Universo da obra
Universo da obra
Beatrice Villane tinha trinta e dois anos quando sentiu o gosto de sangue entrar pela língua sem encontrar ferida no caminho. Estava há quatro horas diante da escrivaninha do quarto, com a camisola colada às costas e três xícaras vazias ocupando o espaço dos livros. Passou o dedo pelos dentes, apalpou a parte interna das bochechas e examinou a ponta da língua no espelho pequeno preso ao armário. A pele permanecia inteira. O gosto de ferro aumentava.
Voltou para a cadeira. A folha esperava sob a lâmpada amarela, presa ao caderno por uma espiral torta. Na cena incompleta, um homem permanecia acorrentado sob uma igreja abandonada. Uma mulher fora chamada para escrever sobre ele. O vínculo entre os dois ainda carecia de motivo, e Beatrice já tinha riscado quatro tentativas de explicação. Sempre que começava a justificar a prisão, a história perdia a força e se tornava uma disputa cansativa entre culpa, destino e profecia. A última frase terminava na palavra “sangue”.
A tinta sobre essa palavra ainda brilhava. Beatrice encostou o indicador na letra final e recolheu a mão. O papel estava quente. Uma gota escura cresceu entre as fibras, arredondou-se e avançou até a margem. Ela levantou o caderno para verificar se o café tinha derramado por baixo. A madeira estava seca. A gota continuou a se mover.
Beatrice empurrou a cadeira para trás. O joelho bateu na gaveta, e a dor devolveu contornos simples ao quarto: a cama desfeita, os livros empilhados no chão, a janela fechada, uma toalha pendurada na porta do armário. O apartamento inteiro cabia em poucos ruídos. O motor antigo da geladeira vibrava na cozinha. Um carro passou na rua molhada. No andar de cima, alguém arrastou um móvel. Na folha, abaixo da frase interrompida, surgiu uma palavra.
Continue.
Ela aproximou o rosto. A letra inclinava para a direita e fechava os “e” com pressão excessiva. Era a letra dela. Beatrice segurou a caneta, embora ainda pensasse em levantar, acender todas as luzes e ligar para alguém. A lista de pessoas que atenderiam àquela hora era curta. A lista das que acreditariam nela desaparecia antes do primeiro nome.
— Muito conveniente — disse.
O sangue na margem se alargou. Dentro da mancha apareceu o primeiro degrau de uma escada. Outros vieram abaixo, úmidos, estreitos, consumidos no centro por muitos passos. A imagem ganhava profundidade enquanto a borda vermelha ocupava o papel. No fim da escada havia um salão de pedra e uma lâmina de água sobre o piso.
Beatrice conhecia aquele lugar. Tinha escrito duas páginas sobre ele naquela tarde e apagado quase tudo. Reconheceu as colunas partidas, as argolas de ferro e a parede marcada por fuligem. Reconheceu também a ideia de um corpo preso fora do alcance da luz. A imagem sobre a folha trazia detalhes que nunca tinham chegado à caneta.
Ela escreveu abaixo da ordem:
“Quem está aí?”
A resposta surgiu devagar.
Você me chamou antes de conhecer meu nome.
— Isso é uma resposta de quem ensaiou durante séculos para impressionar a primeira visita.
Uma corrente se moveu dentro da mancha. O metal raspou na pedra, e o som atravessou o papel. Beatrice largou a caneta. A mancha mostrava agora um homem sentado junto à parede, com os braços abertos pelas correntes e a cabeça baixa. Os cabelos negros cobriam parte do rosto. Havia sinais queimados no peito, linhas curvas interrompidas por cicatrizes recentes. A água alcançava seus tornozelos. Ele levantou a cabeça.
— Você está me vendo?
A voz saiu da página e tocou o quarto inteiro. Beatrice olhou para a porta. A madeira continuava trancada. O som do motor da geladeira cessou, deixando um silêncio espesso entre ela e o caderno.
— Eu fiz uma pergunta primeiro.
O homem ergueu um pouco o queixo. Seus olhos tinham uma tonalidade escura, atravessada por um brilho de cobre perto das pupilas. Dois chifres curtos nasciam acima das têmporas, polidos junto à base e lascados nas pontas. A pele do rosto carregava fuligem. Uma linha de sangue descia do pulso até o cotovelo.
Beatrice percebeu que registrava cada detalhe. O medo tinha aberto espaço para o hábito mais antigo que possuía: observar antes de escrever.
— Azael — respondeu ele.
Ela repetiu o nome em silêncio. O sangue na margem pulsou. Azael contraiu os dedos, e um dos elos presos ao pulso direito rangeu. Beatrice escreveu apenas a inicial. A ponta da caneta rasgou o papel. Azael fechou os olhos e puxou o ar. A corrente vibrou outra vez. Ela cobriu a letra com a mão.
— O seu nome faz isso?
— A sua mão faz.
— Minha mão escreve muitas coisas que nunca obedeceram.
— Elas obedeceram. Você só não estava dentro delas para sentir.
Beatrice encarou a própria caligrafia. Havia guardado durante anos páginas recusadas, capítulos abandonados e cartas que ninguém recebera. A possibilidade de cada frase produzir alguma coisa fora dela trouxe uma vertigem mais funda que o medo do homem preso. Pegou a caneta novamente.
“Azael abriu a mão direita.”
Dentro da mancha, os dedos dele se abriram. O elo junto ao pulso afrouxou, escorregou pela pele e caiu na água. O impacto lançou gotas contra a pedra. Azael manteve os olhos fechados. O alívio atravessou seu rosto e deixou atrás de si uma exaustão antiga. Beatrice apoiou a caneta na mesa.
— Você sente tudo o que eu escrevo?
— Quando acerta.
— E quando eu erro?
— Principalmente.
Ela olhou para a frase. Uma oração curta tinha alterado o ferro, a pele e o corpo de alguém. O efeito dispensava metáfora. A caneta se tornara uma ferramenta de força, e a responsabilidade pesava mais que o objeto.
— Se eu escrever que todas as correntes se abrem?
— Descobriremos o que você entende por “todas”.
— E se eu escrever que você ganha corpo neste quarto?
Azael abriu os olhos.
— Descobriremos o que sobra de você quando eu chegar.
Beatrice se afastou da mesa. Dessa vez a cadeira deslizou sem bater em nada. Levou a mão até o canto do caderno e parou antes de fechá-lo. Azael não a ameaçara. A possibilidade de dar matéria àquele corpo ganhava peso enquanto ela observava o homem preso, o espaço escuro atrás dele e a água movida por uma corrente subterrânea.
— Você sabe quem eu sou?
— Sei o nome que escreve no alto das páginas e o nome que risca quando pensa em desistir.
— Isso não responde.
— Beatrice Villane. Trinta e dois anos. Três romances interrompidos. Um conto publicado numa revista que fechou antes de pagar. Sete meses desde a última vez que alguém dormiu nessa cama.
Ela ficou de pé. A camisola tocou seus joelhos quando se virou para a porta do quarto, tomada pela sensação de que o espaço tinha sido aberto e examinado por dentro.
— Chega.
— Você perguntou.
— Chega por hoje.
Azael baixou os olhos para a corrente solta junto à mão.
— Então feche a página.
Beatrice continuou imóvel. O tom dele não trazia pedido. Também não trazia desafio. Ele aceitava o limite com uma facilidade que a obrigava a encarar a vontade de permanecer. Sentou-se mais uma vez.
“Azael levantou.”
Ele obedeceu. As correntes presas ao outro pulso e à cintura puxaram seu corpo para trás. O ferro entrou na pele. Beatrice viu os músculos do abdome se contraírem e as costelas se abrirem sob as marcas queimadas. A água correu pelas pernas dele. Um fio vermelho alcançou o chão e se dissolveu ao redor dos pés.
Ela riscou a frase. Azael caiu de joelhos. O impacto atingiu Beatrice no centro do peito. Ela levou a mão ao esterno e encontrou o coração acelerado.
— Eu apaguei.
— Eu sei.
— Por que você caiu?
— Porque a frase deixou de me sustentar.
A explicação reorganizou tudo o que havia acontecido. Escrever criava uma ordem. Riscar retirava o apoio, sem devolver o corpo ao estado anterior. Azael permanecia ajoelhado, com o ombro deslocado pelo puxão da corrente e sangue novo no pulso. Beatrice reescreveu:
“Azael sentou-se junto à parede. As correntes permitiram o movimento.”
O corpo dele se acomodou. O ombro voltou devagar ao lugar. Azael soltou o ar entre os dentes.
— Melhor?
— Mais preciso.
Ela fechou a caneta.
— Amanhã eu decido o que faço com você.
— Amanhã você decide o que consegue admitir.
Beatrice virou a folha e colocou sobre ela o livro pesado de capa azul. A mancha desapareceu sob o peso. O quarto recuperou o tamanho conhecido, e o motor da geladeira voltou a vibrar na cozinha.
Ela lavou as mãos. A água da torneira saiu limpa. Escovou os dentes duas vezes e continuou sentindo ferro no fundo da língua. Antes de deitar, pegou uma folha avulsa e escreveu:
“Verificar se o papel volta a manchar. Não escrever o nome dele antes de decidir o que é verdade. Não riscar uma frase enquanto ela sustenta um corpo.”
Dobrou a anotação e colocou-a sob o travesseiro. Deixou a luz da escrivaninha acesa. Quando fechou os olhos, ouviu água correndo sob o piso.
Romance dark fantasy hot de Nádia Borges, protagonizado por Beatrice Villane, uma escritora que passa a sonhar com uma entidade faminta presa entre a parede do próprio quarto e a página que ela ainda não terminou.
Cadastro inicial criado para desenvolvimento editorial no Aurora. A obra permanece como rascunho privado até revisão de capa, capítulos e ficha de publicação.
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