Universo da obra
Universo da obra
JablanNas encostas frias, onde as casas parecem agarradas à montanha para não serem levadas pelo vento, todos conheciam Jablan. Era touro grande, escuro, de pescoço poderoso e olhar que misturava mansidão e desafio. Para os ricos, talvez fosse apenas animal de trabalho. Para o menino que o guiava, era companheiro, orgulho e quase parente.
O menino crescera entre pedras, pastos curtos e histórias de gente dura. Aprendera cedo que a pobreza conta cada grão, cada feixe de lenha, cada animal do estábulo. Mas, quando punha a mão no flanco quente de Jablan, sentia que possuía algo que nenhum senhor podia medir.
Vieram dias de feira, apostas e conversa alta. Falava-se de outro touro, famoso nas aldeias vizinhas. Os homens se provocavam, riam, lembravam antigas disputas. O menino escutava em silêncio, com o coração apertado. Sabia que Jablan era forte; sabia também que a força, quando levada ao espetáculo, pode virar ferida.
Na manhã da disputa, a névoa ainda se prendia aos campos. Jablan caminhou pesado, sacudindo a cabeça. O menino segurava a corda com mãos pequenas, tentando parecer firme. Quando os dois touros se viram, o ar mudou. Houve um silêncio breve, logo rompido por gritos.
Os animais avançaram. Chifres bateram, cascos cavaram a terra, músculos tremeram sob a pele. Para os homens, era combate; para o menino, era sofrimento. Cada golpe recebido por Jablan parecia acertar também o seu peito. Ele queria vitória, mas queria ainda mais que o amigo não se partisse.
A luta durou o bastante para que todos esquecessem as piadas. Jablan resistiu. Recuou, tornou a avançar, encontrou no próprio corpo uma reserva de vigor que ninguém esperava. Quando o adversário cedeu, um clamor subiu da multidão.
O menino correu para Jablan e abraçou-lhe o pescoço. Não pensava em aposta, em honra de aldeia ou em conversa de adultos. Pensava apenas que aquele animal, companheiro de pobreza e montanha, continuava ali, respirando quente contra ele.
Nas histórias de Kočić, a terra nunca é cenário vazio. Ela pesa nos ombros das pessoas e dos bichos, mas também lhes dá dignidade. Jablan, o touro, permanece como imagem dessa força humilde: vencida muitas vezes pela vida, mas ainda capaz de erguer a cabeça diante do mundo.
Um conto de Petar Kočić sobre vida rural, força, afeto e orgulho nas montanhas da Bósnia.
Fonte-base: Project Rastko, Sabrana djela Petra Kočića; conto Jablan
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