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Capítulo 33 · O Gaúcho

O Gaúcho: Parte III - Capítulo VI

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Era noite fechada.

Jazia a vila de Piratinim em profundo silêncio, submergida nas trevas. Apenas a trechos ouvia-se, entre os primeiros silvos do temporal iminente, o pio monótono da coruja na matriz, ou um murmúrio de vozes a escapar-se do coice de uma porta.

Era aí a taberna, onde os peões jogavam a primeira ao clarão de uma candeia de graxa cuja luz oscilante e mortiça, filtrando pelos interstícios da porta, cortava a treva espessa como o vôo de um pirilampo.

Também, quando passava a rajada, podia-se escutar o chiado sutil de uma guitarra, tocada à surdina. Partiam estes sons de uma casa próxima à igreja de Nossa Senhora da Conceição, que então servia de matriz à paróquia. Um vulto, embuçado em um poncho escuro de gola erguida, caminhava da esquina da rua onde ficava a casa até a torre da igreja, e aí chegando retrocedia. Na ida, como na volta, parava algum tempo à janela da casa, e encostava o ouvido na rótula; então, ouvia-se o tangido soturno da guitarra que ele trazia por baixo do poncho.

Na sala interior dessa casa estavam três pessoas.

As duas cunhadas e comadres, sentadas no vão da janela que abria para o quintal, continuavam a prática de todas as noites. Durante um mês que estavam juntas, não tinham desfiado ainda todo o rosário de histórias e novidades.

Vidoca não acabara de contar as festas e enredos de Jaguarão, nem as faladas dos castelhanos com as raparigas daquela fronteira. Quanto à Fortunata, esta não esvaziaria em um ano o saco dos mexericos de Piratinim, e a crônica de toda a vila, casa por casa.

Um tanto arredada, em um ângulo da sala, Catita cosia à luz da vela colocada em uma cantoneira. Às vezes a mão da rapariga, puxando a linha para cerrar o ponto, ficava um momento suspensa no ar; e notava-se na sua cabeça uma ligeira inflexão. Parecia, pelo ar absorto da fisionomia, que sua atenção era atraída para outro ponto. Mas logo voltava à costura, redobrando de rapidez no ponteado.

O que a distraía eram os sons da guitarra que pipilavam no silêncio da rua, e às vezes se destacavam entre as crepitações da lenha no fogo da cozinha.

-- Lucas não vem mais hoje, que diz você? perguntou Fortunata à cunhada.

-- Eu sei lá, comadre, quando ele vem? Há um par de dias já que se espera à toa. Com esta história de rusga, o homem anda mesmo que parece uma mosca tonta.

-- Mas em parte quem lhe mete tanta caraminhola no casco é aquele malandrinho. Já viu que sujeito mal-encarado, senhora?

-- Que quer? O Lucas engraçou com ele. Arrenego de semelhante bisca!

-- E onde foi buscar aquele nome de... como é mesmo?

-- Não te lembras, Catita?

-- O quê, mamãe?

-- Como se chama aquele sujeito que foi com teu pai?

-- Manuel Canho.

-- Ora veja!

-- Se isto é nome de gente!

-- Mas você não viu outra, comadre. Sabe que apelido ele deitou no cavalo? Juca!

-- Tão bom é um como o outro!

-- E tem uma égua que chama Moreninha!

-- Desaforo! Aquilo é de propósito.

-- Quando a mula em que vinha Catita ficou espiritada, pediu-se a ele a égua e não quis dar. Disse que ninguém, senão ele, monta nela! Já se viu que partes?

-- Pois eu hei de montar! disse a rapariga batendo com o pé no chão.

-- Não há de ser por meu gosto.

-- E faz muito bem, comadre.

-- Enquizilo com o tal sujeito, que ninguém faz uma idéia; e o Sr Lucas enquanto não lhe suceder alguma, não descansa.

Neste momento a guitarra chilrou com mais força na porta. Catita fez um gesto de impaciência; deitando arrebatadamente a costura sobre o banco onde estivera sentada, disfarçou dando algumas voltas pelo aposento e afinal dirigiu-se para a frente da casa.

Foi direita à janela; abriu sorrateiramente a rótula e espiou para a rua. O vulto parado à porta aproximou-se mal que a percebeu:

-- Que faz você aí, Félix?

-- Pois ainda pergunta?

-- É escusado andar com estas coisas. Perde o seu tempo!

-- Então, Catita, esta é a esperança que você me dá?

-- Não tenho outra.

-- Não foi o que você me disse em Jaguarão.

-- Não me lembro disso.

-- Você me disse, que chegando aqui havia de decidir.

-- Pois está decidido. Não gosto de você, como hei de ser sua noiva?

-- Catita!

-- Não quero enganar a ninguém.

-- Agora é que fala assim.

-- Algum dia disse que lhe queria bem?

-- Mas também por que não me desenganou logo?

-- Por quê?... Porque você não me aborrecia como agora, que passa toda a noite rondando esta porta. Quem visse, havia de dizer que você é meu namorado.

Félix fez um movimento de cólera; e depois de uma pausa murmurou com voz surda:

-- Bem sei a causa disso!

-- Ah! Sabe? Está mais adiantado do que eu.

-- Não disfarce, Catita. Cuida que eu não tenho olhos para ver?

-- O quê?

-- Você ficou assim desde que nos encontramos com Manuel Canho. Logo naquele dia você não tirou os olhos dele. Bem reparei.

-- Só isso? perguntou a moça com uma risadinha de escárnio.

-- Depois, pensa que eu não via como você se enfeitava por causa dele? A cada instante se requebrando, para ver ser o enfeitiçava; mas ele, nem caso?

-- Félix, melhor é que você se ocupe com sua vida. Me deixe descansada.

-- É para ver se é bom querer bem a quem lhe paga com desprezo.

-- Pois se assim é, não tem você de que se queixar. Faça como eu que sofro calada.

-- Então confessa? Gosta dele? exclamou Félix furioso. Catita caiu em si.

-- Não disse isto!

-- É escusado negar. Já sei o que queria; pode ficar descansada que não hei de aborrecê-la mais. Meu negócio agora é com ele.

-- Que pretende você fazer, Félix?

-- O mesmo que me fizeram; traspassar-lhe o coração, mas com este ferro.

A faca do rapaz luzia nas trevas.

Recobrando-se do soçobro que sentira, a moça proferiu estas palavras com a voz fria e pausada, embora ferida ainda por um imperceptível tremor:

-- Vinga-se bem, Félix. É o modo de matar-me mais depressa.

Fechou-se a rótula.

Nesse momento, reboou no princípio da rua um tropel de animais, e um grito estrondoso farpou o silêncio da noite.

-- Alvíssaras, patriotas! Viva a revolução!

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Sinopse

Leia O Gaúcho, de José de Alencar, grátis no Literunico. Romance regional clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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