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Capítulo 1 · La vorágine

Prólogo e Primeira parte I

Prólogo

Senhor Ministro:

De acordo com os desejos de V. S., preparei para publicação os manuscritos de Arturo Cova, remetidos a esse Ministério pelo Cônsul da Colômbia em Manaus.

Nessas páginas respeitei o estilo e até as incorreções do desafortunado escritor, sublinhando unicamente os provincialismos de caráter mais acentuado.

Creio, salvo melhor juízo de V. S., que este livro não deve ser publicado antes de se terem mais notícias dos seringueiros colombianos do Rio Negro ou Guainía; mas, se V. S. resolver o contrário, rogo-lhe que se sirva comunicar-me oportunamente os dados que adquirir, para acrescentá-los à guisa de epílogo.

Sou de V. S. muito atento servidor,

José Eustasio Rivera.

Abertura

***

«...Aqueles que um dia acreditaram que minha inteligência irradiaria extraordinariamente, como uma auréola de minha juventude; aqueles que se esqueceram de mim mal meu pé desceu ao infortúnio; aqueles que, ao se lembrarem de mim alguma vez, pensem em meu fracasso e se perguntem por que não fui o que poderia ter sido, saibam que o destino implacável me arrancou da prosperidade nascente e me lançou às pampas, para que eu errasse, vagabundo, como os ventos, e me extinguisse como eles, sem deixar mais que rumor e desolação».

(Fragmento da carta de Arturo Cova)

Primeira Parte

Antes que eu me houvesse apaixonado por mulher alguma, joguei meu coração ao acaso, e quem o ganhou foi a Violência. Nada soube dos delíquios embriagadores, nem da confidência sentimental, nem da angústia dos olhares covardes. Mais que o enamorado, fui sempre o dominador cujos lábios não conheceram a súplica. Ainda assim, ambicionava o dom divino do amor ideal, que me incendiasse espiritualmente, para que minha alma fulgurasse em meu corpo como a chama sobre o lenho que a alimenta.

Quando os olhos de Alicia me trouxeram a desventura, eu já renunciara à esperança de sentir um afeto puro. Em vão meus braços — tediosos de liberdade — se estenderam diante de muitas mulheres, implorando para si uma corrente. Ninguém adivinhava meu sonho. O silêncio continuava em meu coração.

Alicia foi um amorio fácil: entregou-se a mim sem vacilações, esperançada no amor que buscava em mim. Nem sequer pensou em casar-se comigo naqueles dias em que seus parentes urdiram a conspiração de seu matrimônio, patrocinados pelo padre e resolvidos a submeter-me pela força. Ela me denunciou os planos ardilosos. Eu morrerei sozinha, dizia: minha desgraça se opõe ao teu futuro.

Depois, quando a expulsaram do seio da família e o juiz declarou a meu advogado que me afundaria na prisão, disse-lhe uma noite, em seu esconderijo, resolutamente: «Como poderia desamparar-te? Fujamos! Toma minha sorte, mas dá-me o amor».

E fugimos!

* * *

Aquela noite, a primeira de Casanare, tive por confidente a insônia.

Através da gaze do mosquiteiro, nos céus ilimitados, via pestanejar as estrelas. As folhagens das palmeiras que nos davam abrigo emudeciam sobre nós. Um silêncio infinito flutuava no espaço, azulando a transparência do ar. Ao lado de meu «chinchorro», em sua estreita caminha de viagem, Alicia dormia com respiração agitada.

Minha alma atribulada teve então reflexões acabrunhadoras: Que fizeste de teu próprio destino? Que fizeste desta jovenzinha que imolas às tuas paixões? E teus sonhos de glória, e tuas ânsias de triunfo, e tuas primícias de celebridade? Insensato! O laço que te une às mulheres é atado pelo fastio. Por orgulho pueril, enganaste-te sabendo que te enganavas, atribuindo a esta criatura aquilo que jamais descobriste em nenhuma outra; e já sabias que o ideal não se procura: trazemo-lo conosco. Saciado o capricho, que mérito tem o corpo que adquiriste a preço tão caro? Porque a alma de Alicia nunca te pertenceu, e embora agora recebas o calor de seu sangue e sintas sua respiração perto de teu ombro, achas-te, espiritualmente, tão longe dela quanto da constelação taciturna que já se inclina sobre o horizonte.

Naquele momento senti-me pusilânime. Não era que minha energia desfalecesse diante da responsabilidade de meus atos, mas começava a invadir-me o fastio da amante. Teria sido pouco empenho possuí-la, ainda que ao preço das maiores loucuras; mas, depois das loucuras e da posse?...

Casanare não me aterrava com suas lendas arrepiantes. O instinto da aventura me impelia a desafiá-las, certo de que sairia ileso das pampas libérrimas e de que alguma vez, em cidades desconhecidas, sentiria a nostalgia dos perigos passados. Mas Alicia me atrapalhava como um grilhão. Se ao menos fosse mais arrojada, menos noviça, mais ágil! A pobre saíra de Bogotá em circunstâncias aflitivas; não sabia montar a cavalo, o raio do sol a congestionava, e quando, a trechos, preferia caminhar a pé, eu devia imitá-la pacientemente, cabresteando as cavalgaduras.

Nunca dei provas de mansidão semelhante. Indo fugitivos, avançávamos lentamente, incapazes de torcer o caminho para esquivar o encontro com os transeuntes, camponeses em sua maioria, que se detinham à nossa passagem, interrogando-me comovidos: patrão, por que vai chorando a menina?

Era preciso passar a noite por Cáqueza, com receio de que as autoridades nos detivessem. Várias vezes tentei romper o arame do telégrafo, laçando-o com a corda de meu cavalo; mas desisti de tal empresa pelo desejo íntimo de que alguém me capturasse e, livrando-me de Alicia, me devolvesse essa liberdade do espírito que nunca se perde na reclusão. Pelas cercanias do povoado passamos ao cair da primeira noite, e desviando depois para a várzea do rio, entre canaviais rumorosos que nossos sendeiros descimavam ao passar, abrigamo-nos numa «enramada» onde funcionava um engenho. De longe o sentimos gemer, e pelo resplendor da fornalha, onde se cozia o melado, cruzavam intermináveis as sombras dos bois que moviam o malho e do moleque que os aguilhoava. Umas mulheres prepararam a ceia e deram a Alicia um cozimento de ervas para acalmar-lhe a febre.

Ali permanecemos uma semana.

* * *

O peão que enviei a Bogotá à caça de notícias trouxe-mas inquietantes. O escândalo ardia, atiçado pelas murmurações de meus malquerentes; comentava-se nossa fuga, e os jornais usufruíam a intriga. A carta do amigo a quem me dirigi pedindo sua intervenção tinha este remate: «Vão prendê-los! Não te resta outro refúgio senão Casanare. Quem poderia imaginar que um homem como tu buscasse o deserto?».

Nessa mesma tarde, Alicia me advertiu que passávamos por hóspedes suspeitos. A dona da casa lhe havia perguntado se éramos irmãos, esposos legítimos ou meros amigos, e a instara com mesuras a que lhe mostrasse algumas das moedas que fabricávamos, caso as fabricássemos, «no que não havia nada de mau, dada a tensão da situação». No dia seguinte partimos antes do amanhecer.

—Não crês, Alicia, que vamos fugindo de um fantasma cujo poder nós mesmos lhe atribuímos? Não seria melhor voltar?

—Tanto me falas disso, que estou convencida de que te canso! Para que me trouxeste? Pois a ideia partiu de ti! Vai-te, deixa-me! Nem tu nem Casanare valem a pena!

E tornou a chorar.

O pensamento de que a infeliz se julgasse desamparada moveu-me à tristeza, porque ela já me revelara a origem de seu fracasso. Queriam casá-la com um velho latifundiário nos dias em que me conheceu. Ela se apaixonara, quando impúbere, por um primo seu, pálido e franzino, com quem estava secretamente comprometida; depois apareci eu, e o velhote, alarmado pelo risco de que eu lhe surrupiasse a presa, multiplicou as dádivas vultosas e estreitou o assédio, ajudado pela parentela entusiástica. Então Alicia, buscando a libertação, lançou-se em meus braços.

Mas o perigo não passara: o velho, apesar de tudo, queria casar-se com ela.

—Deixa-me! —repetiu, atirando-se do cavalo—. De ti não quero nada! Vou a pé, procurar por estes caminhos uma alma caridosa! Infame, nada quero de ti!

Eu, que vivi o suficiente para saber que não é prudente replicar a uma mulher irada, permaneci mudo, agressivamente mudo, enquanto ela, sentada na relva, com mão convulsa arrancava punhados de erva...

—Alicia, isto me prova que nunca me quiseste.

—Nunca!

E voltou os olhos para outra parte.

Queixou-se depois do descaramento com que eu a enganava:

—Crês que não percebi tuas perseguições à moça lá de baixo? E tanto disfarce para seduzi-la! E ainda me alegavas que a demora obedecia aos abalos de minha saúde. Se isto é agora, que não será depois? Deixa-me! A Casanare, jamais; e contigo, nem ao céu!

Essa censura contra minha infidelidade me enrubesceu. Eu não sabia que dizer. Teria desejado abraçar Alicia, agradecendo-lhe os ciúmes com um abraço de despedida. Se queria que eu a abandonasse, era minha a culpa?

E quando eu desmontava para improvisar uma explicação, vimos descer pela encosta um homem que galopava em nossa direção. Alicia, perturbada, agarrou-se a meu braço.

O sujeito, apeando-se a curta distância, avançou com o chapéu-coco na mão.

—Cavalheiro, permita-me uma palavra.

—Eu? —respondi com voz enérgica.

—Sim, vosmecê —e, atravessando a ruana no corpo, estendeu-me um papel enrolado—. É que meu padrinho manda notificá-lo.

—Quem é seu padrinho?

—Meu padrinho, o Alcaide.

—Isto não é para mim —disse, devolvendo o papel, sem tê-lo lido.

—Não são, pois, vosmecês os que estiveram no engenho?

—Absolutamente. Vou de Intendente a Villavicencio, e esta senhora é minha esposa.

Ao escutar tais afirmações, permaneceu indeciso.

—Eu pensei —balbuciou— que fossem vosmecês os cunhadores de moedas. Da ramada estiveram mandando recado ao povoado para que a autoridade os acompanhasse, mas meu padrinho estava em sua fazenda, pois só abre a Prefeitura nos dias de mercado. Recebeu também vários telegramas, e como agora sou Comissário único...

Sem dar tempo a maiores esclarecimentos, ordenei-lhe que aproximasse o cavalo da senhora. Alicia, para ocultar a palidez, velou o rosto com a gaze do chapéu. O importuno nos via partir, sem pronunciar palavra. Mas, de repente, montou em sua égua e, acomodando-se na enjalma que lhe servia de sela, flanqueou-nos sorrindo:

—Vosmecê, assine a notificação para que meu padrinho veja que cumpri. Assine como Intendente.

—O senhor tem uma pena?

—Não, mas adiante a conseguimos. É que, do contrário, o Alcaide me arquiva.

—Como assim? —respondi sem me deter.

—Oxalá vosmecê me ajude, se é certo que vai de empregado. Tenho o inconveniente de que me atribuem o roubo de uma novilha e me trouxeram preso, mas meu padrinho me deu o povoado por cárcere, e depois, à falta de Comissário, fez a honra a mim. Eu me chamo Pepe Morillo Nieto, e por mau nome me chamam «Pipa».

O ladrão de gado, loquaz, caminhava à minha direita, relatando seus padecimentos. Pediu-me a mala da roupa e atravessou-a na enjalma, sobre as coxas, cuidando para que não caísse.

—Não tenho —disse— com que comprar uma ruana decente, e a situação me reduziu a viver descalço. Aqui, onde vosmecês me veem, este chapéu tem mais de dois anos, e eu o trouxe de Casanare.

Alicia, ao ouvir isto, voltou para o homem os olhos assustadiços.

—O senhor viveu em Casanare? —perguntou-lhe.

—Sim, vosmecê; e conheço o Llano e os seringais do Amazonas. Muito tigre e muita cobra matei com a ajuda de Deus.

Àquela altura encontrávamos tropeiros que conduziam suas récuas. O Pipa lhes suplicava:

—Façam-me o bem de me emprestar um lápis para uma assinaturazinha.

—Não carregamos isso.

—Cuidado com falar-me de Casanare na presença da senhora —disse-lhe em voz baixa—. Siga comigo, e na primeira oportunidade me dá a sós as informações que possam ser úteis ao Intendente.

O felizardo Pipa falou quanto pôde, esbanjando hipérboles. Pernoctou conosco nas cercanias de Villavicencio, convertido em pajem de Alicia, a quem distraía sua lábia. E naquela noite se «picureou», roubando meu cavalo selado.

* * *

Enquanto minha memória se empanava com estas recordações, uma claridade avermelhada se acendeu de súbito. Era a fogueira de reflexo insone, colocada a poucos metros dos chinchorros, para conjurar a espreita do tigre e outros riscos noturnos. Ajoelhado diante dela como diante de uma divindade, don Rafo a soprava com seu resfolegar.

Entretanto, continuava o silêncio nas melancólicas solidões, e em meu espírito penetrava uma sensação de infinito que fluía das constelações próximas.

E outra vez voltei a recordar. Com a hora desvanecida, afundara-se irremediavelmente a metade de meu ser, e eu já devia iniciar uma vida nova, distinta da anterior, comprometendo o resto de minha juventude e até a razão de minhas ilusões, porque, quando florescessem, talvez já não houvesse a quem ofertá-las, ou deuses desconhecidos ocupariam o altar a que se destinavam. Alicia pensaria o mesmo, e desse modo, ao mesmo tempo que me servia de remorso, era o lenitivo de minha angústia, a companheira de meu pesar, porque ela também ia, como a semente ao vento, sem saber para onde e medrosa da terra que a esperava.

Indubitavelmente, era de caráter apaixonado: de sua timidez triunfava por vezes a decisão que impõem as coisas irreparáveis. Outras vezes doía-se de não ter tomado veneno.

—Embora eu não te ame como queres —dizia—, deixarás por isso de ser para mim o homem que me tirou da inexperiência para me entregar à desgraça? Como poderei esquecer o papel que desempenhaste em minha vida? Como poderás pagar-me o que me deves? Não será enamorando as camponesas das pousadas nem fazendo-me ansiar teu amparo para depois me abandonares. Mas, se é isto o que pensas, não te afastes de Bogotá, porque já me conheces. Tu responderás!

—E sabes que sou ridiculamente pobre?

—Demais mo repetiram quando me visitavas. O amparo que agora te peço não é o de teu dinheiro, mas o de teu coração.

—Por que me imploras aquilo que me apressei a oferecer-te de maneira espontânea? Por ti deixei tudo e me lancei à aventura, fossem quais fossem os resultados. Mas terás coragem de sofrer e confiar?

—Não fiz por ti todos os sacrifícios?

—Mas temes Casanare.

—Temo por ti.

—A adversidade é uma só, e nós seremos dois!

Tal foi o diálogo que sustentamos na casucha de Villavicencio, na noite em que esperávamos o chefe da Gendarmaria. Era ele um quidam meio encanecido e rechonchudo, vestido de cáqui, de bigodes ariscos e catadura aguardentosa.

—Saúde, senhor —disse-lhe em tom desdenhoso quando apoiou o sabre no umbral.

—Oh, poeta! esta moça é digna irmã das nove musas! Não sejas egoísta com os amigos!

E lançou-me no rosto um bafo de acetol.

Esfregando-se contra o corpo de Alicia ao acomodar-se no banco, resfolegou, agarrando-a pelos pulsos:

—Que botão de flor! Já não te lembras de mim? Sou Gámez y Roca, o General Gámez y Roca! Quando eras pequena eu costumava sentar-te em meus joelhos.

E tentou sentá-la de novo.

Alicia, transtornada, explodiu:

—Atrevido, atrevido! —e empurrou-o para longe.

—Que quer o senhor? —rosnei, fechando as portas. E o degradei com uma cusparada.

—Poeta, que é isto? Assim corresponde à fidalguia de quem não quer lançá-lo à prisão? Deixe-me a moça, porque sou amigo de seus pais, e em Casanare ela morre. Eu lhe guardarei o segredo. O corpo de delito para mim, para mim! Deixe-a comigo!

Antes que terminasse, com torção colérica, arranquei de Alicia um de seus sapatos e, lançando o homem contra o tabique, acometi-o com golpes de salto no rosto e na cabeça. O bêbado, gaguejando, desabou sobre os sacos de arroz que ocupavam o canto da sala.

Ali roncava meia hora depois, quando Alicia, don Rafo e eu fugimos em busca das planícies intérminas.

* * *

—Aqui está o café —disse don Rafo, parando diante do mosquiteiro—. Despertem, crianças, que estamos em Casanare.

Alicia nos saudou com tom cordial e ânimo limpo:

—O sol já quer sair?

—Ainda demora: o carrinho de estrelas mal vai chegando ao morro —e don Rafo nos apontou a cordilheira, dizendo—: Despeçamo-nos dela, porque não a tornaremos a ver. Só restam llanos, llanos e llanos.

Enquanto apurávamos o café, chegava-nos o bafo da madrugada, um cheiro de «pajonal» fresco, de sulco revolvido, de lenhos recém-cortados, e insinuavam-se leves sussurros nos leques dos «moriches». Às vezes, sob a transparência estelar, alguma palmeira cabeceava, humilhando-se para o oriente. Um regozijo inesperado nos enchia as veias, ao mesmo tempo que nossos espíritos, dilatados como a pampa, ascendiam agradecidos à vida e à criação.

—É encantador Casanare —repetia Alicia—. Não sei por que milagre, ao pisar a planície, diminuiu a angústia que ele me inspirava.

—É que —disse don Rafo— esta terra anima a gente a gozá-la e a sofrê-la. Aqui, até o moribundo anseia beijar o chão em que vai apodrecer. É o deserto, mas ninguém se sente só: são vossos irmãos o sol, o vento e a tempestade. Nem se os teme nem se os maldiz.

Ao dizer isso, don Rafo me perguntou se eu era tão bom cavaleiro quanto meu pai, e tão valoroso nos perigos.

—O que se herda não se furta —respondi jactancioso, enquanto Alicia, com o rosto iluminado pelo fulgor da fogueira, sorria confiante.

Don Rafo tinha mais de sessenta anos e fora companheiro de meu pai em alguma campanha. Conservava ainda aquele aspecto de dignidade que denuncia certas pessoas decaídas. A barba grisalha, os olhos tranquilos, a calva luzente convinham à sua estatura mediana, contagiosa de simpatia e benevolência. Quando ouviu meu nome em Villavicencio e soube que eu seria detido, foi procurar-me com a boa nova de que Gámez y Roca lhe jurara interessar-se por mim. Desde nossa chegada fizera compras para nós, atendendo as encomendas de Alicia. Ofereceu-se para ser nosso baquiano de ida e volta, e para, ao regressar de Arauca, ir buscar-nos no hato de um cliente seu, onde ficaríamos alojados alguns meses.

Por acaso achava-se em Villavicencio, de saída para Casanare. Depois de sua ruína, viúvo e pobre, tomou apego aos Llanos, e, com dinheiro do genro, percorria-os anualmente, como criador e mascate miúdo. Nunca comprara mais de cinquenta reses, e então tocava alguns cavalos pequenos para as fundações do baixo Meta e duas mulas carregadas de quinquilharias.

—O senhor se reafirma na confiança de que já estamos livres das pesquisas do General?

—Sem dúvida alguma.

—Que susto me deu aquele canalha! —comentou Alicia—. Pensem os senhores que eu tremia como azougue. E aparecer à meia-noite! E dizer que me conhecia! Mas levou o que merecia.

Don Rafo tributou à minha ousadia um aplauso feliz: eu era o homem para Casanare!

Enquanto falava, ia desmaneando os animais e pondo-lhes os cabrestos. Eu o ajudava na faina, e logo estivemos prontos para seguir a marcha. Alicia, que nos iluminava com uma lanterna, suplicou que esperássemos a saída do sol.

—Então o famigerado Pipa é uma raposa llanera? —perguntei a don Rafo.

—O mais astuto dos salteadores; várias vezes prófugo, depois de curar suas febres nos presídios, volta com maiores brios a exercer a pirataria. Foi capitão de índios selvagens, sabe línguas de várias tribos, é boga e é vaqueiro.

—E tão dissimulado, e tão hipócrita, e tão servil —anotava Alicia.

—Os senhores tiveram a fortuna de que lhes roubasse um só animal. Por aqui há de andar...

Alicia me olhava nervosa, mas acalmou suas preocupações com as anedotas de don Rafo.

E a aurora surgiu diante de nós; sem que percebêssemos o instante preciso, começou a flutuar sobre os pajonales um vapor rosado que ondulava na atmosfera como leve musselina. As estrelas adormeceram, e na lonjura de opala, ao nível da terra, apareceu um celaje de incêndio, uma pincelada violenta, um coágulo de rubi. Sob a glória da alba, fenderam o ar os patos gritadores, as garças morosas como flocos flutuantes, os papagaios esmeraldinos de voo trêmulo, as araras multicores. E de toda parte, do pajonal e do espaço, do «estero» e da palmeira, nascia um hálito jubiloso que era vida, era acento, claridade e palpitação. Enquanto isso, no arrebol que abria seu pálio incomensurável, dardejou o primeiro lampejo solar, e, lentamente, o astro, imenso como uma cúpula diante do assombro do touro e da fera, rolou pelas planícies, avermelhando-se antes de ascender ao azul. Alicia, abraçando-me chorosa e enlouquecida, repetia esta prece:

—Meu Deus, meu Deus! O sol, o sol!

Depois, nós, prosseguindo a marcha, afundamo-nos na imensidão.

* * *

Pouco a pouco o regozijo de nossas línguas foi cedendo ao cansaço. Havíamos feito copiosas perguntas que don Rafo atendia com autoridade de conhecedor. Já sabíamos o que eram uma «mata», um «caño», um «zural», e por fim Alicia conheceu os veados. Pastavam num estero até meia dúzia, e ao nos farejarem ergueram para nós as orelhas esquivas.

—Não gaste seus tiros de revólver —ordenou don Rafo—. Embora veja os bichos perto, estão a mais de quinhentos metros. Fenômenos da região.

Dificultava-se a conversa porque don Rafo ia de «ponteiro», levando «de destro» um animal, atrás do qual trotavam os outros pelos pajonales tostados. O ar quente fulgia como lâmina de metal, e, sob o espelho da atmosfera, no âmbito desolado, insinuava-se ao longe a massa enegrecida de um monte. Por momentos ouvia-se a vibração da luz.

Com frequência eu desmontava para refrescar as têmporas de Alicia, esfregando-as com um limão verde. À guisa de guarda-sol, ela levava sobre o chapéu uma echarpe branca, cujas pontas embebia em pranto cada vez que a afligia a lembrança do lar. Embora eu fingisse não reparar em suas lágrimas, inquietava-me o tom de suas faces arroxeadas, temeroso da congestão. Mas era impossível sestear sob a intempérie abrasada: nem uma árvore, nem uma gruta, nem uma palmeira.

—Queres descansar? —propusera-lhe, preocupado. E sorrindo me respondia:

—Quando chegarmos à sombra! Mas cobre o rosto, que a reverberação te tosta!

Pela tarde, pareciam surgir no horizonte cidades fantásticas. As matas de monte do poente provocavam a miragem, perfilando no céu penachos de palmeiras, por sobre cúpulas de ceibas e copeyes, cujas florações de vermelhão evocavam manchas de telhados.

Os cavalos que iam soltos, orientando-se na planície, começaram a galopar a considerável distância de nós.

—Já farejaram o bebedouro —observou don Rafo—. Não chegaremos à mata antes de meia hora; mas ali esquentaremos o bastimento.

Rodeavam o monte pântanos imundos, de lodo flutuante, cuja superfície percorriam avezinhas aquáticas que chilreavam balançando a cauda. Depois de grande rodeio, e quase pelo lado oposto, penetramos na espessura costeando o tremedal, onde as cavalgaduras bebiam, enquanto eu as maneava na sombra. Don Rafo limpou com o facão as ervas próximas a uma árvore enorme, acabrunhada por festões amarelentos, de onde choviam, para espanto de Alicia, vermes inofensivos e esverdeados. Armado o chinchorro, cobrimo-la com o amplo mosquiteiro, para defendê-la das abelhas que se lhe enredavam nos cachos, ávidas de sugar-lhe o suor. Fumegou depois a fogueira consoladora e nos devolveu a tranquilidade.

Eu metia no fogo a lenha que don Rafo me lançava, enquanto Alicia me oferecia a sua.

—Esses ofícios não cabem a ti.

—Não me impacientes; já ordenei que descanses, e deves obedecer!

Ressentida com minha atitude, começou a balançar-se, ao impulso que o pé imprimia ao chinchorro. Mas, quando fomos buscar água, rogou-me que não a deixasse sozinha.

—Vem, se quiseres —disse-lhe. E seguiu atrás de nós por uma trilha enredada de mato.

A laguinha de águas amarelentas estava coberta de folharada. Por entre elas nadavam umas tartaruguinhas chamadas «galápagos», mostrando a cabeça avermelhada; e aqui e ali, os caimõezinhos, chamados «cachirres», exibiam sobre a nata do poço os olhos sem pálpebras. Garças meditativas, sustentadas num pé, com bicada repentina enrugavam a charca tristíssima, cujas evaporações maléficas flutuavam sob as árvores como véu mortuário. Partindo um ramo, inclinei-me para varrer com ele as vegetações aquáticas, mas don Rafo me deteve, rápido como o grito de Alicia. Emergia, bocejando para me apanhar, uma serpente «guío», corpulenta como uma viga, que, aos meus tiros de revólver, afundou-se revolvendo o pântano e fazendo-o transbordar nas margens.

E regressamos com os caldeirões vazios.

Presa de pânico, Alicia reclinou-se trêmula sob o mosquiteiro. Teve desmaios, mas a cerveja lhe aplacou as náuseas. Com espanto não menor compreendi o que lhe acontecia e, sem saber como, abraçando a futura mãe, chorei todas as minhas desventuras.

* * *

Ao vê-la adormecida, afastei-me com don Rafael e, sentando-me sobre uma raiz de árvore, escutei seus conselhos inesquecíveis:

Não convinha, durante a viagem, adverti-la do estado em que estava, mas eu devia cercá-la de todos os cuidados possíveis. Faríamos jornadas curtas e regressaríamos a Bogotá antes de três meses. Ali as coisas mudariam de aspecto.

Quanto ao mais, os filhos legítimos ou naturais tinham igual procedência e eram queridos do mesmo modo. Questão de meio. Em Casanare assim acontecia.

Ele ambicionara em certa época fazer um casamento brilhante, mas o destino lhe marcara rota imprevista: a jovem com quem vivia naquele então chegou a superar a esposa sonhada, pois, julgando-se inferior, adornava-se com a modéstia e sempre se julgou devedora de um excesso de bem. Desse modo, ele foi mais feliz no lar que seu irmão, cuja companheira, escrava dos pergaminhos e das mentiras sociais, inspirou-lhe horror às altas famílias, até que regressou à simplicidade, favorecido pelo divórcio.

Não se devia recuar na vida diante de nenhum conflito, pois só afrontando-os de perto se vê se têm remédio. Era verdade que previa o escândalo de meus parentes se eu tomasse Alicia sobre os ombros ou a conduzisse ao altar. Mas não havia por que olhar tão longe, pois os temores vão além das possibilidades. Ninguém me assegurava que eu nascera para casado, e, ainda que assim fosse, quem poderia dar-me uma esposa distinta daquela assinalada por minha sorte? E Alicia, em que desmerecia? Não era inteligente, bem-educada, simples e de origem honesta? Em que código, em que escritura, em que ciência eu aprendera que os preconceitos primam sobre as realidades? Por que eu era melhor que outros, senão por minhas obras? O homem de talento deve ser como a morte, que não reconhece categorias. Por que certas donzelas me pareciam mais elevadas? Acaso por irrefletido consentimento do público, que me contagiava sua estultícia; acaso pelo lustre da riqueza? Mas esta, que costuma nascer de fontes obscuras, não era também relativa? Não resultavam miserabilíssimos nossos potentados em comparação com os de fora? Não chegaria eu à dourada mediania, a ser relativamente rico? Nesse caso, que me importariam os demais, quando viessem procurar-me com o incenso? O senhor só tem um problema supremo, junto ao qual todos os outros sobram: adquirir dinheiro para sustentar a modéstia decorosamente. O resto vem por acréscimo.

Calado, eu escarmentava mentalmente as razões que ouvia, separando a verdade do exagero.

—Don Rafo —disse-lhe—, eu vejo as coisas por outro aspecto, pois as conclusões do senhor, ainda que fundadas, não me preocupam agora: estão em meu horizonte, mas estão longe. Quanto a Alicia, o problema mais grave trago-o eu, que, sem estar enamorado, vivo como se estivesse, suprindo minha fidalguia aquilo que minha ternura não pode dar, com a convicção íntima de que minha idiossincrasia cavalheiresca me empurrará até o sacrifício por uma dama que não é a minha, por um amor que não conheço.

Fama de galã rendido ganhei no ânimo de muitas mulheres, graças ao costume de fingir, para que minha alma se sinta menos só. Por toda parte fui buscando em que distrair minha inconformidade, e ia de boa-fé, ansioso por renovar minha vida e por resgatar-me da perversão; mas, onde quer que pusesse minha esperança, encontrei lamentável vazio, embelezado pela fantasia e repudiado pelo desencanto. E assim, enganando-me com minha própria verdade, consegui conhecer todas as paixões e sofro seu fastio, e prossigo desorientado, caricaturando o ideal para me sugestionar com o pensamento de que estou próximo da redenção. A quimera que persigo é humana, e bem sei que dela partem os caminhos para o triunfo, para o bem-estar e para o amor. Mas os dias passaram, e minha juventude vai murchando sem que minha ilusão reconheça seu rumo; e vivendo entre mulheres simples, não encontrei a simplicidade; nem entre as enamoradas, o amor; nem a fé entre as crentes. Meu coração é como uma rocha coberta de musgo, onde nunca falta uma lágrima. Hoje o senhor me viu chorar, não por fraqueza de ânimo, pois bastante rancor tenho à vida: chorei por minhas aspirações enganadas, por meus sonhos desvanecidos, pelo que não fui, pelo que jamais serei!

Pouco a pouco eu ia levantando a voz e compreendi que Alicia estava desperta. Aproximei-me cauteloso e a surpreendi em atitude de escuta.

—Que queres? —disse-lhe. E seu silêncio me desconcertou.

Foi preciso continuar a marcha até o «morichal» vizinho, segundo decisão de don Rafo, porque a mata era extremamente perigosa: a muitas léguas em redor, só nela os animais encontravam água, e à noite as feras acorriam. Saímos dali, passo a passo, quando a tarde começou a suspirar, e sob os últimos arreboles nos preparamos para a parada. Enquanto don Rafo acendia fogo, retirei-me pelos pajonales para amarrar os cavalos. A brisa do anoitecer refrescava o deserto e, de repente, em intervalos desiguais, chegou aos meus ouvidos algo como um lamento de mulher. Instintivamente pensei em Alicia, que, aproximando-se, me perguntava:

—Que tens? Que tens?

Reunidos depois, sentíamos a queixa soluçante, voltados para o lado de onde vinha, sem que acertássemos a decifrar o mistério: uma palmeira de macanilla, fina como um pincel, obedecendo à brisa, fazia chorar suas franjas no crepúsculo.

* * *

Oito dias depois avistamos a fundação de La Maporita. A lagoa próxima aos currais dourava-se ao sol. Uns mastins enormes vieram ao nosso encontro, com latidos desaforados, e nos dispersaram os animais. Diante do «tranquero» da entrada, onde se ensolarava um «bayetón» vermelho, exclamou don Rafo, erguendo-se nos estribos:

—Louvado seja Deus!

—... E sua mãe santíssima —respondeu uma voz de mulher.

—Não há quem venha espantar os cães?

—Já vai.

—A menina Griselda?

—No caño.

Complacidos observávamos o asseio do pátio, cheio de caracuchos, perpétuas, habanos, papoulas e outras plantas do trópico. Ao redor da horta refrescavam os bananais, de folhas sussurrantes e rasgadas, dentro da cerca de «guadua» que protegia a vivenda, em cuja cumeeira luzia seus resplendores um pavão.

Por fim, uma mulata decrépita apareceu à porta da cozinha, enxugando as mãos na barra das saias.

—Chite, uise! —gritou, atirando uma casca às galinhas que ciscavam o terreiro—. Prossigam, que a menina Griselda tá se banhando. Os cachorros não mordem, já morderam!

E voltou aos seus afazeres.

Sem testemunhas, ocupamos o quarto que servia de sala, onde não havia outra mobília além de dois chinchorros, uma «barbacoa», dois bancos, três baús e uma máquina «Singer». Alicia, sufocada, balançava-se ponderando o cansaço, quando entrou a menina Griselda, descalça, com o «chingue» ao braço, o pente na risca do cabelo e os sabões numa cuia.

—Perdoe-nos —dissemos.

—Têm às suas ordens o rancho e a pessoa. Ah! Don Rafael também veio? Que faz na «ramáa»? —e, saindo ao pátio, dizia-lhe familiarmente:

—Transcordado, tornou a esquecer o chifre? Tô entigrecida contra vosmecê. Não me venha com essas, porque brigamos.

Era uma fêmea morena e fornida, nem alta nem pequena, de rosto rechonchudo e olhos simpáticos. Ria mostrando os dentes largos e alvíssimos, enquanto com mão diligente espremia os cabelos gotejantes sobre o corpete desabotoado. Voltando-se para nós, interrogou:

—Já trouxeram café pra vocês?

—A senhora se põe em incômodo...

—Tiana, Bastiana, que houve?

E, sentando-se no chinchorro ao lado de Alicia, perguntou-lhe se os diamantes de seus brincos eram «legais» e se trazia outros para vender.

—Senhora, se gosta deles...

—Troco por essa máquina.

—Sempre esperta para o negócio —galanteou don Rafo.

—Nada! É que estamos nos ajuntando pra deixar a terra.

E com acento cálido referiu que Barrera viera levar gente para os seringais do Vichada.

—É a ocasião de melhorar: dão alimentação e cinco pesos por dia. Assim eu disse a Franco.

—E que Barrera é o enganchador? —perguntou don Rafo.

—Narciso Barrera, que trouxe mercadorias e «morrocotas» pra dar e convidar.

—Vocês acreditam nesse sujeito?

—Cale-se, don Rafo. Cuidado com desanimar Fidel! Se ele tá oferecendo dinheiro adiantado e Fidel não se resolve a deixar este pegujal! Quer mais às vacas do que à mulher! E isso que nos cristianamos em Pore, porque só éramos casados militarmente.

Alicia, olhando-me de soslaio, sorriu.

—Menina Griselda, essa viagem pode resultar num contratempo.

—Don Rafo, quem não arrisca não atravessa o mar. Ora, digam vocês se não valerá a pena um enganche que entusiasmou todo mundo. Porque lá no hato não vai ficar gente. O velho teve que pelejar com eles pra que ajudem a terminar os trabalhos de gado. Ninguém quer fazer nada! E de noite têm uns «joropos»!... Mas imagine: estando lá a Clarita... Eu proibi Fidel de ficar por lá, e ele não me faz caso. Desde segunda foi-se. Amanhã o espero.

—A senhora diz que Barrera trouxe muita mercadoria? E vende barato?

—Sim, don Rafo. Nem vale a pena vosmecê abrir suas «petaquitas». Já todo mundo comprou. Aposto que não me trouxe os chifres das moas quando mais preciso deles. Tenho que levar roupa de primeira.

—Por aí lhe trago um.

—Deus lhe pague!

A velha Sebastiana, enrugada como um figo seco, de cabeça grisalha e braços trêmulos, estendeu-nos sendas xícaras de café amargo, que nem Alicia nem eu conseguíamos tomar e que don Rafo saboreava vertendo-o no pires. A menina Griselda apressou-se a trazer um mel escuro, que tirava de um garrafão para que adoçássemos a bebida.

—Muito obrigado, senhora.

—E esta boa moça é sua mulher? Vosmecê é o genro de don Rafo?

—Como se fosse.

—E vocês também são tolimas?

—Eu sou desse departamento; Alicia, bogotana.

—Parece que vosmecê fosse pra algum joropo, de tão «cachaca» que tá. Que vestido bonito e que bons botins! Esse vestido foi a senhora que cortou?

—Não, senhora, mas entendo algo de modisteria. Estive três anos no colégio assistindo à classe.

—Me ensina? Não é verdade que me ensina? Pra isso comprei máquina. E vejam que luxo de tecidos tenho aqui. Barrera me deu no dia que veio nos ver. A Tiana também deu. Onde tá o teu?

—Pendurado na «percha». Ora trago.

E saiu. A menina Griselda, entusiasmada porque Alicia lhe ofereceu ser sua mestra de corte, soltou da cintura as chaves e, abrindo o baú, mostrou-nos uns tecidos de cores vivas.

—Essas são etaminas comuns!

—Puros cortes de seda, don Rafo; Barrera é rasgadíssimo. E vejam as vistas da fábrica no Vichada, aonde quer nos levar. Digam imparcialmente se não são uma preciosidade esses edifícios e se estas fotografias não são primorosas. Barrera as repartiu por toda parte. Vejam quantas tenho coladas no baú.

Eram uns cartões-postais coloridos. Viam-se neles, à margem montuosa de um rio, casas de dois andares, em cujas varandas se agrupava gente. Lanchas a vapor fumegavam no pequeno porto.

—Aqui vivem mais de mil homens e todos ganham uma libra diária. Lá vou pôr assistência para a peonada. Imaginem quanto dinheiro pegarei só com a masseira! E o que Fidel ganhar?... Vejam, estes montes são os seringais. Bem diz Barrera que outra oportunidade como esta não se apresentará.

—O que eu sinto é estar tão quebrada; senão também ia atrás de meu zambo —disse a velha, acocorando-se de novo no limiar.

—Aqui tá o tecido —acrescentou, desdobrando uma chita vermelha.

—Com esse traje parecerás um tição aceso.

—Branco —replicou-me—; pior é não parecer nada.

—Anda —ordenou a menina Griselda—, procura pra don Rafo uns «topochos» maduros pros cavalos. Mas primeiro diz ao Miguel que deixe de estar deitado no chinchorro, porque assim não se lhe tiram as febres: que tire a água da «curiara» e cuide do anzol, pra ver se os «caribes» já engoliram a isca. Pode ser que algum «bagrecito» tenha fisgado. E nos dá alguma coisa de comer, que estes brancos chegam de longe. Venha pra cá, menina Alicia, e afrouxe a roupa. Neste quarto ficaremos nós duas.

E, parando diante de mim, acrescentou com picaresco descaramento:

—Levo-a comigo! Vocês já separaram cama?

* * *

Verdadeira pena senti por don Rafael diante do fracasso de seu negócio. Tinha razão a menina Griselda: todos já se haviam provido de mercadorias.

Contudo, dois dias depois de nossa chegada, vieram do hato uns homens enxutos e pálidos, cujas montarias úmidas dissimulavam seu mau aspecto com o bayetón que os cavaleiros deixavam pendente sobre os joelhos. Do outro lado do monte pediram a gritos a curiara e, julgando não ser ouvidos, fizeram disparos de winchester. Vista a demora, sem desmontar, lançaram suas cavalgaduras ao caño e o cruzaram trazendo as roupas amarradas na cabeça.

Chegaram. Vestiam calças de linho, camisa solta chamada «lique» e largos chapéus de feltro castanho. Seus pés nus apertavam com o dedão o aro dos estribos.

—Bom dia... —irromperam com voz melancólica, entre os latidos dos cães.

—Tomara que nos tivessem matado, de tão engraçadinhos —exclamou a menina Griselda.

—Era pela curiara...

—Que curiara! Este não é passo real!

—Viemos ver a mercadoria...

—Entrem, mas deixem seus «rangos» fora.

Os homens apearam-se e, com os ronzéis de cerda torcida que serviam de rédeas, amarraram os trotones sob o saman da entrada e avançaram com os bayetones ao ombro. Ao redor do couro em que don Rafo estendera a quinquilharia, acocoraram-se indolentes.

—Vejam os diagonais extras; aqui estão umas facas garantidas; reparem nessa faixa de couro, com coldre para o revólver, tudo de primeira classe.

—Trouxe quinina?

—Muito boa, e pílulas para as maleitas.

—Quanto custa a linha?

—Dez centavos a meada.

—Não dá por cinco?

—Leve por nove.

Foram tocando tudo, examinando, comparando, quase sem falar. Para saber se um tecido desbotava, embebiam os dedos em saliva e o esfregavam. Don Rafael, com a vara de medir, assinalava-lhes tudo, esgotando os encômios para cada coisa. Nada lhes agradou.

—Deixa-me por vinte reais essa navalha?

—Leve-a.

—Dou pelos botões o que lhe disse?

—Tome-os.

—Mas me põe de quebra a agulha pra prendê-los.

—Pegue-a.

Assim compraram bagatelas por dois ou três pesos. O homem da carabina, desatando a ponta do lenço, estendeu uma morrocota:

—Pague-se de tudo; é de vinte dólares.

E fê-la tinir contra o aço da arma.

—Vamos ver o troco!

—Por que não compram o restinho?

—A esses preços não se alcança nem com a carabina. Vá ao hato pra ver coisas dadas.

—Adeus, pois!

E montaram.

—Olha, sócio —bradou, regressando, o de pior estampa—; Barrera nos mandou tirar tua mercadoria, e é melhor que te mandes com ela. Ficas notificado: longe com ela! Se não a tiramos agora, é por pouca e cara demais!

—E tirá-la por quê? —indagou don Rafo.

—Pela concorrência!

—Crês tu, infeliz, que este ancião está só? —irrompi, empunhando uma faca, entre os aspaventos das mulheres.

—Olha —repôs o homem— por cima de mim, meu chapéu. Por grande que seja a terra, ela me queima sob os pés. Contigo não estou me metendo. Mas, se quiseres, pra ti também há! Esporeando o potro, atirou-me à cara os objetos comprados e galopou com seus companheiros ao longo da planície.

* * *

Naquela noite, por volta das dez, Fidel Franco chegou à casa. Embora a embarcação deslizasse sem ruído sobre a água profunda, os gozques a sentiram, e no instante espalhou-se o alarme.

—É Fidel, é Fidel —dizia a menina Griselda, tropeçando em nossos chinchorros. E saiu ao pátio em camisola, envolta desde a cabeça num xale escuro, seguida de don Rafael.

Alicia, assustada nas trevas, começou a chamar-me de seu quarto:

—Arturo, sentiste? Chegou gente!

—Sim, não te aflijas, não venhas! É o dono da casa.

Quando, de flanela e sem chapéu, saí ao ar livre, ia um grupo sob os bananais levando um archote aceso. A corrente da curiara soou ao atracar, e desembarcaram dois homens armados.

—Que aconteceu por aqui? —disse um, abraçando secamente a menina Griselda.

—Nada, nada! Por que apareces a semelhante hora?

—Que hóspedes chegaram?

—Don Rafael e dois companheiros, homem e mulher.

Franco e don Rafo, depois de um aperto amistoso, regressaram com os do grupo para a cozinha.

—Vim alarmadíssimo porque hoje à noite, ao chegar ao hato com a boiada, soube que Barrera havia mandado uma comissão. Não queriam me emprestar cavalo, mas mal começou a farra trouxe a curiara de lá. A que vieram esses foragidos?

—Tirar-me o «chucho» —respondeu humildemente don Rafo.

—E que se passou, Griselda?

—Nada! Se mais, haveria briga, porque o «guatecito» os enfrentou de «cachiblanco» na mão. Um horror! Fez a gente gritar!

—Vai pra dentro —acrescentou de repente a patroa, lívida, trêmula, enquanto lhes davam o gole de café—, pendura teu chinchorro no corredor, porque estou no quarto com a dona.

—De modo nenhum: Alicia e eu nos alojaremos na enramada —disse, avançando para o corrilho.

—Vosmecê não manda aqui —replicou a menina Griselda, esforçando-se por sorrir—. Venha, conheça este llanero, que é o meu.

—Seu criado —respondi, devolvendo o abraço.

—Conte comigo! Basta que o senhor seja companheiro de don Rafael.

—E se visses com que pedaço de mulher se enyugou! Coradinha que nem um merey! E as mãos que tem pra cortar a seda, e como é jeitosa pra ensinar!

—Pois mandem nos seus novos criados —repetia Franco.

Era magro e pálido, de estatura mediana, e talvez mais velho que eu. Quadrava-lhe o sobrenome ao caráter, e sua fisionomia e suas palavras eram menos eloquentes que seu coração. As feições proporcionadas, o sotaque e o modo de dar a mão advertiam que era homem de boa origem, não saído das pampas, mas vindo a elas.

—O senhor é oriundo de Antioquia?

—Sim, senhor. Fiz alguns estudos em Bogotá, ingressei depois no exército, destinaram-me à guarnição de Arauca, e dali desertei por um desgosto com meu capitão. Desde então vim com Griselda aquecer este rancho, que não deixarei por nada na vida. —E recalcou—: Por nada na vida!

A menina Griselda, com muxoxo amargo, permanecia muda. Ao perceber que estava em traje de alcova, foi-se com o pretexto de vestir-se, levando dentro da mão em concha a luz de uma vela.

E não voltou mais.

Enquanto isso, a velha Tiana fazia flamejar o fogão de três pedras, sobre as quais pendia um arame para pendurar o caldeirão ou a «marma». Ao tépido pestanejar do lume, sentamo-nos em círculo, sobre raízes de guadua ou sobre caveiras de jacaré que serviam de bancos. O mocetão que chegara com Franco me olhava com simpatia, sustentando entre os joelhos nus uma espingarda de dois canos. Como suas roupas estavam úmidas, desenrolou as barras das ceroulas e as arejava sobre as panturrilhas de músculos nodosos. Chamava-se Antonio Correa e era filho de Sebastiana, tão quadrado de costas e tão fornido de peito que parecia um ídolo indígena.

—Mamãe —disse, coçando a cabeça—, quem foi o intrometido que levou ao hato a fofoca da mercadoria?

—Isso não tem nada de mau: avisando se vende.

—Sim, mas que foi fazer lá na tarde em que estes brancos chegaram?

—Eu que sei! Mandaria a menina Griselda.

Desta vez foi Franco quem fez o muxoxo. Depois de curto silêncio indagou:

—Mulata, quantas vezes Barrera veio?

—Não reparei. Vivo ocupada aqui na minha cozinha.

Saboreado o café e referido por don Rafo algum incidente de nossa viagem, tornou Franco a perguntar, obedecendo à sua obstinada preocupação:

—E Miguel e Jesús que têm estado fazendo? Procuraram os porcos na savana? Consertaram o tranquero dos currais? Quantas vacas ordenham?

—Só duas de bezerro grande. As outras a menina Griselda mandou soltar, porque já começa a haver praga, e os mosquitos matam as crias.

—E onde estão esses preguiçosos?

—Miguel com febre. Não quer fazer o remédio: são cinco folhinhas de borragem, mas arrancadas de baixo pra cima, porque de cima pra baixo produzem vômito. Aí tenho o cozimento, mas ele não engole. E isso que tá enviajado para os seringais. Passa a vida jogando cartas com Jesús, e esse sim tá perdido por ir-se!

—Pois que se mandem desde agora, na curiara do hato, e não voltem mais. Não tolero em minha pousada nem fofoqueiros nem espiões. Mulata, vai ao caney e diz que desocupem: que nem me devem, nem lhes devo!

Quando Sebastiana saiu, don Rafael perguntou pela situação do hato: era verdade que tudo andava «manga por hombro»?

—Nem sombra do que o senhor conheceu. Barrera transtornou tudo. Lá não se pode viver. Melhor que lhe pusessem fogo.

Depois referiu que os trabalhos se haviam suspendido porque os vaqueiros se embriagavam e se dividiam em grupos para se encontrar em determinados pontos da planície, onde, às escondidas, os áulicos de Barrera lhes vendiam bebida. Umas vezes deixavam que os cavalos fossem mortos, entregando-se estupidamente aos touros; outras, deixavam-se pegar pela corda ou, ao «colear», sofriam golpes mortais; muitos voltavam a se esbaldar com Clarita; estes derrengavam os rangos apostando corridas, e ninguém corrigia a desordem nem normalizava a situação, porque, diante do engodo da próxima viagem aos seringais, nenhum pensava em trabalhar quando estava nas vésperas de ser rico. Desse modo, já não restavam cavalos mansos, mas potros; nem havia vaqueiros, mas festeiros; e o velho Zubieta, dono do hato, bêbado e gotoso, ignorante do que se passava, escarranchava-se no chinchorro para deixar que Barrera lhe ganhasse dinheiro nos dados, para que Clarita lhe desse aguardente com a boca, para que a peonada do enganchador sacrificasse até cinco reses por dia, descartando, ao esfolá-las, as que não parecessem gordas.

E para cúmulo, os índios guahibos das margens do Guanapalo, que flechavam reses às centenas, assaltaram a fundação do Hatico, levando as mulheres e matando os homens. Graças a que o rio deteve o incêndio, mas, até não sei que noite, via-se o longínquo resplendor da queimada.

—E que pensa o senhor fazer com sua fundação? —perguntei.

—Defendê-la! Com dez cavaleiros de vergonha, bem encarabinados, não deixaremos índio com vida.

Nesse instante voltou Sebastiana:

—Já se foram —disse.

—Mamãe, cuidado que levam meu «tiple».

—Que se não manda nenhum recado.

—Sim: ao velho Zubieta, que não me espere. Que sigo dirigindo-lhe a vaqueria quando me der melhores llaneros.

Depois da mulata, saímos ao pátio. A noite estava escura e começava a garoar. Franco nos seguiu à sala e estendeu-se na barbacoa. Lá fora, os que partiam cantaram em dueto:

Coração, não sejas cavalo;

aprende a ter vergonha;

a quem te queira, querê-lo,

e a quem não, não lhe faças força.

E a pá do remo na onda e o repentino rebater da chuva apagaram o eco da toada.

* * *

Passei uma noite ruim. Quando amiudava o canto dos galos consegui adormecer. Sonhei que Alicia ia sozinha, por uma savana lúgubre, rumo a um lugar sinistro onde um homem a esperava, que podia ser Barrera. Acocorado nos pajonales, eu ia espiando-a, com a espingarda do mulato em posição; mas cada vez que tentava apontá-la contra o sedutor, ela se convertia entre minhas mãos numa serpente gelada e rígida. Desde a cerca dos currais, don Rafo agitava o chapéu, exclamando: Venha! Isto já não tem remédio!

Via depois a menina Griselda, vestida de ouro, num país estranho, encarapitada numa penha de cuja base fluía um fio esbranquiçado de caucho. Ao longo dele, bebiam-no gentes inumeráveis, de bruços. Franco, erguido sobre um promontório de carabinas, admoestava os sedentos com este estribilho: «Infelizes, atrás destas selvas está o além!»; e ao pé de cada árvore ia morrendo um homem, enquanto eu recolhia suas caveiras para exportá-las em lanchões por um rio silencioso e escuro.

Voltava a ver Alicia, desgrenhada e nua, fugindo de mim por entre as brenhas de um bosque noturno, iluminado por vaga-lumes colossais. Eu trazia na mão uma machadinha curta, e, pendente do cinto, um recipiente de metal. Detive-me diante de uma araucária de corimbos roxos, parecida com a seringueira, e comecei a ferir-lhe a casca, para que escorresse a goma. «Por que me sangras?», suspirou uma voz desfalecente. «Eu sou tua Alicia, e me converti numa parasita».

Agitado e suarento despertei por volta das nove da manhã. O céu, depois da chuva anterior, resplandecia lavado e azul. Uma brisa discreta suavizava os grandes calores.

—Branco, aqui tá o desjejum —murmurou a mulata—. Don Rafo e os homens montaram, e as mulheres tão se banhando.

Enquanto eu desayunava, ela se sentou no chão e começou a ajustar com os dentes a correntinha de uma medalha que levava ao pescoço. Resolvi pôr esta peça, porque tá benta e é milagrosa. Vamos ver se Antonio se anima a me cevar. Se me deixar desamparada, dei-lhe no café o coração de um passarinho chamado «piapoco». Ele pode ir muito longe e correr terras; mas, onde ouvir cantar outro pássaro semelhante, ficará triste e terá que voltar, porque a «mandinga» tá em que vem a pesarosa lembrança apresentar a pátria, o rancho e o querer esquecido, e atrás dos suspiros tem que encaminhar-se o suspirador, ou morre de pena. A medalha também ajuda se for pendurada naquele que se vai.

—E Antonio pretende ir ao Vichada?

—Quem sabe. Franco não quer desarraigar-se, mas a mulher tá enviajada. Antonio faz o que o homem disser.

—E ontem à noite, por que os rapazes foram embora?

—O homem não aguentou mais eles. Tá desconfiado. Jesús foi ao hato na tardinha em que vocês chegaram, não pra chamar Barrera, mas pra lhe dizer que não se aproximasse porque não se podia. Foi só isso. Mas o homem é esperto e os despachou.

—Barrera vem com frequência?

—Eu não sei. Se acaso fala com Griselda, é no caño, porque ela, a pretexto do anzolzinho, anda remolona com a curiara. Barrera é melhor que o homem; Barrera é uma oportunidade. Mas o homem é «atravessado», e a mulher tem medo dele desde o acontecido em Arauca. Sopraram-lhe que o Capitão andava atrás dela, e ele madrugou: deu-lhe duas punhaladas!

Nesse momento, interrompendo-se a conversa, avançavam em animado trio Alicia, a menina Griselda e um homem elegante, de botas altas, vestido branco e feltro cinza.

—Aí tá don Barrera. O senhor não queria conhecê-lo?

—Cavalheiro —exclamou inclinando-se—, dupla fortuna é a minha que, inesperadamente, me põe aos pés de um marido tão digno de sua linda esposa.

E sem esperar outra razão, beijou em minha presença a mão de Alicia. Apertando depois a minha, acrescentou adulador:

—Louvada seja a terra que esculpiu tão belas estrofes. Presente de meu espírito foram elas no Brasil, e me produziam suspirante nostalgia, porque é privilégio dos poetas encadear ao coração da pátria os filhos dispersos e criar-lhe súditos em terras estranhas. Fui exigente com a fortuna, mas nunca aspirei à honra de declarar-lhe pessoalmente minha admiração sincera.

Embora estivesse prevenido contra esse homem, confesso que fui sensível à adulação, e que suas palavras temperaram o desgosto que me produziu sua cortesia com minha garbosa daifa.

Pediu-nos perdão por entrar na sala com botas de campo; e, depois de averiguar pela saúde do dono da casa, suplicou-me que lhe aceitasse uma taça de uísque. Eu já percebera que a menina Griselda trazia a garrafa na mão.

Quando Sebastiana colocou sobre a barbacoa as xícaras e o homem se inclinou para enchê-las, observei que ele trazia ao cinto um revólver niquelado e que a garrafa não estava cheia.

Alicia, olhando-me, resistia a tomar.

—Outra tacinha, senhora. Já se convenceu de que é licor suave.

—Como! —disse, carrancudo—. Tu também bebeste?

—O senhor Barrera insistiu tanto... E me deu este frasco de perfume —murmurou, tirando-o da cestinha onde o mantinha oculto.

—Um presente insignificante. Perdoe-me, eu o trazia especialmente...

—Mas não para minha mulher. Talvez para a menina Griselda! Acaso vocês três já se conheciam?

—Absolutamente, senhor Cova; a ventura me fora adversa.

Alicia e a menina Griselda enrubeceram.

—Soube —esclareceu o homem— que os senhores estavam aqui por notícias de uns rapazolas que ontem à noite chegaram ao hato. Imenso pesar me causou a nova de que seis cavaleiros, ladrões sem dúvida, haviam pretendido expropriar em meu nome uma mercadoria; e, tão logo amanheceu, encaminhei-me para apresentar meus respeitosos protestos contra o atentado inqualificável. E esse uísque e esse perfume, humildes oferendas de quem não tem, fora seu coração, mais que oferecer, estavam destinados a corroborar a fervente adesão que professo aos donos da casa.

—Ouviste, Alicia? Dá esse frasco à menina Griselda.

—E então vocês não são também donos deste rancho? —anotou a patroa, com voz ressentida.

—Como tais os considero eu, porque onde quer que cheguem são, por direito de simpatia, senhores de quanto os rodeia.

Apesar de meu semblante agressivo, o homem não se desconcertou; mas deu ao discurso giro diverso: tantas coisas sucediam em Casanare que dava arrepio pensar no que chegaria a se converter essa terra privilegiada, forte berço da hospitalidade, da honradez e do trabalho. Mas, com os asilados da Venezuela que a infestavam como daninha nuvem de gafanhotos, não se podia viver. Quanto sofrera ele com os voluntários que lhe pediam enganche! Tantos se apresentavam explorando a condição de desterrados políticos, e eram vulgares delinquentes, prófugos de penitenciárias! Mas era perigoso rejeitá-los de plano, em previsão de algum desmando. Indubitavelmente a essa classe pertenciam os que haviam pretendido desvalijar don Rafael. Jamais a empresa do Vichada poderia indenizá-lo de tantos desgostos. Era verdade, e seria ingratidão não reconhecê-lo e proclamá-lo, que ela lhe fizera distinções honrosas. Primeiro o enviou ao Brasil, residência dos principais acionistas, com uma grande carga de borracha, e eles lhe rogaram que aceitasse a gerência da exploração; mas ele a recusou por carecer de aptidões. Ah! Se então tivesse adivinhado que eu queria habitar o deserto! Se eu pudesse indicar-lhe um candidato, com quanto orgulho proporia seu nome; e se esse candidato quisesse ir com ele, na certeza de que seria nomeado...

—Senhor Barrera —interrompi—, jamais tive notícias de que no Vichada houvesse empresas da magnitude da sua.

—Minha, não; minha, não! Sou um modesto empregado a quem pagam apenas duas mil libras anuais, fora despesas.

Audazmente fixou em mim os olhos subornadores, passou pelo rosto um lenço de seda, acariciou o nó da gravata e se despediu, encarecendo-nos uma e outra vez que saudássemos os cavalheiros ausentes e lhes transmitíssemos seu protesto contra o abuso dos salteadores. Contudo, ele pensava voltar outro dia para apresentá-lo pessoalmente.

A menina Griselda acompanhou-o até o caño, e ali se deteve mais tempo do que exige uma despedida.

—De onde saiu este sujeito? —disse em tom brusco, encarando Alicia, mal ficamos a sós.

—Chegou a cavalo por aquela margem, e a menina Griselda o passou na curiara.

—Tu o conhecias?

—Não.

—Parece-te interessante?

—Não.

—Decides aceitar o perfume?

—Não.

—Muito bem! Muito bem!

E, arrancando-lhe o frasco do bolso do avental, estraçalhei-o com fúria no pátio, quase aos pés da menina Griselda que regressava.

—Cristão, vosmecê tá louco, vosmecê tá louco!

Alicia, entre humilhada e surpreendida, abriu a máquina e começou a costurar. Houve momentos em que só se ouvia o ruído dos pedais e o palavrear do papagaio na estaca.

A menina Griselda, compreendendo que não devia nos abandonar, disse, sorridente e astuta:

—Esses caprichos desse Barrera é que me dão graça. Ora meteu na cabeça a ideia de conseguir umas esmeraldas e pôs os olhos nas de minhas «candongas». Das orelhas ele me roubaria!

—Não vá ele levá-las com sua cabeça —repliquei, realçando a sátira com uma gargalhada eficaz.

E fui-me aos currais, sem escutar as alarmadas desculpas.

—Bem faz em não discutir comigo, porque já levo ganhado!

Trepado na «talanquera», dava desabafo à minha acrimônia, sob o raio do sol, quando vi flutuar ao longe, por cima dos morichales, uma nuvem de pó, ondulosa e espessa. Pouco depois, pelo lado oposto, divisava a silhueta de um cavaleiro que, desalado, cruzava aos saltos as ondas palhentas da planície, volteando a corda e revolvendo-se apressado. Um grande tropel fazia vibrar a pampa, e outros vaqueiros atravessaram o «banco» antes que a eguada aparecesse à minha vista; de cujo grupo desbandava-se às vezes alguma potranca bravia, louca de juventude, quebrando-se em brincalhões corcovos. Já ouvia claramente os gritos dos cavaleiros que mandavam abrir o tranquero; e mal tive tempo de obedecer-lhes quando precipitou-se no curral o «atajo», nervoso, bravio, resfolegante.

Franco, don Rafael e o mulato Correa apearam-se de seus trotones ofegantes que, suando espuma, esfregavam contra a cerca as cabeças estremecidas.

—Egoístas, por que não me convidaram?

—Quem primeiro madruga comunga duas vezes. Já o veremos laçar em outra ocasião.

Enquanto asseguravam as portas dos redutos, atando-lhes grossos travessões, acudiram as mulheres para contemplar, pelos claros do «palo a pique», a eguada pujante, que se revolvia em círculo, desejosa de atropelar o encerro. Alicia, que trazia na mão seu tecido de labor, gritava de entusiasmo ao ver a confusão de ancas luzentes, crinas furacanas, cascos sonoros. Aquele para mim! Este é o mais lindo! Vejam o outro como coiceia! E dos flancos convulsos, do pó pisoteado e dos relinchos rebeldes, ascendia um hálito de alegria, de força e brutalidade.

Correa estava feliz.

—Pegamos o resabiado! É aquele garanhão negro, crinudo, pata-branca! Negou-se-lhe o dia, e mais valia que não tivesse nascido! Não vi zambo que não tenha medo dele, mas já dirão vocês se derruba o filho de minha mãe!

—Mulato condenado, que vais fazer? —rosnou a velha—. Pensas que esse cavalo te pariu?

Estimulado por nossa presença, disse a Alicia:

—Vou dedicar-lhe a façanha. Mal almocem, monto!

E, ao perceber o cheiro da essência derramada no pátio, dilatou as narinas, repetindo:

—Ah!... Cheira a mulher, cheira a mulher!

Não quis almoçar. Meteu na boca um punhado de banana frita, desfiou um pedaço de carne e molhou a língua com café cerrero. Enquanto isso, entre os resmungos de Sebastiana, sela ao ombro, saiu a nos esperar no curral.

Também fomos parcos no comer, pela exaltação de ânimo, agravada pela novidade do espetáculo próximo. Alicia, em breve reza mental, encomendava o mulato a Deus.

—Homens! —plangia Sebastiana— não deixem que essa besta mate meu «motoso».

Tiramos as cordas, de couro peludo, e umas maneias curtas, chamadas «sueltas», de meio metro de comprimento, em cujas pontas se abotoavam grossos anéis de fique trançado.

Como o potro esquivava os laços, agachando-se entre o tumulto, Franco ordenou dividir a eguada, para o que se abriu o tranquero do curralzinho contíguo. Quando o cavalo ficou só, atreveu as mãos contra a cerca, no instante em que o mulato o «arropou» com a corda. Grandes saltos deu o animal, agachando a manchada cerviz em torno da forquilha do «botalón», onde fumegava a corda vibrante; e na ponta dela se pendurou colérico, enforcando-se em soluço angustioso, até cair em terra, desfalecido, pateador.

Franco sentou-se-lhe no flanco e, agarrando-o pelas orelhas, dobrou-lhe sobre o dorso o galhardo pescoço, enquanto o mulato o enjaquimava depois de ajustar-lhe as sueltas e de amarrar-lhe um rejo na cauda. Dessa maneira o submetiam, e em vez de cabresteá-lo pela cabeça, puxavam-no pelo rabo, até que o infeliz, debatendo-se contra o chão, ficou fora dos currais. Ali o vendamos com a testeira, e a sela oprimiu-lhe pela primeira vez os lombos indômitos.

Em meio a vociferante azáfama, soltaram as éguas, que se assenhorearam da planície; e o semental, posto de frente para a campina, tremia receoso, enfurecido.

Ao tempo de soltar-lhe as maneias, exclamou o cavaleiro:

—Mamãe, vamos ver o escapulário!

Franco e don Rafael requereram as cavalgaduras, mas o domador impediu que lhe segurassem o potro:

—Fiquem atrás, e, se ele quiser virar, atirem-lhe o rejo pra evitar que me pegue debaixo.

Depois, entre os gritos de Sebastiana, suspendeu do pescoço a relíquia, persignou-se e, com gesto rápido, destapou o animal.

Nem a mula cimarrona que manoteia espantada quando o tigre lhe monta na nuca; nem o touro selvagem que brama percorrendo o circo mal lhe cravam as bandarilhas; nem o peixe-boi que sente o arpão gastam violência igual à daquele potro quando recebeu o primeiro açoite. Sacudiu-se com berrido iracundo, coiceando a terra e o ar em carreira desaforada, diante de nossos olhos apavorados, enquanto os amadrinhadores o perseguiam, sacudindo as ruanas. Descreveu grandes pistas em tremendos saltos, e, tal como poderia corcovear um centauro, subia no vento, grudada à sela, a figura do homem, como torvelinho do pajonal, até que só se viu ao longe a nota branca da camisa.

Ao cair da tarde regressaram. As palmeiras os saudavam com trêmulos cabeceios.

Chegou o potro quebrantado, suarento, moído, surdo à fusta e à espora. Já sem tapá-lo, tiraram-lhe a sela, manearam-no a golpes, e ficou imóvel e só à beira do llano.

Gozosos abraçamos Correa.

—Que acham do meu «patojo»? —repetia Sebastiana, orgulhosa.

—A ele se deve tudo —apontou Franco—. Teve a ideia de oferecer-lhes a melhor festa de Casanare. Por acaso encerramos as éguas do hato e pegamos esse potro, que é meu e de vocês. Já viram o que aconteceu.

Ao vir a noite, aquele rei da pampa, humilhado e maltratado, despediu-se de seus domínios, sob a lua cheia, com um relincho desolado.

* * *

Confesso, arrependido, que naquela semana cometi um desatino. Dei em enamorar a menina Griselda, com êxito escandaloso.

Nos dias em que Alicia teve febres, prodiguei-lhe as mais delicadas atenções; mas agora, consultando minha consciência, compreendo que o regozijo de me entremeter com a patroa nos cuidados da enfermaria me importava tanto quanto a enferma.

A menina Griselda passou certa vez perto de meu chinchorro e, com mão insinuante, agarrei-a pelo quadril. Fechando o punho, fez menção de esbofetear-me, olhou para onde Alicia dormia e me sacudiu com uma cócega.

—Sem-vergonha, eu já sabia que eras «alebrestado».

Ao inclinar-se sobre meu peito, seus brincos, balançados para a frente, batiam-lhe nos pômulos.

—Estas são as esmeraldas que Barrera ambiciona?

—Sim, mas deixa-as pra ti.

—Como poderia tirá-las?

—Assim —disse, mordendo-me bruscamente a orelha. E, afogada em riso, deixou-me só. Depois, com o dedo na boca, regressou para suplicar-me:

—Que meu homem não vá saber! Nem tua mulher!

Contudo, a lealdade dominou-me o sangue, e com desdém fidalgo pus em fuga a tentação. Eu, que vinha de volta de todas as voluptuosidades, iria injuriar a honra de um amigo, seduzindo sua esposa, que para mim não era mais que uma fêmea, e uma fêmea vulgar? Mas no fundo de minha determinação corria uma ideia mentora: Alicia já me tratava não só com indiferença, mas com desdém mal dissimulado. Desde então comecei a apaixonar-me por ela e até me deu por idealizá-la.

Creio ter sido míope diante da distinção de minha companheira. Em verdade não é bonita, mas por onde passa os homens sorriem. Agradava-me, sobre todos os encantos, o de seu olhar triste, quase desdenhoso, porque a desgraça lhe contagiara ao espírito uma reserva dolorosa. Em seus lábios discretos, a voz se apaziguava com um quê de arrulho, com acentuação eloquente, ao mesmo tempo que seus grandes cílios se estendiam sobre os olhos de amêndoa escura, com um pestanejo confirmador. O sol dera a sua cútis um tom levemente moreno, e, embora fosse carnosa, parecia-me mais alta, e as pintas de suas faces mais pálidas.

Quando a conheci, deu-me a impressão da menina apaixonada e leviana. Depois levava o nimbo de sua pesadumbre digna e sombriamente, pela certeza da futura maternidade. Um dia provoquei a suprema revelação, e quase com ira respondeu:

—Não te dá pudor?

Trajada de babados claros, era mais fresca com o decote simples e com o penteado negligente, em cujos cachos parecia adejar a fita de seda azul, atada em forma de borboleta. Quando se sentava a costurar, eu me estendia no chinchorro fronteiro, aparentando não reparar nela, mas olhando-a às escondidas; e enchia-me de impaciência a frieza de seu trato, a tal ponto que repetidas vezes a interroguei colérico:

—Mas não estou falando contigo?

Ávido de conhecer a causa de seu retraimento, cheguei a pensar que estivesse enciumada, e tentei fazer leve alusão à menina Griselda, com quem se mantinha em contato constante e costumava chorar.

—Que te diz de mim a patroa?

—Que és inferior a Barrera.

—Como! Em que sentido?

—Não sei.

Essa revelação salvou definitivamente a honra de Franco, porque desde aquele momento a menina Griselda me pareceu detestável.

—Inferior porque não a persigo?

—Não sei.

—E se eu a perseguisse?

—Que responda teu coração.

—Alicia, viste alguma coisa?

—Que ingênuo és! Todas se apaixonam por ti?

Provocou-me naquele instante, ferido em meu orgulho, a vontade de desnudar os braços e gritar-lhe uma e outra vez: Imbecil, pergunta quem me deu estas mordidas!

Don Rafo apareceu no umbral.

* * *

Vinha do hato, aonde fora naquela manhã oferecer os cavalos. Franco e a menina Griselda, que o acompanharam, regressariam pela tarde. Ele veio cedo, aproveitando a curiara, para consultar-me um negócio e requerer meu consentimento. O velho Zubieta dava fiado mil ou mais touros, a baixo preço, com a condição de que os apanhássemos, mas exigia garantias, e Franco arriscava sua fundação para esse fim. Era a oportunidade de nos associarmos: o ganho seria vultoso.

Gozoso, disse a don Rafo:

—Farei o que os senhores quiserem! —E acrescentei, estreitando Alicia em meus braços—: Esse dinheiro será para ti!

—Eu darei meus cavalos como aporte e voarei a Arauca para exigir a quitação de algumas dívidas. Poderei reunir até mil pesos, e com essa soma se farão, em parte, os gastos de «saca». Além disso, empenhada a fundação, o velho fechará o negócio com Franco, de cujos serviços sempre necessita, e mais agora que a criação está paralisada pela desordem dos vaqueiros.

—Ainda tenho trinta libras no bolso. Aqui estão, aqui estão! Só deixarei algo para certos gastos de Alicia e para pagar nossa permanência nesta casa.

—Muito bem! Marcharei dentro de três dias, e aqui me terão em meados do mês que vem, antes das grandes chuvas, porque o inverno já se aproxima. No fim de junho chegaremos a Villavicencio com o gado. Depois, a Bogotá! A Bogotá!

Quando Alicia e don Rafael saíram ao pátio, minha fantasia abriu as asas.

Vi-me de novo entre meus condiscípulos, contando-lhes minhas aventuras de Casanare, exagerando-lhes minha riqueza repentina, vendo-os felicitar-me, entre surpresos e invejosos. Eu os convidaria a comer em minha casa, porque então já teria uma própria, com jardim perto de meu gabinete de estudo. Ali os congregaria para ler-lhes meus últimos versos. Com frequência Alicia nos deixaria a sós, urgida pelo choro do pequenino, chamado Rafael, em memória de nosso companheiro de viagem.

Minha família, realizando um antigo projeto, radicar-se-ia em Bogotá; e embora a severidade de meus pais os induzisse a rejeitar-me, eu lhes mandaria a ama com o pequeno nos dias de festa. A princípio se negariam a recebê-lo, mas depois minhas irmãs, curiosas, alçando-o nos braços, exclamariam: «É o retrato perfeito de Arturo!». E minha mãe, banhada em pranto, mimá-lo-ia gozosa, chamando meu pai para que o conhecesse; mas o ancião, inexorável, retirar-se-ia aos seus aposentos, trêmulo de emoção.

Pouco a pouco, meus bons êxitos literários iriam conquistando o indulto. Segundo minha mãe, devia-se ter pena de mim. Depois de meu grau na Faculdade, tudo se esquece. Até minhas amigas, intrigadas por minha conduta, dissimulariam meu passado com esta frase: Essas coisas de Arturo...!

—Venha cá, sonhador —exclamou don Rafo— saborear o último conhaque de meus alforjes. Brindemos os três pela fortuna e pelo amor.

—Ilusos! Devíamos ter brindado pela dor e pela morte!

* * *

O pensamento da riqueza converteu-se naqueles dias em minha obsessão dominante, e chegou a me sugestionar com tal poder que eu já me cria ricaço fastuoso, vindo aos llanos para dar impulso à atividade financeira. Até no sotaque de Alicia eu encontrava a despreocupação de quem conta com o futuro, sustentado pela abundância do presente. Verdade que ela continuava enclausurada em seu mistério, mas eu me regalava com esta certeza: são extravagâncias de mulher rica.

Quando Fidel me avisou que o contrato se aperfeiçoara, não tive a menor surpresa. Pareceu-me que o administrador de meus bens me rendia um informe sobre o modo acertado como cumprira minha vontade.

—Franco, isto sairá a pedir de boca! E se o negócio falhar, tenho muito com que responder!

Então Fidel, pela primeira vez, averiguou o objeto de minha viagem às pampas. Lucidamente, diante da possibilidade de que minha companheira houvesse cometido alguma indiscrição, respondi.

—O senhor não falou com don Rafael? —e acrescentei, depois da negativa:

—Caprichos, caprichos! Deu-me vontade de conhecer Arauca, descer o Orinoco e sair à Europa. Mas Alicia está tão maltratada que não sei que fazer! Além disso, o negócio não me desagrada. Faremos algo.

—Pena me dá que esta «pechugona» de Griselda queira transformar a senhora em modista.

—Despreocupe-se. Alicia encontra distração em praticar o que lhe ensinaram no colégio. Em casa divide o tempo entre a pintura, o piano, os bordados, as rendas...

—Tire-me uma dúvida: os cavalos de don Rafo foram dados pelo senhor?

—Já sabe quanto o estimo! Roubaram-me o melhor, selado, e toda a bagagem!

—Sim, don Rafo me contou... Mas restam alguns bons.

—Regulares; os de nossas montarias.

—O velho Zubieta há de gostar deles. Que casualidade esta do negócio, com um homem tão desconfiado! Provavelmente nos fez a oferta prevendo que Barrera «se atravessasse». Nunca vendera semelhante safra. Respondia aos compradores: se já não tenho o que vender! Só me restam quatro bichinhos! E para estimulá-lo à venda, devia-se depositar-lhe, com pretexto de que as guardasse, as libras destinadas ao trato, na certeza de que o ouro ficaria ali. Uma vez teve essa tática um «saquero» de Sogamoso, homem corrido e negociante avisado, que, para ganhar a vontade do avô, ficou bêbado com ele vários dias. Mas quando foram separar a boiada, Zubieta estendeu seu bayetón fora dos currais e esvaziou a mochila do cliente, advertindo-lhe: «A cada tourinho que sair, bote-me aqui uma morrocotazinha, porque eu não entendo de números». Esgotado o depósito, insinuou o «reinoso»: «Faltou-me dinheiro! Fie-me os animaizinhos restantes!». Zubieta sorriu: «Camarada, a vosmecê não falta dinheiro; é que a mim sobra gado!».

E recolhendo o bayetón regressou irredutível.

Satisfeito de minha fortuna, eu escutava a anedota.

—Franco —disse-lhe, batendo-lhe no ombro—. Não se surpreenda com nada! O velho sabe o que faz. Terá ouvido meu nome...!

* * *

—Catavento, catavento, como estás mudado!

—Olá, menina Griselda, que é esse tuteio?

—Tás empolgado pelo negócio? Pra morrocotas, o Vichada. Leva-me. Quero ir contigo!

Atirou-se a abraçar-me, mas afastei-a com o cotovelo. Ela vacilou, surpreendida.

—Já sei, já sei! Tu tens «terronera» do meu marido!

—Tenho aversão à senhora!

—Desagradecido! A menina Alicia não sabe nada. Só me encarregou de não acreditar em ti.

—Que está dizendo? Que está dizendo?

—Que o llanero é o sincero; que ao serrano, nem a mão.

Pálido de cólera, entrei na sala.

—Alicia, não me agrada tua companhia com a menina Griselda! Pode contagiar-te sua vulgaridade! Não convém que sigas dormindo em seu quarto!

—Queres que eu a deixe sozinha contigo? Não respeitarás nem o dono da casa?

—Escandalosa! Voltam já teus ciúmes ridículos?

Deixei-a chorando e fui ao caney. A velha Tiana punha remendos na camisa do mulato, que, seminu, com as mãos sob a cabeça, esperava a obra deitado num couro.

—Branco, refresque-se nesse chinchorro. Tá fazendo um calor de água!

Em vão pretendia conciliar o sono. Importuna-me o cacarejar de uma galinha que ciscava no jirau, enquanto suas companheiras, de bicos abertos, arquejavam à sombra, indiferentes ao galanteio do galo que vinha arrastar-lhes a asa.

—Essas condenadas não deixam nem dormir!

—Mulata —disse-lhe—, qual é tua terra?

—Esta onde me acho.

—És colombiana de nascimento?

—Sou unicamente llanera, do lado de Manaure. Dizem que sou craveña, mas não sou do Cravo; que sou pauteña, mas não sou do Pauto. Eu sou de todas estas planícies! Pra que mais pátria, se são tão belas e tão dilatadas! Bem diz o ditado: Onde está teu Deus? Onde te sair o sol!

—E quem é teu pai? —perguntei a Antonio.

—Minha mãe saberá.

—Filho, o importante é que tenhas nascido!

Com sorriso dolente, indaguei:

—Mulato, vais ao Vichada?

—Fiquei cativo uns dias, mas o homem soube e me «empajó». E como dizem que são montes e mais montes, onde não se pode andar a cavalo, pra quê isso! Comigo acontece o que com o gado: só quero os pajonales e a liberdade.

—Os montes para os índios —acrescentou a velha.

—Os «pelaos» também gostam da savana: que o diga o estrago que fazem. Em que aperto não se vê a gente pra laçar um touro! Precisa achá-lo bem remontado e que o potro empurre. E eles os pegam a pé, em carreira limpa, e os jarretam um atrás do outro, que dá gosto! Até quarenta reses por dia, e comem uma; as demais ficam pros «zamuros» e pros «caricaris». E com os cristãos também são atrevidos: ao defunto Jaspe saíram do matagal, quase debaixo do cavalo, pegaram-no em disparada e o «embainharam»! E de nada valeu gritar-lhes. Por azar, andávamos desarmados, e eles eram como vinte e lançavam flecha pra todos os lados!

A velha, apertando o lenço que trazia nas têmporas, interveio desta forma:

—Era porque o Jaspe os perseguia com os vaqueiros e com a cachorrada. Onde matava um, acendia fogo e fazia como se o comesse assado, pra que o vissem os fugitivos ou os vigias que atalaiavam sobre os moriches.

—Mamãe, foi que os índios mataram a família dele, e como por aqui não há autoridade, tem-se que se desenredar sozinho. Já veem o que aconteceu no Hatico: machetearam todos os racionais, e ainda fumegam os tições. Branco, temos que nos ajuntar em bando pra lhes dar uma busca!

—Não, não! Caçá-los como feras? Isso é desumano!

—Pois o que o senhor não fizer contra eles, eles farão contra o senhor.

—Não contradigas, zambo briguento! O branco é mais lido que tu. Pergunta-lhe antes se masca tabaco e dá-lhe uma mascada.

—Não, obrigado, velhinha. Isso não é comigo.

—Aí tão remendados teus «trapos» —disse ao mulato, atirando-lhe a camisa—. Ora rompe-os no monte! Já trouxeste a «vengavenga»? Faz quanto tempo que te pediram?

—Se me der café, trago.

—E que é isso de vengavenga?

—Encomendas da patroa. É a casquinha de uma árvore que serve pra enamorar!

* * *

Minha sensibilidade nervosa passou por grandes crises em que a razão tenta divorciar-se do cérebro. Apesar de minha exuberância física, meu mal de pensar, que tem sido crônico, logra debilitar-me continuamente, pois nem durante o sono fico livre da visão imaginativa. Frequentemente as impressões alcançam o máximo de potência em minha excitabilidade, mas uma impressão costuma degenerar na contrária poucos minutos depois de recebê-la. Assim, com a música, percorro a gama do entusiasmo para descer depois às mais refinadas melancolias; da cólera passo à mansidão transigente, da prudência aos arrebatamentos da insensatez. No fundo de meu ânimo acontece o que nas baías: as marés sobem e descem intermitentemente.

Meu organismo repudia os excitantes alcoólicos, embora saibam levar o marasmo às penas. As poucas vezes que me embriaguei, fi-lo por ociosidade ou curiosidade: para matar o tédio ou para conhecer a sensação tirânica que bestializa os bebedores.

No dia em que don Rafo se separou de nós, senti vago pesar, augúrio de males próximos, certeza de ausência eterna. Eu participava, ao vê-lo ir, do entusiasmo da empresa, cujo programa começava a cumprir-se com as gestões a ele encomendadas. Mas, à maneira da bruma que ascende aos cimos, sentia subir em meu espírito o bafo da angústia, umedecendo-me os olhos. E bebi com afinco as taças que precederam a despedida.

Assim, por um momento, reconquistei a animação volúvel; mas minha mente continuava se deprimindo com o eco tenaz dos soluços de Alicia, quando disse a don Rafael, num abraço desesperado:

—Desde hoje ficarei no deserto!

Eu entendi que esse deserto tinha algo a ver com meu coração.

Recordo que Fidel e Correa deviam acompanhar o viajante até o próprio Tame, com receio de que os sequazes de Barrera o assaltassem. Ali contratariam vaqueiros remontados para nossa apanha, e não podiam tardar mais que uma semana em voltar a La Maporita.

«Em suas mãos fica minha casa», dissera Franco, e aceitei a comissão com desgosto. Por que não me levavam às fainas? Imaginariam que eu era menos homem que eles? Talvez me levassem vantagem em destreza, mas nunca em audácia e fogosidade.

Nesse dia cobrei-lhes repentino ressentimento e, louco de álcool, estive a ponto de gritar: Quem cuida de duas mulheres com ambas se deita!

Quando partiram, entrei na alcova para consolar Alicia. Estava de bruços sobre seu catre, oculto o rosto nos braços, arquejante e chorosa. Inclinei-me para acariciá-la, e ela mal fez um movimento para alongar o vestido sobre as panturrilhas. Depois me repeliu com brusquidão.

—Sai! Só me faltava ver-te bêbado!

Então, em sua presença, dei um abraço na patroa.

—Não é verdade que tu sim me queres? Que só tomei duas tacinhas?

—E se as bebesses com cascas de quinina, não te dariam febres.

—Sim, amor meu! O que tu quiseres! O que tu quiseres!

Indubitavelmente, foi então que ela saiu com a garrafa para a cozinha e pôs-lhe «vengavenga». Mas eu, aos pés de Alicia, fiquei profundamente adormecido.

E naquela tarde não bebi mais.

* * *

Despertei com a alma ensombrecida pela tristeza, arisco e nervoso. Miguel chegara do hato num potro «coscojero» de falsa rédea, e mantinha conversa no caney com Sebastiana.

—Venho levar meu galo e ver se Antonio me empresta seu tiple.

—Aqui quem manda agora é o branco. Pede-lhe permissão pra pegar teu frango. O requinto não posso emprestar não estando seu dono.

O homem, desmontando, aproximou-se de mim timidamente:

—Esse galinho é meu e quero pô-lo em corda pras rinhas que vêm. Se me deixa levá-lo, espero escurecer pra pegá-lo no poleiro.

O recém-chegado me pareceu suspeito.

—Don Barrera não mandou nenhum recado?

—Pro senhor, não.

—Para quem?

—Pra ninguém.

—Quem te vendeu essa sela? —disse, reconhecendo a minha, a mesma que me roubaram em Villavicencio.

—O senhor Barrera comprou de um guate que veio do interior faz duas semanas. Disse que a vendia porque uma cobra lhe tinha matado o cavalo.

—E como se chama quem a vendeu?

—Eu não vi. Só escutei a história.

—E costumas usar a sela de Barrera? —rugi, agarrando-o pelo pescoço— Se não me confessares onde ele está, onde ficou escondido, trituro-te a pauladas! Mas, se fores leal à minha pergunta, darei a ti o galo, o tiple e duas libras.

—Solte-me, pra que não desconfiem que lhe confesso.

Levei-o para o curralzinho, e me disse:

—Ficou agachado na outra margem do monte, porque não viu o sinal combinado, isto é, o bayetón estendido no tranquero pelo lado vermelho. Por isso me mandou com a encomenda de que, se não houvesse perigo, desselasse o rango e o esperasse. Ele virá com a noite, e eu, como aviso, devo tocar tiple, mas não pude falar com a mulher.

—Não lhe digas nada!

E o obriguei a desselar.

Já havia escurecido, e só no limite da pampa o crepúsculo diluía sua pegada sangrenta. A velha Tiana saiu da cozinha levando aceso o candeeiro de querosene. As outras mulheres rezavam o rosário com murmúrio lúgubre. Deixei o homem em espera e fui ao quartinho de Antonio buscar o requinto. Às escuras, desprendi-o da percha e tirei a espingarda de dois canos.

Acabada a reza, apresentei-me de mãos vazias diante da menina Griselda:

—Um homem a espera no pátio.

—Ah! Miguelito! Veio buscar o tiple?

—Sim. É bom emprestá-lo. Leve-lho a senhora. Está naquele canto.

Quando saiu, pretendi, em vão, descobrir nos olhos de Alicia alguma cumplicidade. Estava fatigada, queria recolher-se cedo.

—Não lhe apetece ver a saída da lua? —propôs Sebastiana.

—Não —disse—. Chamá-la-ei quando for tempo.

E com disfarce peguei a garrafa sob a ruana. Serenamente, sem que meu rosto denunciasse o propósito trágico, adverti a menina Griselda mal regressou:

—Sebastiana pode ficar aqui na sala. Eu pendurarei meu chinchorro no corredor do caney. Preciso de ar fresco.

—Isso sim é bem pensado. Com estes calores não se pode dormir —observou a mulata.

—Se quiseres —propôs-lhe a patroa— deixa a porta de par em par.

Ao ouvir isto senti maligna satisfação. Dei as boas-noites acentuando estas frases:

—Miguel me ofereceu cantar um «corrido». Não tardarei a deitar-me.

Pouco depois apagaram a luz.

* * *

Meu primeiro cuidado foi ver se os cães estavam no pátio. Chamei-os em voz baixa, andei por toda parte com extraordinária cautela. Nada! Felizmente teriam seguido os viajantes.

Cheguei ao caney, orientado pelo tabaco que o homem fumava.

—Miguelito, queres um trago?

Devolveu-me a garrafa, cuspindo:

—Que amargo tá esse rum.

—Dize-me: com quem Barrera tem encontro?

—Não sei bem com qual é.

—Com ambas?

—Assim será.

O coração começou a golpear-me o peito como um tambor. Em minha garganta afogava-se, seca, a voz.

—Barrera é um cavalheiro generoso?

La vorágine

Sinopse

Clássico colombiano e latino-americano, La vorágine acompanha Arturo Cova na travessia dos llanos e da selva, expondo a violência da exploração do caucho e a força devoradora da natureza. Tradução Literunico a partir de fonte de domínio público.

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