Universo da obra
Universo da obra
Nota editorial do Literunico Esta edição reúne, como núcleo, o poema mais emblemático de Aboul-Qacem Echebbi: “Se um dia o povo quiser a vida”, conhecido como expressão maior da vontade de viver, da liberdade e da recusa da resignação. A versão em português foi preparada pelo Literunico a partir do texto árabe em domínio público.
Se um dia o povo quiser a vida Se um dia o povo quiser a vida,
o destino terá de responder.
A noite terá de se dissipar,
as correntes terão de se romper.
Quem não abraça o desejo da vida
evapora em seu ar e desaparece.
Ai daquele a quem a vida não desperta
com o golpe do nada vencedor.
Assim me disseram os seres,
assim me falou seu espírito oculto.
E o vento murmurou entre os desfiladeiros,
sobre as montanhas e debaixo das árvores:
quando aspiro a uma meta,
monto o dorso dos sonhos e esqueço o temor.
Não evito a rudeza das trilhas,
nem a chama erguida do perigo.
Quem não ama subir montanhas
viverá para sempre entre covas.
Então ferveram em meu coração
os sangues da juventude.
E ventos novos rugiram em meu peito.
Inclinei-me para ouvir
o estrondo dos trovões,
a música dos ventos
e a queda da chuva.
Perguntei à terra:
mãe, odeias os homens?
E ela respondeu:
abençoo entre eles os ambiciosos,
os que encontram prazer
em cavalgar o perigo.
E amaldiçoo quem não acompanha o tempo,
quem se contenta com a vida da pedra.
O universo é vivo e ama a vida.
Despreza o morto, por maior que pareça.
O horizonte não acolhe aves mortas,
nem as abelhas beijam flores sem vida.
Se não fosse a maternidade compassiva
do meu coração,
nem a terra abriria suas covas
para guardar os mortos.
Ai daquele a quem a vida não desperta
com a maldição do nada vencedor.
Numa noite de outono,
pesada de tristeza e tédio,
embriaguei-me da luz das estrelas
e cantei para a dor até que ela se embriagasse.
Perguntei à escuridão
se a vida devolve
aquilo que a primavera da idade
deixou murchar.
Os lábios da sombra não falaram;
as virgens da aurora não cantaram.
Mas o bosque me disse, com ternura,
como a vibração de uma corda:
vem o inverno, inverno da névoa,
inverno da neve, inverno da chuva.
Apaga-se o encanto dos ramos,
das flores e dos frutos.
Apaga-se o feitiço do céu delicado
e dos prados perfumados.
Caem os galhos, as folhas,
as flores de uma estação amada.
O vento brinca com tudo nos vales,
e a enxurrada enterra o que atravessa.
Tudo se desfaz como sonho belo
que brilhou numa alma e desapareceu.
Mas ficam as sementes, carregando
a reserva de uma vida antiga.
Ficam lembranças de estações,
visões de vida,
fantasmas de mundos
que se dissolveram em bandos.
Sob a névoa, sob a neve,
sob a terra,
elas abraçam o espectro da vida,
que nunca se cansa.
E quando a primavera chega,
com seus cantos, sua luz e seus perfumes,
as sementes despertam
do sono profundo.
Erguem a fronte para o sol,
e a vida volta a cantar nelas.
Assim são as almas quando desejam:
se acendem, se elevam, insistem.
Quem adora a luz em seus sonhos
é abençoado pela luz onde quer que ela surja.
A ti, espaço; a ti, claridade;
a ti, terra sonhadora e florida.
A ti, beleza que não perece;
a ti, existência vasta e fresca.
Balança, como quiseres, sobre os campos,
com frutos doces e flores tenras.
Conversa com a brisa, conversa com as nuvens,
conversa com as estrelas e com a lua.
Conversa com a vida e seus anseios,
com o esplendor deste existir.
A noite revelou uma beleza profunda,
que acende a imaginação e aviva o pensamento.
Um encanto estranho se estendeu sobre o mundo,
conduzido por um mago poderoso.
As velas das estrelas se acenderam,
e se espalhou o incenso das flores.
Um espírito de beleza singular
flutuou com asas de luar.
E ressoou o hino sagrado da vida
num templo sonhador e encantado.
Foi anunciado no universo
que a ambição é chama da vida
e espírito da vitória.
Se as almas aspiram à vida,
o destino terá de responder.
Edição Literunico em português de um dos poemas mais emblemáticos de Aboul-Qacem Echebbi, voz essencial da poesia tunisiana e árabe moderna.
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