Universo da obra
Universo da obra
Coitado Quem Dixâ Sê TerraQuem deixa a própria terra leva consigo uma ausência que não cabe na mala. Leva o cheiro das ruas, o rumor das vozes conhecidas, a memória das montanhas e do mar, e também uma pergunta que o acompanha: quando voltarei?
No poema de Pedro Monteiro Cardoso, a partida não aparece como aventura luminosa. Ela tem o peso de uma ferida. O emigrante parte porque a vida o empurra, mas o coração permanece preso ao lugar de origem. A distância transforma cada lembrança em coisa viva: a casa, a família, a língua, a ilha.
Coitado quem dixâ sê terra, diz a voz do poema. Coitado não por falta de coragem, mas porque há perdas que nenhuma coragem resolve. O mundo pode oferecer trabalho, caminho e novidade; ainda assim, a terra deixada para trás continua chamando em silêncio.
O drama cabo-verdiano da emigração encontra aqui uma forma direta. Não se trata apenas de sentir saudade de uma paisagem. A terra é também identidade, modo de falar, gesto, comunidade. Afastar-se dela é viver dividido: o corpo segue adiante, mas uma parte da alma fica olhando o porto.
Por isso o poema conversa com toda a tradição insular de Cabo Verde. Como nas mornas, o sentimento não se derrama em excesso; ele se repete, firme, como onda. Cada palavra parece saber que o mar separa, mas também guarda a memória dos que partiram.
Esta versão Literunico apresenta o núcleo afetivo do poema em português brasileiro, preservando sua matéria principal: a compaixão por quem se desenraiza e a dignidade de quem continua pertencendo ao lugar que precisou deixar.
No fim, a terra natal permanece como uma presença. Quem parte pode atravessar oceanos, aprender outros nomes e dormir sob outros céus. Mas, quando a lembrança volta, é a ilha que responde primeiro.
Um poema cabo-verdiano de Pedro Monteiro Cardoso sobre partida, terra natal, saudade e exílio, apresentado em tradução/adaptação Literunico.
Fonte-base: Pedro Monteiro Cardoso, poema atribuído a Folclore caboverdiano; texto de referência em Esquina do Tempo. https://brito-semedo.blogs.sapo.pt/141325.html
Título original em crioulo cabo-verdiano: Coitado Quem Dixâ Sê Terra.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
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