Universo da obra
Universo da obra
Vida de Sonho e Vida RealA pequena Jannita estava sentada sozinha junto a um arbusto leitoso. À sua frente e atrás dela estendia-se a planície vermelha, coberta de areia e de arbustos espinhosos do karoo. Não havia árvores, exceto muito longe, às margens do rio. O sol batia-lhe na cabeça, e ao redor pastavam as cabras angorá que ela guardava.
Jannita não tinha brinquedos, livros ou companhia. Tinha apenas as cabras, o céu, a areia e seus pensamentos. E, porque a solidão ensina as crianças a inventar, ela povoava a planície com reinos, casas, vestidos e pessoas que nunca vira.
Sonhava que era rica. Sonhava com quartos frescos, cortinas brancas, pratos bonitos, pão doce e alguém que a chamasse para dentro quando o sol ficasse cruel. Sonhava com uma boneca de olhos azuis e cabelo macio. Sonhava com um mundo onde ninguém gritava e onde as mãos não eram ásperas de trabalho.
Mas, quando abria os olhos, via as cabras se afastando e precisava correr atrás delas. A areia queimava seus pés; os espinhos rasgavam suas pernas; a sede apertava sua garganta. A vida real a chamava pelo nome, sem ternura.
À tarde, uma cabra jovem se perdeu entre os arbustos. Jannita procurou por ela, chamando até a voz falhar. O medo cresceu: se voltasse sem o animal, haveria castigo. Encontrou enfim a cabra presa, tremendo, e tentou soltá-la. Espinhos feriram seus braços, mas ela trabalhou em silêncio, como fazem os pequenos quando ninguém espera deles outra coisa.
Quando conseguiu libertá-la, o sol já baixava. A criança olhou a planície e, por um instante, pareceu-lhe que o mundo sonhado se dissolvia sobre o real como luz de fim de tarde: pobre, áspero, mas ainda imenso. Tomou o caminho de casa levando as cabras à frente.
Naquela noite talvez sonhasse de novo. Talvez voltasse a ver vestidos, quartos e a boneca impossível. Mas ao amanhecer estaria outra vez na planície. E assim, entre sonho e vida real, crescia a alma da criança africana, aprendendo cedo que a imaginação consola, mas não carrega sozinha o peso do dia.
Uma pequena narrativa africana de Olive Schreiner sobre imaginação, dureza material e a distância entre aquilo que se sonha e aquilo que a vida impõe.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 1458, Dream Life and Real Life: A Little African Story, by Olive Schreiner
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