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Capítulo 1 · A História de Sinuhe

A História de Sinuhe

Nota introdutória A História de Sinuhe é uma das narrativas mais conhecidas da literatura egípcia antiga. O texto costuma ser associado ao Médio Império e à XII Dinastia. Na versão de Budge, a narrativa se apresenta no contexto da morte do rei Sehetepabrā e do retorno de Usertsen, filho do rei, após campanha contra povos líbios. A história acompanha Sinuhe, homem ligado à corte, que foge do Egito em momento de crise, constrói vida próspera em terra estrangeira e, já velho, recebe do rei a autorização para voltar à sua terra natal.

O núcleo da obra está no contraste entre exílio e retorno. Sinuhe alcança poder, família, riqueza e prestígio fora do Egito, mas sua realização só se completa quando recupera o vínculo com a casa real e com os ritos funerários de sua própria terra. Em linguagem solene, a história trata de medo, destino, favor real, identidade e morte.

Esta tradução foi feita a partir da versão inglesa de E. A. Wallis Budge, publicada em The Literature of the Ancient Egyptians, na seção “The Story of Sanehat”. A forma “Sinuhe” foi adotada por ser mais reconhecível ao leitor atual, embora Budge empregue “Sanehat”.

Nota sobre nomes e termos Alguns nomes e expressões foram mantidos em forma transliterada ou semicomentada: Ka, Tamera, Grande Casa e “cuja palavra é verdade”. Outros termos foram adaptados para facilitar a leitura: Āamu aparece como “asiáticos”; smer e smeru aparecem como “oficial” ou “nobre da corte”; shenit aparece como “conselho”. A imagem literal “Teu chifre conquista” foi vertida como “Teu poder conquista”, preservando o sentido régio sem literalismo excessivo.

A História de Sinuhe O texto desta história muito interessante encontra-se escrito em caracteres hieráticos, em papiros conservados em Berlim. A narrativa descreve acontecimentos que se dizem passados sob um dos reis da décima segunda dinastia, e é bem possível que a base da história seja histórica. O próprio herói é apresentado como narrador de suas aventuras.

O erpá, o duque, o chanceler do Rei do Norte, o Amigo Único, o juiz, o guardião das fronteiras, o Rei nas terras dos Núbios, o verdadeiro parente real amado por ele, o membro da guarda do palácio, Sinuhe, diz:

Eu era membro da guarda de meu senhor, servo do rei, ligado à casa de Neferit, senhora feudal, princesa erpát, dama altamente favorecida, esposa real de Usertsen, cuja palavra é verdade em Khnemetast, filha real de Amenemhat, cuja palavra é verdade em Qanefer.

No sétimo dia do terceiro mês da estação de Akhet, no trigésimo ano de seu reinado, o deus se aproximou de seu horizonte. O Rei do Sul e do Norte, Sehetepabrā, subiu ao céu, foi chamado ao Disco, e seus membros divinos se misturaram aos daquele que o havia criado.

A Casa do Rei caiu em silêncio. Os corações se curvaram em tristeza. As duas Grandes Portas foram fechadas. Os oficiais ficaram imóveis. O povo chorou.

Antes de sua morte, Sua Majestade havia enviado um exército à Terra dos Themehu, sob o comando de seu filho mais velho, o belo deus Usertsen. Ele havia marchado contra as terras desérticas do sul, atacado aqueles lugares e capturado escravos entre os Thehenu, os líbios. Naquele momento, voltava trazendo escravos líbios e incontáveis animais de toda espécie.

Os altos oficiais do palácio enviaram mensageiros ao país do oeste para informar o filho do rei sobre o que acontecera na morada real. Os mensageiros o encontraram no caminho. Chegaram a ele de noite e perguntaram se aquele não era o momento de apressar o retorno, partindo com sua guarda pessoal sem permitir que o resto do exército soubesse de sua partida.

Também lhe disseram que uma mensagem fora enviada aos príncipes que comandavam os soldados de sua comitiva, para que não anunciassem o assunto a mais ninguém.

Sinuhe continua:

Quando ouvi a voz dele falando, levantei-me e fugi. Meu coração se partiu em dois. Meus braços caíram ao lado do corpo. O tremor tomou todos os meus membros. Corri desnorteado, para um lado e para outro, procurando um esconderijo.

Entrei nos matagais, buscando um lugar por onde pudesse viajar sem ser visto. Segui rio acima e decidi não aparecer no palácio, pois eu não sabia se ali estavam acontecendo atos de violência.

Eu não disse: “Que a vida siga seu curso.” Tomei o caminho do distrito do Sicômoro. Então cheguei ao Lago de Seneferu e passei o dia inteiro ali, na borda da planície.

Na manhã seguinte, continuei minha viagem. Um homem apareceu de repente diante de mim na estrada e gritou por misericórdia, pois teve medo de mim.

Quando a noite caiu, entrei na aldeia de Nekau e atravessei o rio em um barco usekht sem leme, ajudado pelo vento que vinha do oeste.

Viajei então a leste do distrito de Aku, pela passagem da deusa Herit, Senhora da Montanha Vermelha. Depois deixei meus pés tomarem o caminho rio abaixo e segui até Anebuheq, a fortaleza construída para repelir os Satiu, saqueadores nômades, e conter as tribos que vagavam pelo deserto.

Durante o dia, agachei-me entre os arbustos, para não ser visto pelos vigias no alto da fortaleza.

Quando a noite caiu, retomei a marcha. Quando a luz do dia nasceu sobre a terra, cheguei a Peten e descansei junto ao Lago de Kamur.

Então a sede veio sobre mim e me dominou. Sofri tormento. Minha garganta ardia. Eu disse: “Este é, de fato, o gosto da morte.”

Mas tomei coragem e recompus meu corpo, pois ouvi os sons feitos por rebanhos e manadas.

Então os Satiu do deserto me viram. O chefe da caravana, que estivera no Egito, reconheceu-me. Levantou-se, deu-me água, aqueceu leite para mim, e viajei com os homens de sua caravana. Assim passei, em segurança, de um país a outro.

Evitei a terra de Sunu e viajei para a terra de Qetem, onde permaneci por um ano e meio.

Então Ammuiansha, xeque do Alto Thennu, tomou-me à parte e me disse:

“Serás feliz comigo, pois ouvirás a língua do Egito.”

Disse isso porque sabia que espécie de homem eu era, pois ouvira os egípcios que estavam com ele darem testemunho de meu caráter.

Depois me perguntou:

“Por que vieste até aqui? Foi porque o rei Sehetepabrā deixou o palácio e foi para o horizonte, e tu não sabias o que aconteceria depois?”

Então lhe respondi com palavras enganosas:

“Eu estava entre os soldados que tinham ido à terra dos Themehu. Meu coração gritou dentro de mim. Minha coragem falhou por completo. Foi ela que me fez seguir os caminhos pelos quais fugi. Hesitei, mas não senti arrependimento. Não dei ouvidos a nenhum mau conselho. Meu nome não foi ouvido na boca do arauto. Como fui trazido a esta terra, não sei. Talvez tenha sido pela Providência de Deus.”

Então Ammuiansha me disse:

“O que será da terra sem aquele deus benéfico, cujo terror passava pelos países como Sekhmet em ano de peste?”

Respondi:

“Seu filho nos salvará. Ele entrou no palácio e tomou posse da herança de seu pai. Além disso, é deus sem igual, e nenhum outro pode existir ao lado dele. É senhor de sabedoria, perfeito em seus planos, favorável quando decreta, e cada homem entra e sai conforme sua ordem.

Ele submeteu terras estrangeiras enquanto seu pai permanecia no palácio, dirigindo-o nos assuntos que deviam ser cumpridos. É poderoso em valor. Mata com sua espada. Em bravura não há quem se compare a ele.

Deverias vê-lo atacando os nômades do deserto e caindo sobre os ladrões das estradas. Ele derruba a resistência. Fere os braços até deixá-los inúteis. Seus inimigos não conseguem resistir.

Ele toma vingança, parte crânios, e ninguém se levanta diante dele. Seus passos são longos. Mata aquele que foge, e quem lhe vira as costas em fuga jamais chega aonde queria chegar.

Quando atacado, sua coragem permanece firme. Ataca muitas vezes e nunca cede. Seu coração é ousado quando vê a linha de batalha. Não permite que ninguém fique sentado atrás dele.

Seu rosto é feroz quando avança contra o agressor. Alegra-se quando captura o chefe de um bando de ladrões do deserto. Toma seu escudo, derrama golpes sobre ele, e nem precisa repetir o ataque, pois mata o inimigo antes que este possa lançar sua lança.

Antes que puxe o arco, os nômades já fugiram. Seus braços são como as almas da Grande Deusa. Ele luta, e, quando alcança aquilo que ataca, não poupa nada, não deixa resto.

Ele é amado. Grande é sua doçura. É conquistador, e sua cidade o ama mais do que ama a si mesma. Ela se alegra nele mais do que em seu deus, e os homens se juntam ao redor dele com júbilo.

Foi rei e conquistador antes de nascer, e usou suas coroas desde o nascimento. Multiplicou os nascimentos, e foi ele que Deus fez para ser a alegria desta terra, que governa e cujas fronteiras aumentou. Conquistou as Terras do Sul. Não conquistará também as Terras do Norte? Foi criado para ferir os caçadores do deserto e esmagar as tribos que vagam pela areia.”

Então o xeque do Alto Thennu me disse:

“Certamente o Egito é uma terra feliz, pois conhece o vigor dele. Enquanto permaneceres comigo, farei o bem por ti.”

Ele me colocou diante de seus filhos, deu-me sua filha mais velha por esposa e fez-me escolher, para mim, uma terra muito boa que lhe pertencia, situada na fronteira de outro país. Essa bela região chamava-se Aa.

Ali havia figos, e o vinho era mais abundante que a água. O mel era farto. O azeite existia em grande quantidade. Frutos de toda espécie cresciam nas árvores. Havia trigo e cevada, rebanhos de bois, ovelhas e cabras em número incontável.

O xeque concedeu-me grande favor. Sua afeição por mim foi tão grande que me fez xeque de uma das melhores tribos de sua terra.

Todos os dias faziam bolos de pão para mim. Todos os dias me traziam vinho, carne assada, aves selvagens e animais do campo. Além disso, punham diante de mim a caça que meus cães traziam. Preparavam para mim alimentos de toda espécie, e o leite me era servido de várias maneiras.

Assim passei muitos anos. Meus filhos cresceram fortes e belos, e cada um deles governou sua própria tribo.

Todo embaixador que ia ao Egito ou voltava dele vinha visitar-me. Eu era bondoso com gente de toda classe. Dava água ao homem sedento. Suprimia o ladrão das estradas.

Eu dirigia as operações dos arqueiros do deserto, que marchavam por longas distâncias para reprimir os xeques hostis e reduzir o poder deles, pois o xeque de Thennu me havia nomeado general de seus soldados muitos anos antes.

Todo país contra o qual marchei, fiz tremer até a submissão. Tomei colheitas junto aos poços, saqueei rebanhos e manadas, levei embora pessoas e seus escravos, que comiam seu pão, e matei os homens daquele lugar.

Por minha espada, por meu arco e por minhas campanhas bem ordenadas, fui altamente estimado no pensamento do xeque. Ele me amava, pois conhecia minha bravura, e me colocou diante de seus filhos quando viu a força de meus braços.

Então veio até minha tenda certo homem poderoso e valente de Thennu, e me insultou. Era muito famoso como guerreiro, sem igual em todo o país que havia conquistado. Desafiou-me para combate, incitado pelos homens de sua tribo. Acreditava que podia vencer-me e decidiu tomar meus rebanhos como despojo.

O xeque consultou-me sobre o desafio, e eu disse:

“Não sou conhecido dele, nem sou amigo dele de maneira alguma. Por acaso já visitei seus domínios? Entrei por sua porta? Atravessei seu acampamento? Nunca. Ele é homem cujo coração se enche de pensamentos maus sempre que me vê. Deseja executar seu desígnio cruel e saquear-me.

É como touro selvagem que procura matar o touro de um rebanho domesticado, para fazer suas as vacas. Ou antes, é apenas um fanfarrão que deseja tomar os bens que reuni por minha prudência, e não um guerreiro experimentado.

Ou ainda: é um touro que ama a luta, que ama atacar repetidas vezes, temendo que outro animal prove ser seu igual. Mas, se seu coração está decidido a lutar, que ele declare sua intenção. Deus, que sabe todas as coisas, ignora por acaso o que ele decidiu fazer?”

Passei a noite encordoando meu arco. Preparei minhas flechas de guerra. Desembainhei meu punhal. Pus todas as minhas armas em ordem.

Ao romper do dia, as tribos da terra de Thennu vieram. O povo que habitava os dois lados daquela região reuniu-se, pois estava grandemente preocupado com o combate. Vieram e ficaram de pé ao meu redor, no lugar onde eu estava.

Todo coração ardia por meu triunfo. Homens e mulheres soltavam gritos. Todo coração sofria de ansiedade por mim, dizendo:

“Pode haver homem mais forte em combate, mais bravo na guerra do que ele?”

Então meu adversário tomou seu escudo, seu machado de batalha e suas lanças. Depois de lançar suas armas contra mim, e depois que consegui escapar de suas lanças curtas, que passaram sem causar dano, uma após outra, ele se encheu de fúria. Decidindo atacar-me de perto, lançou-se sobre mim.

Atirei minha lança contra ele. Ela ficou cravada em seu pescoço. Ele soltou um longo grito e caiu de rosto no chão. Então o matei com suas próprias armas.

De pé sobre suas costas, lancei o grito da vitória. Todos os asiáticos aplaudiram-me, e dei graças a Menthu, deus guerreiro de Tebas. Os servos de meu adversário choraram por seu senhor.

O xeque Ammuiansha tomou-me nos braços e abraçou-me.

Levei comigo os bens do vencido. Tomei seu gado como despojo. O que ele pensara fazer comigo, fiz eu com ele. Apoderei-me de tudo que havia em sua tenda. Esvaziei seu acampamento. Tornei-me rico. Aumentei meus bens e multipliquei muito o número de meu gado.

Assim Deus fez prosperar o homem que nele pôs seu amparo.

Naquele dia, o coração daquele que fora obrigado a fugir de seu próprio país para terra estrangeira ficou satisfeito. Naquele dia, a integridade do homem que antes fora obrigado a escapar como miserável fugitivo foi provada diante de toda a corte.

Antes eu era errante, vagando faminto. Agora posso dar pão aos meus vizinhos.

Antes fugi nu de minha terra. Agora possuo roupas esplêndidas e vestes feitas do linho mais fino.

Antes era obrigado a cumprir minhas próprias tarefas, a buscar e carregar por mim mesmo. Agora sou senhor de tropas de servidores.

Minha casa é bela. Minha propriedade é vasta. Meu nome é repetido na Grande Casa.

Ó Senhor dos deuses, que ordenaste meus caminhos, oferecerei a ti oferendas propiciatórias. Suplico-te: restitui-me ao Egito. Concede-me, em tua graça, olhar outra vez o lugar onde minha mente habita por tantas horas.

Que grande bênção seria para mim purificar meu corpo na terra em que nasci.

Peço que um tempo de felicidade me acompanhe, e que Deus me conceda paz. Que ele disponha os acontecimentos de tal modo que o fim da carreira deste homem que sofreu miséria, cujo coração conheceu tristeza, que vagueou por terra estrangeira, seja feliz.

Não está ele em paz comigo neste dia? Certamente ouvirá aquele que está longe.

Que o rei do Egito esteja em paz comigo, e que eu viva de suas oferendas. Que eu saúde a Senhora da Terra, isto é, a rainha, que está em seu palácio, e que eu ouça as saudações de seus filhos.

Ah, se meus membros pudessem tornar-se jovens outra vez!

Pois agora a velhice se aproxima furtiva de mim. A fraqueza me alcança. Meus olhos recusam-se a ver. Minhas mãos caem sem força. Meus joelhos tremem. Meu coração fica imóvel.

Os carpidores funerários se aproximam, e eles me levarão à Cidade da Eternidade, onde me tornarei seguidor de Nebertcher. Ela me declarará as belezas de seus filhos, e eles a atravessarão comigo.

Então a Majestade do Rei do Egito, Kheperkarā, cuja palavra é verdade, depois de ouvir falar dos muitos acontecimentos que se tinham passado comigo, enviou-me um mensageiro carregando presentes reais, como aqueles que enviaria ao rei de uma terra estrangeira, com a intenção de alegrar o coração deste teu servo.

Os príncipes do palácio fizeram-me ouvir suas saudações.

Eis a cópia do documento que foi trazido a este teu servo, vindo do rei, ordenando-lhe que voltasse ao Egito:

“Ordem real de Hórus, Ānkh-mestu, Senhor de Nekhebet e Uatchet, Ānkh-mestu, Rei do Sul, Rei do Norte, Kheperkarā, filho de Rā, Amenemhat, que vive eternamente, ao meu servidor Sinuhe.

Esta ordem real é enviada a ti para te informar:

Viajaste por toda parte, de país em país. Saíste de Qetem e chegaste a Thennu. Foste de lugar em lugar conforme tua própria vontade e teu próprio prazer.

Observa agora: aquilo que fizeste aos outros, fazendo-os obedecer a ti, será feito a ti.

Não apresentes desculpas, pois serão postas de lado. Não discutas com meus oficiais, pois teus argumentos serão refutados. Que teu coração não rejeite os planos que tua própria mente formulou.

Teu Céu, isto é, a rainha que está no palácio, permanece firme e florescente neste momento. Sua cabeça está coroada com a soberania da terra, e seus filhos estão nas câmaras reais do palácio.

Deixa de lado as honras que possuis e tua vida de abundância, e viaja para o Egito.

Vem olhar tua terra natal, a terra em que nasceste. Cheira a terra diante da Grande Porta, isto é, presta homenagem ali, e convive com os nobres.

Pois agora começas a ser homem velho. Já não podes mais gerar filhos, e tens sempre no pensamento o dia de teu sepultamento, quando tomarás a forma de um servidor de Osíris.

Os unguentos para teu embalsamamento, na noite da mumificação, já foram separados para ti, juntamente com tuas faixas funerárias, obra das mãos da deusa Tait.

Teu cortejo funerário, que marchará no dia de tua união com a terra, já foi preparado. Há para ti um esquife dourado, cuja cabeça é pintada de azul, e um dossel feito de madeira mesket.

Bois te puxarão até o túmulo. As carpideiras seguirão diante de ti. As danças funerárias serão executadas. Os que chorarão por ti estarão à porta de teu túmulo. As oferendas funerárias dedicadas a ti serão proclamadas. Sacrifícios serão oferecidos por ti, junto com tuas oblações, e tua construção funerária será erguida em pedra branca, lado a lado com as dos príncipes e princesas.

Tua morte não deve acontecer em terra estrangeira. Os asiáticos não te acompanharão até a sepultura. Não serás colocado na pele de um carneiro quando teu enterro for realizado. Em teu sepultamento haverá cerimônia, golpes na terra, e, quando partires, lamentos serão feitos sobre teu corpo.”

Quando esta carta real chegou a mim, eu estava de pé entre o povo de minha tribo. Depois que a leram para mim, lancei-me de rosto ao chão, inclinei-me até minha cabeça tocar o pó, e apertei o documento com reverência contra meu peito.

Depois me levantei e andei de um lado para outro em minha morada, cheio de alegria, dizendo:

“Como poderiam essas coisas acontecer a este teu servo, cujo coração o fez fugir para terras estrangeiras, entre povos de língua estranha?

Certamente é pensamento bom e gracioso do rei libertar-me da morte aqui. Pois teu Ka fará com que meu corpo termine sua existência em minha terra natal.”

Eis a cópia da resposta feita pelo servo do palácio, Sinuhe, ao documento real:

“Em paz, ó mais belo e maior!

Teu Ka conhece a fuga que este teu servo fez quando estava em estado de ignorância, ó belo deus, Senhor do Egito, amado de Rā, favorecido por Menthu, Senhor de Tebas.

Que Amen-Rā, senhor dos tronos das Duas Terras, e Sebek, e Rā, e Hórus, e Hathor, e Tem com sua Companhia dos Deuses, e Neferbaiu, e Semsuu, e Hórus do Oriente, e Nebt-Amehet, a deusa unida à tua cabeça, e os deuses Tchatchau que presidem a inundação do Nilo, e Menu, e Heru-khenti-semti, e Urrit, Senhora de Punt, e Nut, e Heru-ur, e Rā, e todos os deuses de Tamera, isto é, do Egito, e das Ilhas do Grande Mar Verde, isto é, do Mediterrâneo, derramem sobre ti a medida cheia de seus bons dons.

Que concedam vida e serenidade às tuas narinas. Que te concedam uma eternidade sem limite e uma duração sem fronteira.

Que teu temor penetre e se estenda por todos os países e montanhas. Que possuas toda a região que o sol circunda em seu curso.

Esta é a oração que teu servo faz por seu senhor, que o livrou de Ament, o mundo dos mortos.

O Senhor do conhecimento, aquele que conhece os homens, a Majestade da Morada Setepsa, isto é, o palácio, sabe bem que este teu servo teve medo de declarar o assunto, e que repeti-lo seria coisa grave.

O grande deus, isto é, o rei, contraparte de Rā, agiu sabiamente no que fez. Este teu servo meditou sobre isso em seu coração e fez com que sua vontade se conformasse aos planos do rei.

Tua Majestade é como Hórus. A força vitoriosa de teus braços conquistou o mundo inteiro.

Que Tua Majestade ordene que Maka, chefe do país de Qetma, e Khentiaaush, chefe de Khent-Keshu, e Menus, chefe das terras dos Fenkhu, sejam trazidos aqui. Esses governadores testemunharão que tais coisas aconteceram conforme o desejo de teu Ka, e que Thennu não fala palavras demasiado ousadas diante de ti, pois ela é obediente como teus cães de caça.

Vê: a fuga que este teu servo fez foi resultado de ignorância. Não foi voluntária, nem decidida depois de reflexão cuidadosa. Não consigo compreender como pude separar-me de minha terra.

Agora isso me parece produto de um sonho: como se um homem nos pântanos do Delta imaginasse estar em Abu, isto é, Elefantina; ou como se um homem de pé em campos férteis imaginasse estar nos desertos do Sudão.

Não temo nada, e ninguém pode levantar acusação verdadeira contra mim.

Nunca inclinei meu ouvido a intrigas desleais, e meu nome nunca esteve na boca do arauto que proclama os nomes dos proscritos.

Embora meus membros tremessem e minhas pernas vacilassem, meu coração me guiou, e o Deus que ordenou esta minha fuga conduziu-me.

Vê: não sou homem de dura cerviz, nem rebelde. Pelo contrário, sempre honrei o rei, pois conhecia a terra do Egito e sabia que Rā fez teu temor existir em todo o Egito, e que o respeito por ti atravessa cada terra estrangeira.

Suplico-te: permite que eu entre em minha terra natal. Suplico-te: permite que eu volte ao Egito.

Tu és a vestimenta do horizonte. O Disco, isto é, o Sol, brilha segundo tua vontade.

Bebe-se a água do rio Nilo por teu prazer. Respira-se o ar do céu quando dás a palavra de comando.

Este teu servo transferirá aos seus parentes os bens que adquiriu nesta terra.

Quanto à embaixada de Tua Majestade enviada a este teu servo, farei conforme o desejo de Tua Majestade, pois vivo pelo sopro que tu dás, ó amado de Rā, Hórus e Hathor.

Que tuas santas narinas sejam amadas por Menthu, Senhor de Tebas.

Que vivas para sempre.”

Permaneci um dia na terra de Aa, a fim de transferir meus bens para meus filhos.

Meu filho mais velho ficou encarregado dos assuntos de minha gente, e os homens e mulheres da casa, isto é, os servos, ficaram sob sua autoridade. Todos os meus bens passaram às suas mãos: meus filhos, meu gado, minhas árvores frutíferas, minhas palmeiras, meus pomares.

Então este teu servo partiu em viagem, seguindo para o sul.

Quando cheguei a Heruuatu, o capitão da patrulha da fronteira enviou um mensageiro para informar a corte de minha chegada.

Sua Majestade enviou um superintendente cortês dos servos do palácio. Atrás dele vieram grandes barcos carregados de presentes do rei para os soldados do deserto que me tinham escoltado e guiado até a cidade de Heruuatu.

Dirigi-me a cada homem pelo nome, e cada trabalhador recebeu aquilo que lhe era devido.

Continuei minha viagem. O vento me levou adiante. Prepararam alimento para mim. A bebida estava pronta. Vestes da melhor qualidade foram providenciadas para mim, até que cheguei a Athettaui.

Na manhã seguinte à minha chegada, cinco oficiais vieram até mim e me conduziram à Grande Casa. Curvei-me profundamente, até que minha testa tocou o chão diante dele.

Os príncipes e princesas estavam de pé, esperando por mim na câmara umtet. Vieram ao meu encontro para me receber.

Os oficiais da corte conduziram-me ao salão e me levaram à câmara reservada do rei. Ali encontrei Sua Majestade sentado no Grande Trono, na câmara umtet de prata e ouro.

Quando cheguei, levantei-me depois de minhas prostrações, sem perceber que estava diante dele.

Então este deus, isto é, o rei, falou comigo com severidade. Fiquei como homem perdido na escuridão. Minha inteligência abandonou-me. Meus membros tremeram. Meu coração já não estava em meu corpo. Eu não sabia se estava morto ou vivo.

Então Sua Majestade disse a um de seus altos oficiais:

“Levanta-o e deixa que fale comigo.”

E Sua Majestade me disse:

“Então vieste. Feriste terras estrangeiras, percorreste regiões distantes, e agora a fraqueza te venceu. Envelheceste. As enfermidades de teu corpo são muitas. Os guerreiros do deserto não te acompanharão ao túmulo. Por que não falas? Declara teu nome.”

Tive medo de contradizê-lo. Respondi a essas coisas como homem atingido pelo temor, pois assim meu senhor falava comigo.

Então respondi:

“O assunto não nasceu de minha vontade. Vê: aconteceu pela mão de Deus. O terror do corpo fez-me fugir conforme aquilo que estava ordenado. Mas vê: estou aqui diante de ti.

Tu és a vida. Tua Majestade faz aquilo que deseja.”

Então o rei dispensou os filhos reais, e Sua Majestade disse à rainha:

“Olha agora. Este é Sinuhe, que vem com aparência de asiático, transformado em guerreiro nômade do deserto.”

A rainha soltou uma risada alta e franca, e os filhos reais clamaram em uma só voz diante de Sua Majestade:

“Ó Senhor Rei, este homem não pode ser realmente Sinuhe.”

E Sua Majestade respondeu:

“É ele mesmo.”

Então os filhos reais trouxeram seus instrumentos de música, seus colares menat e seus sistros. Fizeram soar os sistros e passaram de um lado para outro diante de Sua Majestade, dizendo:

“Tuas mãos realizam atos benéficos, ó rei. As graças da Senhora do Céu repousam sobre ti. A deusa Nubt dá vida às tuas narinas, e a Senhora das Estrelas une-se a ti quando navegas para o sul usando a Coroa do Norte, e para o norte usando a Coroa do Sul.

A sabedoria está firmada na boca de Tua Majestade, e a saúde repousa sobre tua fronte.

Tu infundes terror nos miseráveis que te suplicam misericórdia. Os homens te propiciam, ó Senhor do Egito, como propiciam Rá, e és saudado com gritos de alegria como Nebertcher.

Teu poder conquista. Tua flecha mata. E tu dás sopro de vida àquele que está aflito.

Por nossa causa, concede graciosamente um favor a este viajante Sinuhe, este guerreiro do deserto que nasceu em Tamera, isto é, no Egito.

Ele fugiu por medo de ti. Partiu para uma terra distante porque teu terror caiu sobre ele.

Por acaso o rosto que olha para o teu não empalidece? Por acaso o olho que encara o teu não sente medo?”

Então Sua Majestade disse:

“Que ele não tema. Que não solte som de medo. Será oficial da corte entre os príncipes do palácio. Será membro da companhia dos oficiais do conselho. Ide ao refeitório do palácio e providenciai rações para ele.”

Depois disso, saí da câmara reservada do rei. Os filhos reais tomaram minhas mãos, e seguimos até a Grande Porta. Fui alojado na casa de um dos filhos do rei, uma morada belamente preparada. Nela havia um banho, imagens dos céus e objetos vindos do Tesouro.

Ali encontrei vestes de linho real, mirra da melhor qualidade, usada pelo próprio rei, e cada aposento estava sob os cuidados de oficiais favorecidos por Sua Majestade. Cada funcionário tinha sua tarefa determinada.

Então os anos começaram a cair de meus membros.

Cortei e penteei meus cabelos. Lancei para longe de mim a sujeira da terra estrangeira, junto com as roupas dos nômades que vivem no deserto.

Vesti roupas de linho fino. Ungi meu corpo com óleos preciosos. Dormi em cama, e não mais no chão. Deixei a areia aos que vivem sobre ela, e o óleo grosseiro de madeira aos que se ungem com ele.

Foi-me concedida a casa de um nobre da corte. Muitos trabalhadores serviram nela, e seu jardim e seus bosques foram novamente plantados com árvores e plantas.

Todos os dias traziam-me alimento do palácio, três ou quatro vezes por dia, além dos presentes que os filhos reais me davam sem cessar.

Também foi marcado para mim o lugar de uma pirâmide de pedra entre as pirâmides.

O chefe dos agrimensores de Sua Majestade escolheu o local. O diretor dos artistas funerários desenhou os planos e as inscrições que seriam gravadas nela. O chefe dos pedreiros da necrópole talhou as inscrições, e o escriba das obras da necrópole percorreu a terra reunindo tudo que era necessário para meu sepultamento.

Fiz com que a construção florescesse. Providenciei tudo que era necessário para sua manutenção. Adquiri terras ao redor dela.

Fiz também um lago para a realização das cerimônias funerárias. A terra ao redor dele tinha jardins e bosques, e providenciei ali um lugar de morada para o povo da propriedade, semelhante ao que se prepararia para um nobre da corte de primeira categoria.

Minha estátua, feita para mim por ordem de Sua Majestade, foi revestida de ouro, e sua túnica era de prata dourada. Ele não fazia tais coisas por qualquer homem comum.

Que eu desfrute do favor do rei até o dia em que vier a minha morte.

Assim termina o livro, dado desde seu princípio até seu fim, conforme foi encontrado por escrito.

A História de Sinuhe

Sinopse

Um clássico da literatura egípcia antiga sobre exílio, honra, retorno e reconciliação com a própria terra. Esta edição brasileira do Literunico Aurora apresenta A História de Sinuhe em tradução editorial contemporânea a partir da versão em domínio público de E. A. Wallis Budge.

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A História de Sinuhe

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