor e, também, membro do clã Paixão, mas é um baderneiro, mais se mete em encrenca do que trabalha. E seu objetivo é se mostrar responsável e confiável ao comandante para que, assim como ele, consiga um cargo de prestígio ao se formar.
Sandy tenta abraçar Hema, mas desiste pelo olhar ameaçador dele. A dupla a sair, faz as asas vermelhas aparecerem e aproveitam a brecha na copa para voarem de volta ao castelo.
— Aliás, por que você prefere vir andando? Levamos quase duas horas para chegar aqui e agora estou com os pés doendo por termos corrido tanto com essas botas duras — se senta em uma rocha achatada e retira a bota para massagear o pé.
— Não faça isso, alguém pode aparecer a qualquer instante — Hema soa sério enquanto observa atentamente o portal suspeitando haver algo fora do normal. — A bota irá se amaciar conforme utilizar.
— Ninguém atravessa essa coisa há milênios, e você já ouviu o que as bruxas dizem por aí, os humanos não acreditam na nossa existência, e talvez devêssemos agradecer aos deuses por isso — soa irônico.
— Não aprendeu que não são somente os humanos que podem utilizar os portais? Uma criatura pode ir de um reino ao outro também.
— Precisa de alto nível de magia para conseguir ativar, só a monarquia consegue, do nosso povo, eu acho... — o rapaz reflete e indaga — os magimais também podem? Ou precisa de algum feitiço recitado para ativar? Pode usar para ir de um reino ao outro sempre que quiser ou há um limite de uso? Falando nisso, a magia não esgota por usar no portal, certo? Eu sei que o duque tem um portal no castelo que o permite visitar o palácio, funciona do mesmo jeito que esses originários ou é diferente? Os sombrios não podem entrar em Neonfae mesmo pelos portais, certo? Como é que funciona?
— Você fala demais, fique quieto e atento aos sinais, eu ficarei de olho no portal, você fica de olho na floresta, é possível que aqueles dois idiotas tenham deixado alguém passar.
— Não seja extremista — mexe nos pés os massageando com as mãos. — Eles são legais, se você não fosse tão chato poderia fazer amigos e relaxar, se divertir. O Sandy, por exemplo, te acha incrível, fica sempre te olhando. — Observa Hema encarando o portal com seriedade, chega a ser risório ver o superior tão sério diante de um arco de pedras marcadas por runas, envolto por musgo e plantas pequenas que tentam criar vida nos pequenos amontoados de terra entre os vãos. — Você não quer falar mesmo, certo. Mas não precisa ser tão sério, o portal brilhará se for ativado. Criará um vórtice e...
— Cale a boca e vasculhe a floresta — ordena.
— Olha, não precisa fingir ser perfeito e durão o tempo todo, estamos sozinhos aqui, pode se abrir comigo e...
Hema salta com a espada em mãos, mira a cabeça de Eros que para não ser morto, precisa se esquivar, cai ao chão por não ter tido tempo de preparo, muito menos um local adequado para manter os pés apoiados. Rola e tenta se levantar, precisa se jogar de lado para desviar de outro ataque, e quando levanta o rosto, segura a respiração pela lâmina ardente encostar em seu pescoço.
— Você morreu — Hema olha Eros de cima e faz a espada desaparecer ao recuar a magia.
Eros respira rapidamente controlando as emoções e se sente aliviado da sensação de perigo iminente passar de repente, a aura de Hema é imbatível e o olhar, feroz. Agora entende o porquê ninguém gosta de ser dupla dele, não que nunca tivesse tido vislumbres do mal humor contagioso do membro mais promissor do clã Tócrito.
— Pensando bem, talvez sua personalidade seja pelas gerações seguidas de guerreiros assassinos.
— Não diga bobagens, estamos trabalhando, faça apenas a sua parte — volta a encarar o portal por ter certeza de que há algo fora do lugar, só precisa identificar.
— Por que você é tão fechado? Por que não se permite fazer amigos?
Silêncio como resposta, Eros baixa os ombros entristecido, só quer fazer amizade por Hema ser o que tem a idade mais próxima da sua, é raro nascer um sanguíneo, o que faz com que seja o único do seu povo com menos de duas décadas, tendo apenas dezesseis anos, enquanto o comandante, recém fez vinte.
Eros se aproxima e se senta novamente na rocha achatada, limpa os pés e pega as botas para as calçar novamente.
— Seu pai te batia? É porque suas irmãs são cabeças de vento? — Ri nessa parte porque elas são do elemento ar. — Ah, tem trauma por ser a causa da morte de sua mãe?
Hema continua concentrado e imóvel diante do portal. Eros respira profundamente e se cala, sabe que não abalou o colega com a última pergunta, afinal, para nascer um macho das fadas de sangue, é necessário o sacrifício da genitora.
— Certo, vou patrulhar a floresta, quando se sentir à vontade, podemos conversar — resmunga.
— Não faça barulho, não alerte o inimigo da sua presença.
— Sim, senhor comandante... — se afasta desanimado.
Hema toca o portal e sua intuição grita na mente, as pedras estão quentes, se agacha e observa melhor o chão, finalmente percebe as gotas de sangue.
Pega o punhal do cinto e ativa a arma com sua magia, a lâmina incandescente imediatamente surge brilhante em tom carmesim, a sua cor, de todos os tons de vermelho, se destaca por ser tão viva e vibrante. Coloca a mão na orelha esquerda sobre o fone e pressiona o botão do comunicador.
— Eros, procure com atenção e me avise ao menor sinal de problema.
— Não seja tão paranoico — ouve a voz do rapaz pelo aparelho.
— Tem sangue aqui. E por mais que aqueles dois sejam idiotas, teriam informado alguma lesão mesmo que acidental.
— Não pode ser de algum animal?
— Não — confirma após analisar a cor da reação do fluído por meio de um feitiço de alto nível, range os dentes para não deixar a dor em seu corpo transparecer no comunicador, respira fundo e afirma em tom neutro: — Testei agora, é sangue de humano desprovido de magia.
— Se isso for um teste, ficarei...
— Concentre-se, soldado! — Dá uma bronca e desliga a comunicação. Ergue o tronco e estende a mão livre, então entoa em tom de ordem: — Sangue estranho ouça minha voz e retorne ao seu corpo agora!
Os olhos de Hema brilham, a pequena mancha misturada reflete o mesmo tom luminoso de seus globos oculares, desgruda do chão e flutua se formando uma esfera antes de sair como um raio horizontal.
Eros sente a magia antes de ouvir o barulho que logo se revela no seu parceiro voando há poucos metros e acima, em uma velocidade absurda até para os seus padrões, muito além do que ele demonstra nos treinos. Invoca suas asas e o segue sem demora, também ativa sua espada no percurso.
Hema não pousa, assim que a gota para no ar e cai, ele mergulha com a lâmina nos arbustos e atinge a criatura sem receio algum.
O soldado mais jovem chega logo em seguida e arregala os olhos com a cena, fica no ar por alguns segundos antes de pousar ao lado do parceiro e o ajudar a arrastar o ser cujo tamanho é o triplo do deles.
— Isso é um humano? — Eros está evidentemente surpreso, nunca vira sequer um brumafense, mas sabe que oslilytuanos— humanos mágicos — possuem marcas distintas nos corpos de acordo com os clãs e aquela criatura, apesar de ter uma aparência similar aos desenhos, não apresenta nenhuma marca além de tinta no rosto, sangue e sujeira, o que indica ser da linhagem de Eva — um humano sem magia.
— Sim.
— Você o matou? — Sente seu coração extremamente acelerado e as mãos frias.
Mesmo que não hajaevanensesno continente, é instintivo o dever de proteger as criaturas não mágicas.
— Está vendo alguma gótica por aqui? — O encara com o cenho franzido, pois sempre que há uma morte, surge uma fada de asas negras em menos de cinco segundos. — Invoque uma terrosa para transportar essa criatura para os calabouços do castelo e retorne imediatamente ao portal assim que essa criatura for levada.
— E o que você fará?
— Punirei aqueles dois idiotas — responde contactando o general pelo comunicadortecnomágicoe em um salto, voa subindo ao céu e logo toma o rumo ao castelo Leukocyte.
Eros se aproxima para observar a criatura após invocar uma terrosa, fadas de olhos e asas alaranjadas que manipulam magia terrena. Ele não a considera uma criatura tão diferente em um aspecto geral, mas a pele é opaca, possui alguns desenhos feitos com tinta nos membros, e usa uma roupa feia de peça única em tom branco, os cabelos são claros e cumpridos, secos como a palha.
Um buraco surge no chão revelando uma fada que abre bem os olhos e exclama animado:
— Ual, que criatura é essa? É quase tão grande quanto os encourados — sobrevoa em torno do corpo.
— Meu comandante disse que é um humano evanense. Eu nunca vi um encourado, como eles são?
— Os encourados são iguais esse aqui, só que tem a pele mais fria e um cheiro de ovo podre tão forte que te faz vomitar. — Admira observando cada detalhe, puxa o cabelo para revelar o rosto. — Incrível, é a primeira vez que vejo um evanense — toca na boca para ver os dentes. — Os desse aqui são retos... — seu tom é de curiosidade e admiração — os dentes dos encourados são todos pontiagudos, igual ao dos felinos.
— Ei, isso pode ser perigoso! — Voa até a fada e segura o pulso dele.
— Não se preocupe. A criatura não irá acordar até que a magia seja desfeita — aponta para a marca vermelha na testa do humano. — Você é um sanguíneo, como não sabe disso? — O encara confuso.
— É meu primeiro dia em campo — confessa sem graça guardando a empunhadura da espada.
— Ah, por isso estava com seu comandante — soa zombeteiro. — Você já conferiu a área? Não tem outros inimigos? Não se guarda a arma até ter certeza, bem, creio que você saiba disso, mas como é seu primeiro dia, não quero arriscar.
Eros percebe a falha e agradece mentalmente por seu comandante não estar ali.
— Não vasculhei. Me desculpe, mas você já pode levar esse. Eu preciso retornar para o portal.
— Você deve ser um azarado, deveria visitar umapaty, é raríssimo aparecer um ser humano, ainda mais nesse portal, nenhuma terrosa desde três gerações passadas é convocada nessa região, fizemos sorteio para saber quem viria porque todos ficaram ansiosos — sorri e emite um brilho alaranjado mais forte pelo corpo todo. — Bem, vou levar esse logo, se achar outro, invoque-me imediatamente.
A fada terrosa faz a criatura enorme diminuir de tamanho e em seguida, ambos somem engolidos pela terra.
O continente Runex abriga todos os seres mágicos, separados em um mundo paralelo da realidade humana e mortal. O equilíbrio entre a natureza e a magia, assim como bem e mal separados, é a responsabilidade de Aislin, rainha das fadas, do reino de Neonfae. Opala é uma fada viajante que vive em plenitude até ser engolida por um grifo e ser levada a outro reino, fica ainda pior quando descobre que quem viu seu sequestro e tentou resgatá-la, mas acabou sendo levado junto, é o Hema, o macho mais arrogante que já conheceu, agora ela precisa tentar sobreviver junto ao soldado mais detestável de Neonfae. Um mundo perfeito para um romance feliz. Vai mesmo confiar nessa autora para um livro colorido, fofo e feliz? Boa sorte.
PROIBIDO A LEITURA À MENORES DE 18 ANOS.
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