Universo da obra
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A Floresta de Stribor
Certo dia, um jovem entrou na Floresta de Stribor sem saber que aquele lugar era encantado. Quem ali penetrava podia encontrar maravilhas, perigos e enganos, pois Stribor, senhor da floresta, guardava poderes antigos sob as raízes, entre as pedras cobertas de musgo e nas clareiras onde a neve parecia brilhar por conta própria.
O rapaz caminhava despreocupado quando viu, junto a uma árvore, uma serpente presa no frio. A cobra tremia, enroscada sobre si mesma, e ele teve pena dela. Aproximou-se, aqueceu-a e levou-a consigo. Mas a serpente não era simples animal. Era uma criatura encantada, capaz de tomar forma humana, e logo apareceu diante dele como uma moça de rara beleza.
O jovem ficou fascinado. A moça falou com doçura, sorriu como quem nada teme, e em pouco tempo fez com que ele esquecesse prudência, casa e conselho. Levou-a para morar com sua mãe, uma velha trabalhadora e bondosa que conhecia o filho como se conhecem as marcas da própria mão. A mãe logo percebeu que havia algo errado naquela nora. A beleza dela era fria, e em seus olhos havia brilho de criatura rasteira.
A moça, porém, fingia inocência diante do marido e maltratava a velha quando estavam a sós. Dava-lhe trabalhos duros, falava com desprezo e inventava queixas. O filho, enfeitiçado, acreditava na esposa e repreendia a mãe. Assim a pobre velha, que antes governava a casa com simplicidade e paz, passou a viver como serva dentro do próprio lar.
A nora queria livrar-se dela. Primeiro, mandou-a buscar água no frio; depois, fez com que saísse para tarefas cada vez mais penosas. A velha suportava tudo sem amaldiçoar o filho. Sua dor era maior porque ele não via a verdade. Quando ela tentava falar, a moça chorava falsamente, e o rapaz se voltava contra a mãe.
Uma noite, a velha viu sair da boca da nora uma pequena língua bifurcada. Então teve certeza: aquela mulher era serpente encantada. Mas de que adiantava saber, se o filho não acreditaria? A casa estava dominada pelo engano.
Em seu sofrimento, a velha encontrou pequenos espíritos domésticos, seres de luz e fuligem que viviam perto do fogo e conheciam os segredos da mata. Eles tiveram pena dela e prometeram ajudá-la. Disseram que, se ela fosse à Floresta de Stribor, talvez o próprio senhor da floresta lhe desse justiça.
A velha partiu pela noite. A neve rangia sob seus pés, e o vento cortava seu rosto. Levava no coração o peso de muitos anos, mas também uma força que não vinha dos braços. Caminhou até que a floresta se abriu diante dela, profunda e silenciosa. Ali as árvores pareciam ouvir, e as sombras pareciam respirar.
Os pequenos ajudantes levaram-na até Stribor. O senhor da floresta apareceu cercado de claridade antiga, como quem existia antes das casas, antes dos caminhos e antes das aldeias. Ouviu a história da velha e compreendeu sua dor. Então ofereceu-lhe uma saída: poderia fazê-la voltar à juventude, dar-lhe uma nova vida, nova casa, novo marido, novos filhos. Tudo seria belo, fresco e feliz. Mas, para isso, ela teria de esquecer o filho que agora a maltratava.
A proposta era grande. A velha estava cansada, humilhada, ferida. Podia deixar para trás a ingratidão, a pobreza e a dor. Podia recomeçar sem memória. Mas quando Stribor falou em esquecer o filho, ela recuou.
Disse que não queria felicidade comprada com esquecimento. Seu filho podia estar enganado, podia ser injusto, podia tê-la ferido; ainda assim era seu filho. Ela preferia conservar sua dor a perder a lembrança dele. Não trocaria a verdade de seu amor por nenhum palácio encantado.
Ao ouvir isso, Stribor se calou. A floresta inteira pareceu prender a respiração. A escolha da velha quebrou o poder do feitiço. O encanto da serpente se desfez, e a falsa esposa perdeu sua forma humana. O jovem viu afinal o que havia trazido para casa e entendeu a injustiça que cometera contra a mãe.
Quando a velha voltou, encontrou o filho livre do engano. Ele chorou, pediu perdão e recebeu de volta aquilo que quase perdera: o amor paciente de sua mãe. A casa deixou de ser lugar de mentira. O fogo voltou a aquecer, os pequenos espíritos se recolheram às sombras, e a Floresta de Stribor guardou novamente seus caminhos.
Desde então, conta-se que há magias capazes de dar riqueza, juventude e esquecimento; mas nenhuma é mais forte do que o amor que aceita sofrer sem renunciar à verdade. Foi isso que a velha levou para dentro da floresta, e foi isso que trouxe de volta.
# Nota editorial
Esta edição Literunico apresenta A Floresta de Stribor, conto de Ivana Brlić-Mažuranić incluído em Priče iz davnine, coleção croata de 1916 inspirada em motivos eslavos antigos. A autora é uma das figuras centrais da literatura infantil croata.
O texto foi preparado como tradução/adaptação em português brasileiro a partir da tradução inglesa em domínio público de F. S. Copeland, publicada no Project Gutenberg como Croatian Tales of Long Ago. A edição preserva o eixo moral do conto: a lealdade da mãe, a ilusão da magia e a escolha pela vida real em vez de uma felicidade obtida pelo esquecimento.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
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