Universo da obra
Universo da obra
O Massacre dos InocentesA aldeia parecia adormecida sob o céu baixo. Havia neve nos telhados, silêncio nas estradas e uma luz pálida sobre as janelas pequenas. As mães aqueciam os filhos junto ao fogo; os homens falavam pouco; os cães, inquietos, farejavam o ar.
Ao longe, primeiro quase como pensamento, ouviu-se o rumor dos soldados. Depois vieram cascos, vozes duras, ferro contra pedra. A aldeia, que até então respirava devagar, compreendeu sem compreender. As portas fecharam-se. As mulheres apertaram os pequenos contra o peito.
A ordem era antiga e monstruosa: procurar crianças, arrancá-las das casas, cumprir a vontade de um poder que temia até os recém-nascidos. Maeterlinck transforma essa cena bíblica em visão de inverno: nada brilha, nada explica, e o horror chega como uma máquina cega.
Os soldados entraram. Não eram demônios de lenda, mas homens cansados, embrutecidos pela obediência. Alguns evitavam olhar. Outros riam para esconder o medo de si mesmos. A aldeia gritou. Um berço tombou; uma porta quebrou; uma mãe correu para o pátio com a criança escondida sob o xale.
O absurdo era esse: os pequenos nada sabiam de reis, profecias ou ameaças. Dormiam, choravam, procuravam leite. Mas a violência dos adultos precisa sempre inventar grandes razões para atingir corpos sem defesa.
Quando tudo passou, a aldeia ficou mais silenciosa que antes. A neve recebeu marcas escuras. Nas casas abertas, o fogo continuava ardendo como se nada pudesse interromper o trabalho indiferente da matéria. Um brinquedo ficou no chão; uma mulher balançava os braços vazios.
Não há consolo fácil nesse conto. Seu poder está em obrigar o leitor a permanecer diante da inocência ferida. Maeterlinck não transforma o sofrimento em ornamento: deixa-o suspenso, frio, quase imóvel, como uma pintura que ninguém consegue esquecer.
E, no centro dessa imobilidade, permanece uma pergunta sem resposta: que mundo é este em que os poderosos temem uma criança? Talvez seja por isso que a história continue voltando. Enquanto houver autoridade capaz de tremer diante da fragilidade, o massacre dos inocentes ainda não terá terminado.
Um conto sombrio de Maurice Maeterlinck, inspirado no motivo bíblico e filtrado pela sensibilidade simbolista belga.
Fonte-base: Project Gutenberg eBook 66985, Deux contes: Le massacre des Innocents; Onirologie, by Maurice Maeterlinck
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