Universo da obra
Universo da obra
Nota editorial. Esta tradução em português brasileiro foi preparada pelo Literunico a partir do texto crioulo de Oswald Durand. Preservamos, sempre que possível, o tom de canção, a voz popular e a delicadeza melancólica do poema.
Choucoune Atrás de uma grande moita de pinguim,
outro dia encontrei Choucoune;
ela sorriu quando me viu,
e eu disse: "Céus, que bela criatura!"
Ela disse: "Você acha mesmo, querido?"
Os passarinhos no ar escutavam a gente...
Quando penso nisso, sinto tristeza,
pois desde aquele dia meus dois pés estão acorrentados. Choucoune é uma joia morena;
seus olhos brilham como vela acesa;
tem o corpo firme, erguido,
ah, se Choucoune tivesse sido fiel!
Ficamos conversando por muito tempo,
até os pássaros do bosque pareciam contentes.
Melhor esquecer: a dor é grande demais,
pois desde aquele dia meus dois pés estão acorrentados. Os dentinhos de Choucoune são brancos como leite;
sua boca tem cor de caimito;
ela não é mulher grande, é cheia na medida,
mulher assim me agrada logo.
O tempo passado não é o tempo de hoje.
Os passarinhos do bosque ouviram tudo o que ela dizia.
Se eles se lembram disso, também devem sofrer,
pois desde aquele dia meus dois pés estão acorrentados. Fomos à casa de sua mãe,
uma senhora muito honesta.
Assim que me viu, ela disse:
"Ah, gostei desse, gostei de verdade!"
Bebemos chocolate com nozes...
Acabou tudo isso, passarinhos do bosque?
Melhor esquecer: a dor é grande demais,
pois desde aquele dia meus dois pés estão acorrentados. Os móveis estavam prontos: bela cama, cama-barco,
cadeira de vime, mesa redonda, cadeira de balanço,
dois colchões, um cabideiro,
toalhas, guardanapos, cortinas de musselina...
Faltavam apenas quinze dias.
Passarinhos do bosque, escutem-me, escutem!
Vocês todos vão entender por que estou triste,
por que desde aquele dia meus dois pés estão acorrentados. Então chegou um branquinho:
barbinha ruiva, rosto rosado,
relógio ao lado, cabelos bonitos...
Minha desgraça veio dele.
Ele achou Choucoune bonita;
falou francês, e Choucoune o amou.
Melhor esquecer: a dor é grande demais,
Choucoune me deixou, meus dois pés estão acorrentados. O mais triste de tudo isso,
o que vai surpreender todo mundo,
é ver que, apesar de tudo,
eu ainda amo Choucoune.
Ela vai ter um pequeno mestiço...
Passarinhos, olhem: sua barriga já está redonda.
Silêncio, fechem o bico: a dor é grande demais.
Os dois pés do pequeno Pierre, seus dois pés estão acorrentados. Original crioulo Dériè gnou gras touff' pingouin,
L'aut'jou, moin contré Choucoune ;
Li sourit, l'heur'li ouè moin,
Moin dit : "Ciel ! A là bell' moune !"
Li dit : "Ou trouvé ca cher !"
P'tits zoézeaux ta pé couté nous lan l'air...
Quand moin songé ça, moin gangnin la peine,
Car dimpi jou-là, dé pieds moin lan chaîne ! Choucoun' cé gnou marabout :
Z'yeux li clairé com' chandelle ;
Li gangnin tété doubout...
Ah ! si Choucoun' té fidèle !
Nous rété causer longtemps...
Jusqu' zoézeaux lan bois té paraîtr contents !
Pitôt blié ca, cé trop grand la peine,
Car dimpi jou-là, dé pieds moin lan chaîne. P'tits dents Choucoun' blanch' com' laitt' ;
Bouch' li couleur caïmite ;
Li pas gros femm', li grassett !
Femm' com ça plaît moin tout d'suite...
Temps passé pas temps jôdi !
P'tits zoézeaux lan bois, té tendé tout ça li té dit.
Si yo songé ça, yo doué lan la peine,
Ca dimpi jou-là, dé pieds moin lan chaîne... N'allé la caz' manman-li :
Gnou grand'moun qui bien honnête !
Sitôt li ouè moin, li dit :
"Ah ! moin content ! cilànette !"
Nous bouè chocolat aux noix...
Est-ce tout ça fini, p'tits zoézeaux lan bois ?
Pitôt blié ça, cé trop grand la peine,
Car dimpi jou-là, dé pieds moin lan chaîne. Meubl' prêt, bell caban', bateau,
Chais' rotin, tabl rond', dodine,
Dé mat'las, gnou port manteau,
Napp', serviette, rideau moussline...
Quinz' jous sèl'ment té rété...
P'tits zoézeaux lan bois, couté moin, couté !
Z'autr' tout va comprendr' si moin lan la peine,
Si dimpi jou-là, dé pieds moin lan chaîne ! Gnou p'tit blanc vini rivé :
P'tit barb' roug', bell figur' rose,
Montr' sous côtés, bell chivé...
Malheur-moin, li fui la cause !
Li trouvé Choucoun' joli,
Li palé francé, Choucoun' nimé-li...
Pitôt blié eh, cé trop grand la peine,
Choucoun' quitté moin, dé pieds moin lan chaîne... Ca qui pis trist' lan tout ça,
Ca qui va surprendr' tout moune,
Cé pou ouè malgré temps-là,
Moin aimé toujours Choucoune !
Li va fai gnou p'tit quat'ron...
P'tits zoézeaux gadè ! p'tit ventr' li bien rond !
Pè, fémin, bec z'autr', cé trop grand la peine :
Dé pieds p'tit Pierr', dé pieds-li lan chaîne ! Fonte: Wikisource, página "Choucoune", a partir de Floréal, 2 de junho de 1923. O poema original é de Oswald Durand e data de 1884.
Poema haitiano em crioulo de Oswald Durand, publicado originalmente no século XIX e preservado em fonte pública. Esta edição apresenta tradução brasileira do Literunico, associada ao Haiti na Copa do Mundo Literunico.
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