Universo da obra
Universo da obra
DOMINGO F. SARMIENTO
Biografia.—Nasceu na cidade de San Juan em 15 de fevereiro de 1811, no ano seguinte ao da Revolução argentina, cujas agitações impressionaram sua primeira infância. Foi filho de José Clemente Sarmiento e de dona Paula Albarracín, ambos sanjuaninos, e pertencentes a antigas famílias coloniais de Cuyo. Em suas Recordações de província, Sarmiento pintou o ambiente doméstico de sua infância, sua casa, seu povoado, sua família, sua educação, e traçou uma silhueta reticente de seu pai, e uma muito comovida de sua mãe, que influiu poderosamente em sua imaginação e em seu caráter. Os azares de nossas guerras civis o lançaram à ação, e foi montonero unitário, conspirador da Associação de Maio, jornalista de oposição, emigrado, adversário jornalístico de Rosas e, depois de Caseros, deputado, senador, ministro, governador, presidente e general. Mas sua verdadeira grandeza não reside nisso, e sim na ferocidade indomável de seu caráter, na abundância de sua sensibilidade, no poder de sua inteligência, na sugestão de sua obra escrita, tudo o que fez com que, por ocasião de seu centenário, em 1911, nós, argentinos, o proclamássemos um gênio. De 1840 a 1852 residiu no Chile, primeiro como desterrado de Benavides, tirano de San Juan; depois como adversário de Rosas, tirano de Buenos Aires. Assistiu com Urquiza à batalha de Caseros, e foi depois, com Mitre, adversário da política do caudilho entrerriano. Depois de ser ministro argentino em Washington, exerceu a presidência da República, de 1868 a 1874. Como diretor de ensino, ou ministro, ou legislador, ou jornalista, fomentou quase todos os nossos progressos morais e materiais, de 1853 até sua morte, ocorrida em 11 de setembro de 1888, em Assunção do Paraguai, para onde fora em busca de alívio para sua velhice já fatigada. A data de sua morte é efeméride rememorada todos os anos nas escolas nacionais. A biografia mais extensa de Sarmiento é a publicada em 1901 por J. Guillermo Guerra, em Santiago do Chile. Uma sinopse dela foi feita por A. B. S. e distribuída em Buenos Aires pela Comissão Nacional do primeiro centenário de Sarmiento.
Bibliografia.—Sarmiento foi o mais fecundo de nossos escritores. Suas Obras completas, publicadas em Buenos Aires por seu neto Augusto Belín Sarmiento, alcançaram a respeitável quantidade de 32 volumes. Um índice analítico dessa publicação foi editado pela Universidade de La Plata com o título de Bibliografia de Sarmiento. Os principais livros de Sarmiento são: Facundo, traduzido para vários idiomas e repetidamente editado; Recordações de província, Educação popular, Conflitos e harmonias das raças na América; poderiam ser incluídas entre os produtos de seu engenho as ocorrências e gestos recolhidos pelo neto em seu Sarmiento anedótico. A copiosa literatura a que Sarmiento deu lugar é tão extensa que não poderíamos mencioná-la aqui.
Iconografia.—O retrato que acompanha este volume é o de quando escreveu o Facundo.
FACUNDO
NOTÍCIA PRELIMINAR
POR
Ricardo Rojas
NOTÍCIA PRELIMINAR
O Facundo, de Sarmiento, é a obra mais famosa na abundante bibliografia de seu autor e, como é notório, uma das mais afortunadas na bibliografia nacional. Seu título transpôs a ambígua esfera da minoria letrada para descer ao povo e à escola, ao mesmo tempo que sua doutrina penetrava nos campos da controvérsia e da ação sociais. Este livro foi ainda mais longe, transpondo o limite de nosso território para interessar a toda a América, e franqueando as cercanias de nosso idioma para ser vertido, ainda que fragmentariamente, a quatro línguas europeias — fortuna esta última raras vezes alcançada por escritores da América espanhola. Livro assim prestigiado pelo êxito editorial e pela indiscutida glória de seu autor não podia faltar à Biblioteca Argentina, e ela se atreve a reeditá-lo, não para preencher um vazio, pois são numerosas as edições do Facundo, mas porque cremos que sempre haverá leitores para obra tão fundamental, e que nossa coleção ficaria incompleta se omitíssemos esta, vinculada às forças mais essenciais de nossa cultura.
Este é um livro que já tem história. Se, pela própria expansão de seu mérito, não houvesse alcançado êxito tão geral, é bem certo que o teria conseguido sob o glorioso auspício de seu autor, pela persistência, vaidosa primeiro, orgulhosa depois, com que Sarmiento o invocava como o maior de seus títulos. Ao voltar da proscrição, quando Caseros invocava Facundo para alistar-se entre os chefes da milícia e entre os estadistas da organização, ainda continuou a invocá-lo trinta anos depois como uma das forças que derrubaram a tirania de Rosas e como uma das páginas mais vivas da literatura americana. Em 1881, a propósito da tradução italiana deste livro, Sarmiento escrevia: «Não vá o historiador em busca da verdade gráfica ferir as carnes do Facundo, que está vivo; não o toqueis!; assim como é, com todos os seus defeitos, com todas as suas imperfeições, amaram-no seus contemporâneos, festejaram-no todas as literaturas estrangeiras, tirou o sono de todos os que o liam pela primeira vez, e a Pampa Argentina é hoje tão poética na terra como as montanhas da Escócia desenhadas por Walter Scott, para recreio das inteligências[1]. E depois, que os ricos não despojem o pobre tirando a venda dos olhos daqueles que o traduzem, quarenta anos justos depois de ter servido de pedra para arremessá-la diante do carro triunfal de um tirano, e — coisa rara! — o tirano caiu abatido pela opinião do mundo civilizado, formada por esse livro estranho, sem pés nem cabeça, informe, verdadeiro fragmento de rochedo que os titãs lançaram à cabeça...»[2]. O autor exagerava, sem dúvida alguma, nesse fragmento, a importância «cívica» de sua obra, atribuindo somente a esse livro o que foi penoso esforço de toda uma geração; mas ninguém poderá negar que tal fragmento define, com maravilhoso acerto de autocrítica, a verdadeira condição «literária» do glorioso panfleto[3].
Panfleto foi em suas origens o Facundo: panfleto jornalístico, improvisado, partidário. É bem sabido que sua primeira edição apareceu nos folhetins de El Progreso, no Chile, no ano de 1845. Sarmiento publicara nesse mesmo jornal uns Apontamentos biográficos sobre Aldao, o frade caudilho, morto no início daquele ano em Mendoza. Como o livro agradasse aos emigrados argentinos, estes, e alguns jovens camaradas chilenos, o estimularam a escrever uma obra de maior fôlego dentro do gênero, e assim lhe veio a ideia de narrar a vida de Juan Facundo Quiroga. Ele mesmo confessa que improvisou a redação, e que durante os meses de maio e junho El Progreso foi publicando suas entregas à medida que Sarmiento as escrevia. O fundo do relato biográfico era constituído por suas próprias lembranças e pelo testemunho da tradição oral, recolhida em cartas e conversas dos proscritos mais velhos. Mas não reside nisso a força e originalidade deste livro, e sim na associação que fez da vida do herói com o ambiente geográfico e com os problemas urgentes da organização nacional. O meio físico da pampa serviu à sua paleta de escritor para o colorido romanesco da obra, necessário à índole do folhetim e ao gosto romântico de sua época; enquanto as guerras civis do caudilho, protagonista vigoroso desse meio selvagem, serviram ao seu pensamento de político para o imprescindível ataque a Rosas, no qual não desistiram, até depois de Caseros, os poetas e publicistas da proscrição. Origem tão humilde e azarosa explica todas as qualidades e defeitos do Facundo; as falhas de justiça e de verdade que já foram denunciadas; os acertos de intuição social e de beleza literária que constituem a essência vital deste livro. Por estes últimos ele sobreviveu às circunstâncias externas que lhe deram origem, transmutada já sua primitiva e perecível força «política» em nova e durável força «espiritual». O que estava no plano da «história» passou já, graças ao gênio de seu autor, ao plano mais excelso da «epopeia».
Sarmiento não escreveu a biografia de Facundo; criou sua lenda. Compôs o poema épico da montonera; e se desde 1845 este livro serviu como verdade pragmática contra Rosas, e desde 1853 como verdade pragmática contra o deserto, depois de 1860 devemos tender a utilizá-lo somente como verdade pragmática em favor de nossa cultura intelectual, pela emoção profunda de terra nativa, de tradição popular, de língua hispano-americana e de ideal argentino que esse livro traduz em síntese admirável. Ninguém compreendeu melhor que Sarmiento, em sua velhice, a verdadeira e limitada condição desta obra; ninguém discerniu melhor que o próprio autor o que há no Facundo de pessoal e de coletivo, de transitório e de permanente, de provisório e de essencial. O próprio Sarmiento o chamou «o gênesis da Pampa»[4], e ele mesmo diz que ninguém caracterizou melhor a fisionomia de seu livro que o historiador López quando o chamou «história beduína»[5]. «López não se dá conta da origem de suas impressões» — acrescenta. «Ele viu escrever o Facundo sem arquivo em país estrangeiro, ao tempo em que prestava exames de latim escasso no De Bello Jugurthæ, de Salústio, e já conhecemos a indelével e eterna associação das ideias»[6]. E apoiando-se na recôndita e longínqua associação juvenil que crê ver no juízo do antigo companheiro proscrito, Sarmiento insiste com orgulho: «É o Facundo o Jugurta argentino; o livro sem assunto, porque a guerra contra o caudilho númida, escapando no Saara às pesadas legiões romanas, não marca na história; é apenas um episódio sem consequência. O que Roma viu foi um livro, e o que os estudantes e latinistas veem é a figura de Jugurta, o númida, com seu albornoz branco, no cavalo negro, fazendo razias ou fantasias, ou algaradas, diante das legiões. É Salústio, o pintor da África e do deserto»[7]. E, na reticência de seu orgulho, isso quer dizer: «É Sarmiento o pintor da América e da Pampa», ou ainda: «o que os argentinos hão de ver nele é apenas “um livro pitoresco”»; livro imortal e imaginário, e não a verdadeira história de um caudilho cuja obra real foi tão efêmera, e cuja beleza lendária sobrevive, precisamente, graças a estas páginas perduráveis.
Há no Facundo como uma estratificação de várias ordens de ideias, «visíveis» na estrutura íntima deste livro. Descubro nele um elemento biográfico, formado pelo que Sarmiento atribui a Quiroga e Rosas; um elemento político, formado pelo que escreve de unitários e federais; um elemento sociológico, formado pelo que discorre sobre a civilização e a barbárie americanas. Tudo isso é transitório, e o novo leitor haverá de considerá-lo segundo as circunstâncias em que o autor se encontrava em 1845, somadas às retificações ou palinódias que o autor proclamou generosamente depois de 1880. Isto é como a «chave» do Facundo, infelizmente esquecida por seus leitores modernos, e é necessário colocá-la aqui para a mais completa interpretação deste livro.
Já na edição de 1845, Sarmiento escrevera esta confissão oportuna: «Depois de terminada a publicação desta obra, recebi de vários amigos retificações de vários fatos nela referidos. Algumas inexatidões devem ter escapado num trabalho feito às pressas, longe do teatro dos acontecimentos, e sobre assunto do qual nada havia escrito até o presente. Ao coordenar entre si sucessos que tiveram lugar em distintas e remotas províncias, e em épocas diversas, consultando uma testemunha ocular sobre um ponto, registrando manuscritos formados às pressas ou apelando às próprias reminiscências, não é estranho que de vez em quando o leitor argentino sinta falta de algo que conhece ou divirja quanto a algum nome próprio, uma data, trocados ou postos fora de lugar»[8]. Foi dom Valentín Alsina, seu amigo unitário, um dos que retificou não poucos erros de fato e de interpretação. Em gratidão por esse comentário de emendas, Sarmiento lhe dedicou a segunda edição de sua obra, e na «carta-prólogo» dessa edição, em 1851, insiste no caráter improvisado de sua obra e «nas muitas nódoas que afeavam a primeira edição»[9]. Ensaio e revelação para mim mesmo de minhas ideias — diz a Alsina —, o Facundo padeceu dos defeitos de todo fruto da inspiração do momento, sem o auxílio de documentos à mão, e executada mal era concebida, longe do teatro dos acontecimentos, e com propósitos de ação imediata e militante. Tal como era, meu pobre livreco teve a fortuna de encontrar naquela terra, fechada à verdade e à discussão[10], leitores apaixonados, e de mão em mão, deslizando furtivamente, guardado em algum esconderijo secreto para fazer alto em suas peregrinações, empreender longas viagens, e exemplares às centenas chegarem, gastos e amassados de tão lidos, até Buenos Aires, aos escritórios do pobre tirano, aos acampamentos do soldado e à cabana do gaucho, até fazer-se ele próprio, nas falas populares, um mito como seu herói.» «Usei com parcimônia suas notas, guardando as mais substanciais para tempos melhores e trabalhos mais meditados, temeroso de que, ao retocar obra tão informe, desaparecesse sua fisionomia primitiva, e a viçosa e voluntariosa audácia da mal disciplinada concepção»[11].
Essas desabusadas confissões do próprio autor dispensam toda outra prova sobre a escassa autoridade que se deve conceder a esta obra como trabalho de história. É o próprio Sarmiento quem a considera, como se viu: 1.º, como «um fruto da inspiração do momento»; 2.º, como «um ensaio e revelação para si mesmo de suas próprias ideias»; 3.º, como «um mito» à maneira de seu «herói». O caráter subjetivo, parcial e militante do livro fica assim confessado. Sarmiento se reconhece com isso mais nos domínios da epopeia que nos da sociologia ou da história, como acreditaram alguns sociólogos ingênuos ou pedantes, cuja ciência consiste em ignorar a verdadeira história argentina. O caudilho dos Llanos servira-lhe apenas de pretexto à inspiração, para revelar, nessa espécie de mito sintético da guerra civil por ele forjado, os horrores do deserto, da ignorância, do despotismo que tão galhardamente combateu.
Não me é possível assinalar aqui as numerosas retificações que à parte histórica do livro poderão ser feitas[12]. Basta-me recordar, entretanto, que Sarmiento depôs na velhice esse ódio cego pela pessoa de Quiroga e que não foi menos valente sua palinódia sobre Rosas. Estes são fatos que a crítica apaixonada do Facundo também perdeu de vista, e dos quais não é possível prescindir se se deseja qualificar desapaixonadamente este livro.
Sarmiento costumava, em sua velhice, visitar nosso cemitério da Recoleta no dia de Finados. É um de seus mais belos artigos aquele em que referiu, em El Debate, sua visita de 1885. Nele nos conta como ia naquele dia entre as árvores e os mármores, rememorando nomes amados, como diante da tumba de seu filho, ou da tumba dos que haviam estado com ele, ou contra ele, nas lutas violentas de seus dias viris, como aquele Vélez Sarsfield diante de cuja tumba exclama: «Bravo velho! Andamos juntos muitas jornadas memoráveis; salvamos, tomados pela mão, abismos que se abriam sob nossas plantas, e chegamos ao termo dizendo-nos adeus, ambos satisfeitos de ter agido bem e legado à nossa pátria páginas de história sem mancha.» Assim marchava por entre os mármores e as árvores, falando aos mortos com familiaridade pagã, e com a sobre-humana serenidade de um herói já ele próprio morto, que transitasse entre as sombras do Hades... Quando, de repente, ei-lo que se detém diante da tumba de Juan Facundo Quiroga, e a propósito escreve estas belas e nobres palavras, certamente dignas de um filósofo antigo: «Por entre suas colunas já se divisam, antes mesmo de entrar, urnas cinerárias, sepulcros, colunas e sarcófagos, e a bela estátua da Dor, que vela gemendo sobre a tumba de Facundo, a quem a arte literária, mais que o punhal do tirano que o atravessou em Barranca-Yaco, condenou a sobreviver a si mesmo e aos seus, aos quais o sangue não transmite responsabilidades. Dante pode mostrar a Virgílio este leão acorrentado, convertido em mármore de Paros e em estátua grega, porque do outro lado da tumba tudo o que sobrevive deve ser belo e ajustado aos tipos divinos, cujas formas revestirá o homem que vem.» E se estas palavras que sublinho, porque são talvez as mais profundas que Sarmiento tenha escrito, pudessem parecer obscuras em sua própria profundidade, vede como depois concretiza seu juízo definitivo sobre o protagonista desta obra: «Eis aqui — dizia-me um jovem Arce, parente de Quiroga — como eu trago a toga e a clâmide do grego, e não a túnica nem a dalmática do bárbaro. Pude dizer-lhe, por minha vez, que meu sangue corre agora confundido em seus filhos com o de Facundo, e seus corpúsculos vermelhos não se repeliram, porque eram afins. Quiroga passou à história e reveste as formas esculturais dos heróis primitivos, de Ájax e de Aquiles»[13]. Assim conclui aquela passagem magnífica em que, devido à emoção do dia e do lugar, ou à intuição do gênio próximo da morte, pôde ver Facundo transfigurado pela arte: compreender o que havia de epopeia em seu livro e confessar-se idêntico, pelo sangue racial, ao herói maldito de outros dias.
E não foi menos explícita a anistia que Sarmiento «decretou» para Rosas, tão rudemente combatido também no Facundo. Quando Ramos Mejía publicou sua Neurose dos homens célebres na história argentina, em cujas páginas, como se sabe, traça a história clínica do tirano, Sarmiento se apressou a comentar assim esse trabalho: «A tirania de Rosas foi uma loucura em ação» — diz-nos ao começar seu comentário. E logo avança esta advertência corajosa: «Preveniríamos o jovem autor de que não receba como moeda de boa lei todas as acusações que foram feitas a Rosas, naqueles tempos de combate e de luta, pelo próprio interesse das doutrinas científicas que explicariam os fatos verdadeiros»[14]. Com essa austeridade Sarmiento confessava seus excessos polêmicos anteriores a 1852; e se trago tal confissão sobre seus ataques a Rosas, é porque esta outra figura completa a de Facundo na composição de seu livro, e porque o «folhetim» de El Progreso não foi senão um episódio jornalístico da violenta pregação que os emigrados realizavam, do estrangeiro, contra o tirano de Buenos Aires.
Assim esclarecida, pelas próprias palavras do autor, a posição em que o Facundo deve ser considerado pela crítica histórica quanto a seus elementos biográficos, vejamos o que resiste dele em seus elementos políticos e sociológicos.
O Facundo revolve em cada página a arcaica facção de «unitários» e «federais»; mas devo advertir ao leitor novel que não usa tais expressões em seu valor doutrinário, e sim em seu significado ocasional e argentino. «Federal», para um proscrito unitário de 1845, era sinônimo de gaucho localista e brutal; enquanto «unitário», para um caudilho federal de nossas províncias, era sinônimo de «louco» e «traidor». Unitário queria dizer, além disso, portenho que fora monarquista e visitara a Europa, ou vestia sobrecasaca, usava lentes e era «doutor». Não é esta, como se vê, a doutrina de equilíbrio político das diversas regiões argentinas dentro da nacionalidade, isto é, o ideal que despontou incipiente com Juan Ignacio de Gorriti na Junta Grande de 1811, para triunfar com Alberdi e Mitre na Constituição atual. Sarmiento, sendo inimigo dos caudilhos locais porque acreditava que retardavam o triunfo da organização, foi perseguido como «unitário», e sob essa divisa emigrou do país em 1840; mas não pode ser considerado senão federal quem apadrinhou a Constituição de 1853, ainda vigente na República; quem defendeu como governador de San Juan, mais tarde, os direitos autônomos dos governos provinciais; quem ratificou depois, como ministro nos Estados Unidos, sua vocação federal, e quem, na versão inglesa do Facundo, entre 1867 e 1873, sugeriu a Mr. Horace Mann o prólogo em que explica esta gênese de suas ideias. Assim resulta em nossa história este aparente absurdo: que os caudilhos «federais», dominados por Rosas, refizeram a «unidade» argentina, rompida pelos unitários quiméricos de 1826, e que os emigrados «unitários» promulgaram a «federação» ao regressar ao país depois de Caseros. Eis aí outra advertência imprescindível para compreender bem o Facundo e para restituir a tais nomes seu verdadeiro conteúdo histórico; pois facilmente se costuma esquecê-lo na capciosa discussão «doutrinária» de nossos dias.
Também se atribuiu grande importância ao Facundo como doutrina sociológica. Isto provém do fato de que o livro se chamou, em suas origens, Facundo ou Civilização e barbárie[15]. Esta fórmula prestou seus serviços ao progresso do país; mas já é tempo de começar a denunciá-la pelo que tem de parcial e perigosa. Eu a combati em um de meus livros, porque a considero insuficiente para explicar a evolução argentina, sobretudo se, como fazem alguns «sociólogos» de rótulo europeu, creem que «barbárie» quer dizer «província», «federalismo», «tradição», «emoção agreste ou americana», e que «civilização» quer dizer «cosmópolis», centralismo, riqueza, pedanteria livresca ou intelectual. A fórmula de Sarmiento encerra apenas uma verdade pragmática, isto é, utilitária e ocasional, vigorosa em seu tempo, mas já gasta em virtude de sua própria aplicação social, por haver-se transformado tão radicalmente a estrutura econômica e moral da nação argentina. Prefiro não repetir aqui os argumentos que tantas vezes escrevi contra essa fórmula, cujo sentido social variou completamente desde então. Aos que se interessarem pelo assunto, aviso que encontrarão combatida a tese de Sarmiento em meu livro Brasão de Prata. Direi apenas, para abreviar e concluir, que o progresso não é a civilização; a «civilização» é formada de progresso e cultura; o progresso é a meca rica da civilização; a cultura, sua essência. Sarmiento criava com sua teoria de 1845 um eficaz sofisma político para vencer seus inimigos; mas há perigo moral em crer que sua ocasional teoria política é doutrina filosófica de valor permanente, ou seja, que a terra genuína, nume da nacionalidade, é fonte de barbárie, e que civilizar-se consiste em adotar os usos e costumes dos europeus. Por esse caminho poderíamos declarar que os atenienses do tempo de Platão não eram um povo «civilizado», porque não usavam colarinho duro nem fraque, nem montavam em sela inglesa, como desejava Sarmiento.
Tudo isso significa que o Facundo subsiste enquanto é um livro de intuição racial, de emoção literária. O que houve nele de polêmica passou com sua ocasião; o que houve nele de história foi retificado por seu autor e pela ciência; o que houve nele de «sociologia» está sendo retificado pela própria vida de nosso país. Em compensação, com que vigor se levanta, dentre essa folhagem seca de paixões ou ideias, o forte sopro emocional da «epopeia»; como germina a semente do «mito» entre o pó já gelado de seus fatos perecíveis; como se sente ressoar em suas páginas a cavalaria pampeana — coluna conquistadora, malón indígena, falange libertadora ou montonera rebelde — quando passam ajustando seu trote noturno ao ímpeto dessa prosa arrebatadora. Isto é, na verdade, o gênesis da Pampa...
Às intuições de seu autor como artista deveu este livro seu extraordinário êxito desde o dia de sua aparição. Conta Sarmiento como dom Pedro de Angelis, cortesão de Rosas, mostrava furtivamente o volume a seus íntimos — «com a cautelosa precaução do perigo dos Sejanos na corte de Tibério» —, dizendo-lhes: «Isto se move, é a Pampa; o pasto faz ondas agitado pelo ar; sente-se o cheiro das ervas amargas...»[16]. Por isso o traduziram para diversos idiomas, para dar a outras gentes a visão de nossa vida pampeana e mostrar, na raiz do deserto, o germe de nossas lutas. Por isso se destacaram do volume, como páginas de antologia popular, as silhuetas do Rastreador, do Baqueano, do Gaucho mau e do caudilho silvestre, das quais Sarmiento diz que ficaram como a introdução de Volney às «Ruínas de Palmira»... Sarmiento admirava, com efeito, Volney, e talvez não tenha sido de todo estranha essa obra, assim como as de Walter Scott, Victor Hugo, Fenimore Cooper e Chateaubriand, à formação de seus gostos como narrador. Mas seu mérito não consiste em parecer-se com seus mestres, e sim em ser diferente deles. As epígrafes que precedem cada capítulo no Facundo poderiam ser também indício de suas leituras: Humboldt e Lamartine alternam com citações de Shakespeare em francês... Tal coisa mostra o caráter variegado de sua cultura; mas talvez por isso mesmo toda essa variada literatura lhe tenha servido de adubo para que a planta indígena do pensamento genial pudesse crescer mais viçosa. Isto não nasceu de semeadura nem de enxerto, mas de misteriosa germinação natural, como as seculares florestas do trópico.
Ricardo Rojas.
do
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO PRIMEIRO
ASPECTO FÍSICO DA REPÚBLICA ARGENTINA, E CARACTERES, HÁBITOS E IDEIAS QUE ENGENDRA
A extensão dos pampas é tão prodigiosa
que ao norte eles são limitados
por bosques de palmeiras,
e ao sul por neves eternas.
Head.
O continente americano termina ao Sul numa ponta em cuja extremidade se forma o Estreito de Magalhães. A Oeste, e a curta distância do Pacífico, estendem-se, paralelos à costa, os Andes chilenos. A terra que fica a oriente daquela cadeia de montanhas e a ocidente do Atlântico, seguindo o Rio da Prata para o interior pelo Uruguai acima, é o território que se chamou Províncias Unidas do Rio da Prata, e no qual ainda se derrama sangue por denominá-lo República Argentina ou Confederação Argentina. Ao Norte estão o Paraguai e a Bolívia, seus limites presumidos.
A imensa extensão de país que está em seus extremos é inteiramente despovoada, e possui rios navegáveis que ainda não sulcou a frágil barquinha. O mal que aflige a República Argentina é a extensão: o deserto a rodeia por todos os lados, insinua-se em suas entranhas; a solidão, o despovoado sem uma habitação humana, são em geral os limites incontestáveis entre umas e outras províncias. Ali a imensidão por todos os lados: imensa a planície, imensos os bosques, imensos os rios, o horizonte sempre incerto, sempre confundindo-se com a terra entre celagens e vapores tênues que não deixam, na longínqua perspectiva, assinalar o ponto em que o mundo acaba e principia o céu. Ao Sul e ao Norte espreitam-na os selvagens, que aguardam as noites de lua para cair, qual enxame de hienas, sobre os rebanhos que pastam nos campos e as povoações indefesas. Na solitária caravana de carretas que atravessa pesadamente os Pampas e que se detém de tempos em tempos para repousar, a tripulação, reunida em torno do escasso fogo, volta maquinalmente a vista para o Sul ao mais leve sussurro do vento que agita as ervas secas, para afundar os olhos nas trevas profundas da noite em busca dos vultos sinistros da horda selvagem que pode surpreendê-la desprevenida de um momento para outro.
Se o ouvido não escuta rumor algum; se a vista não consegue penetrar o véu obscuro que cobre a calada solidão, volta os olhos, para tranquilizar-se de todo, às orelhas de algum cavalo que está junto ao fogão, para observar se estão imóveis e negligentemente inclinadas para trás. Então continua a conversa interrompida ou leva à boca o charque meio chamuscado de que se alimenta. Se não é a proximidade do selvagem que inquieta o homem do campo, é o temor de um tigre que o espreita, de uma víbora que pode pisar; essa insegurança da vida, que é habitual e permanente nas campanhas, imprime, a meu ver, no caráter argentino certa resignação estoica diante da morte violenta, que faz dela um dos percalços inseparáveis da vida, uma maneira de morrer como qualquer outra, e pode talvez explicar em parte a indiferença com que dão e recebem a morte, sem deixar nos que sobrevivem impressões profundas e duradouras.
A parte habitada deste país privilegiado em dons, e que encerra todos os climas, pode dividir-se em três fisionomias distintas, que imprimem à população condições diversas, segundo a maneira como tem de entender-se com a natureza que a rodeia. Ao Norte, confundindo-se com o Chaco, um bosque espesso cobre com sua ramagem impenetrável extensões que chamaríamos inauditas se, em formas colossais, houvesse algo inaudito em toda a extensão da América. Ao centro, e numa zona paralela, disputam longamente o terreno a pampa e a selva; domina em partes o bosque; degrada-se em matas enfermiças e espinhosas; apresenta-se de novo a selva, à mercê de algum rio que a favorece, até que por fim, ao Sul, triunfa a pampa e ostenta sua lisa e aveludada fronte, infinita, sem limite conhecido, sem acidente notável; é a imagem do mar na terra, a terra como no mapa; a terra aguardando ainda que se lhe mande produzir as plantas e toda espécie de semente.
Poder-se-ia assinalar como um traço notável da fisionomia deste país a aglomeração de rios navegáveis que ao Leste se dão encontro de todos os rumos do horizonte para reunir-se no Prata e apresentar dignamente seu estupendo tributo ao oceano, que o recebe em seus flancos não sem mostras visíveis de perturbação e respeito. Mas esses imensos canais escavados pela solícita mão da Natureza não introduzem mudança alguma nos costumes nacionais. O filho dos aventureiros espanhóis que colonizaram o país detesta a navegação e se considera como aprisionado nos estreitos limites do bote ou da lancha. Quando um grande rio lhe barra o passo, despe-se tranquilamente, prepara seu cavalo e o dirige a nado para algum ilhote que se avista ao longe; chega a ele, descansam cavalo e cavaleiro, e de ilhote em ilhote completa-se por fim a travessia.
Deste modo, o maior favor que a Providência reserva a um povo, o gaucho argentino desdenha, vendo nele antes um obstáculo oposto a seus movimentos que o meio mais poderoso de facilitá-los; deste modo, a fonte do engrandecimento das nações: o que fez a remotíssima celebridade do Egito, o que engrandeceu a Holanda e é a causa do rápido desenvolvimento da América do Norte; a navegação dos rios ou a canalização, é um elemento morto, inexplorado pelo habitante das margens do Bermejo, Pilcomayo, Paraná, Paraguai e Uruguai. Do Prata sobem águas acima algumas embarcações tripuladas por italianos e carcamanos; mas o movimento sobe umas quantas léguas e cessa quase de todo. Não foi dado aos espanhóis o instinto da navegação que possuem em tão alto grau os saxões do Norte. Outro espírito é necessário que agite essas artérias em que hoje se estagnam os fluidos vivificantes de uma nação. De todos esses rios que deveriam levar a civilização, o poder e a riqueza até as profundezas mais recônditas do continente e fazer de Santa Fe, Entre Ríos, Corrientes, Córdoba, Salta, Tucumán e Jujuy outros tantos povos nadando em riquezas e transbordando população e cultura, há apenas um que é fecundo em benefícios para os que moram em suas ribeiras: o Prata, que os resume a todos juntos.
Em sua embocadura estão situadas duas cidades, Montevidéu e Buenos Aires, colhendo hoje alternadamente as vantagens de sua invejável posição. Buenos Aires está chamada a ser um dia a cidade mais gigantesca das duas Américas. Sob um clima benigno, senhora da navegação de cem rios que fluem a seus pés, reclinada molemente sobre um imenso território e com treze províncias interiores que não conhecem outra saída para seus produtos, já seria a Babilônia americana se o espírito da pampa não houvesse soprado sobre ela e se não afogasse em suas fontes o tributo de riqueza que os rios e as províncias têm sempre de levar-lhe. Ela só, na vasta extensão argentina, está em contato com as nações europeias; ela só explora as vantagens do comércio estrangeiro; ela só tem o poder e as rendas. Em vão as províncias lhe pediram que lhes deixasse passar um pouco de civilização, de indústria e de população europeia; uma política estúpida e colonial fez-se surda a esses clamores. Mas as províncias se vingaram, mandando-lhe Rosas, muito e demasiado da barbárie que lhes sobrava.
Bem caro pagaram os que diziam: «a República Argentina acaba no Arroyo del Medio». Agora chega desde os Andes até o mar; a barbárie e a violência desceram a Buenos Aires abaixo do nível das províncias. Não há que se queixar de Buenos Aires, que é grande e o será mais, porque assim lhe coube em sorte. Deveríamos antes queixar-nos da Providência e pedir-lhe que retifique a configuração da terra. Não sendo isso possível, demos por bem-feito o que por mão de Mestre está feito. Queixemo-nos da ignorância desse poder brutal que esteriliza para si e para as províncias os dons que a natura prodigalizou ao povo que extravia. Buenos Aires, em vez de mandar agora luzes, riqueza e prosperidade ao interior, manda-lhe apenas cadeias, hordas exterminadoras e tiranetes subalternos. Também se vinga do mal que as províncias lhe fizeram ao preparar-lhe Rosas!
Assinalei esta circunstância da posição monopolizadora de Buenos Aires para mostrar que há uma organização do solo tão central e unitária naquele país, que ainda que Rosas houvesse gritado de boa-fé federação ou morte!, teria concluído pelo sistema unitário que hoje estabeleceu. Nós, porém, queríamos a unidade na civilização e na liberdade, e ela nos foi dada na barbárie e na escravidão. Mas virá outro tempo em que as coisas entrarão em seu leito ordinário. O que por ora interessa conhecer é que os progressos da civilização se acumulam apenas em Buenos Aires; a pampa é péssima condutora para levá-la e distribuí-la nas províncias, e já veremos o que disso resulta.
Mas por sobre todos esses acidentes peculiares a certas partes daquele território predomina uma feição geral, uniforme e constante; quer a terra esteja coberta pela luxuriosa e colossal vegetação dos trópicos, quer arbustos enfermiços, espinhosos e ásperos revelem a escassa porção de umidade que lhes dá vida; quer, enfim, a pampa ostente sua face desimpedida e monótona, a superfície da terra é geralmente plana e unida, sem que bastem para interromper essa continuidade sem limites as serras de San Luis e Córdoba no centro, e algumas ramificações avançadas dos Andes ao Norte; novo elemento de unidade para a nação que povoar um dia aquelas grandes solidões, pois é sabido que as montanhas que se interpõem entre uns e outros países, e os demais obstáculos naturais, mantêm o isolamento dos povos e conservam suas peculiaridades primitivas.
A América do Norte está chamada a ser uma federação menos pela primitiva independência das plantações que por sua ampla exposição ao Atlântico e pelas diversas saídas que ao interior dão o São Lourenço ao Norte, o Mississippi ao Sul e as imensas canalizações ao centro. A República Argentina é una e indivisível.
Muitos filósofos acreditaram também que as planícies preparavam os caminhos ao despotismo, do mesmo modo que as montanhas davam apoio às resistências da liberdade. Esta planície sem limites que desde Salta a Buenos Aires, e daí a Mendoza, por uma distância de mais de setecentas léguas, permite rodar enormes e pesadas carretas sem encontrar obstáculo algum, por caminhos em que a mão do homem apenas necessitou cortar algumas árvores e matas; esta planície constitui um dos traços mais notáveis da fisionomia interior da República.
Para preparar vias de comunicação basta apenas o esforço do indivíduo e os resultados da natureza bruta; se a arte quisesse prestar-lhe auxílio; se as forças da sociedade tentassem suprir a debilidade do indivíduo, as dimensões colossais da obra intimidariam os mais empreendedores, e a incapacidade do esforço a tornaria inoportuna.
Assim, em matéria de caminhos, a natureza selvagem dará a lei por muito tempo, e a ação da civilização permanecerá débil e ineficaz.
Essa extensão das planícies imprime, por outro lado, à vida do interior certo matiz asiático que não deixa de ser bem pronunciado. Muitas vezes, ao sair a lua tranquila e resplandecente por entre as ervas da terra, eu a saudei maquinalmente com estas palavras de Volney, em sua descrição das Ruínas: A lua cheia, a Oriente, erguia-se sobre um fundo azulado nas planícies marginais do Eufrates. E, com efeito, há algo nas solidões argentinas que traz à memória as solidões asiáticas; alguma analogia encontra o espírito entre a pampa e as planícies que medeiam entre o Tigre e o Eufrates; algum parentesco entre a tropa de carretas solitária que cruza nossas solidões para chegar, ao fim de uma marcha de meses, a Buenos Aires, e a caravana de camelos que se dirige a Bagdá ou Esmirna. Nossas carretas viajantes são uma espécie de esquadra de pequenos navios, cuja gente tem costumes, idiomas e vestes peculiares que a distinguem dos outros habitantes, como o marinheiro se distingue dos homens de terra.
O capataz é um caudilho, como na Ásia o chefe da caravana; para esse destino é necessária uma vontade de ferro, um caráter arrojado até a temeridade, para conter a audácia e a turbulência dos filibusteiros de terra que ele há de governar e dominar sozinho no desamparo do deserto. Ao menor sinal de insubordinação, o capataz ergue seu chicote de ferro e descarrega sobre o insolente golpes que causam contusões e feridas; e, se a resistência se prolonga, antes de apelar às pistolas, cujo auxílio em geral desdenha, salta do cavalo com a formidável faca na mão e reivindica bem depressa sua autoridade pela destreza superior com que sabe manejá-la.
Aquele que morre nessas execuções do capataz não deixa direito a reclamação alguma, considerando-se legítima a autoridade que o assassinou.
É assim que na vida argentina começa a estabelecer-se, por essas peculiaridades, o predomínio da força brutal, a preponderância do mais forte, a autoridade sem limites e sem responsabilidade dos que mandam, a justiça administrada sem formas e sem debate. A tropa de carretas leva, além disso, armamento, um fuzil ou dois por carreta, e às vezes um canhãozinho giratório naquela que vai à dianteira. Se os bárbaros a assaltam, forma um círculo atando umas carretas às outras, e quase sempre resiste vitoriosamente às cobiças dos selvagens ávidos de sangue e pilhagem.
A tropa de mulas cai com frequência indefesa nas mãos desses beduínos americanos, e raramente os tropeiros escapam de ser degolados. Nessas longas viagens, o proletário argentino adquire o hábito de viver longe da sociedade e de lutar individualmente contra a natureza, endurecido nas privações, e sem contar com outros recursos senão sua capacidade e sua manha pessoal para precaver-se de todos os riscos que o cercam continuamente.
O povo que habita essas extensas comarcas compõe-se de duas raças diversas que, misturando-se, formam meios-tons imperceptíveis: espanhóis e indígenas. Nas campanhas de Córdoba e San Luis predomina a raça espanhola pura, e é comum encontrar nos campos, pastoreando ovelhas, moças tão brancas, tão rosadas e formosas como gostariam de ser as elegantes de uma capital. Em Santiago del Estero, o grosso da população campesina fala ainda o quíchua, que revela sua origem índia. Em Corrientes, os camponeses usam um dialeto espanhol muito gracioso: — Dê-me, general, um chiripá — diziam a Lavalle seus soldados.
Na campanha de Buenos Aires ainda se reconhece o soldado andaluz, e na cidade predominam os sobrenomes estrangeiros. A raça negra, já quase extinta, exceto em Buenos Aires, deixou seus zambos e mulatos, habitantes das cidades, elo que liga o homem civilizado ao matuto; raça inclinada à civilização, dotada de talento e dos mais belos instintos de progresso.
No mais, da fusão dessas três famílias resultou um todo homogêneo, que se distingue por seu amor à ociosidade e incapacidade industrial, quando a educação e as exigências de uma posição social não vêm pôr-lhe espora e tirá-lo de seu passo habitual. Muito deve ter contribuído para produzir esse resultado desgraçado a incorporação de indígenas feita pela colonização. As raças americanas vivem na ociosidade e mostram-se incapazes, mesmo por meio da compulsão, de dedicar-se a um trabalho duro e contínuo. Isso sugeriu a ideia de introduzir negros na América, o que tão fatais resultados produziu. Mas a raça espanhola tampouco se mostrou melhor dotada de ação quando se viu, nos desertos americanos, abandonada a seus próprios instintos.
Dá compaixão e vergonha, na República Argentina, comparar a colônia alemã ou escocesa do Sul de Buenos Aires e a vila que se forma no interior; na primeira, as casinhas são pintadas, a frente da casa sempre asseada, adornada de flores e arbustinhos graciosos; a mobília simples, mas completa; a louça, de cobre ou estanho, sempre reluzente; a cama com cortininhas graciosas, e os habitantes em movimento e ação contínuos. Ordenhando vacas, fabricando manteiga e queijos, algumas famílias conseguiram fazer fortunas colossais e retirar-se para a cidade a fim de gozar comodidades.
A vila nacional é o reverso dessa medalha: crianças sujas e cobertas de andrajos vivem com uma matilha de cães; homens estendidos pelo chão na mais completa inação; o desasseio e a pobreza por toda parte; uma mesinha e baús de couro como toda mobília; ranchos miseráveis por habitação, e um aspecto geral de barbárie e incúria os tornam notáveis.
Essa miséria, que já vai desaparecendo, e que é um acidente das campanhas pastoris, motivou sem dúvida as palavras que o despeito e a humilhação das armas inglesas arrancaram a Walter Scott. «As vastas planícies de Buenos Aires — diz ele — não são povoadas senão por cristãos selvagens, conhecidos sob o nome de huachos, querendo dizer gauchos, cujo principal mobiliário consiste em crânios de cavalos, cujo alimento é carne crua e água, e cujo passatempo favorito é arrebentar cavalos em corridas forçadas. Infelizmente — acrescenta o bom gringo — preferiram sua independência nacional aos nossos algodões e musselinas»[17]. Seria bom propô-la à Inglaterra, para ver apenas quantas varas de tecido e quantas peças de musselina daria por possuir estas planícies de Buenos Aires.
Por aquela extensão sem limites, tal como a descrevemos, estão espalhadas aqui e ali catorze cidades capitais de província, que, se houvéssemos de seguir a ordem aparente, classificaríamos por sua colocação geográfica: Buenos Aires, Santa Fe, Entre Ríos e Corrientes, às margens do Paraná; Mendoza, San Juan, Rioja, Catamarca, Tucumán, Salta e Jujuy, quase em linha paralela aos Andes chilenos; e Santiago, San Luis e Córdoba, ao centro.
Mas essa maneira de enumerar os povos argentinos não conduz a nenhum dos resultados sociais que vou buscando. A classificação que serve a meu objeto é a que resulta dos meios de vida do povo das campanhas, que é o que influi em seu caráter e espírito. Já disse que a vizinhança dos rios não imprime modificação alguma, pois não são navegados senão em escala insignificante e sem influência. Agora, todos os povos argentinos, salvo San Juan e Mendoza, vivem dos produtos do pastoreio; Tucumán explora, além disso, a agricultura, e Buenos Aires, além de um pastoreio de milhões de cabeças de gado, entrega-se às múltiplas e variadas ocupações da vida civilizada.
As cidades argentinas têm a fisionomia regular de quase todas as cidades americanas: suas ruas cortadas em ângulos retos, sua população disseminada numa ampla superfície, se se excetua Córdoba, que, edificada em recinto curto e limitado, tem todas as aparências de uma cidade europeia, realçadas ainda pela multidão de torres e cúpulas de seus numerosos e magníficos templos. A cidade é o centro da civilização argentina, espanhola, europeia; ali estão as oficinas das artes, as lojas do comércio, as escolas e colégios, os juizados, tudo o que caracteriza, enfim, os povos cultos.
A elegância nos modos, as comodidades do luxo, os vestidos europeus, o fraque e a sobrecasaca têm ali seu teatro e seu lugar conveniente. Não sem objeto faço esta enumeração trivial. A cidade capital das províncias pastoris existe algumas vezes sozinha, sem cidades menores, e não falta alguma em que o terreno inculto chegue a ligar-se com as ruas. O deserto as circunda a maior ou menor distância: cerca-as, oprime-as; a natureza selvagem as reduz a estreitos oásis de civilização encravados numa planície inculta de centenas de milhas quadradas, apenas interrompida por uma ou outra vila de consideração. Buenos Aires e Córdoba são as que maior número de vilas puderam lançar sobre a campanha, como outros tantos focos de civilização e de interesses municipais; e isto já é um fato notável.
O homem da cidade veste o traje europeu, vive a vida civilizada tal como a conhecemos em toda parte; ali estão as leis, as ideias de progresso, os meios de instrução, alguma organização municipal, o governo regular etc. Saindo do recinto da cidade, tudo muda de aspecto: o homem do campo usa outro traje, que chamarei americano por ser comum a todos os povos; seus hábitos de vida são diversos, suas necessidades peculiares e limitadas; parecem duas sociedades distintas, dois povos estranhos um ao outro. Há ainda mais: o homem da campanha, longe de aspirar a assemelhar-se ao da cidade, repele com desdém seu luxo e seus modos corteses, e o vestido do cidadão, o fraque, a capa, a sela, nenhum sinal europeu pode apresentar-se impunemente na campanha. Tudo o que há de civilizado na cidade está bloqueado ali, proscrito fora, e quem ousasse mostrar-se de sobrecasaca, por exemplo, e montado em sela inglesa, atrairia sobre si as zombarias e as agressões brutais dos camponeses.
Estudemos agora a fisionomia exterior das extensas campinas que rodeiam as cidades e penetremos na vida interior de seus habitantes. Já disse que em muitas províncias o limite forçoso é o deserto intermediário e sem água. Não sucede assim, em geral, com a campanha de uma província, na qual reside a maior parte de sua população. A de Córdoba, por exemplo, que conta 160.000 almas, mal tem 20 dentro do recinto da cidade isolada; todo o grosso da população está nos campos, que, assim como em geral são planos, quase por toda parte são pastosos, quer estejam cobertos de bosques, quer nus de vegetação maior, e em alguns com tanta abundância e de tão primorosa qualidade que o prado artificial não chegaria a superá-los. Mendoza e San Juan, sobretudo, excetuam-se dessa peculiaridade da superfície inculta, porque seus habitantes vivem principalmente dos produtos da agricultura. Em todo o mais, abundando os pastos, a criação de gado é, não a ocupação dos habitantes, mas seu meio de subsistência. Já a vida pastoril nos torna impensadamente a trazer à imaginação a lembrança da Ásia, cujas planícies imaginamos sempre cobertas aqui e ali pelas tendas do calmuco, do cossaco ou do árabe. A vida primitiva dos povos, a vida eminentemente bárbara e estacionária, a vida de Abraão, que é a do beduíno de hoje, assoma nos campos argentinos, embora modificada pela civilização de um modo estranho.
A tribo árabe que vagueia pelas solidões asiáticas vive reunida sob o mando de um ancião da tribo ou de um chefe guerreiro; a sociedade existe, ainda que não esteja fixa em ponto determinado da terra; as crenças religiosas, as tradições imemoriais, a invariabilidade dos costumes, o respeito aos anciãos formam, reunidos, um código de leis, de usos e práticas de governo, que mantêm a moral, tal como a compreendem, a ordem e a associação da tribo. Mas o progresso está sufocado, porque não pode haver progresso sem a posse permanente do solo, sem a cidade, que é a que desenvolve a capacidade industrial do homem e lhe permite ampliar suas aquisições.
Nas planícies argentinas não existe a tribo nômade; o pastor possui o solo com títulos de propriedade; está fixo em um ponto que lhe pertence; mas, para ocupá-lo, foi necessário dissolver a associação e derramar as famílias sobre uma imensa superfície. Imaginai uma extensão de 2.000 léguas quadradas toda coberta de população, mas com as habitações colocadas a quatro léguas de distância umas das outras, às vezes a oito, a duas as mais próximas. O desenvolvimento da propriedade mobiliária não é impossível; os gozos do luxo não são de todo incompatíveis com esse isolamento; a fortuna pode erguer um soberbo edifício no deserto; mas falta o estímulo, desaparece o exemplo, a necessidade de manifestar-se com dignidade que se sente nas cidades não se faz sentir ali, no isolamento e na solidão. As privações indispensáveis justificam a preguiça natural, e a frugalidade nos gozos traz em seguida todas as exterioridades da barbárie. A sociedade desapareceu completamente; resta apenas a família feudal, isolada, reconcentrada; e, não havendo sociedade reunida, toda espécie de governo se torna impossível: a municipalidade não existe, a polícia não pode exercer-se e a justiça civil não tem meios de alcançar os delinquentes.
Ignoro se o mundo moderno apresenta um gênero de associação tão monstruoso como este. É todo o contrário do município romano, que reconcentrava num recinto toda a população e dali saía para lavrar os campos circunvizinhos. Existia, pois, uma organização social forte, e seus benéficos resultados se fazem sentir até hoje e prepararam a civilização moderna. Assemelha-se à antiga slobada eslava, com a diferença de que aquela era agrícola e, portanto, mais suscetível de governo; o espalhamento da população não era tão extenso como este. Diferencia-se da tribo nômade porque esta ao menos anda em sociedade, ainda que não se aposse do solo. É, enfim, algo parecido com a feudalidade da Idade Média, em que os barões residiam no campo e dali hostilizavam as cidades e assolavam as campanhas; mas aqui faltam o barão e o castelo feudal. Se o poder se levanta no campo, é momentaneamente, é democrático: nem se herda, nem pode conservar-se, por falta de montanhas e posições fortes. Daqui resulta que até a tribo selvagem da pampa está melhor organizada que nossas campanhas para o desenvolvimento moral.
Mas o que apresenta de notável essa sociedade, quanto ao seu aspecto social, é sua afinidade com a vida antiga, com a vida espartana ou romana, se por outro lado não tivesse uma dessemelhança radical. O cidadão livre de Esparta ou de Roma lançava sobre seus escravos o peso da vida material, o cuidado de prover à subsistência, enquanto ele vivia livre de cuidados no fórum, na praça pública, ocupando-se exclusivamente dos interesses do Estado, da paz, da guerra, das lutas de partido. O pastoreio proporciona as mesmas vantagens, e a função inumana do hilota antigo é desempenhada pelo gado. A procriação espontânea forma e aumenta indefinidamente a fortuna; a mão do homem está de sobra; seu trabalho, sua inteligência, seu tempo não são necessários para a conservação e o aumento dos meios de viver. Mas, se nada disso necessita para o material da vida, as forças que economiza não pode empregá-las como o romano; falta-lhe a cidade, o município, a associação íntima, e, portanto, falta-lhe a base de todo desenvolvimento social; não estando reunidos os estancieiros, não têm necessidades públicas a satisfazer; numa palavra: não há res pública.
O progresso moral, a cultura da inteligência, descuidada na tribo árabe ou tártara, é aqui não só descuidada, mas impossível. Onde colocar a escola para que assistam às lições as crianças disseminadas a dez léguas de distância em todas as direções? Assim, pois, a civilização é de todo irrealizável, a barbárie é normal[18], e graças se os costumes domésticos conservam um curto depósito de moral. A religião sofre as consequências da dissolução da sociedade; a paróquia é nominal, o púlpito não tem auditório, o sacerdote foge da capela solitária ou se desmoraliza na inação e na solidão; os vícios, o simoniaquismo, a barbárie normal penetram em sua cela e convertem sua superioridade moral em elementos de fortuna e de ambição, porque por fim acaba por fazer-se caudilho de partido.
Presenciei uma cena campestre digna dos tempos primitivos do mundo, anteriores à instituição do sacerdócio. Achava-me na Serra de San Luis, em casa de um estancieiro cujas duas ocupações favoritas eram rezar e jogar. Havia edificado uma capela na qual aos domingos à tarde ele mesmo rezava o rosário, para suprir o sacerdote e o ofício divino de que por anos haviam carecido. Era aquele um quadro homérico: o sol chegava ao ocaso; os rebanhos que voltavam ao redil fendidiam o ar com seus confusos balidos; o dono da casa, homem de sessenta anos, de uma fisionomia nobre, em que a raça europeia pura se ostentava pela brancura da tez, os olhos azulados, a fronte espaçosa e desimpedida, fazia o coro, ao qual respondiam uma dúzia de mulheres e alguns mocetões, cujos cavalos, ainda mal domados, estavam amarrados perto da porta da capela. Concluído o rosário, fez uma fervorosa oferenda. Jamais ouvi voz mais cheia de unção, fervor mais puro, fé mais firme, nem oração mais bela, mais adequada às circunstâncias que a que recitou. Pedia nela a Deus chuva para os campos, fecundidade para os rebanhos, paz para a República, segurança para os caminhantes... Sou muito propenso a chorar, e daquela vez chorei até soluçar, porque o sentimento religioso despertara em minha alma com exaltação e como uma sensação desconhecida, porque nunca vi cena mais religiosa; cria estar nos tempos de Abraão, em sua presença, na de Deus e da natureza que o revela; a voz daquele homem cândido e inocente fazia vibrar todas as minhas fibras e me penetrava até a medula dos ossos.
Eis ao que está reduzida a religião nas campanhas pastoris: à religião natural; o cristianismo existe, como a língua espanhola, em forma de tradição que se perpetua, mas corrompido, encarnado em superstições grosseiras, sem instrução, sem culto e sem convicções. Em quase todas as campanhas afastadas das cidades ocorre que, quando chegam comerciantes de San Juan ou de Mendoza, apresentam-lhes três ou quatro crianças de meses e de um ano para que as batizem, satisfeitos de que, por sua boa educação, poderão fazê-lo de modo válido; e não é raro que, à chegada de um sacerdote, apresentem-se a ele mocetões, que vêm domando um potro, para que lhes ponha o óleo e administre o batismo sub conditione.
Na falta de todos os meios de civilização e de progresso, que não podem desenvolver-se senão com a condição de que os homens estejam reunidos em sociedades numerosas, vede a educação do homem no campo. As mulheres guardam a casa, preparam a comida, tosquiam as ovelhas, ordenham as vacas, fabricam os queijos e tecem os tecidos grosseiros de que se vestem; todas as ocupações domésticas, todas as indústrias caseiras são exercidas pela mulher; sobre ela pesa quase todo o trabalho, e graças se alguns homens se dedicam a cultivar um pouco de milho para o alimento da família, pois o pão é incomum como mantimento ordinário. As crianças exercitam suas forças e se adestram por prazer no manejo do laço e das boleadeiras, com que molestam e perseguem sem descanso as bezerras e cabras; quando são cavaleiras, e isso sucede logo depois de aprenderem a caminhar, servem a cavalo em alguns afazeres; mais tarde, quando já são fortes, percorrem os campos caindo e levantando-se, rolando de propósito junto às tocas de viscachas, saltando precipícios e adestrando-se no manejo do cavalo; quando a puberdade assoma, consagram-se a domar potros selvagens, e a morte é o menor castigo que os aguarda se um momento lhes faltam as forças ou a coragem. Com a primeira juventude vem a completa independência e a desocupação.
Aqui principia a vida pública, direi, do gaucho, pois sua educação já está terminada. É preciso ver esses espanhóis, somente pelo idioma e pelas confusas noções religiosas que conservam, para saber apreciar os caracteres indômitos e altivos que nascem dessa luta do homem isolado com a natureza selvagem, do racional com o bruto; é preciso ver essas faces fechadas de barba, esses semblantes graves e sérios, como os dos árabes asiáticos, para julgar o compassivo desdém que lhes inspira a vista do homem sedentário das cidades, que pode ter lido muitos livros, mas que não sabe aterrar um touro bravio e dar-lhe morte; que não saberia prover-se de cavalo em campo aberto, a pé e sem auxílio de ninguém; que nunca deteve um tigre, recebendo-o com o punhal numa mão e o poncho enrolado na outra, para metê-lo em sua boca enquanto lhe atravessa o coração e o deixa estendido a seus pés. Esse hábito de triunfar das resistências, de mostrar-se sempre superior à natureza, de desafiá-la e vencê-la, desenvolve prodigiosamente o sentimento da importância individual e da superioridade. Os argentinos, de qualquer classe que sejam, civilizados ou ignorantes, têm uma alta consciência de seu valor como nação; todos os demais povos americanos lhes lançam em rosto essa vaidade e se mostram ofendidos com sua presunção e arrogância. Creio que a acusação não é de todo infundada, e não me pesa por isso. Ai do povo que não tem fé em si mesmo! Para esse não foram feitas as grandes coisas! Quanto não terá podido contribuir para a independência de uma parte da América a arrogância desses gauchos argentinos que nada viram sob o sol melhor que eles, nem o homem sábio nem o poderoso? O europeu é para eles o último de todos, porque não resiste a dois corcovos do cavalo[19]. Se a origem dessa vaidade nacional nas classes inferiores é mesquinha, não são por isso menos nobres as consequências, como não é menos pura a água de um rio porque nasça de vertentes lamacentas e infectas. É implacável o ódio que lhes inspiram os homens cultos, e invencível seu desgosto por seus trajes, usos e maneiras. Dessa massa são amassados os soldados argentinos, e é fácil imaginar os hábitos que tal gênero pode dar em valor e sofrimento para a guerra; acrescente-se que desde a infância estão habituados a matar reses, e que esse ato de crueldade necessária os familiariza com o derramamento de sangue e endurece seu coração contra os gemidos das vítimas.
A vida do campo, pois, desenvolveu no gaucho as faculdades físicas, sem nenhuma das da inteligência. Seu caráter moral ressente-se de seu hábito de triunfar dos obstáculos e do poder da natureza; é forte, altivo, enérgico. Sem nenhuma instrução, sem necessitá-la tampouco, sem meios de subsistência como sem necessidades, é feliz em meio à sua pobreza e às suas privações, que não são tais para quem nunca conheceu maiores gozos nem elevou mais alto seus desejos; de maneira que, se essa dissolução da sociedade enraíza profundamente a barbárie pela impossibilidade e inutilidade da educação moral e intelectual, não deixa, por outro lado, de ter seus atrativos. O gaucho não trabalha; o alimento e a roupa encontra-os preparados em sua casa; um e outro lhos proporcionam seus gados, se é proprietário; a casa do patrão ou do parente, se nada possui. As atenções que o gado exige reduzem-se a correrias e partidas de prazer. A ferra, que é como a vindima dos agricultores, é uma festa cuja chegada é recebida com transportes de júbilo; ali é o ponto de reunião de todos os homens a vinte léguas em redor; ali, a ostentação da incrível destreza no laço. O gaucho chega à ferra ao passo lento e medido de seu melhor parelheiro, que detém a distância afastada; e para gozar melhor o espetáculo, cruza a perna sobre o pescoço do cavalo. Se o entusiasmo o anima, desce lentamente do cavalo, desenrola seu laço e o lança sobre um touro que passa com a velocidade do raio a quarenta passos de distância; prendeu-o por uma unha, que era o que se propunha, e volta tranquilo a enrolar sua corda.
CAPÍTULO II
ORIGINALIDADE E CARACTERES ARGENTINOS.—O RASTREADOR.—O BAQUEANO.—O GAUCHO MAU.—O CANTOR
Assim como o oceano, as estepes
enchem o espírito do sentimento
do infinito.
Humboldt.
Se das condições da vida pastoril, tal como a constituíram a colonização e a incúria, nascem graves dificuldades para qualquer organização política, e muitas mais para o triunfo da civilização europeia, de suas instituições, e da riqueza e liberdade que são suas consequências, não se pode, por outro lado, negar que essa situação tem seu lado poético, fases dignas da pena do romancista. Se um clarão de literatura nacional pode brilhar momentaneamente nas novas sociedades americanas, é aquele que resultará da descrição das grandiosas cenas naturais e, sobretudo, da luta entre a civilização europeia e a barbárie indígena, entre a inteligência e a matéria; luta imponente na América, e que dá lugar a cenas tão peculiares, tão características e tão fora do círculo de ideias em que se educou o espírito europeu, porque as molas dramáticas se tornam desconhecidas fora do país de onde são tomadas, e os usos surpreendentes e originais, os caracteres.
O único romancista norte-americano que conseguiu fazer-se um nome europeu é Fenimore Cooper, e isso porque transportou a cena de suas descrições para fora do círculo ocupado pelos plantadores, para o limite entre a vida bárbara e a civilizada, para o teatro da guerra em que as raças indígenas e a raça saxã estão combatendo pela posse do terreno.
Não de outro modo nosso jovem poeta Echeverría conseguiu chamar a atenção do mundo literário espanhol com seu poema intitulado A Cativa. Esse bardo argentino deixou de lado Dido e Arjea, que seus predecessores, os Varela, trataram com mestria clássica e estro poético, mas sem sucesso e sem consequência, porque nada acrescentavam ao caudal de noções europeias; e voltou os olhos para o deserto, e lá, na imensidão sem limites, nas solidões em que vagueia o selvagem, na longínqua zona de fogo que o viajante vê aproximar-se quando os campos se incendeiam, achou as inspirações que o espetáculo de uma natureza solene, grandiosa, incomensurável, calada, proporciona à imaginação; e então o eco de seus versos pôde fazer-se ouvir com aprovação até mesmo pela península espanhola.
É preciso notar de passagem um fato muito explicativo dos fenômenos sociais dos povos. Os acidentes da natureza produzem costumes e usos peculiares a esses acidentes, fazendo com que, onde tais acidentes se repetem, voltem a encontrar-se os mesmos meios de enfrentá-los, inventados por povos distintos. Isso me explica por que a flecha e o arco se encontram em todos os povos selvagens, quaisquer que sejam sua raça, sua origem e sua colocação geográfica. Quando lia em O último dos moicanos, de Cooper, que Olho de Falcão e Uncas haviam perdido o rastro dos Mingos em um arroio, disse: «Vão tapar o arroio.» Quando em A Pradaria o Trapeiro mantém a incerteza e a agonia enquanto o fogo os ameaça, um argentino teria aconselhado o mesmo que o Trapeiro sugere por fim, que é limpar um lugar para resguardar-se e incendiá-lo por sua vez, a fim de poder retirar-se do fogo que invade sobre as cinzas do que se acendeu. Tal é a prática dos que atravessam a pampa para salvar-se dos incêndios do pasto. Quando os fugitivos de A Pradaria encontram um rio, e Cooper descreve a misteriosa operação do Pawnie com o couro de búfalo que recolhe, ele vai fazer a pelota, disse a mim mesmo: pena que não haja uma mulher que a conduza, pois entre nós são as mulheres que cruzam os rios com a pelota presa aos dentes por um laço. O procedimento para assar uma cabeça de búfalo no deserto é o mesmo que usamos para sapecar uma cabeça de vaca ou um lombo de bezerro. Enfim, outros mil acidentes que omito provam a verdade de que modificações análogas do solo trazem análogos costumes, recursos e expedientes. Não é outra a razão de encontrar em Fenimore Cooper descrições de usos e costumes que parecem plagiadas da pampa; assim, encontramos nos hábitos pastoris da América reproduzidos, até nos trajes, o semblante grave e a hospitalidade árabes.
Existe, pois, um fundo de poesia que nasce dos acidentes naturais do país e dos costumes excepcionais que engendra. A poesia, para despertar — porque a poesia é como o sentimento religioso, uma faculdade do espírito humano —, necessita do espetáculo do belo, do poder terrível, da imensidão da extensão, do vago, do incompreensível, porque somente onde acaba o palpável e vulgar começam as mentiras da imaginação, o mundo ideal. Agora pergunto: que impressões há de deixar no habitante da República Argentina o simples ato de cravar os olhos no horizonte e ver... não ver nada? Pois quanto mais afunda os olhos naquele horizonte incerto, vaporoso, indefinido, mais ele se afasta, mais o fascina, confunde-o e o submerge na contemplação e na dúvida. Onde termina aquele mundo que quer em vão penetrar? Não sabe! Que há além do que vê? A solidão, o perigo, o selvagem, a morte. Eis já a poesia. O homem que se move nessas cenas sente-se assaltado por temores e incertezas fantásticas, por sonhos que o preocupam desperto.
Daqui resulta que o povo argentino é poeta por caráter, por natureza. E como deixaria de sê-lo, quando no meio de uma tarde serena e aprazível uma nuvem torva e negra se ergue sem que se saiba de onde, estende-se sobre o céu enquanto se cruzam duas palavras, e de repente o estrondo do trovão anuncia a tormenta que deixa frio o viajante, retendo o alento por medo de atrair um raio entre dois mil que caem em torno de si? A obscuridade sucede depois à luz; a morte está por toda parte; um poder terrível, incontrastável, o fez num momento recolher-se em si mesmo e sentir seu nada no meio daquela natureza irritada; sentir Deus, para dizê-lo de uma vez, na aterradora magnificência de suas obras. Que mais cores para a paleta da fantasia? Massas de trevas que enevoam o dia; massas de luz lívida, trêmula, que ilumina por um instante as trevas e mostra a pampa a distâncias infinitas, cruzando-as vivamente o raio, enfim, símbolo do poder. Essas imagens foram feitas para ficar profundamente gravadas. Assim, quando a tormenta passa, o gaucho fica triste, pensativo, sério, e a sucessão de luz e trevas continua em sua imaginação, do mesmo modo que, quando olhamos fixamente o sol, seu disco nos fica por longo tempo na retina.
Perguntai ao gaucho, a quem os raios matam de preferência, e ele vos introduzirá num mundo de idealizações morais e religiosas, mescladas de fatos naturais, mas mal compreendidos, de tradições supersticiosas e grosseiras. Acrescente-se que, se é certo que o fluido elétrico entra na economia da vida humana e é o mesmo que chamam fluido nervoso, o qual, excitado, subleva as paixões e acende o entusiasmo, muitas disposições deve ter para os trabalhos da imaginação o povo que habita sob uma atmosfera recarregada de eletricidade a ponto de a roupa esfregada crepitar como o pelo contrariado do gato.
Como não há de ser poeta aquele que presencia estas cenas imponentes:
Gira em vão, reconcentra
sua imensidão, e não encontra
a vista em seu vivo anelo
onde fixar seu fugaz voo,
como o pássaro no mar.
Por toda parte campos e herdades,
guaridas de ave e bruto;
por toda parte céu e solidões
só por Deus conhecidas,
que só Ele pode sondar[20],
ou aquele que tem diante da vista esta natureza engalanada?:
Das entranhas da América
dois caudais se destacam:
o Paraná, face de pérolas,
e o Uruguai, face de nácar.
Os dois entre bosques correm
ou entre floridas barrancas,
como dois grandes espelhos
entre molduras de esmeraldas.
Saúdam-nos em sua passagem
a melancólica pava,
o beija-flor e o pintassilgo,
o sabiá e a rolinha.
Como diante de reis se inclinam
diante deles ceibos e palmas,
e lhes arremessam flor do ar,
aroma e flor de laranjeira;
depois no Guazú se encontram,
e reunindo suas águas,
misturando nácar e pérolas,
derramam-se no Prata[21].
Mas esta é a poesia culta, a poesia da cidade; há outra que faz ouvir seus ecos pelos campos solitários: a poesia popular, cândida e desalinhada do gaucho.
Também nosso povo é músico. Esta é uma predisposição nacional que todos os vizinhos lhe reconhecem. Quando no Chile se anuncia pela primeira vez um argentino numa casa, convidam-no imediatamente ao piano, ou passam-lhe uma viola; e, se ele se escusa dizendo que não sabe tocá-la, estranham e não acreditam, «porque, sendo argentino — dizem —, deve ser músico». Esta é uma preocupação popular que acusa nossos hábitos nacionais. Com efeito: o jovem culto das cidades toca piano ou flauta, violino ou guitarra; os mestiços se dedicam quase exclusivamente à música, e são muitos os hábeis compositores e instrumentistas que saem de entre eles. Nas noites de verão ouve-se sem cessar a guitarra à porta das lojas, e tarde da noite o sono é docemente interrompido pelas serenatas e pelos concertos ambulantes.
O povo campesino tem seus cantares próprios.
O triste, que predomina nos povos do Norte, é um canto frígio, plangente, natural ao homem no estado primitivo de barbárie, segundo Rousseau.
A vidalita, canto popular com coros, acompanhado da guitarra e de um tamboril, a cujos rufos se reúne a multidão e vai engrossando o cortejo e o estrépito das vozes; esse canto me parece herdado dos indígenas, porque o ouvi numa festa de índios em Copiapó, em celebração da Candelária, e, como canto religioso, deve ser antigo, e os índios chilenos não o hão de ter adotado dos espanhóis argentinos. A vidalita é o metro popular em que se cantam os assuntos do dia, as canções guerreiras; o gaucho compõe o verso que canta e o populariza pelas associações que seu canto exige.
Assim, pois, em meio à rudeza dos costumes nacionais, essas duas artes que embelezam a vida civilizada e dão desafogo a tantas paixões generosas são honradas e favorecidas pelas próprias massas, que ensaiam sua áspera musa em composições líricas e poéticas. O jovem Echeverría residiu alguns meses na campanha em 1840, e a fama de seus versos sobre a pampa já o precedera; os gauchos rodeavam-no com respeito e afeição, e quando um recém-chegado mostrava sinais de desdém pelo janota, alguém lhe insinuava ao ouvido: «É poeta», e toda prevenção hostil cessava ao ouvir esse título privilegiado.
Sabe-se, por outro lado, que a guitarra é o instrumento popular dos espanhóis e que é comum na América. Em Buenos Aires, sobretudo, está ainda muito vivo o tipo popular espanhol, o majo. Descobre-se nele no compadrito da cidade e no gaucho da campanha. O jaleo espanhol vive no cielito; os dedos servem de castanholas. Todos os movimentos do compadrito revelam o majo: o movimento dos ombros, os gestos, a colocação do chapéu, até a maneira de cuspir por entre os caninos, tudo é de um andaluz genuíno.
Do centro desses costumes e gostos gerais levantam-se especialidades notáveis, que um dia embelezarão e darão um matiz original ao drama e ao romance nacional. Quero apenas notar aqui algumas que servirão para completar a ideia dos costumes, para traçar em seguida o caráter, causas e efeitos da guerra civil.
O mais conspícuo de todos, o mais extraordinário, é o rastreador. Todos os gauchos do interior são rastreadores. Em planícies tão dilatadas, onde as sendas e caminhos se cruzam em todas as direções, e os campos em que pastam ou transitam os animais são abertos, é preciso saber seguir as pegadas de um animal e distingui-las entre mil, conhecer se vai devagar ou ligeiro, solto ou puxado, carregado ou vazio. Esta é uma ciência caseira e popular. Certa vez eu caía de um caminho de encruzilhada para o de Buenos Aires, e o peão que me conduzia lançou, como de costume, a vista ao chão. «Aqui vai — disse logo — uma mulinha moura muito boa... esta é a tropa de dom N. Zapata..., é de muito boa sela..., vai selada..., passou ontem...» Esse homem vinha da Serra de San Luis; a tropa voltava de Buenos Aires, e fazia um ano que ele vira pela última vez a mulinha moura, cujo rastro estava confundido com o de toda uma tropa numa senda de dois pés de largura. Pois isto, que parece incrível, é contudo a ciência vulgar; esse era um peão de tropa e não um rastreador de profissão.
O rastreador é um personagem grave, circunspecto, cujas asseverações fazem fé nos tribunais inferiores. A consciência do saber que possui dá-lhe certa dignidade reservada e misteriosa. Todos o tratam com consideração: o pobre, porque pode fazer-lhe mal, caluniando-o ou denunciando-o; o proprietário, porque seu testemunho pode falhar-lhe. Um roubo foi executado durante a noite; mal se nota, correm a buscar uma pegada do ladrão, e, encontrada, cobre-se com algo para que o vento não a dissipe. Chama-se em seguida o rastreador, que vê o rastro e o segue sem olhar senão de tarde em tarde o chão, como se seus olhos vissem em relevo essa pegada, que para outro é imperceptível. Segue o curso das ruas, atravessa os pomares, entra numa casa e, apontando um homem que encontra, diz friamente: «É este!» O delito está provado, e raro é o delinquente que resiste a essa acusação. Para ele, mais que para o juiz, o depoimento do rastreador é a própria evidência; negá-la seria ridículo, absurdo. Submete-se, pois, a essa testemunha, que considera como o dedo de Deus que o aponta. Eu mesmo conheci Calíbar, que exerceu numa província seu ofício durante quarenta anos consecutivos. Tem agora perto de oitenta anos; encurvado pela idade, conserva, entretanto, um aspecto venerável e cheio de dignidade. Quando lhe falam de sua reputação fabulosa, responde: «Já não valho nada; aí estão as crianças.» As crianças são seus filhos, que aprenderam na escola de tão famoso mestre. Conta-se dele que, durante uma viagem a Buenos Aires, roubaram-lhe certa vez sua montaria de gala. Sua mulher cobriu o rastro com uma gamela. Dois meses depois Calíbar regressou, viu o rastro já apagado e imperceptível para outros olhos, e não se falou mais no caso. Ano e meio depois, Calíbar marchava cabisbaixo por uma rua dos subúrbios, entra numa casa e encontra sua montaria, já enegrecida e quase inutilizada pelo uso. Encontrara o rastro de seu raptor depois de dois anos! No ano de 1830, um réu condenado à morte escapara da cadeia. Calíbar foi encarregado de buscá-lo. O infeliz, prevendo que seria rastreado, tomara todas as precauções que a imagem do cadafalso lhe sugeriu. Precauções inúteis! Talvez tenham servido apenas para perdê-lo, porque, comprometido Calíbar em sua reputação, o amor-próprio ofendido o fez desempenhar com ardor uma tarefa que perdia um homem, mas provava sua maravilhosa vista. O fugitivo aproveitava todos os acidentes do solo para não deixar pegadas; quadras inteiras havia marchado pisando com a ponta do pé; em seguida trepava aos muros baixos, cruzava um terreno e voltava para trás. Calíbar o seguia sem perder a pista; se acontecia extraviar-se momentaneamente, ao reencontrá-la exclamava: «Onde te mi-as-dir!» Por fim chegou a uma vala de água nos subúrbios, cuja corrente aquele seguira para burlar o rastreador... Inútil! Calíbar ia pelas margens sem inquietação, sem vacilar. Por fim detém-se, examina umas ervas e diz: «Por aqui saiu; não há rastro, mas estas gotas de água nos pastos o indicam!» Entra numa vinha; Calíbar reconheceu as tapias que a rodeavam e disse: «Lá dentro está.» A partida de soldados cansou-se de procurar e voltou para dar conta da inutilidade das pesquisas. «Não saiu» foi a breve resposta que, sem se mover, sem proceder a novo exame, deu o rastreador. Não saíra, com efeito, e no dia seguinte foi executado. Em 1830, alguns presos políticos tentavam uma evasão; tudo estava preparado: os auxiliares de fora prevenidos; no momento de efetuá-la, um disse: «E Calíbar?» «Certo! — responderam os outros, aniquilados, aterrados. — Calíbar!» Suas famílias puderam conseguir de Calíbar que estivesse enfermo quatro dias, contados desde a evasão, e assim ela pôde efetuar-se sem inconveniente.
Que mistério é esse do rastreador? Que poder microscópico se desenvolve no órgão da vista desses homens? Quão sublime criatura é aquela que Deus fez à sua imagem e semelhança!
Depois do rastreador vem o baqueano, personagem eminente e que tem nas mãos a sorte dos particulares e das províncias. O baqueano é um gaucho grave e reservado, que conhece palmo a palmo vinte mil léguas quadradas de planícies, bosques e montanhas. É o topógrafo mais completo, é o único mapa que um general leva para dirigir os movimentos de sua campanha. O baqueano vai sempre a seu lado. Modesto e reservado como uma tapia, está em todos os segredos da campanha; a sorte do Exército, o êxito de uma batalha, a conquista de uma província, tudo depende dele.
O baqueano é quase sempre fiel a seu dever; mas nem sempre o general tem nele plena confiança. Imaginai a posição de um chefe condenado a levar um traidor a seu lado e a pedir-lhe os conhecimentos indispensáveis para triunfar. Um baqueano encontra uma sendinha que faz cruz com o caminho que segue: ele sabe a que remota aguada conduz; se encontra mil, e isto sucede num espaço de cem léguas, ele as conhece todas, sabe de onde vêm e para onde vão. Ele sabe o vau oculto que tem um rio, mais acima ou mais abaixo do passo ordinário, e isso em cem rios ou arroios; ele conhece nos extensos brejos uma senda por onde podem ser atravessados sem inconveniente, e isso em cem brejos distintos.
No mais escuro da noite, em meio aos bosques ou nas planícies sem limites, perdidos seus companheiros, extraviados, dá uma volta em círculo ao redor deles, observa as árvores; se não as há, desmonta, inclina-se à terra, examina algumas matas e orienta-se pela altura em que se encontra, monta em seguida e lhes diz, para tranquilizá-los: «Estamos em direção de tal lugar, a tantas léguas das habitações; o caminho deve ir para o sul», e dirige-se para o rumo que assinala, tranquilo, sem pressa de encontrá-lo e sem responder às objeções que o temor ou a fascinação sugerem aos outros.
Se ainda isso não basta, ou se se encontra na pampa e a obscuridade é impenetrável, então arranca pastos de vários pontos, cheira a raiz e a terra, mastiga-as, e depois de repetir esse procedimento várias vezes, certifica-se da proximidade de algum lago, ou arroio salgado, ou de água doce, e sai em sua busca para orientar-se firmemente. O general Rosas, dizem, conhece pelo gosto o pasto de cada estância do sul de Buenos Aires.
Se o baqueano o é da pampa, onde não há caminhos para atravessá-la, e um passageiro lhe pede que o leve diretamente a uma paragem distante cinquenta léguas, o baqueano se detém por um momento, reconhece o horizonte, examina o solo, fixa a vista num ponto e se lança a galope com a retidão de uma flecha, até que muda de rumo por motivos que só ele sabe, e, galopando dia e noite, chega ao lugar designado.
O baqueano anuncia também a proximidade do inimigo, isto é, dez léguas, e o rumo por onde se aproxima, por meio do movimento das avestruzes, dos gamos e guanacos que fogem em certa direção. Quando se aproxima, observa as poeiras, e por sua espessura conta a força: «são dois mil homens» — diz —, «quinhentos», «duzentos», e o chefe age com base nesse dado, que quase sempre é infalível. Se os condores e corvos volteiam num círculo do céu, ele saberá dizer se há gente escondida, ou se é um acampamento recém-abandonado, ou um simples animal morto. O baqueano conhece a distância que há de um lugar a outro; os dias e as horas necessárias para chegar a ele, e ainda uma senda extraviada e ignorada por onde se pode chegar de surpresa e na metade do tempo; assim é que as partidas de montoneras empreendem surpresas sobre povoados que estão a cinquenta léguas de distância, e quase sempre as acertam. Acreditar-se-á exagerado? Não! O general Rivera, da Banda Oriental, é um simples baqueano que conhece cada árvore que há em toda a extensão da República do Uruguai. Não a teriam ocupado os brasileiros sem seu auxílio, e não a teriam libertado sem ele os argentinos. Oribe, apoiado por Rosas, sucumbiu depois de três anos de luta com o general baqueano, e todo o poder de Buenos Aires, hoje com seus numerosos exércitos que cobrem toda a campanha do Uruguai, pode desaparecer destruído aos pedaços, por uma surpresa, por uma força cortada amanhã, por uma vitória que ele saberá converter em seu proveito, pelo conhecimento de algum caminhinho que cai na retaguarda do inimigo, ou por outro acidente despercebido ou insignificante.
O general Rivera iniciou seus estudos do terreno em 1804, e fazendo a guerra às autoridades então, como contrabandista; aos contrabandistas depois, como empregado; ao rei em seguida, como patriota; aos patriotas mais tarde, como montonero; aos argentinos como chefe brasileiro; a estes como general argentino; a Lavalleja como presidente; ao presidente Oribe como chefe proscrito; a Rosas, enfim, aliado de Oribe, como general oriental, teve tempo de sobra para aprender um pouco da ciência do baqueano.
O Gaucho Mau: este é um tipo de certas localidades, um outlaw, um squatter, um misantropo particular. É o Olho de Falcão, o Trapeiro de Cooper, com toda a sua ciência do deserto, com toda a sua aversão às povoações dos brancos, mas sem sua moral natural e sem suas conexões com os selvagens. Chamam-no o Gaucho Mau, sem que esse epíteto o desfavoreça de todo. A justiça o persegue há muitos anos; seu nome é temido, pronunciado em voz baixa, mas sem ódio e quase com respeito. É um personagem misterioso: mora na pampa, são seu abrigo os cardais, vive de perdizes e mulitas; se alguma vez quer regalar-se com uma língua, enlaça uma vaca, derruba-a sozinho, mata-a, tira seu bocado predileto e abandona o resto às aves montesinas. De repente apresenta-se o Gaucho Mau num pago de onde a partida acaba de sair, conversa pacificamente com os bons gauchos, que o rodeiam e admiram; abastece-se dos vícios, e, se divisa a partida, monta tranquilamente em seu cavalo e o aponta para o deserto, sem pressa, sem aparato, desdenhando voltar a cabeça. A partida raramente o segue; mataria inutilmente seus cavalos, porque o que monta o Gaucho Mau é um parelheiro pangaré tão célebre como seu amo. Se o acaso alguma vez o lança de improviso entre as garras da justiça, investe contra o ponto mais espesso da partida, e à mercê de quatro talhos que com sua faca abriu no rosto ou no corpo dos soldados, abre caminho por entre eles, e estendendo-se sobre o lombo do cavalo para subtrair-se à ação das balas que o perseguem, dirige-se ao deserto, até que, pondo espaço conveniente entre ele e seus perseguidores, refreia seu trotão e marcha tranquilamente. Os poetas dos arredores acrescentam essa nova façanha à biografia do herói do deserto, e sua nomeada voa por toda a vasta campanha. Às vezes apresenta-se à porta de um baile campestre com uma moça que raptou; entra no baile com sua parceira, confunde-se nas mudanças do cielito e desaparece sem que ninguém se aperceba. Outro dia apresenta-se na casa da família ofendida, faz descer da garupa a menina que seduziu e, desdenhando as maldições dos pais que o seguem, encaminha-se tranquilo para sua morada sem limites.
Esse homem divorciado da sociedade, proscrito pelas leis; esse selvagem de cor branca, não é no fundo um ser mais depravado que os que habitam as povoações. O ousado fugitivo que acomete uma partida inteira é inofensivo para com os viajantes. O Gaucho Mau não é um bandido, não é um salteador; o ataque à vida não entra em sua ideia, como o roubo não entrava na ideia do Churriador; rouba, é certo, mas esta é sua profissão, seu tráfico, sua ciência. Rouba cavalos. Certa vez vem ao arraial de uma tropa do interior; o patrão propõe comprar-lhe um cavalo de tal pelo extraordinário, de tal figura, de tais qualidades, com uma estrela branca na espádua. O gaucho se recolhe, medita por um momento e, depois de algum silêncio, responde: «Não há atualmente cavalo assim.» Que esteve pensando o gaucho? Naquele momento percorreu em sua mente mil estâncias da pampa, viu e examinou todos os cavalos que há na província, com suas marcas, cor, sinais particulares, e convenceu-se de que não há nenhum que tenha uma estrela na espádua; uns a têm na testa, outros uma mancha branca na anca. É surpreendente essa memória? Não! Napoleão conhecia pelo nome duzentos mil soldados e recordava, ao vê-los, todos os fatos que a cada um deles se referiam. Se não se lhe pede, pois, o impossível, em dia marcado, num ponto dado do caminho, entregará um cavalo tal como lhe pedem, sem que antecipar-lhe o dinheiro seja motivo para faltar ao encontro. Tem sobre esse ponto a honra dos jogadores quanto à dívida.
Viaja às vezes para a campanha de Córdoba, para Santa Fe. Então se vê cruzar a pampa com uma tropilha de cavalos à frente; se alguém o encontra, segue seu caminho sem aproximar-se, a menos que ele o solicite.
O cantor. Aqui tendes a idealização daquela vida de revoltas, de civilização, de barbárie e de perigos. O gaucho cantor é o mesmo bardo, o vate, o trovador da Idade Média, que se move na mesma cena, entre as lutas das cidades e do feudalismo dos campos, entre a vida que se vai e a vida que se aproxima. O cantor anda de pago em pago, «de tapera em galpão», cantando seus heróis da pampa perseguidos pela justiça, os prantos da viúva a quem os índios roubaram os filhos num malón recente, a derrota e a morte do valente Rauch, a catástrofe de Facundo Quiroga e a sorte que coube a Santos Pérez. O cantor está fazendo candidamente o mesmo trabalho de crônica, costumes, história, biografia, que o bardo da Idade Média, e seus versos seriam recolhidos mais tarde como documentos e dados em que se apoiaria o historiador futuro, se a seu lado não estivesse outra sociedade culta com inteligência superior dos acontecimentos à que o infeliz desdobra em suas rapsódias ingênuas. Na República Argentina veem-se ao mesmo tempo duas civilizações distintas num mesmo solo: uma nascente, que, sem conhecimento do que tem sobre a cabeça, está remedando os esforços ingênuos e populares da Idade Média; outra que, sem cuidar do que tem aos pés, tenta realizar os últimos resultados da civilização europeia. O século XIX e o século XII vivem juntos: um dentro das cidades, o outro nas campanhas.
O cantor não tem residência fixa; sua morada está onde a noite o surpreende, sua fortuna em seus versos e em sua voz; onde quer que o cielito enrede seus pares sem conta; onde quer que se esgote uma taça de vinho, o cantor tem seu lugar preferente, sua parte escolhida no festim. O gaucho argentino não bebe se a música e os versos não o excitam[22], e cada pulpería tem sua guitarra para pôr nas mãos do cantor, a quem o grupo de cavalos estacionados à porta anuncia de longe onde se necessita o concurso de sua gaya ciência.
O cantor mistura entre seus cantos heroicos a relação de suas próprias façanhas. Desgraçadamente, o cantor, apesar de ser o bardo argentino, não está livre de ter de haver-se com a Justiça. Também tem de prestar conta de certas punhaladas que distribuiu, uma ou duas desgraças — mortes! — que teve, e algum cavalo ou alguma moça que roubou. No ano de 1840, entre um grupo de gauchos e às margens do majestoso Paraná, estava sentado no chão, com as pernas cruzadas, um cantor que tinha espantado e divertido seu auditório com a longa e animada história de seus trabalhos e aventuras. Já contara o rapto da querida com os trabalhos que sofreu, a desgraça e a disputa que a motivou; estava referindo seu encontro com a partida e as punhaladas que deu em sua defesa, quando o tropel e os gritos dos soldados lhe avisaram que desta vez estava cercado. A partida, com efeito, fechara-se em forma de ferradura; a abertura ficava voltada para o Paraná, que corria 20 varas mais abaixo: tal era a altura da barranca. O cantor ouviu a gritaria sem se perturbar; de improviso viu-se sobre o cavalo, lançando um olhar perscrutador sobre o círculo de soldados com as tercerolas preparadas; volta o cavalo para a barranca, põe-lhe o poncho nos olhos e crava-lhe as esporas. Alguns instantes depois via-se sair das profundezas do Paraná o cavalo sem rédea, a fim de que nadasse com mais liberdade, e o cantor preso à cauda, voltando tranquilamente o rosto, como se estivesse num bote de oito remos, para a cena que deixava na barranca. Alguns balaços da partida não impediram que chegasse são e salvo ao primeiro ilhote que seus olhos divisaram.
No mais, a poesia original do cantor é pesada, monótona, irregular, quando se abandona à inspiração do momento. Mais narrativa que sentimental, cheia de imagens tomadas da vida campestre, do cavalo e das cenas do deserto, que a tornam metafórica e pomposa. Quando refere suas proezas ou as de algum famoso malévolo, assemelha-se ao improvisador napolitano, desordenado, ordinariamente prosaico, elevando-se por momentos à altura poética para cair de novo no recitado insípido e quase sem versificação. Fora isso, o cantor possui seu repertório de poesias populares, quintilhas, décimas e oitavas, diversos gêneros de versos octossílabos. Entre estes há muitas composições de mérito e que revelam inspiração e sentimento.
Ainda poderia acrescentar a esses tipos originais muitos outros igualmente curiosos, igualmente locais, se tivessem, como os anteriores, a peculiaridade de revelar os costumes nacionais, sem o que é impossível compreender nossos personagens políticos nem o caráter primordial e americano da sangrenta luta que despedaça a República Argentina. Prosseguindo esta história, o leitor descobrirá por si mesmo onde se encontra o rastreador, o baqueano, o gaucho mau, o cantor. Verá nos caudilhos cujos nomes transpuseram as fronteiras argentinas, e até naqueles que enchem o mundo com o horror de seu nome, o reflexo vivo da situação interior do país, seus costumes, sua organização.
CAPÍTULO III
ASSOCIAÇÃO.—A PULPERÍA
O Gaucho vive de privações,
mas seu luxo é a liberdade. Orgulhoso
de uma independência sem limites,
seus sentimentos, selvagens como sua
vida, são, contudo, nobres e bons.
Head.
No capítulo primeiro deixamos o camponês argentino no momento em que chegou à idade viril, tal como o formaram a natureza e a falta de verdadeira sociedade em que vive. Vimo-lo homem, independente de toda necessidade, livre de toda sujeição, sem ideias de governo, porque toda ordem regular e sistemática se torna de todo impossível. Com esses hábitos de incúria, de independência, vai entrar em outra escala da vida campestre que, embora vulgar, é o ponto de partida de todos os grandes acontecimentos que vamos ver desenvolver-se muito em breve.
Não se esqueça que falo dos povos essencialmente pastores; que neles se toma a fisionomia fundamental, deixando as modificações acidentais que experimentam para indicar a seu tempo os efeitos parciais. Falo da associação de estâncias, que, distribuídas de quatro em quatro léguas mais ou menos, cobrem a superfície de uma província.
As campanhas agrícolas subdividem-se e disseminam-se também na sociedade, mas numa escala muito reduzida: um lavrador confina com outro, e os instrumentos da lavoura e a multidão de utensílios, aparelhos, animais que ocupa etc., a variedade de seus produtos e as diversas artes que a agricultura chama em seu auxílio estabelecem relações necessárias entre os habitantes de um vale e tornam indispensável um rudimento de vila que lhes sirva de centro. Por outro lado, os cuidados e fainas que a lavoura exige requerem tal número de braços que a ociosidade se torna impossível e os varões se veem forçados a permanecer no recinto da herdade. Tudo o contrário sucede nessa singular associação. Os limites da propriedade não estão marcados; quanto mais numerosos são os gados, menos braços ocupam; a mulher se encarrega de todas as fainas domésticas e fabris. O homem fica desocupado, sem gozos, sem ideias, sem atenções forçosas; o lar doméstico o entedia, o expele, digamos assim. Há necessidade, pois, de uma sociedade fictícia para remediar essa desassociação normal. O hábito contraído desde a infância de andar a cavalo é um novo estímulo para deixar a casa. As crianças têm o dever de tocar os cavalos para o curral mal sai o sol, e todos os varões, até os pequeninos, selam seu cavalo, embora não saibam o que fazer. O cavalo é parte integrante do argentino dos campos; é para ele o que a gravata é para os que vivem no seio das sociedades. No ano de 41, o Chacho, caudilho dos llanos, emigrou para o Chile. «— Como vai, amigo? — perguntava-lhe alguém. — Como hei de ir! — respondeu com o acento da dor e da melancolia —, no Chile e a pé.» Só um gaucho argentino sabe apreciar todas as desgraças e todas as angústias que essas duas frases expressam.
Aqui volta a aparecer a vida árabe, tártara. As seguintes palavras de Victor Hugo parecem escritas na Pampa: «Não poderia combater a pé; não faz senão uma só pessoa com seu cavalo. Vive a cavalo; trata, compra e vende a cavalo; bebe, come, dorme e sonha a cavalo.»
Saem, pois, os varões sem saber precisamente para onde. Uma volta ao gado, uma visita a uma cria ou à querência de um cavalo predileto, ocupa uma pequena parte do dia; o resto é absorvido por uma reunião numa venda ou pulpería. Ali concorre certo número de paroquianos dos arredores; ali se dão e adquirem notícias sobre os animais extraviados; traçam-se no chão as marcas do gado; sabe-se onde caça o tigre, onde se viram os rastros do leão; ali se combinam as corridas, reconhecem-se os melhores cavalos; ali, enfim, está o cantor, ali se fraterniza pelo circular da taça e pelas prodigalidades dos que possuem.
Nessa vida tão sem emoções, o jogo sacode os espíritos enervados, o licor acende as imaginações adormecidas. Essa associação acidental de todos os dias vem, por sua repetição, formar uma sociedade mais estreita que aquela de onde partiu cada indivíduo, e nessa assembleia sem objeto público, sem interesse social, começam a lançar-se os rudimentos das reputações que mais tarde, e com o correr dos anos, vão aparecer na cena política. Vede como:
O gaucho estima, acima de todas as coisas, as forças físicas, a destreza no manejo do cavalo e, além disso, o valor. Essa reunião, esse clube diário, é um verdadeiro circo olímpico, em que se ensaiam e comprovam os quilates do mérito de cada um.
O gaucho anda armado da faca, que herdou dos espanhóis; essa peculiaridade da península, esse grito característico de Saragoça: Guerra a cuchillo!, é aqui mais real que na Espanha. A faca, além de arma, é um instrumento que lhe serve para todas as suas ocupações; não pode viver sem ela; é como a tromba do elefante: seu braço, sua mão, seu dedo, seu tudo. O gaucho, ao lado do ginete, faz alarde de valente, e a faca brilha a cada momento, descrevendo círculos no ar, à menor provocação, sem provocação alguma, sem outro interesse que medir-se com um desconhecido; joga às punhaladas como jogaria aos dados. Tão profundamente entram esses hábitos pendencieros na vida íntima do gaucho argentino que os costumes criaram sentimentos de honra e uma esgrima que garante a vida. O homem da plebe dos demais países toma a faca para matar, e mata; o gaucho argentino a desembainha para lutar, e apenas fere. É preciso que esteja muito bêbado, é preciso que tenha instintos verdadeiramente maus ou rancores muito profundos, para que atente contra a vida de seu adversário. Seu objetivo é apenas marcá-lo, dar-lhe um talho no rosto, deixar-lhe um sinal indelével. Assim se veem esses gauchos cheios de cicatrizes que raramente são profundas. A rixa, pois, trava-se para brilhar, pela glória do vencimento, por amor à reputação. Largo círculo se forma em torno dos combatentes, e os olhos seguem com paixão e avidez o centelhar dos punhais que não cessam de agitar-se um momento. Quando o sangue corre a torrentes, os espectadores se creem obrigados em consciência a separá-los. Se sucede alguma desgraça, as simpatias estão com o que se desgraçou; o melhor cavalo lhe serve para salvar-se a paragens longínquas, e ali o acolhe o respeito ou a compaixão. Se a justiça o alcança, não é raro que faça frente, e, se corre à partida, adquire desde então um renome que se dilata por ampla circunferência. Transcorre o tempo, o juiz foi mudado, e já pode apresentar-se de novo em seu pago sem que se proceda a ulteriores perseguições; está absolvido. Matar é uma desgraça, a menos que o fato se repita tantas vezes que inspire horror o contato do assassino. O estancieiro dom Juan Manuel Rosas, antes de ser homem público, fizera de sua residência uma espécie de asilo para os homicidas, sem que jamais consentisse em seu serviço os ladrões; preferências que se explicariam facilmente por seu caráter de gaucho proprietário, se sua conduta posterior não tivesse revelado afinidades que encheram de espanto o mundo.
Quanto aos jogos de equitação, bastaria indicar um dos muitos em que se exercitam para julgar da audácia que se requer para entregar-se a eles. Um gaucho passa a todo escape diante de seus companheiros. Um lhe arremessa um tiro de bolas que, em plena carreira, manieta o cavalo. Do turbilhão de pó que este levanta ao cair, vê-se sair o ginete correndo, seguido do cavalo, a quem o impulso da carreira interrompida faz avançar obedecendo às leis da física. Nesse passatempo joga-se a vida e às vezes se perde.
Acreditar-se-á que essas proezas, a destreza e a audácia no manejo do cavalo são as bases das grandes ilustrações que encheram com seu nome a República Argentina e mudaram a face do país? Nada é mais certo, entretanto. Não é meu ânimo persuadir que o assassinato e o crime tenham sido sempre uma escala de ascensões. Milhares são os valentes que acabaram em bandidos obscuros; mas passam de centenas os que deveram sua posição a esses feitos. Em todas as sociedades despotizadas, os grandes dotes naturais vão perder-se no crime; o crime, o gênio romano que conquistara o mundo, é hoje o terror dos Lagos Pontinos, e os Zumalacárregui, os Mina espanhóis, encontram-se às centenas em Sierra Leona. Há uma necessidade para o homem de desenvolver suas forças, sua capacidade e ambição, que, quando faltam os meios legítimos, ele forja para si um mundo com sua moral e suas leis à parte, e nele se compraz em mostrar que havia nascido Napoleão ou César.
Com essa sociedade, pois, em que a cultura do espírito é inútil e impossível, onde os negócios municipais não existem; onde o bem público é uma palavra sem sentido, porque não há público, o homem eminentemente dotado se esforça por produzir-se, e para isso adota os meios e caminhos que encontra. O gaucho será um malfeitor ou um caudilho, segundo o rumo que as coisas tomem no momento em que chegou a fazer-se notável.
Costumes desse gênero requerem meios vigorosos de repressão, e para reprimir desalmados são necessários juízes ainda mais desalmados. O que disse no início sobre o capataz de carretas aplica-se exatamente ao juiz de campanha. Antes de tudo, necessita de valor; o terror de seu nome é mais poderoso que os castigos que aplica. O juiz é, naturalmente, algum famoso de tempos atrás, a quem a idade e a família chamaram à vida ordenada. É claro que a justiça que administra é de todo arbitrária: sua consciência ou suas paixões o guiam, e suas sentenças são inapeláveis. Às vezes costuma haver juízes desses que o são por toda a vida e que deixam uma memória respeitada. Mas a consciência desses meios executivos e o caráter arbitrário das penas formam no povo ideias sobre o poder da autoridade, que mais tarde vêm produzir seus efeitos. O juiz se faz obedecer por sua reputação de audácia temível, sua autoridade, seu juízo sem formas, sua sentença, um eu mando e seus castigos inventados por ele mesmo. Dessa desordem, talvez por muito tempo inevitável, resulta que o caudilho que nas revoltas chega a elevar-se possui sem contradição, e sem que seus sequazes duvidem disso, o poder amplo e terrível que hoje só se encontra nos povos asiáticos.
O caudilho argentino é um Maomé que poderia a seu bel-prazer mudar a religião dominante e forjar uma nova. Tem todos os poderes; sua injustiça é uma desgraça para sua vítima, mas não um abuso de sua parte; porque ele pode ser injusto; mais ainda: ele há de ser injusto necessariamente; sempre o foi.
O que digo do juiz é aplicável ao comandante de campanha. Este é um personagem de categoria mais alta que o primeiro, e nele devem reunir-se em grau mais alto as qualidades de reputação e antecedentes daquele. Ainda uma circunstância nova agrava, longe de diminuir, o mal. O governo das cidades é quem dá o título de comandante de campanha; mas, como a cidade é fraca no campo, sem influência e sem adeptos, o governo lança mão dos homens que mais temor lhe inspiram para confiar-lhes esse emprego, a fim de tê-los em sua obediência; maneira muito conhecida de proceder de todos os governos fracos, e que afastam o mal do momento presente para que se produza mais tarde em dimensões colossais. Assim, o governo papal faz transações com os bandidos, a quem dá empregos em Roma, estimulando com isso a vadiagem e criando-lhe um futuro seguro; assim, o Sultão concedia a Mehemet-Alí a investidura de paxá do Egito, para ter de reconhecê-lo mais tarde como rei hereditário, em troca de que não o destronasse. É singular que todos os caudilhos da revolução argentina tenham sido comandantes de campanha: López e Ibarra, Artigas e Güemes, Facundo e Rosas. É o ponto de partida de todas as ambições. Rosas, quando se apoderou da cidade, exterminou todos os comandantes que o haviam elevado, entregando esse cargo influente a homens vulgares que não pudessem seguir o caminho que ele percorrera: Pajarito, Celarrayán, Arbolito, Pancho el Ñato e Molina eram outros tantos bandidos comandantes de que Rosas purgou o país.
Dou tanta importância a esses pormenores porque eles servirão para explicar todos os nossos fenômenos sociais e a revolução que se vem operando na República Argentina; revolução que está desfigurada por palavras do Dicionário civil, que a disfarçam e ocultam, criando ideias errôneas; da mesma maneira que os espanhóis, ao desembarcar na América, davam um nome europeu conhecido a um animal novo que encontravam, saudando com o terrível nome de leão, que traz ao espírito a ideia da magnanimidade e da força do rei dos animais, o miserável gato chamado puma, que foge à vista dos cães; e tigre ao jaguar de nossos bosques. Por frágeis e ignóbeis que pareçam esses fundamentos que quero dar à guerra civil, a evidência logo virá mostrar quão sólidos e indestrutíveis são.
A vida dos campos argentinos, tal como a mostrei, não é um acidente vulgar: é uma ordem de coisas, um sistema de associação característico, normal, único, a meu juízo, no mundo, e ele só basta para explicar toda a nossa revolução. Havia antes de 1810 na República Argentina duas sociedades distintas, rivais e incompatíveis; duas civilizações diversas: uma espanhola, europeia, civilizada, e a outra bárbara, americana, quase indígena; e a revolução das cidades só iria servir de causa, de móvel, para que essas duas maneiras distintas de ser de um povo se pusessem uma diante da outra, se acometessem e, depois de longos anos de luta, uma absorvesse a outra. Indiquei a associação normal da campanha, a desassociação, mil vezes pior que a tribo nômade; mostrei a associação fictícia, na desocupação; a formação das reputações gauchas: valor, arrojo, destreza, violências e oposição à justiça regular, à justiça civil da cidade. Esse fenômeno de organização social existia em 1810, existe ainda, modificado em muitos pontos, modificando-se lentamente em outros e ainda intacto em muitos. Esses focos de reunião da gauchada valente, ignorante, livre e desocupada estavam disseminados aos milhares na campanha. A revolução de 1810 levou a toda parte o movimento e o rumor das armas. A vida pública, que até então faltara a essa associação árabe-romana, entrou em todas as vendas, e o movimento revolucionário trouxe por fim a associação bélica na montonera provincial, filha legítima da venda e da estância, inimiga da cidade e do exército patriota revolucionário. Desenvolvendo-se os acontecimentos, veremos as montoneras provinciais com seus caudilhos à frente; em Facundo Quiroga, ultimamente triunfante em toda parte, a campanha sobre as cidades; e, dominadas estas em seu espírito, governo e civilização, formar-se por fim o Governo central, unitário, despótico, do estancieiro dom Juan Manuel de Rosas, que crava na culta Buenos Aires a faca do gaucho e destrói a obra dos séculos, a civilização, as leis e a liberdade.
Marco da literatura e do pensamento político argentino, Facundo investiga a tensão entre civilização e barbárie a partir da figura de Juan Facundo Quiroga, das pampas, das cidades e das guerras civis do século XIX. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.
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